Em algumas cidades do Brasil existem rádios que prestam serviço de obituário, quanto contratadas pelos familiares do falecido. A rádio que o meu pai escutava enquanto fazia nossos churrascos de final de semana ou enquanto dirigia o seu carro, fazendo as vezes de nosso transporte escolar, prestava tal serviço. O texto era apresentado por um locutor de voz nem fina e nem grossa. Em tom solene, no modo mais informativo possível. Ele nos dava a funesta notícia sempre assim: "Falecimento. Ocorreu hoje o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos. O velório está sendo realizado na capela C do Cemitério João Vinte e Três. O féretro sairá às 16 horas quando ocorrerá o sepultamento. Noticiamos o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos."
Um detalhe que me chamava a atenção era essa volta no final, quando ele repetia o nome do falecido(a), talvez com a intenção de informar o incauto que por acaso ligasse o radio no meio da nota. Lembro-me muito bem também, que ao ouvir a palavra féretro, um calafrio percorria a minha espinha, até eriçar os meus cabelos, até o dia em que resolvi perguntar para a minha mãe que diabos significava aquela palavra de sonoridade lúgubre. "Caixão", ela disse. "Quando ele fala o féretro sairá tal hora, é quando as pessoas carregam o caixão e todos vão em procissão respeitosa até o local onde ele vai ser enterrado." Após o esclarecimento feito pela minha mãe, os calafrios não só continuaram a ocorrer sempre que ouvia aquela palavra, como intensidade destes passou a ser dobrada.
Mas depois de muitos e muitos anos, essas notas de falecimento tornaram-se uma lembrança um tanto pitoresca da minha infância. O fato mais curioso foi ficar sabendo o que ocorrera com aquele locutor. Sim, porque aquela voz, nem fina e nem grossa, ficou para sempre relacionada ao infortúnio. Aquele timbre metálico e sem emoção era a lembrança da nossa finitude. Era, no mundo dos vivos, o voz do ceifador. Anunciando que, da próxima vez, quem sabe não estou falando de você. Termo seu nome pronunciado pelo dono daquela voz era a última coisa que qualquer um iria querer.
O dono daquela voz se chamava Watson Mendes. Exatamente. Os pais, fãs da obra de Artur Conan Doyle batizaram o filho com o nome do companheiro inseparável de Sherlock Holmes. Isso por si só ja deveria ser um prenúncio de que alguma coisa estranha espreitava aquela criança. Os pais se defendiam, dizendo que Sherlock, seria muito mais estranho, ao que os interlocutores faziam sua tréplica perguntando porque então não batizaram o pobre menino com o nome de Artur. Fato é que Watson foi e Watson ficou.
Watson sempre quis trabalhar em rádio e a chance veio como o locutor da má nova. Ele não se importou. Achou que aquela era a porta de entrada para uma brilhante carreira no rádio, não se importando muito que aquela fosse a porta do cemitério. E aquela, que seria a oportunidade de ouro transformou-se em seu fardo. Na rádio constantemente almoçava sozinho, separado dos colegas, afinal, quem em sã consciência abocanharia um pedaço do suculento bife de alcatra servido na cantina da rádio, ouvindo o Watson contar uma piada? Aquela voz a lembrar que aquele pedaço de bife poderia entalar na garganta e…fim de linha.? Não. Deixa ele lá com os seus mortos.
Mas se vocês pensam que isso ocorria apenas na rádio enganam-se. Mesmo nas coisas mais simples, como perguntar ao empregado de um supermercado onde ficava o papel higiênico era uma causa perdida. Não era raro o pobre funcionário ao ser indagado pelo Watson com aquela voz incofundível sair correndo como se tivesse visto o ceifador em carne putrefada e ossos. Coube ao Watson decorar onde ficavam todos os utensílios que precisava dentro do supermercado. Tudo sempre ia bem até que algum gerente, num espasmo de arqutiteto resolvesse mudar a distribuição das coisas para fazer o pobre Watson ter que aprender tudo de novo. Perguntar onde ficavam as coisas decididamente não era uma opção válida.
