Sergio estava morto. Havia batido as botas. Definitivamente. Inapelavelmente. Indubitavelmente. Poupo o leitor dos pormenores relativos a sua morte, porque não nos cabe aqui fazer um relato cheio de detalhes sangrentos e dolorosos como fraturas expostas e vasos rompidos. Que fique claro, apenas, que Sergio morreu atropelado por um Mini Cooper, o que empresta um certo glamour ao seu modus mortem. A imagem repentina e frisada daquele carro de corpo azul e capota xadrês em preto em branco foi o último frame de sua vida, pelo menos enquanto ainda se valia do oxigênio. Sim, porque ao que consta, Sergio está em algum lugar incerto e não sabido, sentindo-se bem e tem até um corpo, que, aliás, se parece muito com o dele de carne e osso. E está inteiro. agora, como ele veio parar naquela sala esverdeada, pacífica e perfumada, não fazia a menor ideia. Foi como se o impacto com o carro o tivesse jogado diretamente para onde está nesse momento. Ele olha a sala e nota que em uma das paredes há uma tela de tv plana de tamanho considerável. Em oposição a esta parede, ele nota um sofá convidativo. Duas mesas de apoio com luminárias sem fio que despejam uma luz no ambiente que parece um abraço terno e amável. Na tela há um logotipo que gira sem parar sobre seu próprio eixo. Nunca o viu na vida, mas se for a marca daquele equipamento ele quer qual é, pois nunca viu imagem tão incrível quando estava vivo. Sergio sentou-se no sofá, experimentou várias posições. Subitamente, passou a ouvir vozes que vinham do lado de fora da sala onde estava. Não compreendia o que falavam, mas pareciam ser dois homens muito animados. As vozes se aproximavam e tudo indicava que iriam entrar. Foi aí que percebeu algo um tanto insólito: a sala não tinha nenhuma porta. Sentiu uma pontada de angústia que lembrava sua claustrofobia lá no outro mundo. Foi quando duas figuras simplesmente aparecem atravessando a parede lateral. Eram os dois que estavam conversando do lado fora, disso não havia dúvida. Entraram aos risos. Não, às gargalhadas. Os dois olharam para Sergio com a gargalhada já se esvaindo aos poucos. Ao notar os olhos arregalados do pobre novato, que está sem palavras depois do que acaba de ver, a gargalhada retoma a sua força.
- Que lugar é esse? – Perguntou Sergio, com certa irritação. – Onde estou?
- Por enquanto vamos dizer onde você não está. Na Terra.
- Quer dizer, parte de você ainda está lá. Debaixo da terra, mas essa, com t minúsculo.
Gargalhadas.
- Sergio, não é? – Pergunta um deles, ainda entre espasmos de riso.
- Esse costumava ser meu nome.
- Bom – disse o outro – vamos continuar com esse, por enquanto.
- Meu nome é Carlos e o dele é Inácio.
- E vocês são?
- Os caras que filmaram a sua vida.
- O que? – Espanta-se. – Como assim, filmaram minha vida?
- A gente acompanha a sua vida desde que nasceu, filmamos tudo, cada segundo – responde Inácio. - Eu sou o câmera e o Carlos aqui é o engenheiro de som.
- Vocês estão me dizendo que…
- Sim, estamos. Você nunca, jamais, em tempo algum, ficou sozinho seja lá onde você pensou que estivesse sozinho - reponde Inácio.
- Nem no banho - completa Carlos.
Os dois caem na gargalhada novamente. Inácio, adivinhando a próxima pergunta, adianta a resposta.
- É o procedimento da holding, Sergio. Antes de você vir tirar férias, a gente é obrigado a passar o filme da sua vida para você. Pra você ver onde da pra melhorar quando voltar das férias.
- Como assim eu nunca fiquei sozinho?
Mais gargalhadas.
- Senta aí cara, que a seção vai começar.
- Quer pipoca?
Mais gargalhadas. Um balde de pipocas aparece do nada nas mãos de Carlos. Os dois sentam no confortável sofá, um de cada lado de Sergio. Inácio, que apesar de não estar mais gargalhando, tinha um sorriso engessado num rosto que mostrava uma expressão de constante alegria, pega o controle remoto que estava numa das mesas de apoio. Em seguida, aponta para a tela e uma lista aparece, com direito a trilha sonora cheia de pompa e circunstância. Aliás, uma bela trilha.
- Que música é essa? – Pergunta Sérgio.
- A trilha sonora da sua vida – responde Carlos.
