As três Marias
Dois dias se passaram depois daquela tarde de sexo impecável. Nesses dois dias eu recebi telefonemas de muitas mães. Amigas de Maria Clara, algumas viram minha atuação na festa do Felipe e ficaram encantadas com o meu carisma. Agora eu tinha realmente uma agenda. Folhas brancas não existiam mais. Em dois dias eu já tinha oito festas marcadas. Estava me sentindo outra pessoa. Confiante e auto-sustentável. Eu precisava agradecer o Júlio César. Foi a indicação dele que provocou esta reviravolta estrondosa. Tinha perspectiva. Fazia o que gostava, o que tinha talento pra fazer, ganhava uma boa grana e ainda trepei com uma das minhas clientes que era uma maravilha de mulher em todos os sentidos. A fortuna, que vivia virando o seu lindo rosto quando eu passava, resolvera mudar de idéia e passou a me notar e me achar lindo também.
Um dos tantos telefonemas recebidos nesse período era de Maria Clara. Marcou um almoço comigo e as outras duas Marias num restaurante da moda. Daqueles em que a primeira coisa que você tem vontade de comer não é um dos pratos do menu, mas a hostess, que está lá pra isso mesmo: fazer você voltar lá sempre com a falsa esperança que vai conseguir.
Resisi bravamente aos encantos desta sereia da recepção, que tentou me hipnotizar com seu sorriso e gentileza, enquanto me levava até a mesa onde as três Marias ja estavam sentadas. As três eram uma coisa de louco. Que tipo de homem trata mulheres como aquelas como se fossem comuns? Sentei-me na cadeira vazia que estava a minha espera.
- Bom – Maria Clara começa o assunto – é melhor discutirmos o nosso arranjo agora, enquanto bebemos o nosso aperitivo.
- Arranjo? – Pergunto surpreso. – Do que estamos falando?
- Alê, como você já percebeu, muitas amigas de nosso círculo já ligaram para você.
- Você é uma celebridade – intervém Maria Amélia, sempre mais espevitada.
- Bom, meu querido - retoma Maria Clara – isso obviamente tem um preço.
- Eu não colocaria a situação nesses termos, Clara – Maria Alice discorda – fica parecendo que somos, como vou dizer?
- Prostitutas? - Maria Alice responde de bate-pronto.
As três se entregam a uma gargalhada e eu fico qual um pateta olhando para a cena. A curiosidade queimando meu estômago.
- Por favor, gente. Dá para explicar onde é que as coisas vão chegar?
- Meu querido Alexandre – Maria Alice responde – estamos propondo um pacto.
- É muito simples, meu amor, muito simples – Maria Amélia sempre rindo – nós viramos suas empresárias e você é nosso.
- Como assim, sou de vocês?
- Ela quer dizer que, com o nosso círculo de amizades, você tem festas garantidas até o próximo século, agenda cheia, mas para isso, você vai ser nosso naquele apartamento.
- E só nosso. – intervém Maria Alice.
- Isso, todinho, todinho – completa Maria Amélia como se fosse uma criança.
- Resumindo: vocês enchem a minha agenda...
- E você nos enche de prazer, cherry.
- Maria Amélia, por favor – irrita-se Maria Alice.
Uma coisa era cristalina. Eu estava feito. Uma agenda cheia de festas classe AA e para ter isso bastava eu ser fiel a três mulheres do outro mundo. Naquele momento eu entendi o que a Maria Clara quis dizer com eu ser muito feliz naquele apartamento. Minha vida definitivamente tinha dado uma guinada. A guinada dos sonhos. Quer dizer, com aquelas três mulheres envolvidas, era mais do que eu podia sonhar. Fizemos os pedidos, conversamos sobre amenidades, elas choraram suas mágoas de mulheres mal amadas. Maria Clara era realmente a que tinha personalidade mais forte. Maria Amélia, apesar de ser um ano mais velha do que as outras, parecia uma colegial, sempre rindo, mesmo quando reclamava do seu marido. Maria Alice era bem mais discreta. Falava pouco. Ouvia mais. A mais erudita, fluente em cinco idiomas. No final deste encontro de negócios regado a um belo cardápio, Maria Amélia se ofereceu para me levar em casa. Quando estávamos no carro, percebi que ela não estava indo em direção a minha pensão e sim para o apartamento. Lá ia eu cumprir minha parte no acordo, agora com ela. Feliz da vida.