nEm bares, o Watson, fazia sucesso, conquanto seguisse de boca fechada. Era até que bem apessoado e não raramente recebia olhares lânguidos de mulheres prontas a serem saciadas. Mas era abrir a boca para ouvir todo o tipo de desculpa como "preciso ir ao banheiro" e pronto. Iam ao banheiro como aquele marido que ia comprar cigarros e nunca mais voltavam. O pior é que nem a saída óbvia para o alívio dos desejos mais animais de um homem era-lhe possível. Nos puteiros da vida, o pobre Watson não chegava nem a discutir o preço. Muito antes disso, aquelas pobres mulheres, cheias de culpa, fugiam dele, apavoradas e pedindo perdão a Deus de mãos estendidas aos céus. Diz-se que muitas viraram freiras só por ouvir a voz do fim dos tempos.
Ele tentou algumas táticas que o ajudaram por uns tempos. Como era um grande imitador, Watson muitas vezes recorria a outras vozes para ter sucesso em coisas triviais como ir a uma farmácia – longe do seu bairro, ja que onde morava todos sabiam quem era ele – para comprar aparelhos de barba, mercurio cromo e aspirina. Imitava o Silvio Santos, o Lula, o Francisco Cuoco e até a falecida Aracy de Almeira. Muitas vezes ele imitava vários deles na mesma compra. No inicio achavam engraçado, mas como ele nunca mostrava a voz verdadeira passaram a achá-lo desprovido de razão. Um maluco, enfim.
Watson tornou-se taciturno, recluso, pensou em dar fim a vida. Até que um dia o telefone tocou. Ele olhou para o aparelho pensando em não atender, ja que sempre que depois de falar "alô", seja quem fosse do outro lado da linha prontamente desligava o aparelho. Decidiu então fazer um jogo. Iria atender. Se a pessoa falasse com ele, iria continuar vivendo. Se, como sempre, desligassem na sua cara, iria tirar a própria vida. E outro que noticiasse o seu falecimento na rádio.
- Alô?
- É o Watson, da radio? – fala uma voz feminina do outro lado.
- É ele mesmo.
- Fala mais, fala mais.
Aquele diálogo ja atingira um tempo recorde. Mas uma mulher pedindo para ele falar mais? Com a própria voz?
- Aqui é o Watson. Quem esta falando aí. É trote?
- Ai meu Deus, fala "falecimento" que nem você fala na rádio.
- Minha filha, isso não tem graça.
- Fala, fala, vai. Ta todo mundo esperando aqui.
- Todo mundo quem?
- Meus amigos. O telefone ta no viva voz.
- Falecimento.
Gritos no outro lado do telefone. O Watson,quem diria, tinha uma legião de fãs entre os góticos. Tornou-se celebridade nas festas góticas da cidade. Gravaram até uma música que virou hit entre a tribo. Tinha uma parte que dizia:
"O anjo da morte tem uma voz,
que anuncia o seu fim,
pode ser engasgado com uma noz,
pode ser com um tiro no seu rim"
E depois desse refrão, ouvimos a voz solene do Watson"
"Falecimento".
domingo, 20 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
A Figueira
Henrique andava pelo saguão do aeroporto procurando pelo portão de embarque número dois. Não eram passos decididos, pelo contrário, eram titubeantes e tornavam-se cada vez mais titubeantes à medida em que a hora da decolagem se aproximava. Na verdade suas pernas tinham uma certeza, que era compartilhada com o seu cérebro: ele não queria embarcar. Exatamente como em todas as outras vezes que tinha que voar por força do seu trabalho. Suas pernas desejavam ardentemente levar o resto do corpo para fora daquele aeroporto, para um lugar seguro, ao nível do mar. Mas o seu senso do dever era muito mais forte. Ele odiava aquele senso de dever. Só não o odiava mais do que a idéia de intrometer-se dentro de um avião hermeticamente fechado, alçar vôo e permanecer a dez mil metros de distância do chão por um longo período, o que significava qualquer coisa acima de trinta segundos.
