terça-feira, 27 de novembro de 2012
A mulher de luto
As pessoas na pequena capela se dividiam em dois grupos: fixas e itinerantes. O primeiro estava lá áa muito e só sairia após o sepultamento. O segundo era formado por gente que permanecia entre dez minutos e pouco mais de uma hora e era composto por amigos e alguns parentes mais distantes. O motivo da reunião era o Dr. João Carlos, ocupando um caixão marrom escuro no centro da capela, cercado por quatro lâmpadas que simulavam velas. Via-se duas fileiras de cadeiras de madeira encostadas nas paredes laterais. Os familiares e amigos mais chegados se revezavam na ocupação destas cadeiras. Só a viúva, dona Vicentina, tinha lugar cativo. Todos os presentes, fixos e itinerantes, passaram pela frente dela apresentando gestos de reverência acompanhados de expressões comuns nesta hora triste como “meus pêsames” ou “meus sentimentos”.
Dentro da capela ouvia-se um murmúrio constante, muito baixo, como se todos receassem acordar o morto. Mas, à medida que nos afastássemos em direção ao exterior da capela, o volume das conversas ia aumentando. Ouvia-se de tudo. De discussões acaloradas sobre o sistema tático de um time de futebol funcionar melhor com dois ou apenas um volante até a situação da pobre personagem principal da novela das oito, que desenvolvera um câncer, o que fez com que a atriz que a representava raspasse a cabeça para dar maior dramaticidade ao papel. Em outro bolinho era possível ouvir as teorias econômicas que poderiam salvar o país do marasmo. Dentre as tais medidas, um tiro na cabeça do ocupante da pasta da economia foi aventada com anuência de boa parte dos participantes. Em outra pequena reunião era possível ouvir dicas dos melhores lugares a visitar em Londres “uma cidade encantadora a despeito da sua horrenda culinária”. O pobre Dr. João Carlos pouco ou em nada era lembrado. É que os velórios têm este incrível poder de reunir gente que não se vê há muito, o que torna falar do falecido uma total perda de tempo, até porque isso é missão do padre e seria cumprida com maestria e emoção no momento do derradeiro adeus.
Só que uma pessoa acabaria por mudar o preceito acima descrito. Uma mulher cujo corpo era de uma beleza estonteante. Ela apareceu subitamente, como que por encanto, e se dirigiu em passos firmes, um andar quase de modelo em passarel em direçao ao caixão do falecido. Vestia um conjundo de saia e blazer que delineava as formas do corpo. Segurava uma rosa vermelha na mão direita. Uma enorme e chamativa rosa vermelha. Passou pelos grupinhos formados na frente da capela, altiva, cabelo preso embaixo do chapéu de abas estreitas, deixando um lindo pescoço à mostra. Homens e mulheres viravam a cabeça acompanhando a sua passagem. Embora ninguém abrisse a boca, era possível ouvir a pergunta pairando no ar: quem é esta mulher? Ela entrou na capela e se deteve por alguns instantes ao lado do caixão onde o Dr. João Carlos descansava com uma expressão serena. Todos os olhares voltavam-se para ela. Pensava-se de tudo. “Podia ser neta dele”, “Velho deslavado sem vergonha”. “Onde é que o vovô arranjava tempo, meu Deus”. “Viagra, só pode ser o Viagra”. “Será que ela precisa de alguém para abrandar a tristeza?”. Num gesto pungente, depositou a rosa sobre o peito do Dr. João Carlos para depois ficar imóvel, por mais algum tempo, encarando o falecido com uma expressão triste. Uma lágrima escorreu-lhe pela face e acabou caindo na testa do ocupante do caixão. Ela pegou um lenço de dentro de sua bolsa e enxugou aquela testa marmórea, gélida. Dona Vicentina olhava atônita para aquela cena. Ninguém ousou chegar perto daquela mulher. Ela então se recompôs do choro, virou-se em direção da saída e, com o mesmo passo resoluto, dirigiu-se para fora, passando por entre os grupinhos, cujos integrantes agora reviravam a cabeça para o lado inverso num efeito dominó provocado pelo seu gracioso movimento.
