domingo, 29 de agosto de 2010
O exterminador de discussões.
Quanto entrava na discussão, era acachapante, definitivo. Tinha um argumento tão inatacável que a discussão perdia o sentido. Não importava o assunto, a discórdia, ele era o ponto final, a tecla "mute". Sua visão neutra, gélida e coberta da mais racional das razões desestruturava qualquer embate. Tirava-lhe o sustento. Implodia-o impiedosamente. Um: “Foi pênalti”. Outro: “Bola na mão, bola na mão”. Um: “Penalidade mais do que máxima, meu amigo. Teu time vive recebendo mãozinha dos de preto.” Ele: “A bomba já explodiu, de que adianta continuar discutindo se o fio que devia ser cortado é o branco ou o verde?”. Silêncio. Sepulcral. Inconteste. Entre cada sílaba daquela frase completamente coberta de sabedoria ecoava a completa inutilidade daquela discordância. Um: “Como pode votar nele? É um inepto. Quando estava no Ministério da Educação, o investimento em ensino básico caiu drasticamente”. Outro: “E quando foi que ocorreram aqueles dois apagões? Quando o teu candidato era Ministro das Minas e Energia”. Um: “E o filho do teu candidato, que de desempregado virou milionário prestando serviços para o Ministério da Educação?”. Outro: “Filho? E o teu candidato que empregou filho, nora, genro, mulher e o escambau na época em que era Deputado Federal? “. Ele: “Ótimo. Vocês me deram razões para não votar em nenhum deles. Vou de terceira via.” Novamente, o silêncio insuportável. O silêncio de quem cai em si. De quem constata a sua própria estupidez. Ele sempre foi assim, ouvia dezenas de colocações, de justificativas apaixonadas, envolvendo qualquer assunto. O casamento, o trabalho, o trânsito, tudo. Quando abria a boca era definitivo. Era uma única frase. Certeira. Mortal. Um atirador de elite. Um matador frio. Era abrir a boca para termos uma cizânia morta. Desfalecia ante a constatação de sua estrondosa inutilidade. Mas seu tirocínio tornou-se um fardo. Uma maldição a persegui-lo. Implacável. Afinal, quem, em sã consciência, deseja ficar perto de uma pessoa dessas? Quem, em em seu juízo perfeito, deseja ter por perto alguém que espelha o nosso lado mais débil? Ninguém. Alma viva. E depois, uma discussãozinha é sempre muito bem vinda. Que o digam as mesas redondas. Essa maldita inteligência, essa perspicácia corrosiva foi, com o tempo, se virando contra ele. Se tinha um bolinho, este se desfazia quando ele chegava. Ninguém o queria por perto. Hoje, vaga solitário, acompanhado apenas da sua razão indómita. Ainda bem que gosta de cachorros.
domingo, 22 de agosto de 2010
Pais em TPM apresenta: O justiceiro recalcitrante
Sou um assassino. Um assassino obstinado. Um serial killer da mesma pessoa. Já a matei de várias formas. Mas nenhuma foi cruel o bastante para aplacar a minha ira inconsolável. É sempre igual. Assim que o mato, comprazo-me, extasio-me. Mas no que volto a mim, lá está ele novamente. O maldito bípede de cabelos compridos continua vagando por esse planeta, incólume. Não sofreu o bastante, então preciso de uma forma ainda mais dolorosa de tirar-lhe a existência.
A primeira vez que o matei foi muito simples, singelo até. Nada elaborado. Foi pura reacção. Simplesmente parei na frente dele e descarreguei uma pistola. O pirralho caiu imediatamente, estendido no chão com vários pontos por onde o sangue jorrava. Não durou muito. Não adiantou nada. Não era assim que eu queria. Precisava demorar mais. No outro dia eu apareci com uma faca e o esfaqueei repetidas vezes, um crime muito mais visceral, demorado, doloroso. Esfaqueei-o tal um Caim obstinado. Não contei quantas foram as estocadas. Gostei mais, pois ouvi gritos e gemidos vindos daquele boca. A mesma de onde saíram as palavras que causaram todos os problemas.