Em seu caminho para a sala de embarque, viu, em néon, três letras que poderiam abrandar o seu sofrimento: bar. Consultou o relógio, que costumava usar no pulso direito. Ainda faltava um bom tempo para a decolagem. Valia a pena parar e tomar um uísque, talvez dois, a fim de tornar aquela viagem mais agradável, ou, melhor dizendo, menos desagradável. O barman trouxe-lhe um duplo. Enquanto bebia, Henrique tentava alcançar o motivo de todo aquele medo que o obrigava a fazer um esforço sobre humano toda vez que precisava voar. Nunca tinha tentado uma análise de sua situação e aquele momento pareceu-lhe muito propício.
Olhando absorto o vai e vem nervoso e apressado dos transeuntes pelo saguão do imenso aeroporto, ele pôs-se a escarafunchar suas memórias algum momento em que puesse ter começado a relação malfadada com as alturas. Lembrou-se da figueira. De uma enorme e frondosa figueira que ficava nos fundos do sítio de seu avô. Quando pequeno, ele sempre teve uma, digamos, alma de explorador. Intrépido e curioso, tinha mania de escalar muros, dunas de areia, árvores só para ver como o mundo era lá de cima. Outro de seus passatempos prediletos era o de se enfiar por encanamentos para ver onde davam. Aquela figueira era o maior dos desafios e ainda vinha com um bônus que a tornava mais desafiadora. O fato de a sua mãe o proibir terminantemente de subir naquela árvore.
Graças a vigilância constante da mãe, ele foi obrigado a suprimir o seu espírito em todas as vezes que visitavam o sítio. Mas, ao contrário de toda a criança, Henrique era paciente. Sabia que um dia a sua mãe iria relaxar a vigilância. E quando aconteceu - ele lembra que fazia um calor infernal naquele dia e a mãe havia pego no sono, deitada em uma rede que ficava no alpendre onde sempre soprava uma aragem agradável – ele não perdeu tempo. Dirigiu-se passo a passo na direção da árvore até chegar a um metro de seu espesso tronco. As raízes enormes que mostravam seu dorso sobre o solo poderiam causar tropicões por quem ali passasse com desatenção. Com o coração acelerado, ele passou mirar a árvore com reverência, de baixo para cima, acompanhando a linha do tronco até chegar a copa que se espalhava para todos os lados num emaranhado de galhos de todos os calibres e folhas de todos os tamanhos, produzindo uma sombra cuja área parecia ter o tamanho de um país. Ele estudou tudo, as saliências na casca, os sulcos, nenhum detalhe que pudesse ajudar em sua escalada passou despercebido. Com o coração ainda mais acelerado, ele começou a sua escalada.
Após os primeiros minutos em que ele quase caiu por duas vezes, a relação entre ele e a figueira atingiu um nível que ele nunca poderia imaginar. Era como se os dois pudessem se entender apesar de pertencerem a reinos tão diferentes na classificação dos seres vivos. Era como se ele e a figueira estivessem em comunhão, algo telepático. Henrique poderia jurar que estava sendo ajudado pela árvore. Sulcos que antes não estavam no tronco passaram a surgir debaixo de seus pés. Saliências simplesmente apareciam do nada, facilitando o apoio de seus pezinhos. Já bem no alto, teve a certeza de que, por duas vezes, galhos se estenderam em sua direção para que pudesse chegar ainda mais alto. Henrique lembrava o júbilo que sentia naquele momento, fazendo o seu peito estufar. Ele era o menino que tinha amigos na natureza. O menino que se comunicava com as árvores. Ele estava chegando ao topo da rainha das todas as árvores. Aquele momento de suprema glória que estava experimentando e que encheria qualquer um de seus amigos de inveja simplesmente se desvaneceu no momento em que ouviu o seu nome gritado de uma maneira seca, irritada e que vinha de muito, mas muito abaixo de onde estava.
