domingo, 28 de novembro de 2010

A pertinência dos garçons 1

Casal na mesa 15

Ele:
- Então o que achou?
Ela:
- Ai, Marcelo, que lugarzinho lindo!
Ele:
- Romântico, não?
Ela:
- O que você está querendo, hein?
Ele:
- Ué, um namorado não pode levar a namorada pra jantar num restaurante bacana?
Ela:
- Eu sei, eu sei. Afinal a gente ja está a cinco a os juntos não é?
Ele:
- Cinco anos é um momento decisivo numa relação, não é?
Ele:
- Você ta parecendo ansiosa. Tudo bem?
Ela:
Ai, Marcelo, fala logo.
Ele:
Marisa, o que você tem?
Ela:
Tá bom, tá bom... vou entrar no jogo e esperar o momento.
Ele:
Que momento, meu Deus?
O garçon chega:
- O senhor deseja fazer o pedido agora?




O empreiteiro e o burocrata na mesa 7

Empreiteiro:
- Então, posso contar com essa ponte?
Burocrata:
- Bem…
Empreiteiro:
- Bem? Como assim, “bem”?
Burocrata:
- Tem muita gente interesada na ponte.
Empreiteiro:
- Você não disse que ia ser fácil?
Burocrata:
- Eu disse que ia ser “aparentemente” fácil.
Empreiteiro:
- Isso não está me cheirando nada bem.
Burocrata:
- (risos)
Empreiteiro:
- Qual é a graça?
Burocrata:
- Aparentemente você devia estar acostumado com o cheiro no nosso negócio, não?
Empreiteiro:
- Piadista agora? Tudo bem, tudo bem. O que eu preciso fazer?
Neste momento chega o garçon:
- A comissão não está incluída na conta. Posso cobrar?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Entrevista com Janaína

Janaína é um nome fictício. Ela hoje se diz uma mulher recuperada, plena, completa, mas com um único e pequeno probleminha. Ainda não contou para sua namorada que se entregou de corpo e alma a um homem, o que seria considerado muito mais do que traição pela parceira. Seria um crime muito acima do hediondo. Daí o nome fictício. Mas Janaína não voltou ao sexo com plug natural por um homem qualquer. Muitos já tentaram, até porque trata-se de uma mulher arrebatadora, para dizer o mínimo. Janaína se entregou para ninguém menos do que JJ. Claro, não surpreende. Mas intriga. O maior troféu que a maioria dos homens gostaria de ter, junto com sexo anal e grupal, seria trazer uma lésbica de volta aos bons tratos masculinos. Pois bem, meu caro machão. O fato é justamente esse: JJ não trata o ocorrido como troféu, como você vai perceber ao ler a entrevista com Janaína. Leia e aprenda, ou continue um boçal ignorante e insensível.





Eu:
Quando você percebeu que tinha preferência por mulheres?

Janaína:
Já faz uns 10 anos. Acho que os meus motivos são muito parecidos com o de muitas mulheres que trilharam esse caminho. Os homens com os quais eu me relacionei antes mostravam uma gentileza falsa e uma preocupação excessiva com eles mesmos. Nunca souberam me excitar de verdade. Nunca se importaram. Eu achava que era assim mesmo. Viveria uma vida miserável sexualmente falando. Uma vez, numa festa, eu bebi um pouco além da conta. Estava mais, digamos, liberada. Percebi a amiga de um colega me encarando fixamente. No início me senti intimidada. Mas a medida que a tequila subiu à cabeça eu fui me soltando. Ela percebeu. Saímos dali direto para o apartamento dela. Ela sabia, exactamente, como me fazer feliz. O jeito, o toque tudo. Aquela noite foi a noite da virada.


Eu:
A sua namorada é a mesma daquela noite?

Janaína:
Não. Aquela era muito envergonha (risos). E como eu fui, digamos, introduzida por ela, os meus primeiros anos foram de pura senvergonhice.

Eu:
Em nenhum momento sentiu vontade de ir pra cama com um homem?

Janaína:
Quanto mais eu saía com minhas amigas, mais longe dos homens eu me sentia. E quer saber? Mais mulher eu me sentia.

Eu:
Você é muito sensual, se me permite…

Janaína:
Ta me cantando? (risos)

Eu:
Eu não me atreveria, considerando que você já esteve com JJ.

Janaína (suspirando absorta enquanto morde os lábios):
Ai…o JJ…

Eu:
Ja vamos chegar lá. Bom, você viveu uma vida louca por um tempo. Como foi se apaixonar a ponto de namorar.