domingo, 30 de maio de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
E o palhaço o que é? - Parte 4
Maria Clara
O táxi me deixou no tal endereço um pouco antes das 15 horas. Eu e minha mala com o material de trabalho. Fiquei parado em frente ao prédio por alguns instantes. Era uma beleza. O condomínio devia ser mais alto do que o meu cachê. Apertei o botão do interfone. Segundos depois, uma voz metálica com forte sotaque nordestino saiu pelo aparelho. Dei todas as informações necessárias. Após alguns instantes, ouvi um estalo e o portão a minha frente se abriu. Passei pela casamata onde o porteiro devia estar. Era impossível vê-lo, pois os vidros eram escuros, quase pretos. Andei por um corredor e o meu coração começou a bater mais forte. Minha barriga era constantemente atacada por ondas de frio.
O elevador social estava no térreo, como que me esperando. Entrei e subi até o décimo andar. Saí e me dirigi até o apartamento 102. A porta estava entreaberta. Não sei o que me esperava atrás dela. Permaneci parado por alguns segundos, olhando a porta, tentando visualizar a decoração por aquela fresta. Empurrei a porta e dei dois passos, passando pelo umbral. Maria Clara apareceu não sei de onde, me abraçou e beijou com a vontade de uma mulher que encontra o único homem do planeta. Soltei a mala e a abracei também. Se fosse fazer uma descrição da cena não fugiria muito do que qualquer um está acostumado. O volume dos seios dela contra o meu peito, o cheiro do seu perfume, seus cabelos roçando no meu pescoço e o meu pau num estado de enrijecimento tal que seria perfeitamente possível usá-lo como martelo para fixar um prego na parede. Ela arrancou sua boca da minha e passou a beijar meu pescoço, em áreas que eu nem tinha ciência que existiam. Usava um vestido preto maravilhoso. Quer dizer, talvez fosse maravilhoso só porque estivesse nela. Ela cravou as duas mãos na minha bunda e, resfolegante, falou em meus ouvidos que tinha vontade de fazer aquilo desde a primeira vez que me viu. Depois se afastou e, com uma voz e uma expressão marota, falou:
- Vá se vestir de o palhaço.
- Como?
Eu estava um tanto zonzo pelos momentos de sucção constante pelos quais havia passado.
- A roupa toda?
- Incluindo a maquiagem.
Eu nunca me maquiei tão rápido em toda a minha vida. Vesti a roupa em tempo recorde. Fui para o quarto e Maria Clara estava só de colar de pérolas, cujo preço devia valer mais que o meu guarda-roupa inteiro. Ela olhou para o meu sapato de palhaço e depois me encarou.
- Tomara que seja verdade o que dizem sobre as pessoas que têm pés grandes.
- Esses sapatos são falsos.
- Vem, meu palhaço – diz, lânguida – vem me fazer rir.
Eu fui. Mergulhei naquela cama com Maria Clara. O palhaço Lelé fez sua primeira performance para maiores, totalmente privê. Ela terminou com a cara toda lambuzada com a minha maquiagem.
Após o usual momento de torpor pós-sexo, ela pegou o meu nariz vermelho de plástico e começou a encaixar e desencaixar na cabeça do meu pau - encaixava perfeiramente - enquanto falava.
- Você é um homem e tanto.
- Desde que conheci você a minha auto-estima deu um salto.
- Seu amigo personal trainner ja ensaiou algumas investidas para me levar pra cama– confessa. – Ele tem um corpo incrível. Mas você tem algo mais: charme natural. Seu jeito irônico de falar me deixa louca. Além do seu tato com as crianças.