Assim que ela sumiu da vista, o burburinho recomeçou, transformando-se rapidamente em uma verdadeira parafernália de vozes. Não havia mais assuntos diferentes como a pouco. O tema era único: a mulher de luto. Finalmente, todos no velório falavam - mal ou bem - do morto. Dona Vicentina quase desmaiou, sendo acudida pela irmã que a abanava com uma revista, pedindo freneticamente para alguém trazer um copo de água. Os dois filhos precipitaram-se ao mesmo tempo cada um com um copo de água nas mãos e por pouco não se chocaram. A outra irmã de dona Valentina parou ao lado do caixão e, no meio daquela confusão, tirou a rosa do peito do falecido, dizendo poucas e boas para ele em voz baixa. Jogou a prova da traição na lata do lixo. Até frequentadores dos velórios vizinhos vieram saber do morto que tivera a traição revelada na cerimônia de despedida.
Quanto à mulher, entrou no seu carro, pegou o jornal e consultou a página de obituários. Marcou com um x o anúncio de velório e enterro do Dr. João Carlos. Ao lado deste, havia outro anúncio: Anastácio Almeida. Querido avô, dedicado pai, amado marido. Estava sendo velado naquele exato momento em outro cemitério. Foi então que percebeu um florista vendendo rosas lindas, vermelhas, ainda mais bonitas do que aquela com a qual tinha entrado no velório do Dr. João Carlos. Saiu do carro, foi até o florista e escolheu a mais vistosa. Duvidava encontrar uma rosa como aquela no cemitério onde estava sendo velado o tal Anastácio Almeida.
Oportuniade 2
O redator ligou para o diretor de arte ainda a caminho
da agência de publicidade onde trabalhava. Estava excitado e nem percebeu a
multa que lhe foi aplicada por estar falando ao celular e dirigindo ao mesmo
tempo. E se tivesse percebido, tanto faria. Ele estava inebriado, de um jeito
que só quem tem idéias que acha grandiosas pode ficar. Era um “insight genial”,
segundo suas palavras. Genial era, aliás, a sua palavra predileta. Usava-a
muito mais urante um dia do que sabonete para lavar as mãos. Do lado de lá do
telefone, o diretor de arte tentava falar mas o ele não deixava. Sua boca era
uma mangueira descontrolada a jorrar palavras. Ele tivera uma idéia para um
anúncio que seria “o mais tocante e relevante da história da propaganda”. Mas tudo
devia ser muito bem feito, o layout devia ajudar a potencializar a
“dramaticidade da peça.” Mandou a idéia com texto ja esboçado, pelo e-mail do
celular, para que o colega já pudesse ir pensando em como tasnformar a idéia em
peça palpável e memorável. Este estava empolgadíssimo com o que acabara de
ouvir. Iria se jogar com afinco ao projeto. Ia ser realmente genial. Uma obra
da propaganfa impressa que poderia catapultar aquelas duas jovens de promessas
a grandes nomes. Com direito a sobrenome.
O anúncio era uma reflexão sobre os valores deturpados
disceminados pelo país, usando a morte de uma grande dama da dramaturgia, que
por suas ações, que iam além das novelas e do teatro, tinha um significado
muito maior do que a própria carreirra. Tratava-se de uma dama. Uma diva. Uma
heroína nacional. O anúncio era econômico nas palavras, mas com a imagem que se
imaginava para complementar aquelas poucas palavras, tornaria-se a mensagem arrasadora
e pungente. Só havia uma pequena questão. Uma pedra no sapato. Um percalço a ser superado. A grande dama, motivo
do anúncio póstumo, ainda não havia morrido.
Não fazia a menor diferença no momento. O importante era
acabar a peça. Quando o redator entrou na agência, o diretor de arte já tinha
um esboço na tela do computador. “Não estou feliz com essa foto”, pondera o
diretor de arte, com a concordância do redator. A peça está ali, mas falta a
foto que vai transformar aquele bom anúncio em algo arrebatador. Os dois se
jogaram numa louca pesquisa e, finalmente, o diretor de arte acabou lembrando
de uma foto em que a atriz está em cena numa representação de A Megera Domada.
