Lá estava ele, encravado na Ellis Street, mas, mesmo de dia, chamava atenção com seu toldo verde e seus neons que falavam de um jeito orgulhoso “Ei, rapaz, sou eu, John’s Grill. Isso mesmo, o lugar onde Sam Spade costuma aparecer para saborear suas costeletas com batatas e rodelas de tomate, enquanto pensa em como resolver os intrincados casos para os quais é contratado. Aqui, mesmo, meu rapaz. Aqui é a casa do Falcão Maltês.” Entramos por uma porta de madeira e vidro e fomos dar em um mini hall de com outra porta, esta sim, nos colocava para dentro do restaurante.
A primeira visão que temos do lugar é um sorriso enorme, cercado por um rosto bochechudo, com olhos apertados, justamente por causa do sorriso enorme. O cabelo preto e encaracolado parece uma moldura rococó para aquele rosto. Do pescoço para baixo, um corpo proporcional ao rosto, enfiado num vestido preto, que termina nos dois joelhos e viram canelas muito breves porque logo entram pelos canos altos de um par de botas da mesma cor do vestido. A hostess nos leva para a mesa com passos leves e ágeis a despeito do seu peso avantajado. Enquanto a sigo, presto atenção no interior do restaurante. Em frente a porta pela qual entramos, atrás do púlpito onde estava a hostess, existe uma fileira com não mais do que três mesas. A fileira acaba em um bar, onde um barman mexicano nos recebe mostrando seus dentes muito brancos contrastando com o bigode negro, que parece um toldo sobre a sua boca. A parte mais extensa do bar não fica virada para a porta, mas para o salão com as demais mesas, duas fileiras delas, iluminadas pela luz que vem do janelão que dá pra a rua e que fica ao lado da porta de entrada. Essa é,aquela hora do dia, a fonte de iluminação do lugar.
Os olhos vão se acostumando a esta iluminação propositalmente deficiente e descobrem, aos poucos, detalhes como os quadros com fotos nas paredes, como os olos que testemunharam tudo o que a cidade de San Francisco andou passando desde que o John’s Grill existe. E por falar nisso, há um cheiro bem pronunciado de passado, como se bolsões de ar dos anos 40 ainda perambulassem pelo lugar, o que, não duvido, seja verdade.
Como são quase quatro horas da tarde, a frequência se resume a três homens no bar e apenas uma das mesas do restaurante ocupadas por uma família de turistas, como nós. A hostess, cujo nome era Geena, nos colocou em uma mesa perto da janela. Foi sentarmos a mesa para uma garçonete séria, de cabelos longos, lisos e loiros, corpo esguio, praticamente o inverso de Geena, vir nos atender. Ela tinha um nome surpreendentemente latino: Carmem. As meninas perguntaram a ela onde era o banheiro e a e ela, com uma objetividade tipica dos Estados Uinidos tanto na voz quanto nos gestos, respondeu a questão e la se foram elas, juntas demorar no toilete enquanto fiquei lendo o menu.
De repente, senti uma coceira nos olhos e então passei a massagear as pálpebras fechadas com o polegar e o indicador para aliviá-la. Ao acabar a massagem e abrir os olhos vi uma figura sentada a minha frente, ainda meio fora de foco. E quando etrou em foco, achei que estava fora de mim
- Humphrey Bogart?
- Ah, mais um que me chama por este nome! – Humphrey respondeu com aquela fala rápida e arrastada - Deixe-me esclarecer uma coisa: meu nome é Sam Spade, detetive particular. E, neste caso, eu sou o Sam Spade que está no seu inconsciente. No caso, o baixinho aqui. Você sabe que na verdade fui concebido como um cara alto, de cabelos castanhos bem claros. Mas Hollywood reduziu o meu tamanho em uns bons centímetros e, ainda por cima, colocaram-me estes cabelos negros.
- Bom, funcionou, de qualquer maneira.
Falei algo espantado por estar aceitando como normal o fato de conversar com um ator ícone que já morreu, mas que na verdade dizia ser um dos mais famosos detetives da literatura policial, criado por Dashiel Hammett e que costumava frequentar o restaurante em que eu estava, como já foi explicado no inicio.
- Eu posso perguntar...