- Eu gosto delas.
- E eu de você. Cada parte.
- E esse apartamento – estava encabulado e resolvi mudar de assunto – de quem é?
- Meu, da Maria Amélia e da Maria Alice.
- O que é isso? Uma confraria?
- Pode-se dizer quem sim – ela suspira com certa melancolia. – Confraria das mulheres mal amadas.
- Quer saber? Seu marido é que é o verdadeiro palhaço nessa história toda.
Ela dá uma gargalhada, depois parte para cima de mim e me esgota. Ao cair da tarde ela se levanta, toma um banho e coloca a roupa. Diz para eu ter calma, me arrumar sem pressa. Ela tem que estar em casa quando o Felipe chegar, como sempre. É realmente uma mãe zelosa. Ela beija longamente a minha boca e, antes de passar pela porta, vira-se e me pega olhando para aquela bunda maravilhosa. Com a cara mais convidativa possível ela deixa uma mensagem no ar.
- Você vai se divertir muito aqui nesse apartamento.
O táxi me deixou no tal endereço um pouco antes das 15 horas. Eu e minha mala com o material de trabalho. Fiquei parado em frente ao prédio por alguns instantes. Era uma beleza. O condomínio devia ser mais alto do que o meu cachê. Apertei o botão do interfone. Segundos depois, uma voz metálica com forte sotaque nordestino saiu pelo aparelho. Dei todas as informações necessárias. Após alguns instantes, ouvi um estalo e o portão a minha frente se abriu. Passei pela casamata onde o porteiro devia estar. Era impossível vê-lo, pois os vidros eram escuros, quase pretos. Andei por um corredor e o meu coração começou a bater mais forte. Minha barriga era constantemente atacada por ondas de frio.
O elevador social estava no térreo, como que me esperando. Entrei e subi até o décimo andar. Saí e me dirigi até o apartamento 102. A porta estava entreaberta. Não sei o que me esperava atrás dela. Permaneci parado por alguns segundos, olhando a porta, tentando visualizar a decoração por aquela fresta. Empurrei a porta e dei dois passos, passando pelo umbral. Maria Clara apareceu não sei de onde, me abraçou e beijou com a vontade de uma mulher que encontra o único homem do planeta. Soltei a mala e a abracei também. Se fosse fazer uma descrição da cena não fugiria muito do que qualquer um está acostumado. O volume dos seios dela contra o meu peito, o cheiro do seu perfume, seus cabelos roçando no meu pescoço e o meu pau num estado de enrijecimento tal que seria perfeitamente possível usá-lo como martelo para fixar um prego na parede. Ela arrancou sua boca da minha e passou a beijar meu pescoço, em áreas que eu nem tinha ciência que existiam. Usava um vestido preto maravilhoso. Quer dizer, talvez fosse maravilhoso só porque estivesse nela. Ela cravou as duas mãos na minha bunda e, resfolegante, falou em meus ouvidos que tinha vontade de fazer aquilo desde a primeira vez que me viu. Depois se afastou e, com uma voz e uma expressão marota, falou:
- Vá se vestir de o palhaço.
- Como?
Eu estava um tanto zonzo pelos momentos de sucção constante pelos quais havia passado.
- A roupa toda?
- Incluindo a maquiagem.
Eu nunca me maquiei tão rápido em toda a minha vida. Vesti a roupa em tempo recorde. Fui para o quarto e Maria Clara estava só de colar de pérolas, cujo preço devia valer mais que o meu guarda-roupa inteiro. Ela olhou para o meu sapato de palhaço e depois me encarou.
- Tomara que seja verdade o que dizem sobre as pessoas que têm pés grandes.
- Esses sapatos são falsos.
- Vem, meu palhaço – diz, lânguida – vem me fazer rir.
Eu fui. Mergulhei naquela cama com Maria Clara. O palhaço Lelé fez sua primeira performance para maiores, totalmente privê. Ela terminou com a cara toda lambuzada com a minha maquiagem.