O pequeno Henrique virou sua cabeça para aquela voz e os seus olhos encontraram os olhos irritados de sua mãe recém acordada. Depois do choque, da surpresa, ele percebeu que os olhos da sua mãe mudavam de expressão. De irritados passaram lentamente a ficar apreensivos. E também estavam se aproximando, como se ela estivesse flutuando em sua direção. Era claro que isso seria impossível e só poderia estar acontecendo o contrário. Ele é que estava descendo em direção a ela. Ele estava caindo. E, por alguns instantes, isso não pareceu nenhum problema, pois ele sabia que a sua amiga figueira iria salvá-lo. Estava quase certo que ela esticaria um galho e que ele seria salvo de atingir o chão. Mas se a gravidade fazia o seu trabalho, a figueira não. Ele até poderia jurar que a árvore recolhera um ou dois galhos para que ele não pudesse se salvar. Ele atingiu o chão com relativa força. A mãe veio correndo, levantou-o imediatamente e, após apalpá-lo de cima a baixo e disparar um monte de perguntas sobre a sua condição física, percebeu que nada passara de um susto. E a partir daí, a preocupação da mãe foi substituída por aquela irritação anterior. Saiu de lá puxado pela mãe que não cansou de listar um monte de coisas que ele estaria privado de fazer durante toda aquela semana por conta da desobediência. Ele ainda teve tempo de virar para trás e dar uma última olhada na figueira. Ele jura que ela tremia, como que rindo de seu infortúnio. Talvez a figueira fosse mais amiga de sua mãe do que dele afinal. A voz monotônica, vinda dos alto- falantes, anunciavam o embarque do seu vôo. Dirigiu-se para o embarque com o medo de sempre. Mas com um novo objetivo. Voltaria para o sítio e acertaria contas com aquela figueira. E o melhor é que para lá, ele podia viajar de carro.
Em seu caminho para a sala de embarque, viu, em néon, três letras que poderiam abrandar o seu sofrimento: bar. Consultou o relógio, que costumava usar no pulso direito. Ainda faltava um bom tempo para a decolagem. Valia a pena parar e tomar um uísque, talvez dois, a fim de tornar aquela viagem mais agradável, ou, melhor dizendo, menos desagradável. O barman trouxe-lhe um duplo. Enquanto bebia, Henrique tentava alcançar o motivo de todo aquele medo que o obrigava a fazer um esforço sobre humano toda vez que precisava voar. Nunca tinha tentado uma análise de sua situação e aquele momento pareceu-lhe muito propício.
Olhando absorto o vai e vem nervoso e apressado dos transeuntes pelo saguão do imenso aeroporto, ele pôs-se a escarafunchar suas memórias algum momento em que puesse ter começado a relação malfadada com as alturas. Lembrou-se da figueira. De uma enorme e frondosa figueira que ficava nos fundos do sítio de seu avô. Quando pequeno, ele sempre teve uma, digamos, alma de explorador. Intrépido e curioso, tinha mania de escalar muros, dunas de areia, árvores só para ver como o mundo era lá de cima. Outro de seus passatempos prediletos era o de se enfiar por encanamentos para ver onde davam. Aquela figueira era o maior dos desafios e ainda vinha com um bônus que a tornava mais desafiadora. O fato de a sua mãe o proibir terminantemente de subir naquela árvore.
Graças a vigilância constante da mãe, ele foi obrigado a suprimir o seu espírito em todas as vezes que visitavam o sítio. Mas, ao contrário de toda a criança, Henrique era paciente. Sabia que um dia a sua mãe iria relaxar a vigilância. E quando aconteceu - ele lembra que fazia um calor infernal naquele dia e a mãe havia pego no sono, deitada em uma rede que ficava no alpendre onde sempre soprava uma aragem agradável – ele não perdeu tempo. Dirigiu-se passo a passo na direção da árvore até chegar a um metro de seu espesso tronco. As raízes enormes que mostravam seu dorso sobre o solo poderiam causar tropicões por quem ali passasse com desatenção. Com o coração acelerado, ele passou mirar a árvore com reverência, de baixo para cima, acompanhando a linha do tronco até chegar a copa que se espalhava para todos os lados num emaranhado de galhos de todos os calibres e folhas de todos os tamanhos, produzindo uma sombra cuja área parecia ter o tamanho de um país. Ele estudou tudo, as saliências na casca, os sulcos, nenhum detalhe que pudesse ajudar em sua escalada passou despercebido. Com o coração ainda mais acelerado, ele começou a sua escalada.