- Por que eu estou aqui, bem a sua frente? - Interrompeu ele adivinhando o óbvio. – Você é um escritor que veio aqui pela atmosfera. Por tudo o que este lugar representa.
- Bom, escritor seria um certo exagero.
- Você escreve histórias. Você cria pessoas do mesmo jeito que eu fui criado. Você termina suas histórias. Você é um escritor,
- De onde você tirou essa ideia?
- O caderninho e o pequeno lápis que você tirou do bolso ao sentar me disseram isso, meu caro.
- Perspicaz.
- Qualidade essencial em um detetive.
- É.
- Bom e já que você veio aqui pelos motivos que já expus, achei justo que tivéssemos esta conversa.
- Estamos mesmo tendo esta conversa?
- Claro que estamos. E digo mais: ela é um dos pontos altos da sua viagem a San Francisco.
Ele pegou um cigarro me encarando com um leve sorriso no rosto. Um sorriso de quem vai revelar algo que eu devo saber.
- Responda uma coisa: de que você prefere ser chamado, de cínico ou de hipócrita?
- Cínico.
- E poderia me esclarecer por que?
- Os cínicos são de uma sinceridade insuportável. Costumam dizer a verdade por ironia. Hipócritas, são os bons moços de fachada. Nada de interessantes sai de um Hipócrita, pelo contrário, eles lutam com um afinco religioso para tornar o mundo tão medíocre quanto eles.
- Você diria que cínicos dão bons escritores e hipócritas dão bons críticos?
- Não existe algo como um bom crítico.
- Não mesmo. Alguém que esconde a própria covardia para julgar aquele que tem coragem de pelo menos tentar é um imbecil completo. Aqueles que criam parâmetros medíocres para definir o que é bom e o que não é destroem a energia criativa. Existem muito mais pessoas como eles do que pessoas como você.
- O que são pessoas como eu?
- Cínicos, que tem a coragem de sublinhar as verdade com mentiras que, de modo geral, todos sabem que são mentiras e aí mesmo está a beleza do cinismo.
- Não entendi.
- Dashiel me criou diferente dos outros detetives. Durão, egoísta, nada bom moço. Porque um detetive de verdade perambula no mundo onde o pior do ser humano se revela. Dashiel disse o que pensa através de mim. Isso é cinismo no seu mais alto grau.
- Então, todo escritor tem que ser cínico.
- Cínico e corajoso para se expor do jeito mais solitário do mundo. A sua única companhia, neste momento, somos nós. E nós gostariamos de continuar existindo. Eu estou aqui para pedir a você que nunca desista. Continue a ser cínico, que se exponha e que não tenha medo do que os hipócritas vão pensar das coisas que você faz.
- Eles que se danem?
- Quando você faz algo relevante três coisas acontecem: primeiro eles te ignoram. Depois, te ridicularizam.
Depois, te combatem e por último, você vence.
- Apreneu isso com o pior do ser humano?
- Não, lewndo Gandhi. Eu lido com a escória, mas tenho meus momentos.
Ao ver o meu sorriso ele respondeu com outro. Um sorriso amistoso. Pegou o chapéu que estava sobre a mesa e, antes de colocá-lo na cabeça, olhou-me nos olhos e arrematou.
- E aqui vai outro conselho: não peça as costeletas com batatas e tomates que eu pedia.
- E porque não devo pedir?
- O cozinheiro daqui já não é o mesmo da minha época. Este sempre passa do ponto ideal das costeletas e deixa as batatas um pouco cruas. Peça um spaguetti com almôndegas que você vai gostar mais.
Sam colocou chapéu na cabeça e foi embora. Passou pelas meninas que vinham do banheiro. Elas nem perceberam.
domingo, 31 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Crônicas de San Francisco 3 - Os Grisalhos do Castro
O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Bennett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase "thank you, I`m flattered, but I´m straight".
Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.
- Desculpe, mas de onde são vocês?
- Brasil – respondeu minha filha.
- Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco?
- É. E você, mora aqui no bairro?
- Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
- Guerra com você mesmo¿
- Isso
- Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.
- Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis, Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lsufocar aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão. Assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Quando a guerra acabou e eu voltei pra casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava no Vietnam, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, suas dúvidas, seus medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso?- aproximou o rosto dos nossos e passou a falar num tom ais baixo, como se tivesse medo de que as pessoas nas mesas pr[oximas fossem escutar. - Eu acho que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para mim isso foi o suficiente para que eu me tornasse quem sou de verdade. Casei novamente. E agora, moro aqui. Estou pela primeira vez no meu verdadeiro lugar.
Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes. E nós...bem, nós tivemos que chamar outro garom para pedir a conta.
Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.
- Desculpe, mas de onde são vocês?
- Brasil – respondeu minha filha.
- Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco?
- É. E você, mora aqui no bairro?
- Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
- Guerra com você mesmo¿
- Isso
- Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.
- Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis, Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lsufocar aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão. Assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Quando a guerra acabou e eu voltei pra casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava no Vietnam, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, suas dúvidas, seus medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso?- aproximou o rosto dos nossos e passou a falar num tom ais baixo, como se tivesse medo de que as pessoas nas mesas pr[oximas fossem escutar. - Eu acho que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para mim isso foi o suficiente para que eu me tornasse quem sou de verdade. Casei novamente. E agora, moro aqui. Estou pela primeira vez no meu verdadeiro lugar.
Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes. E nós...bem, nós tivemos que chamar outro garom para pedir a conta.
sábado, 9 de julho de 2011
Crônicas de San Francisco 2 - O Paraiso dos Esquizofrênicos
Não sei por quantos já passei, mas não conto menos de vinte diferentes desde quando cheguei, o que dá uma média de cinco por dia. Refiro-me aos moradores de rua que falam sozinhos. Temos dos mais variados tipos. Os que falam baixinho, com olhos arregalados, para o seu companheiro imaginário ao lado, como que contando um segredo terrível o qual, não descarto, seja uma conspiração alienígena que visa não destruir cidades com armas de incrível poder destrutivo, mas, quem sabe, escravizar os humanos para que eles venham a trabalhar para os futuros donos do campinho.
Tem os que reclamam com gestos largos, também para um companheiro imaginário ao lado, contra o aumento dos impostos que ele, ou ela, de qualquer maneira, já nem pagam mais, mas enfim, reclamar pode ser um vício igualzinho ao cigarro e uma crise de abstinência não é, de maneira alguma, algo que este pessoal esteja com vontade de encarar.
Há os teatrais, que falam em voz empostada, contando verdadeiras epopeias, talvez candidatos a atores e atrizes que tenham fracassado na sua busca pelo estrelato na Califórnia, mas obtido sucesso tremendo na quantidade consumida de drogas a ponto de fazer da rua o seu cenário e dos transeuntes o seu publico cativo.
E há os de filme, aqueles que parecem ter caído direto alguma das tantas guerras em que este país está metido, para as ruas de San Francisco. Parecem acuados, esperando que alguma bomba vinda sabe-se lá de onde vá explodir perto deles a qualquer momento.
Enfim, chama a atenção essa imensa quantidade de esquizofrênicos vagando por aqui. Fico tentando formular alguma teoria válida. Por exemplo, San Francisco foi a meca do movimento hippie com farto consumo de heroína, mescalina e tantas outras inas. Será que isso comprometeu o bom funcionamento cerebral das gerações vindouras? Ou a teoria da minha filha que diz que após o grande terremoto de1906 as pessoas que perderam suas casas e não puderam comprar novas criaram gerações de moradores de rua que foram enlouquecendo aos poucos. Outra boa teoria: todos os moradores de rua daqui são médiuns e, portanto, dialogam com os espíritos que vagem pela cidade. Agora, como este é um país riquíssimo, talvez todos eles tenham bluetooths de tamanho irrisório em suas orelhas e eu é que acho que estão todos falando sozinhos.
Tem os que reclamam com gestos largos, também para um companheiro imaginário ao lado, contra o aumento dos impostos que ele, ou ela, de qualquer maneira, já nem pagam mais, mas enfim, reclamar pode ser um vício igualzinho ao cigarro e uma crise de abstinência não é, de maneira alguma, algo que este pessoal esteja com vontade de encarar.
Há os teatrais, que falam em voz empostada, contando verdadeiras epopeias, talvez candidatos a atores e atrizes que tenham fracassado na sua busca pelo estrelato na Califórnia, mas obtido sucesso tremendo na quantidade consumida de drogas a ponto de fazer da rua o seu cenário e dos transeuntes o seu publico cativo.