Após o usual momento de torpor pós-sexo, ela pegou o meu nariz vermelho de plástico e começou a encaixar e desencaixar na cabeça do meu pau - encaixava perfeiramente - enquanto falava.
- Você é um homem e tanto.
- Desde que conheci você a minha auto-estima deu um salto.
- Seu amigo personal trainner ja ensaiou algumas investidas para me levar pra cama– confessa. – Ele tem um corpo incrível. Mas você tem algo mais: charme natural. Seu jeito irônico de falar me deixa louca. Além do seu tato com as crianças.
- Eu gosto delas.
- E eu de você. Cada parte.
- E esse apartamento – estava encabulado e resolvi mudar de assunto – de quem é?
- Meu, da Maria Amélia e da Maria Alice.
- O que é isso? Uma confraria?
- Pode-se dizer quem sim – ela suspira com certa melancolia. – Confraria das mulheres mal amadas.
- Quer saber? Seu marido é que é o verdadeiro palhaço nessa história toda.
Ela dá uma gargalhada, depois parte para cima de mim e me esgota. Ao cair da tarde ela se levanta, toma um banho e coloca a roupa. Diz para eu ter calma, me arrumar sem pressa. Ela tem que estar em casa quando o Felipe chegar, como sempre. É realmente uma mãe zelosa. Ela beija longamente a minha boca e, antes de passar pela porta, vira-se e me pega olhando para aquela bunda maravilhosa. Com a cara mais convidativa possível ela deixa uma mensagem no ar.
- Você vai se divertir muito aqui nesse apartamento.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
E o palhaço o que é? - Parte 3
A estréia
Cheguei cedo ao local. Tinha feito o reconhecimento do buffet no dia anterior, mas fui numa hora em que não estava ocorrendo festa alguma. Em funcionamento, tudo era diferente, parecia outro mundo. Era enorme e os brinquedos eram de última geração, alguns até da próxima geração. Havia um trenzinho com aquilo que as propagandas de carro costumam chamar de "design arrojado". Ele corria perto do teto, dentro de tubos e em parte do seu trajeto, saía das dependências do buffet por um lado, entrando por outro. Robôs brilhantes e falantes, jogos eletrônicos estalando de novos e o palquinho, que agora via iluminado. Era a primeira vez que eu ia me apresentar em um palco. Aquilo me deu frio na barriga. Estava parado no meio daquela parafernália, gelado, suando frio quando ouvi aquela voz.
- Oi, Alexandre.
Virei-me e ela estava ali, dentro de um vestido simples, sem muitos enfeites, com um decote que mostrava o colo de seios que pareciam de uma adolescente, o que ela definitivamente ela não era.
- Boa tarde, Maria Clara.
- É bonitinho aqui, não é?
- É quase um circo.
- Se você está procurando o seu camarim, é subindo aquela escada – apontou. – Eu tenho que tratar de algumas coisinhas. Depois eu dou a atenção que você merece.
Claro, o Camarim. Na minha visita no dia anterior eles falaram em camarim e eu achei que só podia ser um exagero. Devia ser um quarto, alguma salinha. Quando subi as escadas, guiado por uma funcionária muito gentil que adorava falar no gerúndio, dei de cara com um camarim de verdade. Com direito a espelho rodeado por lâmpadas e até algum material de pintura, quem sabe para algum palhaço com falta de memória que pudese, por acaso, esquecer o seu material em casa. Não era o meu caso. Havia checado e re-checado tudo. Estava com todo o meu material e, claro, com meu grande, e inseparável amigo, Peraltinha. Feito de madeira e pano, com mais ou menos oitenta centímetros de altura. Peraltinha era o ponto alto do meu show. O momento maior onde, após um monte de brincadeiras e mágicas, eu mostrava minhas habilidades de ventriloquista. Era uma parte muito interessante do show, pois o Peraltinha sempre foi uma espécie de meu alter ego politicamente incorreto. Por isso mesmo, esta parte do show sempre chamava a atenção dos pais também, que paravam para assistir o ato com mais atenção e até participação, embora esse desleixo de comportamenteo do meu pequeno amigo fosse voltado para a criançada.