Aquela foto, em preto e branco, era a o encaixe perfeito. A expressão no rosto,
a nuância dos tons de cinza e a força do próprio personagem eram as palavras não escritas que
completavam o todo com uma força incomparável. Uma hora depois, o anúncio
estava inteiro na tela do computdor. Era mesmo arrasador, implacável e ao mesmo
tempo suave. Aquela era uma peça que iria para o Hall da Fama da publicidade.
Eles estavam convencidos disso. Mas, mais uma vez, tinha aquele pequeno, mas
decisivo porém. A grande dama estava viva e gozava de boa saúde. E sem a sua
providencial morte, o anúncio permaneceria encarcerado em um arquivo de
computador. Estaria privado de ser compartilhado com o mundo.
Passavam-se os dias, as semanas, os meses. O redator e o
diretor de arte passaram a sofrer imensamente com a situação. Abriam, vez por
outra, na tela, o anúncio fatídico. Comtemplavam-no e, tristonhos, o guardavam
novamente naquele mesmo arquivo no computador. A grande dama continuava viva e
cada vez mais saudável. Atuava em uma peça de estrodoso sucesso. Aquele anúncio
levaria anos para conhecer as páginas de uma revista. Disso não tinham dúvidas.
A carreria dos dois não poderia esperar por tanto tempo. Era isso que pensava o
redator, que, diferente do diretor de arte, estava obsecado com a idéia de
fazer o anúncio ser visto.
Um dia, completamente cego por essa obsessão, o redator
volta para casa decidido. Ja em seu apartamento, passou a procurar um gorro de
lã, que deixava apenas os olhos a mostra, que ele tinha certeza que ainda
tinha. Acabou encontrando-o. Vestiu e colocou um óculos escuro. Estava
irreconhecível. Abriu o seu armário e tateou a parte superior até encontrar uma
caixa. O conteúdo da caixa era uma herança do seu pai: uma pistola prateada. Tirou
a pistola da caixa de madeira. Acariciou-a, limpou-a e, em dado momento, pode
ver seu reflexo meio difuso e disforme no cano canelado da arma.
Colocou tudo no bolso do seu sobretudo e dirigiu-se ao
teatro. Assistiu a peça interia e pode constatar o talento daquela mulher. Ele
precisava estar la e presenciar aquela apresentação especial. Ao final da peça
acompanhou a multidão e foi par a saída. Mas, ao invés de ir para casa,
permaneceu nos arredores do teatro. Foi, mais precisamente, para a saída que
ficava nos fundos do teatro, que era por onde os artistas deixavam a casa de
espetáculos. Vestiu o gorro, colocou os óculos e encostou-se em uma parede,
imiscuindo-se a sombra. Ao ver o movimento dos atores saindo pela porta, vislumbrou
a atriz, que mostrava um sorriso de satisfação por uma apresentação de gala.
Ela carregava buquês de rosas, Mais de um, presentes de admiradores de seu
trabalho e de seu carisma. O redator, com a mão direta no bolso do sobretudo,
acariciava a pistola, como se ela fosse o seu bichinho de estimação mais
querido. Aquele sorriso era por demais parecido com o da foto de arquivo do
anúncio que, em breve, estaria nas páginas da revista. Aquele pensamento o
encheu de coragem. Andou decidido em direção ao grupo de atores, sacou a arma e
atirou em direção a eles. Acertou os três. Deu um tiro na cabeça de cada um
para confirmar. “Mais uma cena lamentável da violência urbana”, pensou ele, não
com a sua própria voz, mas a voz de um dos apresentadores sensacionalistas dos
burlescos jornais de casos de polícia. Saiu caminhando resoluto, excitado, com
a adrenalina sendo injetada em seus vasos sanguíneos, disanciando-se dos três
corpos no chão. Ao dobrar a esquina da rua vazia e sumir da cena do crime,
ouviu gritos ao longe. Os corpos foram descobertos. Ele abriu um sorriso por
debaixo do gorro. O pequeno problema deixara de exisitir. O anúncio ia se
libertar, finalmente, do seu cárcere eletrônico.