E há os de filme, aqueles que parecem ter caído direto alguma das tantas guerras em que este país está metido, para as ruas de San Francisco. Parecem acuados, esperando que alguma bomba vinda sabe-se lá de onde vá explodir perto deles a qualquer momento.
Enfim, chama a atenção essa imensa quantidade de esquizofrênicos vagando por aqui. Fico tentando formular alguma teoria válida. Por exemplo, San Francisco foi a meca do movimento hippie com farto consumo de heroína, mescalina e tantas outras inas. Será que isso comprometeu o bom funcionamento cerebral das gerações vindouras? Ou a teoria da minha filha que diz que após o grande terremoto de1906 as pessoas que perderam suas casas e não puderam comprar novas criaram gerações de moradores de rua que foram enlouquecendo aos poucos. Outra boa teoria: todos os moradores de rua daqui são médiuns e, portanto, dialogam com os espíritos que vagem pela cidade. Agora, como este é um país riquíssimo, talvez todos eles tenham bluetooths de tamanho irrisório em suas orelhas e eu é que acho que estão todos falando sozinhos.
Crônicas de San Francisco - Turismo e descoberta.
Toda vez que chego a algum lugar penso que vou alugar um carro e conhecer um monte de coisas incríveis em pouquíssimo tempo. Algumas que a gente já sabe que existem de antemão, outras que são sugeridas por amigos seja porque você perguntou, seja porque eles estão realmente interessados em que você se divirta. Ocorre que, quando chego em alguma cidade, esteja ela onde estiver, não consigo simplesmente não andar usando o meio de transporte mais antigo que existe: as pernas direita e esquerda. Chegar direto ao ponto determinado, ou seja, fazer turismo, não tem a menor graça, pelo menos pra mim. Liberar doses cavalares de ácido láctico pode ser doloroso por um lado, mas nos oferece momentos únicos. E depois, as dores musculares somem, mas as descobertas ficam guardadas em um ponto da nossa memória que resume todas as sensações que passaram por nossos cinco sentidos.
Hoje, saímos do hotel decididos a pegar um daqueles bondinhos típicos da cidade de San Francisco e cair direto no fervo que é o Pier 39, num local chamado Fisherman’s Wharf, região de Embarcadero, onde fica o porto da cidade. Mas ao sairmos do hotel, sem prévia combinação, passamos a caminhar olhando absortos cada prédio, ouvindo cada barulho e passando por inúmeros homeless , muitos deles falando com algum companheiro imaginário (assunto de que me ocuparei em outra oportunidade). E quando nos demos conta, descobrimos um parque encravado entre a MIssion Street e a 4th street chamado Yerba Buena Garden.
Até aí, nada demais, a despeito do parque ser muito interessante. O que fez a diferença é que, neste exato momento, acontecia um show que, viemos a saber depois, fazia parte de um festival chamado Yerba Buena Gardens Festival. A ideia do festival é promover a convivência entre as pessoas em parques e espaços abertos da cidade. Havia uma incrível variedade de tons musicais, de cores e até de seres humanos espalhados pela grama com cheiro de recém cortada com seus pratos de comida, já que era hora de almoço. Nos misturamos a tudo, como residentes, ouvindo uma banda da melhor qualidade acariciando nossos ouvidos com o jazz mais bossa nova que eu já tinha ouvido.
Aquela era uma oportunidade única que a cidade, agradecida por não sairmos correndo feito obcecados para ver aquelas coisas que dela sempre querem ver, resolveu nos revelar como quem se abre para um amigo em quem confia. Caminhar é entrar em escaninhos, fiordes, desvios. Andar é falar a toda hora “olha, vamos ver o que tem ali?” e sempre tem alguma coisa. Andar é descobrir.
É claro que fomos ao Fischerman Wharf e é lógico que também foi muito divertido. Lojas e restaurantes coloridos, tudo tremendamente organizado para o consumo, o que também tem lá o seu apelo. Amanhã tem mais. Agora, por favor, deem licença mas vou fazer uns alongamentos. Minhas pernas vão precisar.