Após os primeiros minutos em que ele quase caiu por duas vezes, a relação entre ele e a figueira atingiu um nível que ele nunca poderia imaginar. Era como se os dois pudessem se entender apesar de pertencerem a reinos tão diferentes na classificação dos seres vivos. Era como se ele e a figueira estivessem em comunhão, algo telepático. Henrique poderia jurar que estava sendo ajudado pela árvore. Sulcos que antes não estavam no tronco passaram a surgir debaixo de seus pés. Saliências simplesmente apareciam do nada, facilitando o apoio de seus pezinhos. Já bem no alto, teve a certeza de que, por duas vezes, galhos se estenderam em sua direção para que pudesse chegar ainda mais alto. Henrique lembrava o júbilo que sentia naquele momento, fazendo o seu peito estufar. Ele era o menino que tinha amigos na natureza. O menino que se comunicava com as árvores. Ele estava chegando ao topo da rainha das todas as árvores. Aquele momento de suprema glória que estava experimentando e que encheria qualquer um de seus amigos de inveja simplesmente se desvaneceu no momento em que ouviu o seu nome gritado de uma maneira seca, irritada e que vinha de muito, mas muito abaixo de onde estava.
O pequeno Henrique virou sua cabeça para aquela voz e os seus olhos encontraram os olhos irritados de sua mãe recém acordada. Depois do choque, da surpresa, ele percebeu que os olhos da sua mãe mudavam de expressão. De irritados passaram lentamente a ficar apreensivos. E também estavam se aproximando, como se ela estivesse flutuando em sua direção. Era claro que isso seria impossível e só poderia estar acontecendo o contrário. Ele é que estava descendo em direção a ela. Ele estava caindo. E, por alguns instantes, isso não pareceu nenhum problema, pois ele sabia que a sua amiga figueira iria salvá-lo. Estava quase certo que ela esticaria um galho e que ele seria salvo de atingir o chão. Mas se a gravidade fazia o seu trabalho, a figueira não. Ele até poderia jurar que a árvore recolhera um ou dois galhos para que ele não pudesse se salvar. Ele atingiu o chão com relativa força. A mãe veio correndo, levantou-o imediatamente e, após apalpá-lo de cima a baixo e disparar um monte de perguntas sobre a sua condição física, percebeu que nada passara de um susto. E a partir daí, a preocupação da mãe foi substituída por aquela irritação anterior. Saiu de lá puxado pela mãe que não cansou de listar um monte de coisas que ele estaria privado de fazer durante toda aquela semana por conta da desobediência. Ele ainda teve tempo de virar para trás e dar uma última olhada na figueira. Ele jura que ela tremia, como que rindo de seu infortúnio. Talvez a figueira fosse mais amiga de sua mãe do que dele afinal. A voz monotônica, vinda dos alto- falantes, anunciavam o embarque do seu vôo. Dirigiu-se para o embarque com o medo de sempre. Mas com um novo objetivo. Voltaria para o sítio e acertaria contas com aquela figueira. E o melhor é que para lá, ele podia viajar de carro.
sexta-feira, 4 de março de 2011
As ligações do Cavinato
O Cavinato é um imã que atrai problemas de toda sorte. É o mais argentino dos brasileiros. Na verdade, é mais argentino do que milhões de argentinos. Tema para uma coletânea de tangos. Joguete das pequenas tragédias do dia a dia. Um boneco manejado pelas mãos frias e habilidosas da desventura.
Cavinato, não chorou ao nascer pelo motivo usual: a invasão do ar em seus pulmões. Seu choro foi uma reclamação veemente contra o médico que o tirou do conforto de seu lar e ainda era um desajeitado que o segurava pendurado de ponta cabeça. Fato é que desde então, Cavinato tem a mais plena convicção que há um complô orquestrado contra ele em quase toda a empreitada na qual se mete.
Esta crença o tornou uma pessoa viciada. Mas não pense que o seu vício são as anfetaminas, ervas indígenas que nos fazem ver espíritos brotando do chão ou bebidas com teor alcoólico acima de 40%. Cavinato viciou-se em outra droga, só que aí, a palavra droga pode ser usada em seu duplo sentido. Ele é viciado em ligar para Serviços de Atendimento ao Cliente. Não passa dia sequer sem ligar para um SAC.