No outro dia parecia que nada havia acontecido. E não havia mesmo. Ele obviamente estava vivo, desfrutando de saúde e provavelmente jogando seu charme em alguma incauta. Decidi aumentar o nível de crueldade. Sequestrei-o, levei para um lugar ermo e o enfiei em uma pilha de pneus usados. Joguei gasolina, peguei um isqueiro Zipo. Acendia e apagava, acendia e apagava, enquanto encarava o moleque desfrutando cada segundo. Seus olhos arregalados eram uma imagem doce para mim. Seus gritos desesperados eram a mais afinada das sinfonias, trilha sonora perfeita para a minha vingança, quero dizer, a nossa. Suas explicações entre lágrimas e soluços cheios de pavor me faziam dançar. Depois de alguns minutos joguei o isqueiro e o fiquei observando-o queimar. Urros e o crepitar do fogo. Nem bem passaram dez minutos e eu obviamente voltei a realidade. Nela sabia que ele estava e contente, talvez ouvindo música alta em seu quarto incomodando os próprios pais.
Teve a vez em que eu o sequestrei novamente, levei-o para um depósito abandonado e o amarrei numa cama. Dava-lhe apenas um copo de água por dia. Ficava observando-o definhar dia a dia, aquele moleque insolente e cruel. Pensei no quanto estavam sofrendo os seus pais. Talvez sofriam como eu estava sofrendo. Um sofrimento lancinante e agudo. Uma sensação de impotência tão completa, tão pesada, tão escura que faz justamente me tornou nesse assassino frio. Lá pelo sexto dia de cativeiro tudo mudou. Radicalmente. No café da manhã eu olhei a minha filhinha, carregando um sorriso sincero no rosto.
- Bom dia filhinha.
- Oi, pai.
- Que sorriso lindo. Há quanto tempo não via esse sorrido.
- Meu coração está aliviado, pai. Bem que você me disse “o tempo vai curar essa dor”.
- Esqueceu aquele moleque?
- Acredita? Assim, simplesmente. Sumiu. É a melhor sensação do mundo. Bem que o senhor me falou.
Ela levantou, beijou gostosamente a minha face e foi para a escola. Eu fiquei olhando para ela, leve, normal de novo. Longe daquela alma penada andando pela casa carregando o sofrimento da rejeição nos ombros pela primeira vez na vida. Fazendo-me sofrer ainda mais do que sofri com as minhas próprias desilusões quanto tinha a idade dela. A única coisa que eu podia fazer por ela não parecia o bastante: estar sempre perto, abraçá-la, repetir o óbvio sobre o tempo curar a dor. Por mim eu nada podia fazer, a não ser matar a causa desse sofrimento tantas vezes quanto eu podia em minha imaginação. Mas agora, isso já não importa mais. Libertei o moleque da minha tortura imaginária. Ele passa bem. Mas ai do moleque que fizer isso conosco novamente.
A primeira vez que o matei foi muito simples, singelo até. Nada elaborado. Foi pura reacção. Simplesmente parei na frente dele e descarreguei uma pistola. O pirralho caiu imediatamente, estendido no chão com vários pontos por onde o sangue jorrava. Não durou muito. Não adiantou nada. Não era assim que eu queria. Precisava demorar mais. No outro dia eu apareci com uma faca e o esfaqueei repetidas vezes, um crime muito mais visceral, demorado, doloroso. Esfaqueei-o tal um Caim obstinado. Não contei quantas foram as estocadas. Gostei mais, pois ouvi gritos e gemidos vindos daquele boca. A mesma de onde saíram as palavras que causaram todos os problemas.
No outro dia parecia que nada havia acontecido. E não havia mesmo. Ele obviamente estava vivo, desfrutando de saúde e provavelmente jogando seu charme em alguma incauta. Decidi aumentar o nível de crueldade. Sequestrei-o, levei para um lugar ermo e o enfiei em uma pilha de pneus usados. Joguei gasolina, peguei um isqueiro Zipo. Acendia e apagava, acendia e apagava, enquanto encarava o moleque desfrutando cada segundo. Seus olhos arregalados eram uma imagem doce para mim. Seus gritos desesperados eram a mais afinada das sinfonias, trilha sonora perfeita para a minha vingança, quero dizer, a nossa. Suas explicações entre lágrimas e soluços cheios de pavor me faziam dançar. Depois de alguns minutos joguei o isqueiro e o fiquei observando-o queimar. Urros e o crepitar do fogo. Nem bem passaram dez minutos e eu obviamente voltei a realidade. Nela sabia que ele estava e contente, talvez ouvindo música alta em seu quarto incomodando os próprios pais.