- Composta por Mozart, cara – completa Inácio cutucando Sérgio com o cotovelo. – Que deferência, hein? Tu ta com moral, o Sergio.
- E o que é essa lista aí na tela?
- O menu da sua vida por assuntos. Escolhe aí por onde você quer começar.
Sergio olha indeciso para uma lista de itens de sua vida. Está em ordem alfabética e não cronológica. Há itens mais genéricos como infância e outros mais específicos, como hora do banho. Sérgio não sabe por onde começar. Fica em dúvida. De repente. Percebe que o item punheta ganha um brilho repentido e a tela começa a mudar.
- Estava demorando muito – fala Inácio com o controle ainda apontado para a tv – Vamos logo no melhor.
Aparece uma lista infindável de datas. De repente, Inácio escolhe uma, mas não aleatoriamente.
- A minha preferida.
- Por que? – Pergunta Sérgio, contrariado.
- O primeiro dia que você ficou sozinho em casa depois que descobriu as revistas suecas do seu pai.
Gargalhadas outra vez.
- Foram 14 punhetas num dia.
- Dos que a gente filmou, você foi o record.
- Michael Phelps da punheta.
Gargalhadas. O vídeo começa com a câmera focando Carlos, na sa;a do apartamento em que Sergio morava com os pais. Ouve-se a voz de Inácio ao fundo.
“ Teste de foco.”
Carlos, as gargalhadas responde,
“Deixa de bobagem que essa câmera é automática. Vira para a área de interesse.”
A câmera faz um movimento brusco e acha um Sérgio adolescente, cabelos compridos em mullets e rosto exibindo mais espinhas do que os pelos de barba que tentava, inutilmente, fazer crescer. As revistas espalhadas pela cama e ele no meio, como um rei, deliciando-se com seu prazer solitário, que agora concluía que de solitário não tinha nada. Enquanto isso, o Sergio atual mergulha no sofá, numa tentativa vã de sumir dentro dele. Ele enche a mão de pipoca e empurra tudo para dentro da boca. Aquela ia ser uma tortura interminável. Mas a trilha, pelo menos, era de Mozart.
CONTANDO UMAS
sábado, 16 de março de 2013
domingo, 10 de março de 2013
Os Imbecis
Os dois começaram uma discussão acalorada depois da terceira cerveja. Eram torcedores rivais.
- Nós temos muito mais vitórias em clássicos.
- Mas nós temos mais vitórias em clássicos oficiais.
- É, mas nós ganhamos mais campeonatos regionais.
- Dois a mais e nós, mais nacionais.
- Mas vocês não têm um mundial.
- Claro que temos, tá maluco?
- Fifa?
- É mundial igual.
- Não tem selo Fifa, não é.
- Só que nós temos mais jogadores repatriados da Europa.
- É? Mas os que nós trouxemos de lá já ganharam pelo menos uma Champions League, diferentes dos meia boca que vocês trouxeram.
- Tá, mas os craques em final de carreira que vocês trouxeram não usam uma camiseta patrocinada pela Nike.
- Grandes merdas! Nós vendemos mais camisetas do que vocês no ano passado.
- Porém, nenhuma banda de rock usou a camiseta de vocês em show algum, diferente da nossa.
- Ah, falando em show, o nosso estádio teve mais shows que o de vocês.
- Mas agora isso vai mudar, já que estamos com um estádio, quer dizer, uma Arena multiuso, novinha em folha.
- Mas o nosso vai ficar novo também, uma Arena multiuso para a Copa do Mundo. Vou repetir: os jogos da Copa em nossa cidade vão ser na nossa Arena e em mais nenhuma outra.
- Mas só a nossa Arena dá o privilégio de ver as duas maiores top models do Brasil desfilando no meio a torcida, já que elas declararam o seu amor pelo nosso time.
- Sim, mas a Miss Brasil torce pra gente.
- Miss Brasil? Ainda não rolou o concurso.
- Barbada, não tem pra ninguém, a mulher é um fenômeno.
- Mas a coitada, pra ver jogo naquele chiqueiro de vocês, vai ter que passar protetor solar fator 80, já que descobriram um buraco monstro na camada de ozônio bem em cima dele.
- Coisa de cientista que torce para o teu time. O que eu sei é que a rota dos satélites de comunicação do planeta passa bem em cima do nosso estádio. Por isso celular deve pegar melhor na nossa Arena do que aquela porcaria mal acabada de vocês.
Ficaram se olhando em silêncio depois daquela última comparação. Talvez um tanto surpresos por concluir, intimamente, que a imbecilidade deles havia chegado, literalmente, a estratosfera.