A hora se aproximava e eu ouvia o som da criançada lá embaixo. Um som que ia aumentando a cada minuto. O consumo de docinhos era como encher de combustível máquinas de correr e fazer barulho. Olhei-me no espelho. Ali estava o Lelé, finalmente, num lugar que merecia. Finalmente num buffet a altura do seu talento. Olhei fixamente para aquele palhaço no espelho. Respirei fundo. Peguei o Peraltinha que, sabendo da minha ansiedade, como um bom amigo, lascou seu desejo de boa sorte típica do teatro:
- Merda!
Sucesso
Após a minha apresentação, já em roupas civis e sem a maquiagem, desci as escadas que levavam do camarim ao salão principal. Havia crianças que ainda insistiam em correr e brincar. Os remanescentes da festa que se comportavam como partículas ínfimas correndo e se chocando ao acaso. Suas roupas compradas em lojas caras estavam completamente manchadas de brigadeiro, glacê, refrigerante e outras coisas de cores muito difíceis de definir. Algumas com pinturas de animais na cara e os sapatos, há muito, jogados em algum canto fazendo com que as meias, compradas nas mesmas lojas caras, terminassem a festa com rombos enormes. Ao pé da escada, Maria Clara me esperava com um sorriso que quase me fez rolar os cinco degraus restantes.
- Que sucesso, hein? O meu filho achou você incrível.
- Ele merece. É um garoto muito legal.
- Vem aqui – disse ela me pegando pela mão. – Quero apresentar você a duas amigas. Elas querem contratar os seus serviços.
Ela me levou até uma mesa onde estavam outras duas mulheres. Elas aparentavam ter a mesma idade de Maria Clara e também o mesmo dinheiro. Eram tão bonitas quanto a Maria Clara, cada uma ao seu jeito.
- Gente, aqui está o sucesso da festa – Maria Clara agora põe o braço no meu ombro – o palhaço Lelé, agora como Alexandre.
- Muito prazer! – As duas estendem as mãos e juro que estão com olhares quase lânguidos.
- Prazer – eu respondo e me precipito para beijar o rosto das duas.
- Essas são Maria Amélia e Maria Alice –ela s apresenta enquanto eu as cumprimento - duas amigas. Duas grandes amigas.
- É, nós dividimos tudo. – Maria Amélia fala, afetada. – Tudo mesmo, até você.
Elas caíram numa gargalhada gostosa. Depois tratamos de alguns detalhes sobre a festa dos filhos das outras Marias ali presentes. Obviamente eu disse que ia checar em minha agenda, mas citei a minha boa memória e afirmei quase com certeza que as datas que elas estavam querendo estavam vagas. Despedi-me de todas e Maria Clara me levou até a porta do buffet.
- Você está de carro?
- Não, eu vim de táxi.
- Quer que o chofer leve você?
- Não precisa. - Paro para encará-la por uns segundos. - Eu posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- Não vi o seu marido.
- Está viajando – diz com desprezo. – Por mim ainda vá, mas nem pelo filho ele põe a empresa em segundo plano.
- Desculpe, eu vi que o assunto incomoda você.
- Não é sua culpa o fato do meu marido, ou os maridos da Maria Amélia ou da Maria Alice, nunca estarem presentes.
- De qualquer jeito, me senti metido.
- Não – e estendeu um envelope para mim. – O resto do seu pagamento.