Teve a vez em que eu o sequestrei novamente, levei-o para um depósito abandonado e o amarrei numa cama. Dava-lhe apenas um copo de água por dia. Ficava observando-o definhar dia a dia, aquele moleque insolente e cruel. Pensei no quanto estavam sofrendo os seus pais. Talvez sofriam como eu estava sofrendo. Um sofrimento lancinante e agudo. Uma sensação de impotência tão completa, tão pesada, tão escura que faz justamente me tornou nesse assassino frio. Lá pelo sexto dia de cativeiro tudo mudou. Radicalmente. No café da manhã eu olhei a minha filhinha, carregando um sorriso sincero no rosto.
- Bom dia filhinha.
- Oi, pai.
- Que sorriso lindo. Há quanto tempo não via esse sorrido.
- Meu coração está aliviado, pai. Bem que você me disse “o tempo vai curar essa dor”.
- Esqueceu aquele moleque?
- Acredita? Assim, simplesmente. Sumiu. É a melhor sensação do mundo. Bem que o senhor me falou.
Ela levantou, beijou gostosamente a minha face e foi para a escola. Eu fiquei olhando para ela, leve, normal de novo. Longe daquela alma penada andando pela casa carregando o sofrimento da rejeição nos ombros pela primeira vez na vida. Fazendo-me sofrer ainda mais do que sofri com as minhas próprias desilusões quanto tinha a idade dela. A única coisa que eu podia fazer por ela não parecia o bastante: estar sempre perto, abraçá-la, repetir o óbvio sobre o tempo curar a dor. Por mim eu nada podia fazer, a não ser matar a causa desse sofrimento tantas vezes quanto eu podia em minha imaginação. Mas agora, isso já não importa mais. Libertei o moleque da minha tortura imaginária. Ele passa bem. Mas ai do moleque que fizer isso conosco novamente.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O diretor e o bedéu
"Veja, meu caro Juliano, não admira você estar aí feito um dois de paus encarando-me admirado por não entender a minha atitude. É, basicamente, por isso que eu sou diretor desta prestigiada instituição de ensino e o senhor é apenas o bedéu. Por outro lado, seu espanto é que, de alguma forma, me espanta, porque, afinal de contas, o senhor é uma figura de autoridade e como tal deveria entender as pequenas sutilezas a que um homem em cargo de comando deve lidar diariamente. Eu não tenho preferência nem por Milena e nem por Isabela. Eu sei que o senhor está com essa caraminhola na sua cabeça porque o mundo das duas é completamente diferente, já que, por exemplo, uma pinta as unhas caprichosamente. Todas as unhas da mão da mesmo cor. Uma uniformidade cromática que denota equilíbrio e sistema. A outra tem uma unha da cada cor. Um caso cromárico. Um arco-iris na ponta dos dedos. Diferente, sem dúvida. É incrível como a maneira de uma mulher pintar as suas unhas diz muito sobre ela, não é verdade? Uma certinha, a outra, louquinha, um tanto, como direi, esquisita? Esquisito é uma boa palavra. Eu não nego que senti um certo, digamos, júbilo, o senhor sabe o que significa júbilo, Juliano? Pelo balançar da cabeça vejo que sabe. Pois muito bem, eu senti um certo júbilo ao ver as duas sentadas lado a lado na ante sala do meu gabinete. Aquelas duas vivem em mundos diferentes, nunca sentariam lado a lado em lugar algum. Mas o que não faz o infortúnio, não é mesmo, Juliano? O infortúnio junta pessoas injuntáveis. Homogeniza os heterogênios. Mas vejamos, onde eu estava? A, as duas lado a lado na ante-sala porque cometeram o mesmo deslize. Chegaram atrasadas, desconsiderando até mesmo a nossa tolerância de dez minutos. Eu sou uma pessoa razoável, não sou Juliano? Queria ouvir o que elas tinham a dizer, afinal, sabe-se lá que acidentes inomináveis poderiam ter acontecido para provocar os tais atrasos. E aí voltamos ao início da nossa conversa. O senhor não compreende porque depois de me contar aquela história esapafúrdia do cano que estourou no banheiro e a quase inundação que o vazamento provocou, fazendo, como ela disse?, "agua cair escada abaixo como as cataratas do Niágara." Não é uma beleza enquanto metáfora pobre? Onde estava?Ah, sim, o senhor não compreende porque depois de me contar esta mentira tão descarada eu liberei Milena para assistir a aula, enquanto Isabela, que simplesmente olhou nos meus olhos e disse "dormi demais" foi para a detenção esperar o segundo período. Ora, Ora, Juliano. Eu não premiei a mentira em detrimento da verdade como eu supõe essa sua expressão espantada no rosto. Não sou insensível a esse ponto. Eu premiei o respeito e castiguei o escárnio e o sentimento de superioridade em relação a uma autoridade. Aquela mentira deslavada, ou se quiser, lavada em água do cano que na verdade não vazou é uma forma de respeito a mim. Demonstra que ela me vê como alguém capaz de manejar o seu destino aqui dentro desta instituição. Ja a outra, Isabela, tomou apenas sete segundos para atirar na minha cara a verdade. Isso demonstra o que, meu caro Juliano? Demonstra que a outra simplesmente não me vê como alguém que pode influir em sua vida. É um atrevimento jogar assim a verdade na cara de uma autoridade, mesmo com aquele jeitinho meio maluquinho. Não se fala uma verdade desse calibre, numa situação dessas para alguém numa pisção superior. Isso é uma ofensa, uma total falta de respeito. A punição é uma consequência lógica para este ato. Não é simples, Juliano? Cristalino como água a mesma água…isso do cano que não vazou. O senhor aprendeu, não aprendeu? Agora pode ir e leve esta valiosa lição com o senhor."