Hoje, saímos do hotel decididos a pegar um daqueles bondinhos típicos da cidade de San Francisco e cair direto no fervo que é o Pier 39, num local chamado Fisherman’s Wharf, região de Embarcadero, onde fica o porto da cidade. Mas ao sairmos do hotel, sem prévia combinação, passamos a caminhar olhando absortos cada prédio, ouvindo cada barulho e passando por inúmeros homeless , muitos deles falando com algum companheiro imaginário (assunto de que me ocuparei em outra oportunidade). E quando nos demos conta, descobrimos um parque encravado entre a MIssion Street e a 4th street chamado Yerba Buena Garden.
Até aí, nada demais, a despeito do parque ser muito interessante. O que fez a diferença é que, neste exato momento, acontecia um show que, viemos a saber depois, fazia parte de um festival chamado Yerba Buena Gardens Festival. A ideia do festival é promover a convivência entre as pessoas em parques e espaços abertos da cidade. Havia uma incrível variedade de tons musicais, de cores e até de seres humanos espalhados pela grama com cheiro de recém cortada com seus pratos de comida, já que era hora de almoço. Nos misturamos a tudo, como residentes, ouvindo uma banda da melhor qualidade acariciando nossos ouvidos com o jazz mais bossa nova que eu já tinha ouvido.
Aquela era uma oportunidade única que a cidade, agradecida por não sairmos correndo feito obcecados para ver aquelas coisas que dela sempre querem ver, resolveu nos revelar como quem se abre para um amigo em quem confia. Caminhar é entrar em escaninhos, fiordes, desvios. Andar é falar a toda hora “olha, vamos ver o que tem ali?” e sempre tem alguma coisa. Andar é descobrir.
É claro que fomos ao Fischerman Wharf e é lógico que também foi muito divertido. Lojas e restaurantes coloridos, tudo tremendamente organizado para o consumo, o que também tem lá o seu apelo. Amanhã tem mais. Agora, por favor, deem licença mas vou fazer uns alongamentos. Minhas pernas vão precisar.
domingo, 3 de julho de 2011
Espelho
Andavam os dois de carro pela cidade. Um dirigia, o outro só falava.
- E essa copa de 2014? Neguinho vai se locupretar atrasando obra de aeroporto, de estádio, tudo de propósito pra fazer as coisas a toque de caixa e superfaturar sem licitação…sai de trás desse cara,…passa pela direita mesmo. E o Paloccil? Enriquecer 20 vezes em 4 anos com uma empresa de consultoria de um homem só? Conta outra, pelo amor de Deus…O que? Claro que dá pra parar, faz filinha dupla ali que dá eu fico aqui no carro no caso de chegar o guarda….o que eu tava falando mesmo? Ah, esses politicos não têm jeito. E não é só politico, não. Você viu o presidente do supremo que levou a mulher com verba pública? Estamos pagando pra madame fazer compras em Nova Iorque. É o fim da picada…passa logo esse sinal vermelho que não tem ninguém atravessando mesmo, sinal inútil esse!…ah, e a votação do código ambiental? Mais uma palhaçada deste governo mancomunado com a bancada ruralista …o que? Ah, não vi o cinzeiro..também é só uma bitucazinha de nada, não faz nem cócegas em bueiro. E falando em bueiro, e o prefeito que agora se deu aumento? De 12 paus passou pra 20 e poucos paus. Eles não querem saber, o negócio é tirar vantagem, essa gentalha…ah, olha aqui essa nota de vinte. Tava com tinta vermelha, veio de assalto a caixa eletrônico, mas eu e uns amigos inventamos um jeito de lavar a tinta, que eu não vou até banco trocar que dá um trabalho do cão. Ta nova. E o Ricardo Teixeira que embolsou os tubos em propina? E continua mandando na CBF graças a bancada da bola la no Congresso, pouca vegonha. Aliás, falar em bola, ja arrajei as coisas pra liberar a carteira da tua filha, até semana que vem ela ta com tudo na mão. E ninguém se deu mal naquela história do dossier do Serra, hein? Isso aqui é mesmo uma terra de ninguém, vou te contar. Se é nos Estaduso Unidos ja tem uma dúzia atrás das grades…põe logo o carro na vada de idosos, não sei pra que tanta vaga pra eles. Duvido que tenha tanto velhinho assim dirigindo carro aqui dentro desse shopping…