Naquela mesma noite deitei em minha cama e sabia que não ia conseguir dormir. Havia várias razões para ficar olhando para aquele teto que supostamente devia ser branco, mas já estava amarelado e com rachaduras cujo desenho se assemelhava muito ao rio Amazonas visto de um satélite. A primeira delas era o fato de ter realmente ingressado no mundo maravilhoso dos buffets dos ricos. Já tinha duas festas marcadas. E pelos mesmos honorários da festa que eu acabara de animar. Tinha mesmo feito sucesso. A segunda razão era Maria Clara e suas outras duas amigas. Havia entre elas uma cumplicidade que ultrapassava a simples amizade. É difícil descrever, mas eu tenho sensibilidade suficiente para perceber que elas tinham uma espécie de pacto para viver a vida. Eram lindas, inteligentes, bem tratadas, tinham praticametne a mesma idade e um problema em comum: maridos que dão tudo, menos atenção para elas e para os filhos. Mas o que realmente me deixou ansioso estava dentro do envelope com o pagamento que Maria Clara me deu ao sair do buffet. Ali, além do cheque com os meus honorários e uma polpuda gorjeta, havia um pequeno bilhete. “Alameda Campinas, 1265 ap.102. Encontre-me amanhã nesse endereço às 15 horas. Por favor, traga sua roupa de palhaço”.
Cheguei cedo ao local. Tinha feito o reconhecimento do buffet no dia anterior, mas fui numa hora em que não estava ocorrendo festa alguma. Em funcionamento, tudo era diferente, parecia outro mundo. Era enorme e os brinquedos eram de última geração, alguns até da próxima geração. Havia um trenzinho com aquilo que as propagandas de carro costumam chamar de "design arrojado". Ele corria perto do teto, dentro de tubos e em parte do seu trajeto, saía das dependências do buffet por um lado, entrando por outro. Robôs brilhantes e falantes, jogos eletrônicos estalando de novos e o palquinho, que agora via iluminado. Era a primeira vez que eu ia me apresentar em um palco. Aquilo me deu frio na barriga. Estava parado no meio daquela parafernália, gelado, suando frio quando ouvi aquela voz.
- Oi, Alexandre.
Virei-me e ela estava ali, dentro de um vestido simples, sem muitos enfeites, com um decote que mostrava o colo de seios que pareciam de uma adolescente, o que ela definitivamente ela não era.
- Boa tarde, Maria Clara.
- É bonitinho aqui, não é?
- É quase um circo.
- Se você está procurando o seu camarim, é subindo aquela escada – apontou. – Eu tenho que tratar de algumas coisinhas. Depois eu dou a atenção que você merece.
Claro, o Camarim. Na minha visita no dia anterior eles falaram em camarim e eu achei que só podia ser um exagero. Devia ser um quarto, alguma salinha. Quando subi as escadas, guiado por uma funcionária muito gentil que adorava falar no gerúndio, dei de cara com um camarim de verdade. Com direito a espelho rodeado por lâmpadas e até algum material de pintura, quem sabe para algum palhaço com falta de memória que pudese, por acaso, esquecer o seu material em casa. Não era o meu caso. Havia checado e re-checado tudo. Estava com todo o meu material e, claro, com meu grande, e inseparável amigo, Peraltinha. Feito de madeira e pano, com mais ou menos oitenta centímetros de altura. Peraltinha era o ponto alto do meu show. O momento maior onde, após um monte de brincadeiras e mágicas, eu mostrava minhas habilidades de ventriloquista. Era uma parte muito interessante do show, pois o Peraltinha sempre foi uma espécie de meu alter ego politicamente incorreto. Por isso mesmo, esta parte do show sempre chamava a atenção dos pais também, que paravam para assistir o ato com mais atenção e até participação, embora esse desleixo de comportamenteo do meu pequeno amigo fosse voltado para a criançada.
A hora se aproximava e eu ouvia o som da criançada lá embaixo. Um som que ia aumentando a cada minuto. O consumo de docinhos era como encher de combustível máquinas de correr e fazer barulho. Olhei-me no espelho. Ali estava o Lelé, finalmente, num lugar que merecia. Finalmente num buffet a altura do seu talento. Olhei fixamente para aquele palhaço no espelho. Respirei fundo. Peguei o Peraltinha que, sabendo da minha ansiedade, como um bom amigo, lascou seu desejo de boa sorte típica do teatro:
- Merda!
