O restaurante estava lotado. Gente esperando senhas por uma mesa. “Mesa para quantos, senhor?”, repete a exaustão para todo mundo que chega a simpática recepcionista conhecida agora pela pomposa e importada definição de “hostess”, o que não é de se admirar num bairro como os jardins, onde encontramos lojas e restaurantes com o nomes grafado em idiomas dos mais diversos, inclusive o português.
Roberto, Laura e o pequeno João Paulo haviam chegado ao local perto da uma hora da tarde. Era a primeira vez que almoçavam fora desde que João Paulo nascera. Assim que chegaram, Roberto é abordado pela hostess, seu salto alto, sua calça jeans justa, seus peitos empinados, tão artificiais quanto o seu sorrido.
- Bom dia! Mesa para quantos?
- Somos eu, minha esposa e o bebê.
- Mas que coisinha mais linda.
- Obrigado.
- Tem uma pequena espera, mas muitas mesas já estão pedindo a conta. Bebem alguma coisa enquanto esperam?
- Uma chopp pra mim.
- Eu gostaria de uma Coca – Laura olha para a barriga ainda inchada por causa da cesárea e arremata – light.
Ela estendeu uma pequena folha de papel com a marca do restaurante impressa e o número dezesseis escrito em caneta vermelha. Anotou os pedidos e armou novamente o seu sorriso e os deixou para trás. Aqueles clientes eram favas contadas e novas pessoas chegavam. Deviam ser abordadas assim que pusessem os pés nos limites do restaurante. Atenção imediata é a regra da casa. “Distribua um sorriso, a senha, diga que várias mesas estão para sair e adiante o pedido da bebida.” Pronto, a resistência a ficar esperando por uma mesa é em geral quebrada com esses simples procedimentos. Digamos que com um apreciável índice de sucesso que beira oitenta e nove por cento.
Depois de esperar por vinte minutos, mas ainda assim calmo e paciente pelo efeito de dois chopps, Roberto ouve o número dezesseis ser anunciado por um maitre que em seguida os conduz à mesa de número trinta e dois, que já os espera impecavelmente arrumada com toalhas alvas, pratos, copos e talheres tinindo de tão limpos. Eles sentaram e colocaram o carrinho com o pequeno João a vista dos dois. O garoto dormia a sono solto, agarrado a uma enorme chupeta vermelha, que parecia ser maior que o seu rosto.
- Bom dia, mais um chopp para o senhor e uma Coca Light para a senhora? – pergunta o garçom com voz amável.
- Não – responde Roberto – duas cocas, por favor.
- Limão e gelo?
- Isso.
O garçom vira as costas e sai em passos lépidos deixando para trás a entrada e o cardápio. Repararam que na mesa ao lado havia um casal na mesma situação. Também estavam acompanhados por um carrinho onde um bebê dormia a sono solto. O tal casal já estava desfrutando o prato principal. Roberto e Laura notaram algo estranho no casal. Eles tinham parado de comer e os encaravam com uma expressão clara de insatisfação. Estavam nitidamente incomodados. Assumindo que era pelo fato de estarem olhando para a garotinha dormindo no carrinho, eles simplesmente desviaram o olhar e se fixaram no cardápio.
Enquanto mordiscavam as cenouras da entrada e escolhiam o que iriam pedir, sua atenção foi chamada pela presença de uma pessoa em pé, ao lado da mesa. Roberto baixou o cardápio e viu o homem da mesa ao lado, com cara de poucos amigos.
- Tem gente que não sabe conviver em sociedade – dispara com fúria.
- Perdão?
- Não se faça de desentendido, meu amigo. O senhor e a sua esposa estão violando o sagrado direito de almoçarmos em paz e harmonia.
- Como? – Pergunta Roberto aturdido. – Nós estamos em um restaurante, escolhendo o nosso prato, não vejo como isso possa estar prejudicando alguém.
- A chupeta, meu senhor. Aquela enorme chupeta na boca do seu pobre filho.
- O que tem a chupeta dele?
- Ele está chupando essa chupeta ao lado da minha filha.
- E?
- O que eu estou tentando fazê-lo entender e parece que o senhor deliberadamente não quer, é que o seu filho está chupando uma chupeta perto da minha filha, o que a torna uma chupadora de chupeta passiva.