Janaína:
Foi normal, como acontece com qualquer um. Um dia você conhece alguém que, além de combinar sexualmente, também combina espiritualmente. Foi também numa festa que eu conheci a Gláucia (nome fictício). Percebemos que quando estávamos juntas era mágico e as vezes passávamos mais tempo conversando do que transando. E quanto estávamos longe, sempre dávamos um jeito de nos falar pelo celular, messager, essas coisas. Assumimos a paixão e fomos viver juntas.


Eu:
Ainda vivem, certo?

Janaína:
Pois é. Vai ser uma coisa difícil contar pra ela.

Eu:
Então chegamos onde interessa: JJ. Defina o homem.

Janaína:
Na minha concepção de ver e sentir as coisas, ele não é um homem. Homem são todos os canalhas que tentaram me comer. Essa é a diferença, homens tentam te comer, mulheres trocam prazer e sentimentos e o JJ, bem JJ é uma alma evoluída. Talvez não seja deste planeta.

Eu:
Pelo que sei, mesmo neste seu período mulherengo, inúmeros homens tentaram se aproximar sem sucesso de você, certo? Como eu disse, você é realmente uma mulher linda. Mas o que JJ fez que os outros não fizeram?

Janaína:
Você está vendo como são os homens? Olha a sua pergunta: “O que JJ fez”. Os homens estão sempre pensando em tácticas, subterfúgios, planos e o diabo para terem uma mulher. JJ não fez nada. Essa é a diferença. Vou começar com o olhar. Aqueles olhos postos em você te fazem repensar tudo. Eu não sei te explicar, é uma admiração. Ele me olhava como quem olha para uma obra de arte no Louvre e não como um croque mounsieur num prato do bistre da esquina. Entendeu? Duvido.

Eu:
Entendi, mas não tenho esse dom. E quando isso aconteceu? Já sei, numa festa.

Janaína:
(muitos risos) Acertou. Ele estava lá com uma amiga da irmã da Glaucia. Cruzamos na cozinha. Ele estava pegando uma cerveja na geladeira e me ofereceu uma long neck. Não sei o que foi, mas já nesse momento, minhas pernas balançaram.



Nota do entrevistador: lembram-se que eu falei do “miasma hipnotizante” no ultimo texto sobre JJ? Olha a prova aí.



Janaína:
Eu peguei a long neck e passamos a conversar. Ficamos um tempão batendo papo. Nenhuma vez ele disse que eu tinha um sorriso lindo, que meus cabelos eram maravilhosos ou que eu era gostosa. Mas a impressão é que ele tinha dito tudo aquilo com os olhos, nas entrelinhas. Quer que eu te diga uma coisa? Falei que a minha bebida preferida era Dry Martini. Ele me contou como ele prepara o dele. Do jeito que ele falou, me olhando com aquela ternura, eu sentia claramente que era de mim e não do Dry Martini que ele falava. Era como se ele me derramasse como Gin, me perfumase com Vermouth de Marselha e me girasse no gelo. No final daquela conversa eu estava entregue como se tivesse bebido uns três ou quatro Drys. E sabe o que ele fez depois? Comigo nesse estado de letargia sexual?

Eu:
Fala logo…

Janaína:
Nada. Porque ele não tinha me cantado, efetivamente, entende? Ele falou de Dry Martini, de um monte de outras coisas, mas me cantar como qualquer homem faria, não cantou. Ele me encantou.

Eu:
Mas e daí?

Janaína:
Ele foi embora com a amiga. Eu fiquei completamente arrebatada. Não dormi a noite. Deu o maior trabalho pra esconder da Glaucia o que estava se passando comigo. No outro dia o JJ simplesmente não saía da minha cabeça. O dia inteiro, cada segundo. Eu fui atrás dele. Simples assim. Eu tinha que ver o JJ. Eu perdi qualquer amarra, qualquer vergonha. Ele tinha me dito onde trabalhava. Saí mais cedo do trabalho e fui atrás dele.

Eu:
E?

Janaína:
Ele ainda estava trabalhando. Quando me viu, aqueles olhos…ai…mostrou satisfação, mas não surpresa. Parece que sabia que iasao iria acontecer. Acho que sabia. Pediu para eu esperar um pouco. Eu esperaria muito se ele quisesse. Ele logo apareceu. Nós saímos, jantamos, quer dizer, eu não consegui comer. Saímos dali, fomos para o seu apartamento. Eu vou resumir uma coisa e é só o que eu vou contar do que aconteceu dali pra frente: ele me fez descobrir algumas partes do corpo que nem eu sabia que tinha.