- Nós temos muito mais vitórias em clássicos.
- Mas nós temos mais vitórias em clássicos oficiais.
- É, mas nós ganhamos mais campeonatos regionais.
- Dois a mais e nós, mais nacionais.
- Mas vocês não têm um mundial.
- Claro que temos, tá maluco?
- Fifa?
- É mundial igual.
- Não tem selo Fifa, não é.
- Só que nós temos mais jogadores repatriados da Europa.
- É? Mas os que nós trouxemos de lá já ganharam pelo menos uma Champions League, diferentes dos meia boca que vocês trouxeram.
- Tá, mas os craques em final de carreira que vocês trouxeram não usam uma camiseta patrocinada pela Nike.
- Grandes merdas! Nós vendemos mais camisetas do que vocês no ano passado.
- Porém, nenhuma banda de rock usou a camiseta de vocês em show algum, diferente da nossa.
- Ah, falando em show, o nosso estádio teve mais shows que o de vocês.
- Mas agora isso vai mudar, já que estamos com um estádio, quer dizer, uma Arena multiuso, novinha em folha.
- Mas o nosso vai ficar novo também, uma Arena multiuso para a Copa do Mundo. Vou repetir: os jogos da Copa em nossa cidade vão ser na nossa Arena e em mais nenhuma outra.
- Mas só a nossa Arena dá o privilégio de ver as duas maiores top models do Brasil desfilando no meio a torcida, já que elas declararam o seu amor pelo nosso time.
- Sim, mas a Miss Brasil torce pra gente.
- Miss Brasil? Ainda não rolou o concurso.
- Barbada, não tem pra ninguém, a mulher é um fenômeno.
- Mas a coitada, pra ver jogo naquele chiqueiro de vocês, vai ter que passar protetor solar fator 80, já que descobriram um buraco monstro na camada de ozônio bem em cima dele.
- Coisa de cientista que torce para o teu time. O que eu sei é que a rota dos satélites de comunicação do planeta passa bem em cima do nosso estádio. Por isso celular deve pegar melhor na nossa Arena do que aquela porcaria mal acabada de vocês.
Ficaram se olhando em silêncio depois daquela última comparação. Talvez um tanto surpresos por concluir, intimamente, que a imbecilidade deles havia chegado, literalmente, a estratosfera.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Primeiros Passos
O sol de outono invade a sala como bastões de luz, denunciando microscópicos pontos de pó em movimento. A luz é mais aconchegante nesta época do ano, a que realmente merece ser chamada de dourada. O silêncio que toma conta da casa após o almoço é tão imenso, que é possível ouvir o zunido das moscas batendo no vidro da janela que dá para um jardim na sala inteira. São cinco delas tentando alcançar aquele incomensurável mundo natural do lado de fora, mas sendo impedidas por uma barreira invisível, o que está muito além da sua compreensão invertebrada.
Sentado no chão, em frente à janela, está o pequeno Lucas. Um menino de 5 anos de idade, cabelos muito loiros, muito finos, cortados de um jeito que faz lembrar um capacete de ouro. Ele olha fixamente para aquelas moscas se debatendo contra a janela. Ele não consegue explicar em palavras o que sente naquele momento. Um frio na barriga, causa direta da excitação quase incontrolável com as possibilidades que se apresentam a sua frente. Para quem visse o menino ali sentado, era impossível perceber a corrente de emoções que, tal qual um rio caudaloso e revolto, atravessava o interior daquele corpo impassível.
Já havia 10 dias que aquele mesmo ritual pós almoço se repetia. O garoto sentava-se em frente à janela e observava as moscas zunindo e batendo como loucas no vidro. A excitação que sentia vinha do fato não articulado em sua mente, ainda em formação, de que residia nele o poder de escolher qual delas ia sofrer as mais inomináveis torturas. O fato delas, tão preocupadas em alcançar o jardim lá fora, estarem alheias a presença de Lucas a espreita, como um deus ou demônio, deixavam as coisas ainda mais deliciosas.
A escolha, esse momento de prazer irresistível, alongava-se por muitos minutos, as vezes alcançando mais de uma hora. Naquele dia, a escolha demorou ainda mais. Após a decisão tomada, Lucas levantou-se e, com destreza e rapidez incomuns, colheu a sua vítima usando apenas uma das mãos. Levou-a até o seu quarto, onde a fez sofrer as piores privações, começando por prendê-la num copo até que ela ficasse sem oxigênio. Quando o inseto estava a um passo da asfixia, ele então deixava entrar um pouco de ar, levantando um dos lados do copo, até a mosca se recuperar. E então ele repetia a operação. Um vai e vem agonizante para o pobre inseto, mas excitante para Lucas. Dentre tantas outras privações, ele prendeu suas asas com alfinetes, arrancou-lhe uma das seis patas, jogou uma quantidade mínima de inseticida para apenas tonteá-la. O inseto durou cinco horas e 37 minutos em sofrimento constante até morrer. Lucas anotou o tempo em um caderno que mantinha escondido exatamente para este fim. Era o recorde. Parecia saciado e depois disso, como toda criança normal, foi jogar bola no jardim.