Suas ligações tornaram-se celebres entre os seus colegas, ja que hoje em dia, nas corporações modernas, a parede é um conceito praticamente extinto e você é obrigado a ouvir coisas da vida alheia das quais poderia ser poupado. Mas, as ligações do Cavinato são a exceção a esta regra. São uma atração. Como daquela vez em que tentou relatar um chiado na sua linha telefônica.
- Luiza Mota atendimento ao cliente em que posso ajudar?
- Eu estou com um problema na minha linha telefônica.
- Qual a natureza do problema?
- Um chiado. Não da pra ouvir nada que o outro fala.
- O senhor quer que eu fale mais alto então?
- Por que diabos a senhora falaria mais alto?
- Porque o senhor disse que tem um chiado na sua linha e que mal ouve o que se fala do outro lado dela, meu senhor.
- Dona Luiza, a esta hora da manhã, presume-se que eu esteja no trabalho, portanto a senhora não precisa gritar.
- Pois não eu vou estar passando para a nossa área técnica, o senhor, por favor, aguarde um minutinho?
- Ah, não…
- Como, senhor?
- A senhora está tentando me enganar usando o diminutivo de minuto, achando que isso terá efeitos tranquilizantes sobre mim.
- Não entendi, senhor.
- Por acaso o minutinho é um minuto de 40 segundos e por isso a senhora acrescenta este “inho”?
- Não, claro.
- Exato. Eu não sou suscetível a essa tentativa torpe de me enganar com o que eu chamo de “expressões tranquilizantes”. Um minuto é um minuto em qualquer ponto do planeta terra. Leva sessenta segundos até começar o outro minuto. Não tente me enganar acrescentando um “inho” na tentativa de me tranquilizar.
- Pois não, senhor, então eu estarei passando para a nossa área técnica que vai atendê-lo em um minutinho…
- Minha senhora eu acabei de falar… alô…alô…
Voz gravada dizendo o quanto a ligação do Cavinato é importante mesclada com uma música do Keny G em looping até o área técnica atender.
- Area técnica, Claudio Lins. Com quem eu falo?
- Claudio Lins, por favor, quantos segundos tem um minutinho?
- Como, senhor?
- Quantos segundos tem um minutinho?
- Acredito que sessenta senhor.
- O que é o mesmo que um minuto, certo? Um minutinho e um minuto têm sessenta segundos, correto?
- Ã…correto.
- Não, Cláudio Lins, errado. Um minutinho é uma unidade de tempo cujo conceito é bem elástico, porque a sua colega Luiza disse que até você atender ia levar um minutinho, numa tentativa clara de me enganar, passando a idéia de que talvez um minuto tivesse 40 segundos ou quem sabe até menos, coisa que, aliás, disse a ela que não existia. Mas eis que eu descubro que o minutinho de vocês leva 8 minutos e 37 segundos na unidade de tempo do mundo real, que vem a ser o meu, aqui do outro lado da linha.
- É que hoje estamos tendo muitas ligações…
- Eu não estou discutindo o número de ligações que vocês estão recebendo hoje e sim a medida da unidade de tempo que, me parece, é uma aí e outra aqui, inclunido o fato de existirem minutos que deviam levar 40 segundos ou menos e por isso são chamados de minutinhos, mas que na pratica levam mais de 8 minutos, o que pra nós aqui no mundo real levaria o nome de minutão.
- Certo, senhor, o senhor tem toda a razão.
- Ah…finalmente uma voz sensata. Muito obrigado então.
E desligou o telefone sem resolver o problema do chiado, contente que ficou por alguém ter dito que ele tinha razão.
Cavinato, não chorou ao nascer pelo motivo usual: a invasão do ar em seus pulmões. Seu choro foi uma reclamação veemente contra o médico que o tirou do conforto de seu lar e ainda era um desajeitado que o segurava pendurado de ponta cabeça. Fato é que desde então, Cavinato tem a mais plena convicção que há um complô orquestrado contra ele em quase toda a empreitada na qual se mete.