Eu:
Você não vai revelar nenhum detalhe? Nenhum?

Janaína:
Bom, vou dizer apenas um. Lembra do seu personagem, o Palhaço Lelé? Fizemos a cena da lavadora de roupa na centrifugação.



Nota do entrevistador: ela se refere ao conto “E o Palhaço o que é?”, que está neste blog, no momento em que Lelé está transando com Maria Amélia. Ele sentado na lavadora de roupa e ela sentada sobre nele, encaixada. A lavadora na centrifugação fazendo todos movimentos.



Janaína:
Não sei se você experimentou isso de verdade. Uma loucura…uma loucura.






E assim termina a minha entrevista com Janaína, a linda lésbica que voltou a ser mulher só por causa de JJ. Uma entrevista reveladora, esclarecedora e que põe todos nós, homens comuns, em nosso devido lugar. O positivo, pra mim, é que o JJ lê meus contos. Ele e minha mãe, pelo que sei.

domingo, 7 de novembro de 2010

JJ

Vez por outra, a humanidade recebe de presente espíritos evoluídos em forma de seres humanos. Aqueles que vêm para nos dar um empurrão evolucionário. Mozart e Bethoven na música, Einstein e Drawin na ciência, Jobs e Bowermann na cultura empresarial. Quando o assunto é a lide com o sexo oposto, este espírito veio na forma do JJ (pronuncia-se Jei-Jei).

JJ não é lindo, não tem abdome de tanquinho, não é alto, não tem uma voz aveludada, não toca guitarra, não é famoso em nenhum assunto que torna as pessoas famosas. Tem um bom emprego, é bom no que faz e tem uma vida material boa, isso lá ele tem. Mas o que ele realmente tem é uma admiração profunda e sincera por toda e qualquer mulher do planeta. É algo tão singelo, tão verdadeiro e tão estrondosamente poderoso que emana em forma de algum miasma hipnotizante que só atinge o sexo oposto. Ele não procede à gentilezas porque quer levar as mulheres para a cama. Ele faz porque as admira, ama sinceramente a todas e por isso, lhe é natural como respirar. Enquanto o homem comum abre a porta do carro para que uma mulher entre apenas no estágio “quero te comer”, JJ não. JJ continua abrindo a porta do carro mesmo para aquela com a qual trocou carícias e líquidos corporais, coisa que, aliás, faz semana sim e outra também.

As mulheres percebem esta sinceridade, esta verdade em cada movimento. JJ não tem vergonha de passar em frente a uma Kopenhaggen e comprar uma caixa de lingua de gatos para dar a secretária do seu chefe porque, uma vez, a ouviu dizer que adorava tal iguaria. Ele não espera nada dela, a não ser ver um sorriso iluminar o seu rosto. E por isso mesmo ela lhe deu muito mais do que o tal sorriso.

Para JJ não existe mulher feia. As mulheres “foram feitas por último e os homens foram apenas um rascunho para o Criador chegar a perfeição, que são elas”, costuma repetir. Para JJ, existem mulheres pelas quais ele sente desejos, mas a admiração por elas é um sentimento democrático. JJ não se importa de dar seu casaco a uma gordinha que sente frio, nem de ceder seu bombom Sonho de Valsa a uma baixinha de medidas desproporcionais e rosto de fuinha. Todas são mulheres e todas são admiradas igualmente. Desejo é outra coisa. Esse respeito e atenção com que trata as não tão abençoadas fisicamente acaba por provocar ainda mais simpatia e desejo entre as lindas e bem dotadas de curvas e volumes. JJ não é galenteador de oportunidade. JJ é assim.

Muitos homens tentam vilipendiar JJ, gozando de seus gestos amáveis e gentis. Ele não se importa e não sente vergonha por isso. Segue sua sanha incansável de agradar toda a mulher do mundo, simplesmente porque ela é mulher A cada gozação, a cada manifestação de escárneo, JJ segue impassível, sem se importar, fato que só faz crescer o seu magnetismo natural perante elas. Pobres homens que não conseguem alcançar a inteligência emocional de JJ, a superioridade energética de JJ. Tolos. Voltam para casa e vão fazer justiça com as próprias mãos inspirados em algum site de sacanagem, enquanto JJ divide carícias e atenções com suas fêmeas completamente entregues, lânguidas.