Fidelidade
- Crepitar?
- Essa é boa.Realmente muito boa.
- E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
- Deve ter. Deve ter, vamos ver…
- Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
- Pomposo.
- Quem? Eu?
- Não, pomposo é uma palavra fiel.
- Sob que critério.
- Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
- Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
- É tem razão. Mas tem que ter outra.
- Firula. Firula é concorrente séria.
- Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
- Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
- Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
- Certo, certo. Corretíssimo.
- Então tá, onomatopéia não vale.
- Combinado. Ah, olha essa: altivo.
- Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
- É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
- Perde feio.
- Goleada acachapante?
- Opa, acachapante é boa.
- Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
- É boa…é boa.
- Mas não como crepitar.
- Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
- E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
- Inglês não. É contra as regras.
- E que tal diáfana.
- Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
- Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
- Então, crepitar continua soberano.
- Bruxuleante.
- O que?
- A luz bruxuleante das velas.
- Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
- Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
- Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
- Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
- Será?
- Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
- Acho que temos um empate.
- Então, empatado está.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
O Vestidinho Verde
Ele lia a sua revista calmamente no sofá da sala, aproveitando o começo da noite de sábado. O único som que ouvia era um eventual estalo do gelo em seu copo de Jack Daniels sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona. Um silêncio que acalentava, abraçava, acolhia. A matéria da revista falava algo sobre pessoas que começaram a desenvolver técnicas para a fabricação de diamantes. Muito interessante. Ele praticamente devorava o artigo. Pegava o copo e dava um gole aqui, outro ali sem tirar os olhos da revista. Naquele instante, precioso, divino, o mundo era a pura perfeição. Respirava com êxtase, a alegria entrando pelas narinas e preenchendo seus pulmões. Nada seria capaz de quebrar o encanto daquele momento. A simplicidade como fonte de prazer. A não ser, claro, o fato de a sua filha de dezesseis anos estar descendo a escada trajando um mini vestido verde. O “toc – toc” do salto da sandália da filha delatando a sua descida pela escada. Ele tirou os olhos da revista e virou-se na direção do som. Estancou o olhar. Todo o seu bem estar esvaneceu-se como que por encanto. Ele podia jurar que viu a sua menina subindo a escada dizendo que ia se aprontar para a festa a fantasia. Agora, vê uma mulher descendo a escada. Uma mulher irritantemente maravilhosa, perturbadoramente encantadora. Olhou fixamente para o rosto dela para certificar-se de que era mesmo a sua filha. Havia uma grande esperança de que fosse uma amiga dela, mais liberada para usar um vestidinho daqueles. Não, não era.
- Alto lá – ordena. – Que roupas são essas?
- A minha fantasia, pai – a filha responde naturalmente – pra festa.
- Minha filha, fantasia é cowboy, bataman, palhaço, anos 30, por exemplo, mas isso?
- Então, pai, eu estou indo de anos 70.
Suas pernas ficam bambas. Não bastasse sua filha naqueles trajes diminutos, ele se dá conta de que os seus amados anos 70, quando vicejaram Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, quando ele jogava futebol na escola e o corpo fazia o que o cérebro ordenava, tudo tinha virado passado. Um passado distante. Tão distante que nem tocava na existência de sua própria filha. Era motivo de fantasia em uma festa. Ele se irritou com aquela constatação acachapante, inconteste. Não estava ficando velho. Estava velho.
- Anos 70 o escambau – esbravejou. - Não com esse vestido.
- Mas pai, a mamãe me ajudou.
- Sua mãe? Ela nunca usou um vestido reduzido como esse.
- Mas esse vestido é dela – explica – aliás, ela disse que você adorava.