Sucesso
Após a minha apresentação, já em roupas civis e sem a maquiagem, desci as escadas que levavam do camarim ao salão principal. Havia crianças que ainda insistiam em correr e brincar. Os remanescentes da festa que se comportavam como partículas ínfimas correndo e se chocando ao acaso. Suas roupas compradas em lojas caras estavam completamente manchadas de brigadeiro, glacê, refrigerante e outras coisas de cores muito difíceis de definir. Algumas com pinturas de animais na cara e os sapatos, há muito, jogados em algum canto fazendo com que as meias, compradas nas mesmas lojas caras, terminassem a festa com rombos enormes. Ao pé da escada, Maria Clara me esperava com um sorriso que quase me fez rolar os cinco degraus restantes.
- Que sucesso, hein? O meu filho achou você incrível.
- Ele merece. É um garoto muito legal.
- Vem aqui – disse ela me pegando pela mão. – Quero apresentar você a duas amigas. Elas querem contratar os seus serviços.
Ela me levou até uma mesa onde estavam outras duas mulheres. Elas aparentavam ter a mesma idade de Maria Clara e também o mesmo dinheiro. Eram tão bonitas quanto a Maria Clara, cada uma ao seu jeito.
- Gente, aqui está o sucesso da festa – Maria Clara agora põe o braço no meu ombro – o palhaço Lelé, agora como Alexandre.
- Muito prazer! – As duas estendem as mãos e juro que estão com olhares quase lânguidos.
- Prazer – eu respondo e me precipito para beijar o rosto das duas.
- Essas são Maria Amélia e Maria Alice –ela s apresenta enquanto eu as cumprimento - duas amigas. Duas grandes amigas.
- É, nós dividimos tudo. – Maria Amélia fala, afetada. – Tudo mesmo, até você.
Elas caíram numa gargalhada gostosa. Depois tratamos de alguns detalhes sobre a festa dos filhos das outras Marias ali presentes. Obviamente eu disse que ia checar em minha agenda, mas citei a minha boa memória e afirmei quase com certeza que as datas que elas estavam querendo estavam vagas. Despedi-me de todas e Maria Clara me levou até a porta do buffet.
- Você está de carro?
- Não, eu vim de táxi.
- Quer que o chofer leve você?
- Não precisa. - Paro para encará-la por uns segundos. - Eu posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- Não vi o seu marido.
- Está viajando – diz com desprezo. – Por mim ainda vá, mas nem pelo filho ele põe a empresa em segundo plano.
- Desculpe, eu vi que o assunto incomoda você.
- Não é sua culpa o fato do meu marido, ou os maridos da Maria Amélia ou da Maria Alice, nunca estarem presentes.
- De qualquer jeito, me senti metido.
- Não – e estendeu um envelope para mim. – O resto do seu pagamento.
Naquela mesma noite deitei em minha cama e sabia que não ia conseguir dormir. Havia várias razões para ficar olhando para aquele teto que supostamente devia ser branco, mas já estava amarelado e com rachaduras cujo desenho se assemelhava muito ao rio Amazonas visto de um satélite. A primeira delas era o fato de ter realmente ingressado no mundo maravilhoso dos buffets dos ricos. Já tinha duas festas marcadas. E pelos mesmos honorários da festa que eu acabara de animar. Tinha mesmo feito sucesso. A segunda razão era Maria Clara e suas outras duas amigas. Havia entre elas uma cumplicidade que ultrapassava a simples amizade. É difícil descrever, mas eu tenho sensibilidade suficiente para perceber que elas tinham uma espécie de pacto para viver a vida. Eram lindas, inteligentes, bem tratadas, tinham praticametne a mesma idade e um problema em comum: maridos que dão tudo, menos atenção para elas e para os filhos. Mas o que realmente me deixou ansioso estava dentro do envelope com o pagamento que Maria Clara me deu ao sair do buffet. Ali, além do cheque com os meus honorários e uma polpuda gorjeta, havia um pequeno bilhete. “Alameda Campinas, 1265 ap.102. Encontre-me amanhã nesse endereço às 15 horas. Por favor, traga sua roupa de palhaço”.