Roberto e Laura ficam em silêncio. Olham-se procurando um nos olhos dos outro uma resposta par aquilo. E como aquele homem em pé aumentara o volume da voz para explicar a razão do descontentamento, acabou chamando atenção das mesas a volta.
- Eu não sei o que falar.
- O senhor não tem que falar nada, apenas tirar a chupeta do seu filho.
- Mas e como é que a chupeta do meu filho vai poder prejudicar a sua filha?
- As crianças, meu amigo, agem por imitação. Quando a minha filha acordar e notar o seu filho chupando com tanto prazer esse instrumento que só serve para facilitar a vida de pais irresponsáveis e preguiçosos como o senhor e a sua esposa, obviamente vai querer fazer o mesmo.
- Irresponsável e preguiçoso não – levanta-se Roberto – quem está passando dos limites agora é o senhor.
O que chamava a atenção das mesas a volta começa a tomar conta do restaurante inteiro. Enquanto isso, Laura encarava a mãe da mesa ao lado que devolvia o olhar na mesma moeda. Se alguém passasse ne meio das duas provavelmente sofreria queimaduras em parte do corpo tal a energia dispendida naquele cara a cara. O garçom chega com as Cocas de Roberto e Laura.
- O que o senhor pensa que está fazendo? - pergunta o homem para o garçom.
- Eles pediram Coca light. Estou servindo, ué?
- O senhor vai recolher as Cocas, a entrada e vai colocá-los em uma outra mesa.
- Os incomodados que se retirem – retruca Roberto.
Como a discussão tomava proporções indesejáveis, o maitre aparece para tentar solucionar o caso.
- Qual é o problema, senhores?
- O problema? – Exalta-se ainda mais o pai da menina – O problema é que o seu restaurante tem área para fumantes, mas não tem uma área para viciados em chupeta.
- Mas isso é um tanto incomum.
- Isso é coisa de louco – completa Roberto.
O restaurante definitivamente pára para assistir aquela disputa. A hostess desistiu de distribuir senhas e foi até o meio do salão para poder assistir melhor a justa. Ninguém pegava num garfo, numa colher. A comida esfriava nos pratos. Laura e a outra mulher fuzilavam-se com os olhos.
- Louco é o senhor que deixa o seu filho chupar esse troço. Vai ver que arcada dentária ele vai ter.
- Em primeiro lugar a chupeta dele é ortodôntica, meu amigo. E se continuar insultando o meu filho você é que vai ficar com a arcada dentária prejudicada.
- Senhores, pelo amor de Deus, sejamos razoáveis.
- Com um viciado sentado na mesa ao lado? – Grita o pai da menina sem chupeta. – Disse uma vez e repito. Minha filha não vai ser uma usuária de chupeta passiva. Trate de resolver esse assunto. Porque nós não saímos dessa mesa.
- Nós é que não vamos arredar pé da nossa mesa. – Grita ainda mais alto o Roberto - Ainda não inventaram uma lei anti-chupeta nesse país.
Os dois vizinhos de mesa estão cara a cara. Uma distância ridícula de mais ou menos cinco centímetros separam as pontas de seus narizes. Partir para vias de fato parece uma consequência iminente e inevitável. O maitre estava prestes a arrancar os cabelos. Nesse momento em que qualquer acordo de paz está fora de questão, dois gritos ainda mais altos dos que os dos dois pais exaltados fizeram-se ouvir. O choro dos bebês. Um berro potente, invadindo as dependências do restaurante. Só podia ser uma coisa: fome. As mães prontamente desarmaram-se e, instintivamente, puseram-se a amamentar. O garçom e o maitre olhavam aquela cena terna emocionados. Roberto e o pai do garoto perceberam os dois olhando para as suas esposas. Eles, então se olharam.
- Eles estão olhando para os seios de nossas esposas? – Pergunta Roberto.
- É o que está parecendo. – responde o pai da menina.
Finalmente, aqueles dois pais brigões estavam do mesmo lado.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
O Desfutibolizado
Ele era louco por futebol. Não podia passar na frente de alguma televisão, fosse no bar, na quitanda, na vitrine, aeroporto, era só ver aquele imenso verde na tela e sobre este verde pequenos pontos, alguns em uma matiz de cor predominante e outros em outra, correndo atrás de uma esfera branca que estancava o passo para dar uma olhadela. Era –lhe irresistível.