Esta crença o tornou uma pessoa viciada. Mas não pense que o seu vício são as anfetaminas, ervas indígenas que nos fazem ver espíritos brotando do chão ou bebidas com teor alcoólico acima de 40%. Cavinato viciou-se em outra droga, só que aí, a palavra droga pode ser usada em seu duplo sentido. Ele é viciado em ligar para Serviços de Atendimento ao Cliente. Não passa dia sequer sem ligar para um SAC.
Suas ligações tornaram-se celebres entre os seus colegas, ja que hoje em dia, nas corporações modernas, a parede é um conceito praticamente extinto e você é obrigado a ouvir coisas da vida alheia das quais poderia ser poupado. Mas, as ligações do Cavinato são a exceção a esta regra. São uma atração. Como daquela vez em que tentou relatar um chiado na sua linha telefônica.
- Luiza Mota atendimento ao cliente em que posso ajudar?
- Eu estou com um problema na minha linha telefônica.
- Qual a natureza do problema?
- Um chiado. Não da pra ouvir nada que o outro fala.
- O senhor quer que eu fale mais alto então?
- Por que diabos a senhora falaria mais alto?
- Porque o senhor disse que tem um chiado na sua linha e que mal ouve o que se fala do outro lado dela, meu senhor.
- Dona Luiza, a esta hora da manhã, presume-se que eu esteja no trabalho, portanto a senhora não precisa gritar.
- Pois não eu vou estar passando para a nossa área técnica, o senhor, por favor, aguarde um minutinho?
- Ah, não…
- Como, senhor?
- A senhora está tentando me enganar usando o diminutivo de minuto, achando que isso terá efeitos tranquilizantes sobre mim.
- Não entendi, senhor.
- Por acaso o minutinho é um minuto de 40 segundos e por isso a senhora acrescenta este “inho”?
- Não, claro.
- Exato. Eu não sou suscetível a essa tentativa torpe de me enganar com o que eu chamo de “expressões tranquilizantes”. Um minuto é um minuto em qualquer ponto do planeta terra. Leva sessenta segundos até começar o outro minuto. Não tente me enganar acrescentando um “inho” na tentativa de me tranquilizar.
- Pois não, senhor, então eu estarei passando para a nossa área técnica que vai atendê-lo em um minutinho…
- Minha senhora eu acabei de falar… alô…alô…
Voz gravada dizendo o quanto a ligação do Cavinato é importante mesclada com uma música do Keny G em looping até o área técnica atender.
- Area técnica, Claudio Lins. Com quem eu falo?
- Claudio Lins, por favor, quantos segundos tem um minutinho?
- Como, senhor?
- Quantos segundos tem um minutinho?
- Acredito que sessenta senhor.
- O que é o mesmo que um minuto, certo? Um minutinho e um minuto têm sessenta segundos, correto?
- Ã…correto.
- Não, Cláudio Lins, errado. Um minutinho é uma unidade de tempo cujo conceito é bem elástico, porque a sua colega Luiza disse que até você atender ia levar um minutinho, numa tentativa clara de me enganar, passando a idéia de que talvez um minuto tivesse 40 segundos ou quem sabe até menos, coisa que, aliás, disse a ela que não existia. Mas eis que eu descubro que o minutinho de vocês leva 8 minutos e 37 segundos na unidade de tempo do mundo real, que vem a ser o meu, aqui do outro lado da linha.
- É que hoje estamos tendo muitas ligações…
- Eu não estou discutindo o número de ligações que vocês estão recebendo hoje e sim a medida da unidade de tempo que, me parece, é uma aí e outra aqui, inclunido o fato de existirem minutos que deviam levar 40 segundos ou menos e por isso são chamados de minutinhos, mas que na pratica levam mais de 8 minutos, o que pra nós aqui no mundo real levaria o nome de minutão.
- Certo, senhor, o senhor tem toda a razão.
- Ah…finalmente uma voz sensata. Muito obrigado então.
E desligou o telefone sem resolver o problema do chiado, contente que ficou por alguém ter dito que ele tinha razão.
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