No dia seguinte, Lucas voltava da escola sentindo-se estranho. Era como se pensar naquele momento após o almoço em frente a janela que dava para o jardim não fizesse mais sentido. Parecia pouco para ele. Foi quando passou por um terreno baldio muito perto de sua casa onde viu um grupo de cães vira lata perambulando sem destino, procurando o que comer. Aquele vai e vem frenético dos cães lembrava o das moscas na janela, só que eles eram obviamente maiores e apresentavam um novo desafio: ossos. Ele abriu um sorriso. Toda a maldade do seu pequeno mundo cabia naquele sorriso. O pequeno Lucas estava pronto para o próximo passo.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Cindy Shoes (# pós felizes para sempre)
Não bastasse isso, Cinderela, principalmente ela, tinha o tal empreendedorismo supracitado como um talento natural. E foi este dom natural que levou o casal a uma nova era pós-reinado. Aproveitando-se de sua conhecida história de amor, onde um sapatinho de cristal teve participação definitiva no desenlace feliz, Cinderela, que agora prefere ser chamada de Cindy por questões de numerologia e porque também é “suuuuper fashion”, está lançando a sua coleção de sapatos da linha que leva o seu próprio nome em um grande evento internacional: a inauguração da primeira loja mundial da Cindy Shoes em Rodeo Drive, Los Angeles.
O evento é um dos mais concorridos do ano, com presença intensa da mídia e de celebridades que vão de figuras estelares do cinema, esportistas famosos, socialites e alguns alpinistas, que não estão categorizados como esportistas neste caso porque alpinismo social, evidentemente, não se trata de um esporte propriamente dito.
É possível ouvir uma babel de repórteres falando para as câmeras, o estalar desordenado dos clics dos fotógrafos como insetos esfomeados no meio de uma plantação de milho. “Podemos ver J.Lo com todo seu charme latino com várias sacolas Cindy Shoes a tiracolo. Cinco pares que em breve serão o sonho de consumo mundo a fora!”, diz uma repórter com cabelos loiros de verdade e seios fartos. Não tão verdadeiros quanto a cor dos cabelos.
“Agora estamos vendo uma cena impressionante. O encontro das realezas.” Diz uma outra repórter enquanto a câmera foca mostra o que ela descreve. “A eterna princesa Cindy em uma conversa a-ni-ma-dís-si-ma com a Duquesa de Cambrige e mulher do príncipe Philip, Kate. Um choque de nobreza, de beleza e de glamour. Caros colegas, morram de inveja de mim!”, esnoba a repórter com um sorriso maldoso.
Em outro canto, a estrela Sarah Jessica Parker concede entrevista a um repórter afro-americano (ai de mim que use outro termo em meio de gente tão correta) e afetadíssimo (ai de mim se use outro termo...bem, já entenderam)..
• - Sarah, como sabemos, ninguém entende mais de sapatos neste planeta do que você. Aliás, eu diria que no sistema solar não há ser vivo que possa ser comparada a você neste quesito. Estamos vendo aqui pelo 10 sacolas da gran premier Cindy Shoes penduradas nos seus ombros, isso mostra o seu “thumbs up” para a nova marca?
• - A gente não podia esperar outra coisa de uma pessoa como Cindy. O sapato é parte da sua história de sucesso, de quem veio de baixo. Uma história que encantou o mundo...
• - O mundo e o príncipe, não é mesmo?
Completa o repórter que da uma gargalhada calculada da própria piada, jogando a cabeça para trás, porém, mantendo o microfone próximo a boca de Sarah, que também ri, mais por educação, e continua a sua explicação para sabe-se lá quantas milhões de pessoas que assistem o evento no mundo inteiro.
• - Evidente, que príncipe poderia resistir a uma mulher tão encantadora e com a força, o charme e a beleza dela. Os modelos são todos desenhados por ela e são lindos. Ja vejo nove em cada dez estrelas pisando no tapete vermelho do Oscar com um deles nos pés.