Sim, o vestidinho verde que a Joana usava e ele adorava. Ficava louco. A Joana tinha pernas lindas. Na verdade ainda tem, mas no tempo em que namoravam, eram as melhores pernas da escola. O pai dela, seu Bernardo, reclamava muito quando ela vestia aquele mini vestido verde. Seu Bernardo – que na época tinha a idade que ele tem agora – discutia com a dona Clarissa e ele só ficava ouvindo. A Dona Clarissa sempre contemporizava, dominava a ira do seu Bernardo com paciência e conversa. Ele adorava, quer dizer, idolatrava a sogra. Dona Clarissa sempre esteve adiante do seu tempo, bem informada das coisas pertinentes ao mundo da filha e dos amigos da filha. Era perfeitamente capaz de manter uma conversa com qualquer um da turma. Eles até esqueciam que era a mãe da Joana e só eram alertados quando soltava um ou outro termo que pensava ser moderno. O seu preferido era o “prafrentex”. Mas ela era tão bacana que todo mundo perdoava. Mas agora, olhando a própria filha com aquele vestidinho verde, não tinha mais tanta certeza se a sogra era assim tão boa influência.
- Ela disse? Bom, ela está enganada – gagueja, – Eu gostava era de outro vestido verde.
- Pai, eu sei quando você está mentindo.
- Eeeeeeeeeeeu?
- Você sempre levanta a sobrancelha direita quando mente.
- Quem disse isso pra você?
- Ué, foi a...
- Não responde. Não responde. Já sei.
- Então? É ou não é aquele vestidinho verde que você adorava?
- Parece que é. – Diz contrariado. – Mas na sua mãe não tinha esses dois quilômetros de perna aparecendo.
- Não exagera, Arnaldo – intromete-se Joana descendo a escada – O vestido ficou uma graça nela.
- Mas ela é muito mais alta do que você. Logo ele está muito mais curto. Olha essas pernas, Joana.
- Não são lindas?
- Implicância não. – Irrita-se. – Filhinha, sua mãe tem uma bata indiana muito mais anos 70 do que esse vestido.
- Puiu, Arnaldo. A bata indiana que o papai adorava e que me cobria do pescoço até as canelas puiu.
- Eu vou com o vestido verde, pai. Ele tá o máximo.
- O mínimo. Você quer dizer o mínimo.
- Não seja incoerente Arnaldo. – Irrita-se Joana. - Se era bom pra você na época, é bom pra você agora.
- A incoerência é uma qualidade, Joana. Incoerência significa mudança. Tudo nesse mundo muda. Eu mudei. Eu evoluí.
- Isso não é evoluir, é virar a casaca.
- Nada me convence a deixar a menina ir a festa com esse vestido.
- Mãe! – Desespera-se a filha
- Sem pudim de leite.
- Golpe baixo não, Joana. Golpe baixo não.
- Ou ela vai a festa assim ou nunca mais você vai comer meu pudim de leite.
- Hoje vai ter?
- To indo pra cozinha.
A festa foi ótima. O vestidinho verde foi um sucesso. E o Arnaldo comeu todo o pudim naquela noite mesmo. Ele tinha que fazer alguma coisa enquanto esperava a menina chegar em casa.
Metade relato, metade baseado em fatos.
O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Benett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase "thank you, I`m flattered, but I´m straight".
Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.
- Desculpe, mas de onde são vocês¿
- Brasil – respondeu minha filha.
- Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco¿
- É. E você, mora aqui no bairro¿
- Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
- Guerra com você mesmo¿
- Isso
- Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.
- Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis. Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lutar contra aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho, aliás, a saída que a maioria das pessoas como eu usávam na época. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão, assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Ao voltar para casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava na guerra, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois, sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, as dúvidas, os medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso¿ Que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para eles não passarem o que eu passei fiz o que devia ter feito há anos: assumi. Casei de novo e hoje vivemos todos aqui, neste belo bairro.
Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes.
