domingo, 28 de fevereiro de 2010

Barulho na vizinhança

O fato aconteceu numa pequena ex-colônia espanhola. Foi- me contado por Miguel Muños, coveiro do cemitério de Regalos, um bairro chique da capital da agora república. Mas antes, é necessearia uma pequena introdução, apenas para entrarmos no contexto.

Desde que se conhece como nação independente da matriz espanhola, o país vinha sendo governado por ditaduras que mal duravam dois anos já que os ocupantes do Palácio Presidencial tanto assumiam o poder como o perdiam através de golpes de estado.

Essa iconstância no poder durou até 1952, quando assumiu o posto Carlos Rosa Perez, um caudilho com uma empatia incomum, um charme arrepbatador, que conquistou e uniu o povo. Ninguém ousou tirá-lo do poder. Enriqueceu a sua conta em paraísos fiscais, mas soube fazer isso sem arrogância e sempre lançou mão do populismo, coisa que os otros não faziam.

A única pessoa que rivalizava em empatia e charme com Carlos era a sua própria esposa, Guilhermina Perez. Se um já era forte, os dois unidos eram realmente imbatíveis. Formavam uma equipe em harminia perfeita, entrosada e carismática. Só uma fatalidade poderia arrancar Carlos do poder, o que acoteceu depois de seis anos de mandato, quando o bimotor que o trazia de uma cidade do norte do país onde inaugurou uma ponte acidentou-se. Guilhermina não acompanhou o marido nesta viagem porque, segundo fontes oficiais, iria ter com os pequenos necessitados do orfanato municipal.


O enterro do presidente Carlos foi um acontecimento quase tão grande quanto a coroação da rainha da Inglaterra. O povo chorou por semanas. Nos bastidores, discutia-se quem seria o substituto. Em nome da estabilidade das instituições, quem assumiu o poder foi a primeira dama Guilhermina. O povo faria tudo por ela e para ela. Teve ainda mais apelo popular do que o marido. Se Carlos era adorado, ela era venerada. Morreu de um ataque cardíaco dentro do Palácio do Governo, mas muitos não engolem até hoje a história de morte natural. Seu corpo descansa em um mausoléu no cemitério de Regalos, separado do mausoléu do marido. Segundo dizem, a família de Carlos nunca engoliu a primeira dama e ex-presidenta.

Desde então, seu maosoléu tem sido destino de peregrinos fiéis a sua "santa presidenta" e obviamente dos turistas que querem conhecer aquela que até tema de musical ja tinha se transformado. Discursos, grupos musicais entoando hinos em louvor a ela, eram comuns na frente da atual casa da presidenta. Dia após dia a rua onde fica o maosoléu de Guilhermina se enche de gente e de homanagens do seu amado povo.

O problema é justamente esse. Numa noite, quando o cemitério conta com a presença apenas do coveiro mor, o nosso amigo Muños, um punhado de gatos gordos e um ou outro ladrão de tumbas, deu-se o fato que passo a relatar. Um alvoroço fantasmagórico acontecia em frente ao maosoléu da caudilha. Os ocupantes dos maosoléus vizinhos não suportavam mais o barulho, a algazarra que se transformara a vizinhança por causa da peregrinação ao maosoléu de Guilhermina Perez.