• - Nós ainda não tivemos oportunidade de ver a decoração, que ficou a cargo do próprio Masayasu Suzuki, gerente do prestigiado escritório da Garde aqui em Los Angeles. Cindy proibiu os convidados de adiantar qualquer detalhe para não estragar o impacto que a decoração vai causar na imprensa.
• - Isso mesmo! Estou terminantemente proibida de falar antes de vocês entrarem, mas uma coisa eu posso dizer. Os sapatos de cristal que ela usou naquele baile são destaque no conjunto do design interior. É impressionante.
• - Ai, Sarah, sua víbora. Só você para nos revelar algo la de dentro e em vez de saciar nossa curiosidade, nos deixa ainda mais ansiosos.
Ele repete aquela gargalhada controlada com os dentes muito brancos a amostra e jogando novamente a cabeça para trás.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, a fada madrinha assiste a tudo sentada em um sofá, perto da lareira, com expressão acabrunhada. Está triste assim por não levar crédito algum pela confecção do sapato de cristal e também pela sua própria participação na história de sucesso da sobrinha famosa. Foi completamente esquecida, posta de lado. Será? Eis que o telefone da casa toca inesperadamente. Ela não recebe telefonemas em casa e tem o aparelho quase como um enfeite sala. Mas naquele dia ele tocou. Cismada, ela atendeu.
- Alô?
- Alô? Aqui Walter Brown, advogado e sócio da Gibson Dunn & Crutcher, LA? Falo com a Fada Madrinha?
- Sim.
- Eu suponho que a senhora esteja testemunhando o sucesso de sua, digamos, sobrinha e se perguntando, como nós mesmos estamos fazendo, porque a senhora, depois de tudo o que fez, foi totalmente esquecida?
- Na verdade, estou, sim.
- Infelizmente, essa é a natureza humana, minha senhora. E digo mais, eu posso até apostar que alguns daqueles modelos de calçados vendidos foram criados pela senhora.
- Todos eles – a voz dela sai acompanhada de um suspiro desanimado. - Eu fiz muitos esboços até chegar naquele par de cristal. Muitos mesmo. Centenas. Eu dei para ela os esboços como um presente de casamento.
- Bem, parece que apareceram em couro, borracha e madeira nobre na loja de sua sobrinha. E isso, como a senhora sabe, é roubo de propriedade intelectual, passível de processo.
- Será? – Espanta-se. - Não sei. Não acho que isso precise ser levado adiante. A menina sofreu tantas privações sob os cuidados daquela megera e das primas. Isso fica guardado na alma, sabe? Quem garante que ela não vai dar o merecido crédito quando essa excitação toda passar?
- A senhora acredita nisso?
- Não.
- Olha, nós entendemos que a senhora esteja relutante, afinal, tem o espírito cordato como convém a toda Fada Madrinha. Tudo o que pedimos é uma visita a sua casa para expormos como seria o processo, a metodologia, os passos. Afinal, a senhora merece justiça.
- Está bem – resigna-se. - Vocês gostam de chá? Faço um ótimo de abóbora.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Um leitor na rodoviáia.
Entrou naquela rodoviária e sentiu um mundo que ao mesmo tempo lhe era estanho e também não era. É assim que nos sentimos quando encontramos algo que nos era corriqueiro há anos atrás, mas que, por força do progresso econômico, deixamos pra trás. Mas naquele dia, ele decidiu deixar o “conforto adquirido” e entrar em contato com o passado. Acostumara-se a fazer daquela viagem apenas um traslado, um pulo que transformava 500 quilômetros em 40 minutos num avião, tempo ínfimo para os seus padrões de trânsito caótico do dia a dia. Comprou a passagem para dali a uma hora e quinze minutos. Sacola com algumas roupas e outra com o computador e livros para ler a viagem penduradas uma em cada ombro, para o fardo não pender nem para o direita nem para a esquerda. O ambiente é frenético, de gente de deslocando pra lá e pra cá, como elétrons desnorteados num espaço quântico a procurar seus pares. Ele fica meio zonzo, tentando achar um lugar onde se sinta situado no mundo. Vislumbra uma fileira de cadeiras de metal, e uma especial parece lhe chamar. Esta isolada, entre duas outras também vazias. “É ali”, pensa, e vai resoluto atravessando aquela corrente desordenada de gente, torcendo para que ninguém ocupe aquele precioso espaço. Sucesso. Ele senta e tenta organizar os pertences. Celular no bolso da camisa. A bolsa das roupas embaixo da cadeira metálica. A bolsa com o computador e os livros no colo. Um filete de suor escorre pela testa. Ele passa as costa da mão direita e interrompe o seu curso descendente antes de chegou ao olho direito. Sente-se atraído por dois olhos arregalados que parecem estar a sua esquerda. Vira-se e encontra um garoto, deitado em duas cadeiras a fitá-lo com curiosidade e, como é típico dos pequenos, sem nenhuma vergonha. Ele dá um sorriso. Sem efeito. O garoto, uns 4 anos, continua a