Uma Saudade
Andava pelas ruas da pequena cidade com uma
alegria que estufava o seu peito. Para todo lado que olhasse deparava-se com a
simplicidade encarando-o de volta, mostrando seu sorriso sadio e os seus olhos
leves. A simplicidade. A verdadeira só era possível de ser encontrada em
lugares como aquele. Respirou fundo e abriu um sorriso do nada. Um ar gélido
entrou elas suas narinas e espalhou para dentro do seu corpo um revigorante
aroma que tinha a intenção inicial de ser doce, mas que no final revelava um
amargo suave dos pinheiros que estavam por todo o lugar como guardiões atentos.
Duas crianças brincavam e os seus rostos eram duas bolas vermelhas emolduradas
por cabelos de um amarelo ouro que em nada lembrava a artificialidade dos
cabelos que estava acostumado a pousar os olhos no seu antigo lar. Lembrou-se
do brilhante ternura de Lupicínio Rodrigues. “É por isso que eu gosto lá de
fora. Porque sei que a falsidade não vigora”.
Chamava a sua atenção o fato de que era capaz
de ouvir os seus próprios passos, enquanto caminhava. Aliás, ouvia muito mais
do que isso. Os sons que o seu corpo produzia eram perfeitamente audíveis vez
por outra. Um roncar provocado pela digestão não lhe passava despercebido,
antes ocultado por alguma buzina ou ronco de ônibus e de multidões frenéticas
com que dividia espaços ínfimos.
A brisa, também gélida, sussurrava em seu
ouvido. Ainda não entendia bem o que dizia, mas, de alguma forma, gostava do
que ela dizia. Sentia-se alentado. Nunca ouviu tantos boa tarde de tantos desconhecidos
que o presenteavam com com sorriso aberto, um contraste imenso com aquelas que
fizeram parte de sua vida anterior, as quais nem lhe dirigiam o olhar, apesar
de ocuparem o mesmo andar que ele por mais de oito horas por dia.
Sentia que velhos hábitos e pensamentos
começavam a esvair-se lentamente de sua mente, tornando-se sendo levado para
longe pelo ar saudável. As luzes dos postes de rua começavam a espocar numa
salva de boas vindas à noite que chegava sorrateira. Elas se confundiam com as estrelas
que começavam a aparecer no céu. As estrelas. Deteve-se por um instante para
ficar olhando para o firmamento. As estrelas apareciam uma a uma, depois aos
pares, como se uma mão invisível usasse uma caneta para fazer pontos brilhantes
aleatoriamente no céu. Deu-se conta do espetáculo que era o anoitecer. Quando a
noite se completou, recomeçou a sua caminhada.
Entrou em sua nova casa. Ela também sorria.
Abriu um vinho. Sentou-se no alpendre e, dando pequenos goles, entregava-se ao
prazer de estar matando uma saudade que havia no seu peito há muito. Uma
saudade esquisita, ja que nunca vivera naquele lugar. Em vez disso, aquele
lugar é que vivia dentro dele por anos e anos, chamando-o a cada dia em que se
entregava a inércia caudalosa e confusa do progresso pessoal. Levantou uma taça
de vinho e brindou o velho Lupicínio.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Dispensas
Foi acordado as seis e quinze da manhã por um terremoto de 7.5 graus
na escala Richter, ocorrido na China, e que ja tinha um número parcial de
vítimas fatais que passava dos dez mil, segundo a voz alarmista que saía do seu
rádio relógio na cabeceira da cama. Levantou-se a muito custo e, cambaleante, foi
para o seu banho matinal.
Já na cozinha, ligou a tv enquanto tomava seu café a tempo de
assistir relatos com imagens impressionantes de uma nova chacina ocorrida “em
mais uma madrugada violenta da cidade” segundo o âncora do jornal da manhã.
Desta vez, dois homens em uma moto haviam disparado contra um grupo de quatro
rapazes que ocupava a mesa de um bar na periferia da cidade. Morreram, todos.
Dois menores. Desligou a tv, deu o último gole de café, pousou a xícara na pia
da cozinha e se dirigiu para a porta de saída.