- Desde que a senhora veio morar aqui este lugar tem sido um inferno – reclama um coronel do exércido que ocupava o maosoléu ao lado.
- Pessoas tocando cornetas, bumbos, discursos - completa uma senhora da sociedade que morrera dois anos antes da grande dama. – Não aguentamos mais tanta baderna.
- A senhora transformou uma vizinhança tranquila e pacífica em um bairro boêmio – interveio um banqueiro do maosoléu da frente. – Essa gente não tem mais o que fazer além de vir nos incomodar incluindo sábados, domingos e feriados?
- O que posso fazer, meus caros? – Pergunta Guilhermina, em tom debochado.- O barulho é irritange, sim, Mas é o ônus do compromisso que sempre tive com eles e com o país. Por exemplo, eu nunca os torturei inimigos, não é coronel?
- Compromisso para com o país e o povo? - Ironizou uma herdeira que ocupava o terceiro maosoléu a direita do de Guilhemina. – Sabemos muito bem que a senhora não foi naquela inauguração da ponte que levou seu marido porque estava com vontade de comprar sapatos.
- E só passou no orfanato para disfarçar – delatou a senhora da sociedade - ja que ele ficava no caminho da sua loja de calçados preferida.
- Bom, pelo menos respeitava as pessoas e não as distratava como a senhora fazia com as suas empregadas, filhas e marido, sua megera. Quantas vezes tive que intervir a seu favor para que saísse livre de seus atos virulentos?
- Em troca de um guarda-roupa novo a cada estação, não é mesmo?
- O que vou fazer se tenho mais talento com a dissimulação do que a senhora?
- O fato é que não podemos mais suportar essa gentalha "homenageando" a senhora em nosso momento de descanso – intervém o banqueiro. - Precisamos dar um basta nessas homenagens diárias e de mau gosto.
- Senhor Monteiro! – Debocha a ex-presidenta. – Ouço ciúmes em sua voz? Sinto que o verdadeiro motivo da sua irritação não é o barulho que os prergrinos fazem, mas o fato de o senhor ser um explorador do povo com seus jutos exorbitantes.
- Juros que a senhora sempre fez que não viu além de usufruir de uma boa porcentagem.
- O senhor sempre soube que no nosso acordo eu sairia mais, digamos, endeusada.

A troca de insultos e acusações seguiu-se por horas. Os vizinhos de maosoléus, ricos, poderosos e aliados em vida, acusando-se de explorar os mais necessitados. Os mesmos que agora iam diariamente ao cemitério render homenagens barulhentas à ex-presidenta Guilhermina e que eram a razão daquela bizarra e fantasmagórica reunião.

O coveiro, Miguel Muños, assistia a tudo escondido em uma lápide morrendo de rir. Para ele, aquela era uma quadrilha que recebia o seu merecido castigo após terem deixado o mundo dos vivos. Nunca iam descansar em paz, por causa da peregrinação constante ao maosoléu da ex-heroína do povo. Naquele momento, Muños concluiu que Deus tinha um senso de humor que as vezes podia ser diabólico.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Pais em tpm apresenta: Mundo moderno

Marcelo ficou sem palavras, sem reação, sem o chão sob os seus pés quando Isabela a sua filha de 17 anos, apareceu com o namorado em casa. O Maurício. Aliás o Mauricinho. E é justamente aí, no diminutivo, que reside toda a preocupação do Marcelo. O Mauricinho tinha este nome por causa da idade: 9 anos.

- Minha filha, eu não entendi muito bem - disse o Marcelo ao finalmente conseguir articular a língua. - Você disse namorado?
- Claro, pai.
- Muito prazer, seu Marcelo - disse o moleque estendendo a mão direita. - É um prazer conhecer o pai da Isabela, a mulher que eu amo.

Ele falou aquilo olhando para o Marcelo de um jeito firme, resoluto. Marcelo não conseguia esconder a sua estupefação. Enquanto apertavam as mãos, Marcelo passou a encarar a filha Isabela, quase desesperado, como que implorando a ela que aquilo fosse uma brincadeira.

- Eu combinei com a mamãe que ia trazer o Mauricinho aqui para jantar.
- E por que ela não me contou nada? - A voz do Marcelo mal saía.
- Eu queria fazer uma surpresa, paizinho.
- Minha filha, mesmo que você avisasse já seria uma surpresa.

O casal apaixonado se sentou no sofá sob os olhares do pai. Os dois de mãos dadas, apaixonados. Os pés dele balançavam ritmadamente para frente e para trás já que as pernas ainda não tinham tamanho suficiente para alcancar o chão. O pobre Marcelo levantou e foi até a cozinha pedir explicações à mulher. Pedir, não. Exigir.

- Mariana você sabia de tudo isso e não me falou nada?
- Marcelo, deixa de ser antiquado.
- Mariana, aquele pirralho tem 9 anos. Nossa filha vai ser presa por assédio a menores, pedofilia.
- Mas ela também é menor, Marcelo – pondera.
- Pior, nós vamos ser presos.
- Marcelo, depois a gente conversa. O jantar que eu pedi acabou de chegar.

Enquanto comia o seu Mac Lanche Feliz, Mauricinho falava com a desenvoltura de poucos.

