segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apartheid

Renato não tinha um smartphone. Para ele, uma coisa sempre foi muito clara: telefone é telefone. Não é relógio, não é agenda não é câmera fotográfica e tampouco computador. Telefone era uma peça que servia para comunicação a distância e a única vantagem que um celular trazia era ser um telefone sem fio que funcionava há muito mais do que os usuais trezentos metros da base. Renato nunca foi tocado pelas constantes e cada vez mais rápidas mudanças de tamanho, design e funções que aparelho vem sofrendo. Só trocava por um novo quando o que ele usava já mostrava sinais cabais de completa desfiguração funcional e física. E assim sempre viveu satisfeito e incólume a todo o movimento evolutivo dos tais “handsets” , alcunha com a qual os seus amigos mais moderninhos passaram a chamar o aparelho.

No entanto, esta postura pragmática diante das maravilhas cada vez mais impressionantes acumuladas em cada aparelho, acabou por afetar as interações sociais com as quais Renato se envolvia diariamente. No início, as reações eram tênues, quase imperceptíveis. No ambiente de trabalho, quando o seu celular tocava e ele atendia, risadinhas disfarçadas de colegas que ostentavam orgulhosos os seus BlackBerrys e seus iPhones ao perceberem que o Renato ainda lidava com um simples celular. Era o escárnio tecnológico ainda silencioso, quase mudo, mas presente como um miasma pairando no ar.

Ao sair com os colegas para almoçar, passou a perceber com um pouco mais de clareza que algo não estava certo. Ao chegar, todos colocavam os seus smartphones sobre a mesa normalmente, mas quando o Renato colocava ali o seu celular, todos olhavam para aquele celular e depois para o Renato como quem dizia, sem mencionar em palavras, que aquilo era um tanto inadmissível. Durante o almoço, a capacidade dos smartphones era o assunto da mesa. Discutia-se sobre novos aplicativos, trocavam músicas, fotos e endereços via bluetooth, o que deixava o Renato naturalmente alheio, mudo e sem assunto.


Com o tempo e inúmeros updates depois destes primeiros almoços, as reações preconceituosas contra Renato só aumentavam de intensidade. O ato de colocar os telefones sobre a mesa ganharam uma reação bem mais dramática. Era o Renato colocar o celular dele para os outros afastarem os seus smartphones de perto, como se fossem pegar algum vírus só por estar próximo daquela coisa antiquada e completamente demodê. Isso, primeiro era feito de maneira disfarçada, um pouco envergonhada. Mas, depois, passou a ser feito ostensivamente. As claras. Um recado inconteste que dizia: Renato, você e este celular não pertence a nossa turma.

O apartheid ficava ainda mais evidente quando, nestes almoços e também nos happy hours, o pessoal resolvia registrar os momentos de descontração usando as poderosas câmeras de sete, oito e até nove megapixels contidas em seus smartphones. No dia seguinte as fotos eram baixadas nos computadores e compartilhadas no escritório. Todos apareciam, menos o Renato. Notava-se o esforço para tirá-lo de quadro, o que as vezes era impossível e, portanto, algumas das fotos mostravam meio Renato, um quarto de Renato. O pobre era fatiado sem dó nem piedade.

Por fim, Renato passou a não ser convidado para mais nada. Combinavam todos os almoços e os happy hours nas suas costas. Não era convidado para festas. Era mantido como um leproso, longe da convivência da sociedade sadia. Solitário e sem apoio, Renato se tornou amargurado e descuidado. Tão descuidado que um dia, com a cabeça nas nuvens, acabou deixando cair o seu celular que se espatifou em centenas de pedaços. Ele disse que foi um acidente. Mas a mãe jura que o aparelho, em total depressão, suicidou-se.

domingo, 5 de junho de 2011

Golias e Davi

Sentado em sua ampla poltrona dentro de sua igualmente ampla sala acarpetada e com paredes revestidas em madeira de um marrom denso, peças decorativas cuja a mais barata pagaria dois anos de salário da sua secretária, Rafael Guedes não estava nada satisfeito. O cabelo cuidadosamente cortado e penteado, com cada fio parecendo ocupar o seu lugar correto no universo era uma perfeita moldura para um rosto que ia ficando avermelhado a medida em que a inveja empurrava sangue para a superfície de sua pele. Os olhos pequenos, fumegavam olhando para a revista em suas mãos. Ele contou e recontou as páginas, tendo o cuidado de esfregar cada uma delas usando indicador e o polegar molhados com a saliva para na vã esperança de que encontrar duas delas grudadas. Em sua concepção de vida, estava diante de um pecado. Dos mais graves. Daqueles puníveis de forma exemplar. Rafael pegou o telefone e com voz baixa e monotônica, chamou a secretária, dona Lucia. .