encará-lo com uma expressão vazia. Ele volta-se para frente e começa a olhar o entorno. Subitamente, tem sua atenção voltada para as placas luminosas sobre as bilheterias das diversas empresas de ônibus. Ali, além do nome das empresas, aparecem também os destinos. Ele começa a ler com curiosidade o nome das tantas localidades para onde as rodovias levam aquele mar de gente que se desloca ali dentro. Araguaina, Piritiba, Irecê, Icó, Iguatu, Eunápolis, Itamaraju, Caetité, Ponte Nova, Piraúba, Guarani, Manhumirim, Iuna, Medina, Rio Pomba, Anagé, Guanambi, Santo Estevão, Capela, Lajinha, Padre Paraíso, Parambu. Fosse ele um Cortázar, um Gabriel Garcia Marques ou um Jorge Luis Borges e ali estariam cenários perfeitos para uma história brilhante de realismo fantástico. Mas ele não era um autor genial. Era apenas um leitor ávido.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
A mulher de luto
As pessoas na pequena capela se dividiam em dois grupos: fixas e itinerantes. O primeiro estava lá áa muito e só sairia após o sepultamento. O segundo era formado por gente que permanecia entre dez minutos e pouco mais de uma hora e era composto por amigos e alguns parentes mais distantes. O motivo da reunião era o Dr. João Carlos, ocupando um caixão marrom escuro no centro da capela, cercado por quatro lâmpadas que simulavam velas. Via-se duas fileiras de cadeiras de madeira encostadas nas paredes laterais. Os familiares e amigos mais chegados se revezavam na ocupação destas cadeiras. Só a viúva, dona Vicentina, tinha lugar cativo. Todos os presentes, fixos e itinerantes, passaram pela frente dela apresentando gestos de reverência acompanhados de expressões comuns nesta hora triste como “meus pêsames” ou “meus sentimentos”.
Dentro da capela ouvia-se um murmúrio constante, muito baixo, como se todos receassem acordar o morto. Mas, à medida que nos afastássemos em direção ao exterior da capela, o volume das conversas ia aumentando. Ouvia-se de tudo. De discussões acaloradas sobre o sistema tático de um time de futebol funcionar melhor com dois ou apenas um volante até a situação da pobre personagem principal da novela das oito, que desenvolvera um câncer, o que fez com que a atriz que a representava raspasse a cabeça para dar maior dramaticidade ao papel. Em outro bolinho era possível ouvir as teorias econômicas que poderiam salvar o país do marasmo. Dentre as tais medidas, um tiro na cabeça do ocupante da pasta da economia foi aventada com anuência de boa parte dos participantes. Em outra pequena reunião era possível ouvir dicas dos melhores lugares a visitar em Londres “uma cidade encantadora a despeito da sua horrenda culinária”. O pobre Dr. João Carlos pouco ou em nada era lembrado. É que os velórios têm este incrível poder de reunir gente que não se vê há muito, o que torna falar do falecido uma total perda de tempo, até porque isso é missão do padre e seria cumprida com maestria e emoção no momento do derradeiro adeus.
Só que uma pessoa acabaria por mudar o preceito acima descrito. Uma mulher cujo corpo era de uma beleza estonteante. Ela apareceu subitamente, como que por encanto, e se dirigiu em passos firmes, um andar quase de modelo em passarel em direçao ao caixão do falecido. Vestia um conjundo de saia e blazer que delineava as formas do corpo. Segurava uma rosa vermelha na mão direita. Uma enorme e chamativa rosa vermelha. Passou pelos grupinhos formados na frente da capela, altiva, cabelo preso embaixo do chapéu de abas estreitas, deixando um lindo pescoço à mostra. Homens e mulheres viravam a cabeça acompanhando a sua passagem. Embora ninguém abrisse a boca, era possível ouvir a pergunta pairando no ar: quem é esta mulher? Ela entrou na capela e se deteve por alguns instantes ao lado do caixão onde o Dr. João Carlos descansava com uma expressão serena. Todos os olhares voltavam-se para ela. Pensava-se de tudo. “Podia ser neta dele”, “Velho deslavado sem vergonha”. “Onde é que o vovô arranjava tempo, meu Deus”. “Viagra, só pode ser o Viagra”. “Será que ela precisa de alguém para abrandar a tristeza?”. Num gesto pungente, depositou a rosa sobre o peito do Dr. João Carlos para depois ficar imóvel, por mais algum tempo, encarando o falecido com uma expressão triste. Uma lágrima escorreu-lhe pela face e acabou caindo na testa do ocupante do caixão. Ela pegou um lenço de dentro de sua bolsa e enxugou aquela testa marmórea, gélida. Dona Vicentina olhava atônita para aquela cena. Ninguém ousou chegar perto daquela mulher. Ela então se recompôs do choro, virou-se em direção da saída e, com o mesmo passo resoluto, dirigiu-se para fora, passando por entre os grupinhos, cujos integrantes agora reviravam a cabeça para o lado inverso num efeito dominó provocado pelo seu gracioso movimento.