- Sabe, seu Marcelo, sua filha é uma mulher maravilhosa. Foi paixão ao primeiro chat.
- Minha filha não é uma mulher.
- Pai, ja menstuei faz 3 anos.
- Meu Desu do céu, Isabela, a mesa não é lugar para assuntos íntimos. Sem falar que tem um estranho entre nós.
- Ele não é estranho, é o meu noivo.
- Que história é essa de amor ao primeiro chat, rapazinho?

Marcelo perguntou aparentemente sem perceber que o moleque ja tinha sido promovido pela filha: de namorado para noivo.

- Nos conhecemos através da internet.

Ao ouvir aquilo, o Marcelo teve vontade de quebrar o computador do quarto da filha. Não, quebrar, não que aquilo custou um bom dinheiro. Pensou numa solução melhor: confiscar a máquina. Onde já se viu computador no quarto? Aquilo era mesmo uma máquina do mal. Não havia mais controle. O mundo não podia ficar sem controle. Anarquia. Caos. E a filha falando em menstruação na mesa de jantar na frente de um pirralho de 9 anos.


Após a sobremesa, Mac mix com M&Ms, todos foram para a sala. Um pensamento acalentador tomou conta de Marcelo. Aquilo era uma pegadinha. Mauricinho, era um ator mirim de um destes programas dominicais de mau gosto e em alguns instantes pessoas irromperiam a sala dando risadas e ele ia processar todo mundo.

- Eu sei que o senhor deve estar achando tudo muito estranho - Mauricinho começou em tom sério.
- Pra dizer o mínimo.
- Mas por favor, não me leve a mal. Eu amo a sua filha de verdade.
- Eu acredito que você pensa que ama. Na sua idade a gente confunde as coisas.
- Mas eu quero me casar com ela.
- Meu filho, digamos que eu seja tão maluco quanto vocês todos nessa sala e admita um casamento desses. De que maneira o senhor pretende sustentar a casa?
- Bom, na verdade eu ja sustento.

O garoto mostra uma revista Wired, a biblia americana da tecnologia, na qual ele está na capa como o novo gênio da internet. O pirralho ali na sua frente inventou um novo navegador, que ele mesmo prefere chamar de borwser, e tinha faturado muitos milhões de dólares. Não era montagem. A edição era verdadeira.

- Na verdade ja sustento quatro casas, seu Marcelo. Acabei de comprar a quinta. O que o senhor acha de se mudar para Malibu?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Fidélis, o desquitado

Para os verdadeiros amigos do Fidélis, a notícia de sua separação não chegou a surpreender. Após dez anos, o casamento ruíra por motivos que aqui não cabe mencionar até porque seria uma verdadeira chatice. O fato é que as coisas não iam bem, pelo menos no último ano e meio entre ele e Alice. Mesmo sem traumas aparentes, toda a separação é triste. Dez anos que se vão, deixando lembranças nos móveis comprados em conjunto, no cheiro impregnado nos lençóis e tudo mais. E como o Fidélis acabou ficando com o apartamento, resolveu seguir os conselhos de um profissional especializado no assunto, ou seja, separações. E é aí que começa o fato curioso.

Fidélis queria tornar a separação o menos traumática possível, por isso procurou o tal profissional. Fidélis saiu da consulta convencido a tomar algumas atitudes que seriam de grande ajuda para que ele pudesse suportar os primeiros momentos. O "tratamento" se apoiava em pressupostos simples. Um deles era: livre-se de tudo o que representa lembrança de momentos felizes. Fidélis seguiu à risca. Repintou o apartamento, mudou móveis de lugar - em alguns casos comprou novos - pôs fora todas as fotos de viagens a dois, presenteou a mãe com as fotos do casamento, pôs fora os cds que representavam algo entre ele e Alice, enfim, qualquer objeto que lembrasse o casamento deveria ser, e foi, deletado.

O outro pressuposto era: agora você ocupa a cama sozinho, fato que pode causar uma profunda depressão e consequente insônia. Uma cama que antes era divida com amor e afagos tornava-se insuportavelmente extensa. A área ganha na hora de dormir deveria ser preenchida por travesseiros. E assim fez o Fidélis. Toda a noite ia dormir com seus novos companheiros.