- Sim, seu Guedes.
- A senhora, por favor, chame a Miram, dona Lúcia?
- Agora mesmo, seu Guedes.

Um minuto e meio depois, entra pela sala, esbaforida e com os olhos arregalados uma mulher de 32 anos, cabelos negros, presos em coque, rosto de feições delicadíssimas. Uma delicadeza agredida sem piedade pelo cansaço que agora se misturava com um pavor que prenunciava o que estava por vir. Ela parou em frente a enorme mesa de mogno de seu patrão, se bem que ela pensava mais nele com seu dono. Os olhos contrariados de Rafael encontram os olhos condenados de Miriam. Ele sentiu um frêmito de prazer ao perceber aquele sentimento expresso no olhar dela. Sentia sabor de filé suculento na boca ao olhar aquela pessoa desmoronando a sua frente. As pernas bambas mal se sustentando sobre o sapato caro de salto, a cabeça fervendo e o corpo fragilidade formigando de cima a baixo. Ele sentia estendeu o silêncio por puro prazer. Até o sabor do filé desaparecer da sua boca. Então, jogou a revista sobre a mesa, que pousou, mansa, bem na frente dela.

- Eu quero acreditar que a senhora já tenha total consciência disso.
- Eu não sei como aconteceu.
- A senhora não é paga para saber ou não saber como isso aconteceu. É paga para que isso nunca aconteça. E muito bem paga.
- Mas eu acompanhei toda a publicação – a voz saía aos pedaços, falhada -, eu realmente não entendo como o artigo sobre ele saiu com duas páginas a mais do que o seu.
- Em primeiro lugar, não é ele. É Newton Johansen, que vem a ser meu ex-sócio e, como a senhora está sabendo, a pessoa que menos suporto neste planeta.
- Ele deve...ele deve
- O que ele deve ter feito a senhora devia ter sabido antes de ele fazer, obviamente, e desfazer ou fazer mais. Ninguém, em momento algum, deve ter um artigo, em qualquer revista com mais páginas do que um artigo sobre mim. Essa é a regra numero um de nosso contrato, dona Miriam. E a senhora a descumpriu logo com ele. A senhora sabe que eu vou monitorar a sua vida daqui pra frente, não sabe? A senhora que aprenda a fazer outra coisa, porque como assessora de imprensa nunca mais vai arranjar emprego em lugar algum. Saia da minha frente e deste prédio imediatamente.

Dona Lúcia vê Miriam saindo da sala de Rafael aos prantos. Já presenciara cenas como aquela inúmeras vezes. Uma pessoa entra na sala, a porta se fecha. Não se ouve som algum vindo de lá de dentro. E dona Lucia entende que aquele silêncio é a forma que Rafael tem de gritar. Ele se comporta como um Deus, o que naquele prédio ele realmente é. Quando está contrariado, não grita, apenas muda a expressão dos olhos, apertando-os um pouco mais, mirando quem está a sua frente, e passa a falar em uma nota só, pausando as palavras, do jeito que ele havia pedido para chamar Miriam ainda há pouco pelo telefone. O procedimento tem um efeito devastador. Valia mais que berros insuportavelmente altos. De repente, a porta se abre a pessoa que entrou sai como um zumbi ou como se tivesse passado por uma tortura ministrada por algum inquisitor espanhol.

Rafael sai revigorado de uma situação como esta. Se alimenta do pavor que extrai daqueles que trabalham para ele. É uma espécie de vampiro corporativo. Ele vê os seus funcionários, do menos ao mais graduado, como pratos de um banquete diário do qual serve-se a hora em que bem entende. Quando ninguém comete aquilo que ele julga como pecado, passa a criar situações de desconforto para alguém que ele escolhe a esmo. São dias torturando psicologicamente essa pessoa, mudando parâmetros de trabalho de uma hora para outra, fazendo com que a vítima sofra constantes descargas de adrenalina, muitas vezes destratando ele ou ela com uma insuportável elegância na frente dos seus colegas.