Existe várias histórias sobre JJ, por isso, para terminar esse relato emocionado e admirado. JJ foi recentemente acometido de um mal súbito. Corre dali, corre daqui e la se foi o nosso herói para o hospital. Após os exames, constatou-se que ele precisaria passar por procedimento cirúrgico: tirar pedras da vesícula. Conta-se que, pouco antes de perder a consciência devido a anestesia, ouviu uma das enfermeiras contando para o anestesista o quanto ela adorava bomélias. Foi ouvir isso e apagar. No outro dia, a enfermeira recebeu um lindo arranjo de bromélias com um cartão agradecendo a ela pelo carinho na sala de cirurgia. Ele mal conhecia a enfermeira, nem viu se era bonita ou feia, apenas se apressou em saber o nome dela e pediu para que enviassem as bromélias. Só JJ para inverter a ordem natural das coisas. Em vez de receber flores no hospital, ele foi quem as deu. Por amor as mulheres. Não é preciso dizer que JJ anda saindo com a enfermeira (Lana é o nome dela). E parece que aquelas pedras andam adornando as orelhas da moça em forma de brincos. Ela adorou. Parece estranho para você? É por isso que você é você e JJ é JJ.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sem pé nem cabeça

Ele era um excelente contador de histórias, do tempo em que as histórias que ele contava ainda eram chamadas de estórias. Quando começava a contá-las as pessoas ficavam hipnotizadas.

- Mas o cara saiu correndo de que, vovô?
- Isso eu não sei. Só sei que ele saiu correndo e rolou numa ribanceira e só foi parar de rolar no chão duro, preto e meio áspero.

Uma pausa dramática leva os netos a loucura.

- Então vovô.
- Era asfalto, minha filha, ele caiu no meio de uma estrada. Quando deu por si viu a luz de dois faróis em sua direção.
- E então vovô?- Todos falaram em uníssono - E então?
- Não sei. Mas como era a vítima do tombo que estava contando esta história para um amigo, julga-se que escapou ileso, pois não?

Os netos odiavam quando isso acontecia, ou seja, sempre, mas nunca conseguiam resistir quando ele começava a contar suas histórias. As vezes, algo no meio de um jantar era o suficiente para lembrá-lo de uma de suas histórias inacabadas. Fora os filhos, que se divertiam muito sabendo como elas não iam acabar, os outros convidados eram capturados pelo talento do seu Maurício na arte de contá-las.

- Milho me lembra a história de uma moça que morava no interior. Ela estava para casar com o seu namorado de anos. Uma eternidade tinha aquele namoro. Nos fundos da casa do pai tinha um enorme milharal e um dia ela resolveu se embrenhar por entre a tal plantação. Como as hastes com os milhos estavam altas ela se perdeu, acreditam? Se perdeu completamente. O dia estava nublado e sem a referência do sol, não sabia para que lado ir. A coitada ficou desesperada. De repente, do nada, surgiu um lindo rapaz, segundo ela disse. Alto, cabelos e faces brilhantes e uma vestimentas deveras esquisita. Ela tinha a mais absoluta certeza de que ele não era deste mundo.

Como de costume, recorria a sua pausa dramática. Pegou um milho e fitou-o como se aquele milho pudesse ser a testemunha da história que ele contava ali. Os convivas na mesa nem respiravam. Ele sabia captar a audiência.

- O rapaz pegou na mão dela e, sem falar nada a conduziu pelo milharal. Apesar dele ser um completo estranho ela simplesmente não conseguiu resistir aquela mão estendida. Por alguma razão que não conseguia explicar, confiava plenamente naquela figura alva. Ele a conduziu sem dizer uma palavra até a saída daquele labirinto verde e amarelo. Quando olhou a casa, sentiu um alivio imenso. Virou-se para agradecer e aí veio a surpresa…

Mais uma pausa, mas desta vez, a impaciência tomou conta da mesa.

- Que surpresa, seu Mauricio. O homem era de outro planeta mesmo?
- Não.
- Ele sumiu, era um espírito?
- Talvez.
- Como talvez, seu Moreira?
- Eu não sei, gente, juro que não sei. A tal moça e a amiga para quem ela contava a história desceram no décimo primeiro andar. Vida de ascensorista era assim, meus filhos. Muitas histórias ou sem pé, ou sem cabeça, ou sem nenhum dos dois. Nunca foi fácil. Nunca foi fácil. Delicia esse milho, hein?