Os primeiros dias de traramento deram resultado. Fidélis estava sentia-se muito bem apesar da recente solidão. Realmente não vinha experimentando arrependimentos, nem lembranças avassaladoras de bons momentos. Tudo corria na maior das normalidades. Até o dia, ou melhor, a noite em que Fidélis se deu conta de uma nova fase em sua vida. Acordou agarrado a um travesseiro sentindo por ele uma enorme excitação. Tomado pelo tesão, manteve relações sexuais com o travesseiro que aceitou tudo passivamente.

O tempo foi passando e as atenções de Fidélis para com o seu novo amor foram aumentando e ganhando novos contornos. Em princípio ele manteve tudo em casa. Durante o dia saía para comprar novas fronhas. Chegou ao requinte de comprar fronhas de seda, que deixavam o seu travesseiro mais excitante e sensual. Fidélis estava perdidamente apaixonado pelas formas arredondadas, o encaixe anatômico e a total submissão de seu novo amor aos seus caprichos. O travesseiro dava tudo e simplesmente não pedia nada.

Arrebatado de paixão, Fidélis passou a passear com o travesseiro, assumindo a sua relação em público. Com o travesseiro ele frequentava parques, restaurantes e até cinemas. Certa vez, em uma lanchonete, enquanto se dividia entre afagos no travesseiro e colheradas de um delicioso sunday, não se conteve ao perceber que dois homens olhavam de uma mesa próxima a cena insólita. Levantou-se e foi tiar satisfações.

Não têm vergonha, não? - Bradou. - Dando bandeira para um travesseiro acompanhado?


Obviamente que além dos dois homens na mesa, a lanchonete inteira estava olhando para aquela cena de amor completamente for a de qualquer normalidade. Os dois permaneceram imóveis, enquanto ouviam o pito cheio de ciúmes passado pelo Fidélis, temerosos de que ele começasse a babar e acabasse mordendo os dois ou algo sememelhante.

Os amigos estavam todos muito preocupados com a situação do pobre Fidélis. Em toda a reunião, biribinha, churrascada, lá estava o Fidélis com o seu travesseiro em tórridas cenas de amor. Alice até se prontificou a ir ao apartamento que antes ocupara para tentar fazer Fidélis voltar a realidade, mas foi escurraçada aos gritos de "ciumenta, ciumenta!". Até que um dia, a campainha do apartamento do Célio, seu melhor amigo, soou. Parado na porta, o Fidélis. E desta vez, sem o travesseiro.

- Tenho que te dizer algo - fala o Fidélis sério. - Esse negócio com o travesseiro...
- Até que enfim, Fidélis! Já era hora - regozija-se o Célio.
- Imagine, eu e um travesseiro - debocha o Fidélis. - Bem que vocês tentaram me abrir os olhos.
- Você não imagina o quanto estávamos preocupados, bom amigo. Já estávamos achando que era caso de internação.
Eu e um travesseiro – continua. - Eu, Fidélis, me ralacionando com outro homem. Pode isso?
Como é?
Felizmente acabou - continua indiferente. - Me apaixonei por uma almofada. Uma linda e fêmea almofada.
- Almofada?! - Espanta-se o amigo - Você enlouqueceu, Fidélis?
- E o amor não é uma loucura? De qualquer modo, a almofada já está vivendo comigo. Voltei a ser um homem completo. Um homem completo é o que eu sou.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Pimenta nos olhos dos outros

Não da pra dizer que o Moreira quase caiu pra trás porque na hora ele estava confortavelmente sentado na sua poltrona predileta lendo o jornal. Mas o coração disparou quando teve seu nome chamado pelo seu melhor amigo, o Zeca, que estva parado bem na sua frente. O que o Zeca estava fazendo em sua casa num sábado as onze horas da manhã? Como ele teria entrado sem que o Ricota, o pastar alemão da casa que odiava o Zeca, emitisse latido sequer? E o mais intrigandte, porque o Zeca estava completamente nu?

- Moreira, você precisa me ajudar?
- Meu Deus do céu! Você foi assaltado?
- Antes fosse, Moreira, antes fosse. É muito pior do que isso.
- O que pode ser pior do que ser assaltado e levarem as suas roupas?
- Eu tive um infarto, Moreira. To morto. Morto mas ainda não enterrado.
- Calma, Zeca, muita calma.