Apesar da truculência psicológica e um ego que sufoca quem está a sua volta, muitos são atraídos por ele. Ele é um imã para os ambiciosos e, como sabemos, estes estão em todo o lugar. A ambição alheia é a sua coleira. Com ela, domina completamente as pessoas que para ele trabalham. Joga com o ciúme e a competição bastando para isso dar um elogio que na verdade tem a função, não de incentivar o elogiado, mas de provocar os não elogiados. É como um sequestrador que tem mais de seiscentas vítimas com Síndrome de Estocolmo trabalhando para ele. Elas criam uma dependência doentia e, por mais maltratados que sejam, basta um sorriso vindo dele para terem a certeza de que vale a pena estar em suas empresas.

Após ter demitido Miriam, ele saiu de sua sala e dirigiu-se ao elevador particular, mas é impedido de utilizá-lo por um defeito banal. Ja tinha a quem destratar a tarde, mas o almoço marcado com o governador era no momento mais importante. Iria pelo elevador comum. Entrou e nem notou o jovem mensageiro do ali dentro. O corpo esbelto e alto de Rafael parecia ocupar todo o elevador, tal era a imponência que a sua presença transmitia. O garoto ficou espremido no canto do elevador. A porta se fechou e o elevador começou a descer. Ouvia-se apenas o zunido do motor do elevador ao longe. Rafael, embora percebendo a presença de alguém na caixa de três metros quadrados, não se dignou a sequer virar o pescoço para ver quem era. Naquele momento, ele parecia ter três metros de altura e o rapaz, que atendia pelo nome de Antonio, sentia-se com 50 centímetros. Foi quando Antônio pensava nessas duas medidas que ocorreu o tranco. O elevador parou entre o quarto e o quinto andar.

Houve aquele momento em que os dois esperavam que aquilo não tivesse acontecido. Que tinha sido apenas uma impressão e que, na verdade, o elevador estava ainda fazendo o seu caminho descendente. A constatação cabal de que o elevador tinha realmente parado não demorou a chegar. Não havia zunido vindo do motor. Não havia movimento. Não havia dúvida. A respiração de Rafael torna-se ofegante. Ele passa a bater com as mãos espalmadas no metal frio que reveste as paredes do elevador e a gritar desesperadamente por socorro, para espanto de Antônio, ainda no canto do elevador, acuado. Rafael então, pela primeira vez, olha para o outro. E o que Antônio vê muda completamente a percepção inicial daquela viagem. Os olhos de Rafael que eram como canos de uma arma apontados para qualquer um, que davam recado a todos que por ventura cruzassem o seu raio de visão que ali estava uma rocha feita de algum material fora deste mundo, quem nunca pediram ajuda a ninguém, estavam suplicantes, indefesos, desesperados. Sua testa porejava indiscriminadamente. Na visão de Antônio, aquele homem que há pouco media três metros diminuía a olhos vistos, como uma Alice após ter tomado a poção de diminuição. Tinha virado alguém comum, minúsculo, insignificante. Rafael estava tomado pelo pavor. Passava por uma situação que fazia tempo havia enterrado em algum lugar distante e insondável. Pela primeira vez em décadas, não estava no controle. Desmoronou na frente de Antônio. Ajoelhou-se em frente a este, pôs as duas mãos em seus ombros e o sacudia energicamente, enquanto repetia “eu preciso sair, eu preciso sair”. Estava histérico e só parou quando Antônio desferiu-lhe um tapa no rosto. Ali, dentro daquele elevador, os dois haviam trocado os papéis. Antônio mandou que se calasse e que respirasse fundo. O outro obedeceu. Em seguida, agindo com a razão, Antônio apertou o botão de alarme. Em seguida o som estridente da campainha era ouvido em todo prédio. Rafael observava e invejava a calma e o discernimento de Antônio, que, pela sua visão, movimentava-se com a graça e a leveza dos calmos diante de situações extremas como aquelas. Rafael faria tudo o que Antônio ordenasse. Em seguida, Antônio sentou-se ao lado e Rafael. Este, encostou a cabeça no ombro do rapaz, como se o toque naquela fortaleza transmitisse calma por osmose.

Passaram-se dez minutos até que fossem resgatados. Rafael saiu primeiro. Bastou respirar um pouco de ar fresco para resgatar o seu comportamento normal. Olhou parra Antônio e disse no ouvido deste “Você vai ser recompensado, desde que não fale nada a ninguém. Dirija-se ao meu secretário, ele estará esperando com um cheque com um valor que você nunca viu em sua vida.” Antonio vibrou com a possibilidade de realizar alguns sonhos que para Rafael eram pequenos demais. No carro Rafael mandou um recado ao secretário. “Avise Genésio. Quando o menino sair do banco...bom você já sabe… essa cidade anda mesmo muito violenta.”