Um dia, quase bateu o carro porque passava por uma estrada que beirava um campo de futebol de várzea, onde dois times duelavam num sábado cinzento, devidamente fardados, e ele resolveu acompanhar os lances da peleja em vez de olhar para frente, Felizmente, para aproveitar o máximo do jogo, havia diminuído dramaticamente a velocidade e foi isso que evitou o acidente. Isso e o grito de susto da esposa, que o fez voltar a olhar pra frente a tempo de ver a traseira de um caminhão de entrega de bebidas se aproximando.
Como todo bom brasileiro, passou a gostar de futebol pela via do seu time do coração, que vinha a ser, também o mesmo time pelo qual o seu pai torcia. Seus primeiros passos na arquibancada foram dados de mãos dadas com o velho, quer dizer, na época, para quem tinha uns 4 anos, ele parecia velho.
Nos ciclos vencedores sempre era mais fácil encarar as segundas na escola, onde chegava com o peito inflado de orgulho, como se ele mesmo tivesse entrado em campo no domingo e amealhado mais uma vitória acompanhada de uma “atuação convincente”, como diziam os comentaristas. Nas derrotas, as segundas-feiras eram-lhe um suplício, mas aguentava com coragem as gozações de colegas que torciam para o time rival, sabendo que a volta ia ser doce, caramelada. O que era certo, garantido, é que continuava indo ao estádio dar força para o time nestes momentos.
Fato é que, os anos passaram e aquele garoto tornou-se um adulto que continuava vibrando com as alegrias, sofrendo com as tristezas proporcionadas pelo seu time, dono daquelas arquibancadas onde dera seus primeiros passos de torcedor. Até chegarmos aos dias de hoje.
Seu time, coitado, segue há mais de dez anos sem títulos de vulto, o que, para uma grande associação, é mesmo um problema. E neste ano então? O coitado passou a amargar domingos cada vez mais tristes, onde o seu time, numa regularidade impressionante, só faz perder e, no máximo, comemorar um empate. Caminha célere para a segunda divisão. O mais grave é que ele, diferente das outras vezes em que sofreu, não parece ver solução e tampouco longínqua. Seu time já fez três a alegria de pagar indenizações gordas a dois treinadores e está com um terceiro na casamata,
Para ele, parece óbvio que a causa dessa coleção de desastres, segundo suas convicções, não está exatamente lá dentro do campo. O que acontece ali é uma consequência de anos e anos de usurpação da associação pelos que a tem dirigido. Na direção, no conselho do clube, os nomes e sobrenomes são os mesmos desde os tempos em que ia ao estádio pelas mãos do pai. Nomes que também andavam pelos tribunais e pelos corredores e galerias do Congresso Nacional e Assembleia Legislativa Estadual. Ele deu-se conta de que seu clube do coração sempre fora trampolim de interesses e, depois de anos dessa prática, exauriu-se, sem produzir novos dirigentes, com novas ideias e, principalmente, ideais. O clube parece uma monarquia anacrônica, doente, com consequências que se espalharam como uma septicemia por toda a associação, hoje combalida.
A torcida, sedenta por títulos e imediatista por natureza, discursa olhando para trás, pedindo nomes ainda mais antigos e retrógrados só porque ganharam títulos num passado remoto que não volta mais. Ele, bem, ele passou a sofrer um fenômeno interessante. A desesperança com seu time é tanta, que passou a mergulhar no que chamou de um processo de desfutebolização voluntária. Ele não tinha mais pra quem torcer, pois seu time não representava mais a sua maneira de ver a vida e, portanto, não queria ter mais interesse no esporte em si.
Nos primeiros momentos foi difícil. Esforçava-se para não ver mais jogos na televisão, mas era-lhe difícil vencer um hábito, que ele percebeu ser praticamente um vício. O que nos leva a seguinte conclusão: a desfutibolização voluntária é, nada mais, nada menos, um processo de desintoxicação. E como tal, um processo penoso. Quando mudava de canal e passava por um partida sendo transmitida, compacto de um jogo da rodada ou uma mesa redonda, parava. Quando dava-se conta, que já xingava juiz, chamava comentarista de burro, voltava a acionar o controle remoto sentindo-se culpado, como quem fuma um cigarro depois de ter tomado a decisão de parar de fumar.