Moreira olhava para o amigo completamente desesperado a sua frente. Mas a situação parecida óbvia. Zeca saiu pra dar uma corridinha no parque em que eles costumavam frequentar, gastarem suas calorias e contemplarem algumas bundinhas firmes e peitos rijos balouçantes correndo pra la e pra cá com seus fones de ouvido, quando foi abordado por dois ou mais assaltantes que, de arma em punho, o arrastaram para um ponto mais ermo e o livraram de seus tênis, meias, calção e camisetas de marca famosa. Provavelmente levaram também o seu mp3. Zeca devia estar tão chocado que não falava coisa com coisa.

- Eu não fui assaltado, Moreira, ja falei. Tive um infarto.
- Como você sabe que eu acho que foi um assalto. Eu nem falei nada, só pensei.
- Eu sei la? Acho que fantasmas podem ler pensamentos.

Moreira levantou e foi colocar a mão nas costas do amigo para levá-lo até o quarto onde iria empresatar algumas roupas para tirá-lo daquela situação vexatória. Por sorte, a sua mulher não estava. Tinha saído justamente com a mulher do Zeca e com as meninas. Só que algo realmente esquisito aconeceu naquele instante: o braço do Moreira simplesmente atravessou o corpo do Zeca como se esse não estivesse ali. Como se ese fosse uma projeção holográfica. Soltou um grito de pavor.

- Eu não te falei? Eu morri. Sou um fantasma fresquino da Silva. Estagiando na nova carreira, E eu preciso da sua ajuda.
- Meu Deus do céu! Você é uma assombração.
- Que assombração o que? Eu saí do corpo, mas não fui ainda pra onde tinha que ir porque preciso resolver esse problema. E só você pode me ajudar.
- Que problema?
- Primeiro, calma. Seu coração ta disparado. Vai que você também te um infarto. Vamos na cozinha, toima uma água e eu te explico.
- Você teve um infarto?
- Vamos pra cozinha, Moreira.

Na cozinha, o Zeca explicava o que tinha acontecido para um incrédulo Moreira que virava copos e mais copos de água.

- Pois eu estava sozinho em casa, Zeca. A Lucila e a Isabel sairam com a sua mulher e a sua filha, como você bem sabe. Estão juntas gastando no shopping. Vai pagar a conta com o dinheiro do seguro de vida, coitada. Enfim, acordei, tomei meu banho e fiquei peladão, andando pela casa. Fui até a cozinha, tomei meu café bem calmo. De repente lembrei que um colega meu do escritório me passou um site de sacanagem e disse que era o melhor que ele ja tinha entrado. Fui conferir, Zeca. Te digo que era mesmo uma maravilha. O tesão foi tomando conta de mim de um jeito que eu não consegui me controlar. Levei o laptop pra cama e, bom sabe como é né? Fui fazer justiça com as próprias mãos.
- Eu não sei se quero ouvir o resto.
- Você quer sim, Moreira. Presta atenção. Bati uma longa e inspirada punheta olhando aquele site. Ia e voltava. Quase gozava e parava. Uma loucura. Até que deixei rolar e quando gozei aconteceu, Moreira. Morri com o pinto na mão, todo lambuzado e o computador ta la, do meu lado, naquele site.
- Mas o que você quer que eu faça, Zeca. Tentar te ressucitar? Repiração boca a boca?
- Que nada, Zeca. Isso ja não adianta. Ja fui desta pra melhor. Quer dizer, se é melhor ainda não sei, mas enfim, por aqui não fico por muito tempo. O problema é essa situação constrangedora em que me encontro la em casa. Você precisa ir lá limpar a cena do crime.
- O que?
- Pô, você é meu amigo ou não é? Imagina a Lucial e a Isabelzinha chegando lá e me vendo naquela situação.
- Você pirou, Zeca. Você pirou.
- Eu morri batendo punheta em casa e to nu em cima da cama totalmente lambuzado com um computador ao lado exibindo um site de sacanagem, Zeca. E você é o meu melhor amigo.
- Não dá, Zeca. Não dá.
- Olha aqui, ou você faz isso ou eu te assombro pro resto da vida. Eu vou aparecer peladão assim quando você estiver jantando em familia, nas suas reuniões de negócio.
- Você vai fazer isso com o seu melhor amigo?
- Eu é que te pergunto. Na hora em que eu mais preciso da nossa amizade você vira as costas pra mim?