domingo, 8 de agosto de 2010
Conveniências
Três amigos inseparáveis, Zé, Tuti e Neco, relambravam os anos em que a maior responsabilidade deles era entregar os trabalhos e ter notas boas na escola, posteriormente faculdade. O Zé lembrou que naquela época começou entre eles a sindrome de 1984, o livro de George Orwell. No livro, haviam 3 continentes em eterna guerra. Num dia, a Eurásia era aliada da Oceania contra a Lestásia. No outro dia, a Eurasia e Lestásia eram aliados contra a Oceania e, de acordo com o Estado, sempre fora assim. Enfim, as alianças trocavam de acordo com a conveniênca do Estado totalitário descrito pelo autor inglês. No caso dos três amigos, dependendo do assunto, alianças semelhantes de formavam. Sempre dois contra um.
Nos primeiros anos da amizade entre eles, quando se falava em futebol, o gremista Tuti ficava a mercê dos requintes de crueldade dos colorados Zé e Neco. As gozações eram intermináveis. Tuti sofria as vezes calado e resignado, as vezes com reações intempestivas e sem o menor sentido. Como quando apostou, na véspera de um grenal, que, se o seu time não vencese, iria cantar o hino do Interncaional em plena hora civica para toda a escola ouvir. Os outros dois fariam inverso se o Grêmio saísse vecedor no clássido de domingo. Era uma aposta injusta e completamente descabida, movida pelo desejo irracional de que Deus, se apiedando dos seus anos de sofrimento, ouviria seu desespero e intercederia no andamento da peleja, dando a vitória ao seu time do coração, uma vez que, pelos meios normais isso não aconteceria ja que a distância dos dois times era imensa.
A zebra divina não apareceu no clássico domingueiro. Deus nem aí para o Tuti. E, se aparecesse, era sempre dois contra um, ou seja, para Zé e Neco seria fácil escapar do vexatório pagamento. Mas Tuti estava solitário. Argumentou o que pode, mas os dois simplesmente ignoraram as súplicas. Foi arrastado para a frente da escola inteira e cantou trechos iniciais do "Celeiro de Ases" até ser contido pelo bedel. Ele nunca ficou tão feliz de ter sido pego pelo bedel.
As alianças mudavam quando o tema era a música. Eram todos roqueiros convictos. Porém, as concordâncias cessavam no estilo musical. O rock, como o futebol, era um território onde levantam-se bandeiras a favor deste o daquele grupo, cantor ou gênero. E neste caso, Tuti, um fã arodoroso e viceral do Led Zeppelin, contava com a companhia de Neco, que também adorava o grupo inglês. Zé era obrigado a ouvir o som do Yes, seu grupo prerido, na solidão de seu quarto. No porão da casa de Neco, local oficial das audições, apenas e se os outros o permitissem, o que era praticamente impossível. Numa destas audições a três, regadas a um baseado ou dois, se o Zé se atrevesse a colocar o Yes Album, o seu LP preferido, no Technics, sofria a pena máxima imposta pelos outros dois: eles dividiam só entre eles o baseado, deixando o Zé a mingua, enquanto assistia os amigos darem generosas baforadas e não menos generosas gargalhadas só de olhar para a expressão de criança sem doce que o Zé fazia. Doce, aliás, que os dois devoravam sem dó nem piedade – a mãe do Neco era doceira de mão cheia- após as audições vespertinas, enquanto Zé era privado do prazer de matar a larica.