- E essa copa de 2014? Neguinho vai se locupretar atrasando obra de aeroporto, de estádio, tudo de propósito pra fazer as coisas a toque de caixa e superfaturar sem licitação…sai de trás desse cara,…passa pela direita mesmo. E o Paloccil? Enriquecer 20 vezes em 4 anos com uma empresa de consultoria de um homem só? Conta outra, pelo amor de Deus…O que? Claro que dá pra parar, faz filinha dupla ali que dá eu fico aqui no carro no caso de chegar o guarda….o que eu tava falando mesmo? Ah, esses politicos não têm jeito. E não é só politico, não. Você viu o presidente do supremo que levou a mulher com verba pública? Estamos pagando pra madame fazer compras em Nova Iorque. É o fim da picada…passa logo esse sinal vermelho que não tem ninguém atravessando mesmo, sinal inútil esse!…ah, e a votação do código ambiental? Mais uma palhaçada deste governo mancomunado com a bancada ruralista …o que? Ah, não vi o cinzeiro..também é só uma bitucazinha de nada, não faz nem cócegas em bueiro. E falando em bueiro, e o prefeito que agora se deu aumento? De 12 paus passou pra 20 e poucos paus. Eles não querem saber, o negócio é tirar vantagem, essa gentalha…ah, olha aqui essa nota de vinte. Tava com tinta vermelha, veio de assalto a caixa eletrônico, mas eu e uns amigos inventamos um jeito de lavar a tinta, que eu não vou até banco trocar que dá um trabalho do cão. Ta nova. E o Ricardo Teixeira que embolsou os tubos em propina? E continua mandando na CBF graças a bancada da bola la no Congresso, pouca vegonha. Aliás, falar em bola, ja arrajei as coisas pra liberar a carteira da tua filha, até semana que vem ela ta com tudo na mão. E ninguém se deu mal naquela história do dossier do Serra, hein? Isso aqui é mesmo uma terra de ninguém, vou te contar. Se é nos Estaduso Unidos ja tem uma dúzia atrás das grades…põe logo o carro na vada de idosos, não sei pra que tanta vaga pra eles. Duvido que tenha tanto velhinho assim dirigindo carro aqui dentro desse shopping…
Fidelidade
- Crepitar?
- Essa é boa.Realmente muito boa.
- E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
- Deve ter. Deve ter, vamos ver…
- Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
- Pomposo.
- Quem? Eu?
- Não, pomposo é uma palavra fiel.
- Sob que critério.
- Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
- Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
- É tem razão. Mas tem que ter outra.
- Firula. Firula é concorrente séria.
- Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
- Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
- Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
- Certo, certo. Corretíssimo.
- Então tá, onomatopéia não vale.
- Combinado. Ah, olha essa: altivo.
- Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
- É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
- Perde feio.
- Goleada acachapante?
- Opa, acachapante é boa.
- Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
- É boa…é boa.
- Mas não como crepitar.
- Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
- E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
- Inglês não. É contra as regras.
- E que tal diáfana.
- Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
- Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
- Então, crepitar continua soberano.
- Bruxuleante.
- O que?
- A luz bruxuleante das velas.
- Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
- Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
- Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
- Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
- Será?
- Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
- Acho que temos um empate.
- Então, empatado está.
- Essa é boa.Realmente muito boa.
- E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
- Deve ter. Deve ter, vamos ver…
- Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
- Pomposo.
- Quem? Eu?
- Não, pomposo é uma palavra fiel.
- Sob que critério.
- Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
- Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
- É tem razão. Mas tem que ter outra.
- Firula. Firula é concorrente séria.
- Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
- Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
- Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
- Certo, certo. Corretíssimo.
- Então tá, onomatopéia não vale.
- Combinado. Ah, olha essa: altivo.
- Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
- É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
- Perde feio.
- Goleada acachapante?
- Opa, acachapante é boa.
- Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
- É boa…é boa.
- Mas não como crepitar.
- Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
- E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
- Inglês não. É contra as regras.
- E que tal diáfana.
- Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
- Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
- Então, crepitar continua soberano.
- Bruxuleante.
- O que?
- A luz bruxuleante das velas.
- Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
- Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
- Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
- Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
- Será?
- Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
- Acho que temos um empate.
- Então, empatado está.
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