Assim que ela sumiu da vista, o burburinho recomeçou, transformando-se rapidamente em uma verdadeira parafernália de vozes. Não havia mais assuntos diferentes como a pouco. O tema era único: a mulher de luto. Finalmente, todos no velório falavam - mal ou bem - do morto. Dona Vicentina quase desmaiou, sendo acudida pela irmã que a abanava com uma revista, pedindo freneticamente para alguém trazer um copo de água. Os dois filhos precipitaram-se ao mesmo tempo cada um com um copo de água nas mãos e por pouco não se chocaram. A outra irmã de dona Valentina parou ao lado do caixão e, no meio daquela confusão, tirou a rosa do peito do falecido, dizendo poucas e boas para ele em voz baixa. Jogou a prova da traição na lata do lixo. Até frequentadores dos velórios vizinhos vieram saber do morto que tivera a traição revelada na cerimônia de despedida.
Quanto à mulher, entrou no seu carro, pegou o jornal e consultou a página de obituários. Marcou com um x o anúncio de velório e enterro do Dr. João Carlos. Ao lado deste, havia outro anúncio: Anastácio Almeida. Querido avô, dedicado pai, amado marido. Estava sendo velado naquele exato momento em outro cemitério. Foi então que percebeu um florista vendendo rosas lindas, vermelhas, ainda mais bonitas do que aquela com a qual tinha entrado no velório do Dr. João Carlos. Saiu do carro, foi até o florista e escolheu a mais vistosa. Duvidava encontrar uma rosa como aquela no cemitério onde estava sendo velado o tal Anastácio Almeida.
Oportuniade 2
O redator ligou para o diretor de arte ainda a caminho
da agência de publicidade onde trabalhava. Estava excitado e nem percebeu a
multa que lhe foi aplicada por estar falando ao celular e dirigindo ao mesmo
tempo. E se tivesse percebido, tanto faria. Ele estava inebriado, de um jeito
que só quem tem idéias que acha grandiosas pode ficar. Era um “insight genial”,
segundo suas palavras. Genial era, aliás, a sua palavra predileta. Usava-a
muito mais urante um dia do que sabonete para lavar as mãos. Do lado de lá do
telefone, o diretor de arte tentava falar mas o ele não deixava. Sua boca era
uma mangueira descontrolada a jorrar palavras. Ele tivera uma idéia para um
anúncio que seria “o mais tocante e relevante da história da propaganda”. Mas tudo
devia ser muito bem feito, o layout devia ajudar a potencializar a
“dramaticidade da peça.” Mandou a idéia com texto ja esboçado, pelo e-mail do
celular, para que o colega já pudesse ir pensando em como tasnformar a idéia em
peça palpável e memorável. Este estava empolgadíssimo com o que acabara de
ouvir. Iria se jogar com afinco ao projeto. Ia ser realmente genial. Uma obra
da propaganfa impressa que poderia catapultar aquelas duas jovens de promessas
a grandes nomes. Com direito a sobrenome.
O anúncio era uma reflexão sobre os valores deturpados
disceminados pelo país, usando a morte de uma grande dama da dramaturgia, que
por suas ações, que iam além das novelas e do teatro, tinha um significado
muito maior do que a própria carreirra. Tratava-se de uma dama. Uma diva. Uma
heroína nacional. O anúncio era econômico nas palavras, mas com a imagem que se
imaginava para complementar aquelas poucas palavras, tornaria-se a mensagem arrasadora
e pungente. Só havia uma pequena questão. Uma pedra no sapato. Um percalço a ser superado. A grande dama, motivo
do anúncio póstumo, ainda não havia morrido.