Quando se tratava de cinema, acontecia um novo arranjo. Neco detestava filmes de terror, justamente os preferidos do Tuti e do Zé. Ainda no reinado do vídeo cassete, os dois alugavam toda sorte de filmes arrepiantes, iam para o porão para demoradas sessões de cinema. O Neco se recusava a participar. Dizia que era um cinema pobre, de mau gosto, até porque os dois adoravam filmes como A Morte do Demônio e similares. "Se ainda fosse um clássico, como Nosferatu", repetia Neco. Um dia alugaram Nosferatu e o Neco deu mil desculpas para não assistir. "Cagão", repetiam os dois. "Esse papo de cinema clássico é desculpa, tem é medo de dormir a noite", debochava o Zé. "Vai ver ainda faz xixi na cama, o debilóide", completava o Tuti. Um dia colocaram a fita de Sexta Feira 13 dentro da caixa de e Chuva Negra o pobre do Neco caiu na artimanha. Amarraram o coitado na cadeira e o fizeram assistir o filme todo com eles. Conta-se que o Neco chegou na escola todos os dias da semana com cara de quem não dormiu.
Os três divertiam-se, lembrando desta época mágica. O olhar, os fios brancos no cabelo e as rugas revelando os anos que os separavam destas lembranças . Conheceram suas respectivas ex-esposas quase que ao mesmo tempo. E quando lembraram disso a mágica desapareceu. Não foi um final de casamento pacífico para nenhum dos três. Reclamaram juntos da pensão, da casa que tiveram que deixar pra trás e de ter que ver os filhos com hora marcada. Nesse momento, o Zé lembrou que, pela primeira vez na história, os três estavam do mesmo lado. Ergueram os copos, fizeram um brinde. O momento era triste, mas raro. Merecia.
Nos primeiros anos da amizade entre eles, quando se falava em futebol, o gremista Tuti ficava a mercê dos requintes de crueldade dos colorados Zé e Neco. As gozações eram intermináveis. Tuti sofria as vezes calado e resignado, as vezes com reações intempestivas e sem o menor sentido. Como quando apostou, na véspera de um grenal, que, se o seu time não vencese, iria cantar o hino do Interncaional em plena hora civica para toda a escola ouvir. Os outros dois fariam inverso se o Grêmio saísse vecedor no clássido de domingo. Era uma aposta injusta e completamente descabida, movida pelo desejo irracional de que Deus, se apiedando dos seus anos de sofrimento, ouviria seu desespero e intercederia no andamento da peleja, dando a vitória ao seu time do coração, uma vez que, pelos meios normais isso não aconteceria ja que a distância dos dois times era imensa.
A zebra divina não apareceu no clássico domingueiro. Deus nem aí para o Tuti. E, se aparecesse, era sempre dois contra um, ou seja, para Zé e Neco seria fácil escapar do vexatório pagamento. Mas Tuti estava solitário. Argumentou o que pode, mas os dois simplesmente ignoraram as súplicas. Foi arrastado para a frente da escola inteira e cantou trechos iniciais do "Celeiro de Ases" até ser contido pelo bedel. Ele nunca ficou tão feliz de ter sido pego pelo bedel.
As alianças mudavam quando o tema era a música. Eram todos roqueiros convictos. Porém, as concordâncias cessavam no estilo musical. O rock, como o futebol, era um território onde levantam-se bandeiras a favor deste o daquele grupo, cantor ou gênero. E neste caso, Tuti, um fã arodoroso e viceral do Led Zeppelin, contava com a companhia de Neco, que também adorava o grupo inglês. Zé era obrigado a ouvir o som do Yes, seu grupo prerido, na solidão de seu quarto. No porão da casa de Neco, local oficial das audições, apenas e se os outros o permitissem, o que era praticamente impossível. Numa destas audições a três, regadas a um baseado ou dois, se o Zé se atrevesse a colocar o Yes Album, o seu LP preferido, no Technics, sofria a pena máxima imposta pelos outros dois: eles dividiam só entre eles o baseado, deixando o Zé a mingua, enquanto assistia os amigos darem generosas baforadas e não menos generosas gargalhadas só de olhar para a expressão de criança sem doce que o Zé fazia. Doce, aliás, que os dois devoravam sem dó nem piedade – a mãe do Neco era doceira de mão cheia- após as audições vespertinas, enquanto Zé era privado do prazer de matar a larica.