A seguir, tomou uma decisão mais drástica. Ligou para a operadora de televisão a cabo e pediu cancelamento do pacote que transmitia os jogos do campeonato nacional. Levou horas para completar a operação, já que o atendente não queria entregar assim, de mão beijada, os mais de cinquenta reais mensais que o pacote custava.
A medida em que foi se desfutibilizando, passou a ter mais tempo. Seus finais de semana tornaram-se ricos em novas atividades. Passou a cozinhar, tocar mais seu violão, retomou o prazer de dedicar muito mais tempo a leitura, passou a sair em excursões com a família para conhecer a própria cidade e arredores. Estava livre de ouvir as besteiras de comentaristas exibidos que desfilavam sua arrogância rasa em microfones e em frente as câmeras. Livrou-se também das mesas redondas. Estava completamente desfutibolizado. Nem sabia em que estado andava o eu ex-time.
Mas não estava livre de ouvir os xingamentos de alguns amigos que, com o olhar furibundo, o acusavam de abandonar a causa, de ser infiel ao seu time. E sempre que ouvia tal acusação levantava-se cheio de brios e discursava:
“Questionam a minha fidelidade, o amor ao meu time? Mas, e a fidelidade do meu time por mim? Eu penso grande e quero torcer para um clube grande, mas este clube, o qual acompanhei minha vida inteira hoje não é fiel aos seus antigos preceitos pelos quais o escolhi como meu amor bretão. A grandeza foi jogada no lixo das vaidades e hoje caminhamos a passos largos parra a pequenez. Se eu escolhesse o caminho fácil, iria torcer para outro time, quem sabe, um time de alhures como o Arsenal ou o Barcelona. Isso sim, seria a infidelidade, a pequenez da minha sangrada alma. Essa é para mim uma atitude tão inconcebível quanto pra vocês. Por isso, trilhei um caminho doloroso. Eu me desfuteboliozei, meus camaradas. Preferi a morte do futebol dentro de mim. Vocês fazem ideia do quanto isso foi sofrido? Pois foi. Por isso, não vou admitir dedos acusadores na minha cara. Eu fui muito mais digno do que você podem sequer imaginar. Agora me deem licença, porque vou pra casa assistir a decisão do campeonato canadense de curling, que está emocionante. Daqui a dez minutos começa”
Um dia, quase bateu o carro porque passava por uma estrada que beirava um campo de futebol de várzea, onde dois times duelavam num sábado cinzento, devidamente fardados, e ele resolveu acompanhar os lances da peleja em vez de olhar para frente, Felizmente, para aproveitar o máximo do jogo, havia diminuído dramaticamente a velocidade e foi isso que evitou o acidente. Isso e o grito de susto da esposa, que o fez voltar a olhar pra frente a tempo de ver a traseira de um caminhão de entrega de bebidas se aproximando.
Como todo bom brasileiro, passou a gostar de futebol pela via do seu time do coração, que vinha a ser, também o mesmo time pelo qual o seu pai torcia. Seus primeiros passos na arquibancada foram dados de mãos dadas com o velho, quer dizer, na época, para quem tinha uns 4 anos, ele parecia velho.
Nos ciclos vencedores sempre era mais fácil encarar as segundas na escola, onde chegava com o peito inflado de orgulho, como se ele mesmo tivesse entrado em campo no domingo e amealhado mais uma vitória acompanhada de uma “atuação convincente”, como diziam os comentaristas. Nas derrotas, as segundas-feiras eram-lhe um suplício, mas aguentava com coragem as gozações de colegas que torciam para o time rival, sabendo que a volta ia ser doce, caramelada. O que era certo, garantido, é que continuava indo ao estádio dar força para o time nestes momentos.
Fato é que, os anos passaram e aquele garoto tornou-se um adulto que continuava vibrando com as alegrias, sofrendo com as tristezas proporcionadas pelo seu time, dono daquelas arquibancadas onde dera seus primeiros passos de torcedor. Até chegarmos aos dias de hoje.