Não fazia a menor diferença no momento. O importante era
acabar a peça. Quando o redator entrou na agência, o diretor de arte já tinha
um esboço na tela do computador. “Não estou feliz com essa foto”, pondera o
diretor de arte, com a concordância do redator. A peça está ali, mas falta a
foto que vai transformar aquele bom anúncio em algo arrebatador. Os dois se
jogaram numa louca pesquisa e, finalmente, o diretor de arte acabou lembrando
de uma foto em que a atriz está em cena numa representação de A Megera Domada.
Aquela foto, em preto e branco, era a o encaixe perfeito. A expressão no rosto,
a nuância dos tons de cinza e a força do próprio personagem eram as palavras não escritas que
completavam o todo com uma força incomparável. Uma hora depois, o anúncio
estava inteiro na tela do computdor. Era mesmo arrasador, implacável e ao mesmo
tempo suave. Aquela era uma peça que iria para o Hall da Fama da publicidade.
Eles estavam convencidos disso. Mas, mais uma vez, tinha aquele pequeno, mas
decisivo porém. A grande dama estava viva e gozava de boa saúde. E sem a sua
providencial morte, o anúncio permaneceria encarcerado em um arquivo de
computador. Estaria privado de ser compartilhado com o mundo.
Passavam-se os dias, as semanas, os meses. O redator e o
diretor de arte passaram a sofrer imensamente com a situação. Abriam, vez por
outra, na tela, o anúncio fatídico. Comtemplavam-no e, tristonhos, o guardavam
novamente naquele mesmo arquivo no computador. A grande dama continuava viva e
cada vez mais saudável. Atuava em uma peça de estrodoso sucesso. Aquele anúncio
levaria anos para conhecer as páginas de uma revista. Disso não tinham dúvidas.
A carreria dos dois não poderia esperar por tanto tempo. Era isso que pensava o
redator, que, diferente do diretor de arte, estava obsecado com a idéia de
fazer o anúncio ser visto.
Um dia, completamente cego por essa obsessão, o redator
volta para casa decidido. Ja em seu apartamento, passou a procurar um gorro de
lã, que deixava apenas os olhos a mostra, que ele tinha certeza que ainda
tinha. Acabou encontrando-o. Vestiu e colocou um óculos escuro. Estava
irreconhecível. Abriu o seu armário e tateou a parte superior até encontrar uma
caixa. O conteúdo da caixa era uma herança do seu pai: uma pistola prateada. Tirou
a pistola da caixa de madeira. Acariciou-a, limpou-a e, em dado momento, pode
ver seu reflexo meio difuso e disforme no cano canelado da arma.
Colocou tudo no bolso do seu sobretudo e dirigiu-se ao
teatro. Assistiu a peça interia e pode constatar o talento daquela mulher. Ele
precisava estar la e presenciar aquela apresentação especial. Ao final da peça
acompanhou a multidão e foi par a saída. Mas, ao invés de ir para casa,
permaneceu nos arredores do teatro. Foi, mais precisamente, para a saída que
ficava nos fundos do teatro, que era por onde os artistas deixavam a casa de
espetáculos. Vestiu o gorro, colocou os óculos e encostou-se em uma parede,
imiscuindo-se a sombra. Ao ver o movimento dos atores saindo pela porta, vislumbrou
a atriz, que mostrava um sorriso de satisfação por uma apresentação de gala.
Ela carregava buquês de rosas, Mais de um, presentes de admiradores de seu
trabalho e de seu carisma. O redator, com a mão direta no bolso do sobretudo,
acariciava a pistola, como se ela fosse o seu bichinho de estimação mais
querido. Aquele sorriso era por demais parecido com o da foto de arquivo do
anúncio que, em breve, estaria nas páginas da revista. Aquele pensamento o
encheu de coragem. Andou decidido em direção ao grupo de atores, sacou a arma e
atirou em direção a eles. Acertou os três. Deu um tiro na cabeça de cada um
para confirmar. “Mais uma cena lamentável da violência urbana”, pensou ele, não
com a sua própria voz, mas a voz de um dos apresentadores sensacionalistas dos
burlescos jornais de casos de polícia. Saiu caminhando resoluto, excitado, com
a adrenalina sendo injetada em seus vasos sanguíneos, disanciando-se dos três
corpos no chão. Ao dobrar a esquina da rua vazia e sumir da cena do crime,
ouviu gritos ao longe. Os corpos foram descobertos. Ele abriu um sorriso por
debaixo do gorro. O pequeno problema deixara de exisitir. O anúncio ia se
libertar, finalmente, do seu cárcere eletrônico.
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