Ao abrir, viu, como de costume, o jornal que assinava sobre o
capacho. Na capa, em letras garrafais, uma pesquisa mostrava que menos de 11%
dos deputados compareceram a 100% das sessões no Congresso Nacional. Durante o
trajeto do elevador até a garagem, o texto relativo à manchete dava conta de
que mesmo assim eles receberam como se estivessem comparecido a todas elas.
No carro, foi ligar o rádio e ja encontrar noticia que dava conta de
que o clima o Oriente Médio havia ficado ainda mais tenso com a negativa do Irã
em permitir que as eleições no país fossem acompanhadas por delegados da ONU.
Os Israelenses, por conta disso, passaram a colocar sua aeronáutica em alerta e
a fazer vôos sobre territórios vizinhos, provocando um protesto formal da Síria
e da Arábia Saldita.
Ao chegar no prédio da empresa, pegou o elevador e a televisão,
alojada no canto superior, no interior do veículo, trazia a noticia de que a
crise financeira que assolava os americanos tinha consequências sérias na
América Latina, inclusive no Brasil, que, segundo previsões do mercado, estava
prestes a entrar em uma recessão.
Entrou no escritório em profundo mau humor, tanto que não respondeu
o bom dia de sua secretária. Sentou-se na sua mesa. Quando a secretária entrou,
pronta para passar a sua agenda do dia, sofreu uma reprimenda monstruosa. A
mulher saiu tão diminuída da sala, e aos prantos, que pensava seriamente em
pedir demissão. Passou o dia inteiro a fazer grossuras semelhantes com os
subordinados. Do nada. E então, ao olhar o seu rosto no espelho, deu-se conta
do que estava acontecendo. Tomou uma decisão drástica. Despertaria toda a manhã
por uma rádio só de música. No carro, colocaria o seu MP3 com seus audiobooks.
Cortou a assinatura do jornal e, no café da manhnã, prezaria pelo silência, sem
televisão ligada no jornal da manhã. A princípio, achou que viver alienado
assim poderia lhe ser prejudicial. Mas manteve-se firme em suas decisão. Faria
isso por três meses, como experiência.
-x-
Os três se passaram e as melhoras haviam sido sensíveis. Sentia-se
leve e acordava com muito mais disposição pela manhã. Descobriu coisas novas
como um sabiá que cantava em sua varanda sempre que tomava café e antes tinha o
som do seu canto obliterado pelo som das más notícias que vinham da televisão.
Ao abrir a porta da frente quando ia para o trabalho deparava-se
apenas o seu capacho, onde lia sempre o bem vindo de ponta cabeça, ao invés de
uma manchete macabra do jornal do dia. Passou a ler mais romances no lugar
destes jornais e revistas semanais e notou que o assunto de suas conversas em momentos
de lazer havia mudado de tom. Aliás, graças a esta leitura mais, digamos,
erudita e rica, estava conversando com mais mulheres do que homens, o que
influiu diretamente no seu desempenho sexual.
No trabalho, a sua secretária, aquela que havia sido escorraçada de
sua sala, imprecionava-se com os sorrisos que ele distribuía a todos. Ele até
lembrou o aniversário da filha dela e trouxe um presente para a menina.
Quanto ser prejudicado pelo fato de não estar a par de nada que
acontecia no mundo, percebeu que tudo não passava de falácia. O que era mesmo
importante chegava aos seus ouvidos e, o que ele achou sublime, sem opinião de
nenhuma sumidade do jornalismo especializado em economia, esporte, lazer ou
cultura.
O mundo era outro. Ele era outro, muito melhor e mais saudável, o
que provara oúultimo teste de colesterol a que se submetera. Passou a correr e
nadar na academia. Perdera gordura e ganhara musculatura. Sua postura era de um
vencedor. Parou de andar encurvado, como se tivesse tirado um peso das costas.
E, quando o celular tocou no meio de um jantar com uma das colegas da academia
não o atendeu. Desativou-o e pensou naquele aparelho como o próximo da sua
lista de dispensas.
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