Nesse exato momento, o telefone toca. Os dois se olham. Suspense. Será que já sabem? Será que a mulher do Zeca ligando num choro que mistura tristeza e raiva pra dar a notícia e pedir ajuda?

- Alô? – responde Moreira.
- ….
- O que? – Apavora-se.
- …
- Ja estão saindo?
- …
- Beijo.

Moreira virou-se para o Zeca, mais branco que o próprio Zeca ali na sua fente.

- Ta bom, Zeca. Eu vou resolver o seu problema. Que agora é nosso.
- Quem era?
- A Valéria. Vão sair daqui a pouco do shopping. O carro da Lucila pifou e você não está atendendo o telefone. Elas vão pra sua casa ajudar a sua com as compras e vão almoçar por lá enquanto você vai resolver o problema do carro. É pra eu ir gtambém e levar o pudim de leite que está na geladeira.
- Quer dizer que agora você vai fazer o que eu te pedi?
- Vou. Não posso sumeter a minha mulher e a minha filha a esta cena horrorosa.
- Então é assim, né? Agora mudou de figura. Pimenta nos olhos dos outos, né Moreira?

Disse o Zeca antes de desaparecer pra sempre.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O primeiro tiro

A pistola ainda fumegava em sua mão direita. Ele estava paralisado, entregue a um torpor que conquistou o seu corpo. Um segundo atrás ele era um ser humano sem máculas, tinha apenas pequenos pecados. Quem não os tinha? Mas agora não. Agora ele acabara de ultrapassar a fronteira que delimita o pequeno pecado de um daqueles enormes. O estampido do tiro ecoando na cabeça. O cheiro de pólvora queimada entrando pelas narinas. O corpo estirado a sua frente. O sangue se esvaindo pelo furo da bala transofrmando-se em uma mancha crescente na camisa branca. Os olhos arregalados, denunciando a incredulidade apavorada do que estava por vir. A partir daquele segundo, daquele átimo que teve como música o estampido da pistola que conseguiu no mercado negro, ele era um assassino. Cessara a existência de um ser humano tão fácilmente como quem come um bombom.

Lembrou-se da primeira vez que tinha ido para a cama com uma puta, fazia muitos anos. Ela era uma mulher maravilhosa. A melhor das mulheres do universo. Esse sim um motivo justificável para ir pra cama. Estava mergulhado em excitação. Foder com ela era tudo que valia a sua existência naquele momento. Seus sentidos, seus líquidos, seu metabolismo, a história da sua vida, tudo tinha o mesmo destino: aquela bunda perfeita, aqueles peitos indizíveis, aquele sorriso maroto. Ansiava, arfava, não via a hora. E depois do gozo, tudo virou uma grande e enorme merda. Estava farto, enojado e não via sentido naquele gemido falso, tão falso quanto o louro dos cabelos daquela mulher deitada ao seu lado. O orgasmo daquela noite e o tiro que acabara de desferir eram a mesma coisa. Um átimo e tudo fica diferente. Tudo ficava fora de sintonia, fora da razão. Assim como aquela mulher ao seu lado não era mais desejável, o escroto caído inerte a sua frente não parecia mais tão escroto. Aliás, não era. Era apenas um sujeito competitivo do escritório. Doente, quem sabe? Louco por promoções e cargos cujo caminho vivia cruzando com o seu. Mas não escroto. O escroto estava em pé com uma pistola na mão achando que ia resolver o problema de uma maneira bem simples. Um escroto ainda mais doente do que aquele prostrado, sem vida.


Subitamente, a porta abriu. Ele nem viu quem entrou. Virou-se e atirou de novo. Num reflexo. Nem uma réstia de razão, apenas uma atávica auto-defesa. E agora tinha dois pecados dos grandes. E então, decidiu que ia ser um pecador enorme, épico. Ainda tinha muita gente no escritório naquela noite.