Quando se tratava de cinema, acontecia um novo arranjo. Neco detestava filmes de terror, justamente os preferidos do Tuti e do Zé. Ainda no reinado do vídeo cassete, os dois alugavam toda sorte de filmes arrepiantes, iam para o porão para demoradas sessões de cinema. O Neco se recusava a participar. Dizia que era um cinema pobre, de mau gosto, até porque os dois adoravam filmes como A Morte do Demônio e similares. "Se ainda fosse um clássico, como Nosferatu", repetia Neco. Um dia alugaram Nosferatu e o Neco deu mil desculpas para não assistir. "Cagão", repetiam os dois. "Esse papo de cinema clássico é desculpa, tem é medo de dormir a noite", debochava o Zé. "Vai ver ainda faz xixi na cama, o debilóide", completava o Tuti. Um dia colocaram a fita de Sexta Feira 13 dentro da caixa de e Chuva Negra o pobre do Neco caiu na artimanha. Amarraram o coitado na cadeira e o fizeram assistir o filme todo com eles. Conta-se que o Neco chegou na escola todos os dias da semana com cara de quem não dormiu.
Os três divertiam-se, lembrando desta época mágica. O olhar, os fios brancos no cabelo e as rugas revelando os anos que os separavam destas lembranças . Conheceram suas respectivas ex-esposas quase que ao mesmo tempo. E quando lembraram disso a mágica desapareceu. Não foi um final de casamento pacífico para nenhum dos três. Reclamaram juntos da pensão, da casa que tiveram que deixar pra trás e de ter que ver os filhos com hora marcada. Nesse momento, o Zé lembrou que, pela primeira vez na história, os três estavam do mesmo lado. Ergueram os copos, fizeram um brinde. O momento era triste, mas raro. Merecia.
domingo, 1 de agosto de 2010
Pais em tpm apresenta: Uma e meia
Felicio abriu os olhos de repente. Era como se não tivesse aberto, pois a escuridão do quarto era imensa. Vagarosamente, formas foram aparecendo na escuridão, denunciando o aumento de sua pupila. Ouvia respiração relaxada da esposa ao seu lado. Dormia tranquilamente. Que horas seriam? Tateou a mesa de cabeceira procurando o relógio de pulso. Encontrou. Só então acendeu a luz. Meia noite e quarenta e dois. Conclui o óbvio. Tinha dordmido no máximo durante meia hora. Sentou-se na cama e a medida em que os segundos avançavam a consciência ia se inteirando das coisas. Perguntou-se por que diabos tateou o relógio no escuro e só então acendeu a luz? Não seria mais lógico ter feito o inverso? Estava inquieto e aquela meia hora de sono seria o máximo que ele conseguria naquele momento. Apagou a luz novamente, levantou-se e, antes de abandonar o quarto, ouviu o ressonar da esposa acompanhado de um movimento. Deiva ter se revirado. Mas continuava dormindo. “Como ela consegue?”, ele se pergunta.