Seu time, coitado, segue há mais de dez anos sem títulos de vulto, o que, para uma grande associação, é mesmo um problema. E neste ano então? O coitado passou a amargar domingos cada vez mais tristes, onde o seu time, numa regularidade impressionante, só faz perder e, no máximo, comemorar um empate. Caminha célere para a segunda divisão. O mais grave é que ele, diferente das outras vezes em que sofreu, não parece ver solução e tampouco longínqua. Seu time já fez três a alegria de pagar indenizações gordas a dois treinadores e está com um terceiro na casamata,
Para ele, parece óbvio que a causa dessa coleção de desastres, segundo suas convicções, não está exatamente lá dentro do campo. O que acontece ali é uma consequência de anos e anos de usurpação da associação pelos que a tem dirigido. Na direção, no conselho do clube, os nomes e sobrenomes são os mesmos desde os tempos em que ia ao estádio pelas mãos do pai. Nomes que também andavam pelos tribunais e pelos corredores e galerias do Congresso Nacional e Assembleia Legislativa Estadual. Ele deu-se conta de que seu clube do coração sempre fora trampolim de interesses e, depois de anos dessa prática, exauriu-se, sem produzir novos dirigentes, com novas ideias e, principalmente, ideais. O clube parece uma monarquia anacrônica, doente, com consequências que se espalharam como uma septicemia por toda a associação, hoje combalida.
A torcida, sedenta por títulos e imediatista por natureza, discursa olhando para trás, pedindo nomes ainda mais antigos e retrógrados só porque ganharam títulos num passado remoto que não volta mais. Ele, bem, ele passou a sofrer um fenômeno interessante. A desesperança com seu time é tanta, que passou a mergulhar no que chamou de um processo de desfutebolização voluntária. Ele não tinha mais pra quem torcer, pois seu time não representava mais a sua maneira de ver a vida e, portanto, não queria ter mais interesse no esporte em si.
Nos primeiros momentos foi difícil. Esforçava-se para não ver mais jogos na televisão, mas era-lhe difícil vencer um hábito, que ele percebeu ser praticamente um vício. O que nos leva a seguinte conclusão: a desfutibolização voluntária é, nada mais, nada menos, um processo de desintoxicação. E como tal, um processo penoso. Quando mudava de canal e passava por um partida sendo transmitida, compacto de um jogo da rodada ou uma mesa redonda, parava. Quando dava-se conta, que já xingava juiz, chamava comentarista de burro, voltava a acionar o controle remoto sentindo-se culpado, como quem fuma um cigarro depois de ter tomado a decisão de parar de fumar.
A seguir, tomou uma decisão mais drástica. Ligou para a operadora de televisão a cabo e pediu cancelamento do pacote que transmitia os jogos do campeonato nacional. Levou horas para completar a operação, já que o atendente não queria entregar assim, de mão beijada, os mais de cinquenta reais mensais que o pacote custava.
A medida em que foi se desfutibilizando, passou a ter mais tempo. Seus finais de semana tornaram-se ricos em novas atividades. Passou a cozinhar, tocar mais seu violão, retomou o prazer de dedicar muito mais tempo a leitura, passou a sair em excursões com a família para conhecer a própria cidade e arredores. Estava livre de ouvir as besteiras de comentaristas exibidos que desfilavam sua arrogância rasa em microfones e em frente as câmeras. Livrou-se também das mesas redondas. Estava completamente desfutibolizado. Nem sabia em que estado andava o eu ex-time.
Mas não estava livre de ouvir os xingamentos de alguns amigos que, com o olhar furibundo, o acusavam de abandonar a causa, de ser infiel ao seu time. E sempre que ouvia tal acusação levantava-se cheio de brios e discursava:
“Questionam a minha fidelidade, o amor ao meu time? Mas, e a fidelidade do meu time por mim? Eu penso grande e quero torcer para um clube grande, mas este clube, o qual acompanhei minha vida inteira hoje não é fiel aos seus antigos preceitos pelos quais o escolhi como meu amor bretão. A grandeza foi jogada no lixo das vaidades e hoje caminhamos a passos largos parra a pequenez. Se eu escolhesse o caminho fácil, iria torcer para outro time, quem sabe, um time de alhures como o Arsenal ou o Barcelona. Isso sim, seria a infidelidade, a pequenez da minha sangrada alma. Essa é para mim uma atitude tão inconcebível quanto pra vocês. Por isso, trilhei um caminho doloroso. Eu me desfuteboliozei, meus camaradas. Preferi a morte do futebol dentro de mim. Vocês fazem ideia do quanto isso foi sofrido? Pois foi. Por isso, não vou admitir dedos acusadores na minha cara. Eu fui muito mais digno do que você podem sequer imaginar. Agora me deem licença, porque vou pra casa assistir a decisão do campeonato canadense de curling, que está emocionante. Daqui a dez minutos começa”
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