Felicio abre a geladeira. Está cheia. A carne crua prenunciando o churrasco no dia seguinte. Um belo pedaço de alcatra, outro de picanha. Salsichões, coração para a criançada. Eles adoram coração de galinha no espeto. Misturam tudo com farinha e se lambuzam. Um cachorro late la fora. Ele aguça o ouvido. Nada. Ele avistra a ambrosia. É irresistível. Serve-se de uma generosa porção e vai até a sala. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto e liga a tv. Abaixa o volume até ele sumir. Ele não está interessado no que está passando, apenas quer a companhia de algo que está acordado. Ele saboreia a ambrosia em colheradas lentas. Gruda aquela pasta doce meio granulada no céu da boca, prensando com a língua. É uma sensação maravilhosa. Ele olha pra o telefone enquanto pensa. "Será que eu ligo? Eu prometi não ligar." Felicio não pára de pensar. Ele pega o telefone. "Azar." Nove, nove, cinco, oito…"Não. Onde estou com a cabeça!" Olha para o relógio e são uma da manhã. Não há nada errado. Ainda. Falta meia hora. Os próximos trinta minutos serão cruciais. Ele tenta não pensar e se concentrar na ambrosia. Na televisão, um homem degola outro num parque. A noite. Aquela imagem não ajuda em nada. Muda de canal. Lobos correm na estepe perseguindo coelhos. Muda novamente. Victor Mature aparece com aquela cara de bebê chorão. “Que canastrão!”, ele pensa. Abre um soriso. Mas é um sorriso carregado, contido. Victor Mature está meio descolorido. “É o Manto Sagrado”, Felicio conclui em pensamento. “Meu Deus, ainda exibem o Manto Sagrado perto da semana santa.” Felicio aumenta um pouco o som da televisão. O filme está dublado. Dublagem dos anos 60. São uma e dez da manhã. Ele termina a ambrosia e olha para o telefone de novo. Está chegando perto. Ele já sente a derrota iminente. Faltam quinze minutos. “Eu sabia”, pensa. “Eu sabia.” De repente, ele pensa em outra possibilidade. A violência la fora. “Onde eu estava com a cabeça quando deixei?”, clupa-se falando para o Victor Mature. Uma e vinte e três. O cachorro late. Um som de carro. Ele corre para a janela. Vê a Isabela saindo do carro. Vem em direção a porta da frente escoltada pelo namorado. Ela cumpriu o prometido. Chegou antes da uma e meia da manhã. Ele saiu correndo, desligando o Victor Mature no caminho e se enfiando na cama o mais rápido possível. A filha não podia sequer desconfiar que ele havia, por um breve instante, perdido a confiança. Virou para o lado, mas não ia pegar nos sono tão rápido. Agora, era a culpa que não o deixava dormir. Ah, que inveja da esposa.
Felicio abre a geladeira. Está cheia. A carne crua prenunciando o churrasco no dia seguinte. Um belo pedaço de alcatra, outro de picanha. Salsichões, coração para a criançada. Eles adoram coração de galinha no espeto. Misturam tudo com farinha e se lambuzam. Um cachorro late la fora. Ele aguça o ouvido. Nada. Ele avistra a ambrosia. É irresistível. Serve-se de uma generosa porção e vai até a sala. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto e liga a tv. Abaixa o volume até ele sumir. Ele não está interessado no que está passando, apenas quer a companhia de algo que está acordado. Ele saboreia a ambrosia em colheradas lentas. Gruda aquela pasta doce meio granulada no céu da boca, prensando com a língua. É uma sensação maravilhosa. Ele olha pra o telefone enquanto pensa. "Será que eu ligo? Eu prometi não ligar." Felicio não pára de pensar. Ele pega o telefone. "Azar." Nove, nove, cinco, oito…"Não. Onde estou com a cabeça!" Olha para o relógio e são uma da manhã. Não há nada errado. Ainda. Falta meia hora. Os próximos trinta minutos serão cruciais. Ele tenta não pensar e se concentrar na ambrosia. Na televisão, um homem degola outro num parque. A noite. Aquela imagem não ajuda em nada. Muda de canal. Lobos correm na estepe perseguindo coelhos. Muda novamente. Victor Mature aparece com aquela cara de bebê chorão. “Que canastrão!”, ele pensa. Abre um soriso. Mas é um sorriso carregado, contido. Victor Mature está meio descolorido. “É o Manto Sagrado”, Felicio conclui em pensamento. “Meu Deus, ainda exibem o Manto Sagrado perto da semana santa.” Felicio aumenta um pouco o som da televisão. O filme está dublado. Dublagem dos anos 60. São uma e dez da manhã. Ele termina a ambrosia e olha para o telefone de novo. Está chegando perto. Ele já sente a derrota iminente. Faltam quinze minutos. “Eu sabia”, pensa. “Eu sabia.” De repente, ele pensa em outra possibilidade. A violência la fora. “Onde eu estava com a cabeça quando deixei?”, clupa-se falando para o Victor Mature. Uma e vinte e três. O cachorro late. Um som de carro. Ele corre para a janela. Vê a Isabela saindo do carro. Vem em direção a porta da frente escoltada pelo namorado. Ela cumpriu o prometido. Chegou antes da uma e meia da manhã. Ele saiu correndo, desligando o Victor Mature no caminho e se enfiando na cama o mais rápido possível. A filha não podia sequer desconfiar que ele havia, por um breve instante, perdido a confiança. Virou para o lado, mas não ia pegar nos sono tão rápido. Agora, era a culpa que não o deixava dormir. Ah, que inveja da esposa.
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