domingo, 9 de maio de 2010
E o palhaço o que é? - Parte 2
Na manhã seguinte o telefone o celular tocou me fazendo pular da cama. O celular pulou junto, já que eu peguei no sono de barriga pra cima e com ele no meu peito. Saí desesperado a sua procura enquanto tocava. Precisava ser mais rápido que a caixa postal. No desespero em que me encontrava para achar o aparelho, topei com a canela na quina da cama. Mas não havia tempo para sentir dor nem para praguejar. Finalmente encontrei o celular embaixo do móvel onde ficava a televisão.
- Alô? – Atendi, ofegante.
- Alexandre? – Uma voz feminina, rouca e forte do outro lado.
- Ele mesmo. Falo com quem? – Como se eu não soubesse quem era.
- Meu nome é Maria Clara - esclareceu. - Estou ligando por indicação do Julinho – Julinho, vejam só, isso ele não me conta. – Ele disse que você é um grande animador de festas infantis, como é mesmo o nome do seu personagem?
- Lelé, o palhaço.
- Exatamente! Ele me disse que o Lelé faria o maior sucesso na festa do meu filho. É na semana que vem, no dia quatro, você está livre?
- Um momento, eu vou consultar a minha agenda.
A frase foi um reflexo, uma jogada de marketing. Pareça ocupado e ganhe respeito. Até porque a minha agenda era uma seqüência de folhas em branco. Quer dizer, não totalmente em branco. Havia os dias da semana e do mês impressos na parte superior.
- Perfeito! - Respondo. - No dia quatro está perfeito. A que horas?
- A festa vai começar às 18 horas.
- Eu preciso do endereço para poder me comunicar com os proprietários do buffet e checar o local da apresentação.
- Muito profissionalismo da sua parte. Gosto disso.
- Tudo pela alegria das crianças, minha senhora.
- Por favor, apesar de casada, tem coisas que prefiro manter como antes. Nada de senhora.
- Você manda!
- Falando nisso, precisamos nos encontrar antes da festa para fechar os últimos detalhes. Preciso conhecer você pessoalmente antes de contratá-lo.
- Justo.
Na tarde naquele mesmo dia eu estava no lugar combinado: um shopping chique da cidade onde ela iria fazer umas comprinhas. Ela marcou comigo em um café no piso superior e descreveu a roupa que usaria. Eu também descrevi a minha, que, nos padrões antigos, seria definida como uma roupa de domingo, em plena terça feira. Subi dois lances de escadas rolantes e cheguei ao café. Ninguém usando roupa com a descrição dada por ela se encontrava ali. Sentei e pedi um expresso. Era caríssimo. Mas eu devia encarar aquele despêndio de dinheiro como investimento. Cinco minutos depois ela apareceu. O número de sacolas em cada mão era assustador. No entendimento de uma pessoa em total crise fianceira, como era o meu caso, aquilo estava longe de ser definido como comprinhas. Estava prestes a fazer parte de um encontro de dois mundos completamente diferentes. Só possível naqueles termos: ela pagava para eu ser o palhaço.
Levantei-me para que ela me localizasse. Era uma mulher e tanto. Que corpo! O Julio César era mesmo muito bom. Cabelos negros ondulados harmonizando com feições fortes, marcantes. Um olhar decidido e ao mesmo tempo com certa tristeza. Devia medir um metro e setenta. Apesar do jeans, era possível vislumbrar pernas torneadas. Era robusta, mas muito bem distribuída. Ao me ver, abriu um sorriso que quase me derrubou. Veio em minha direção com aquele sorriso de dentes sadios, simétricos e alvos cercados pela moldura vermelho escura dos sues lábios. Parecia feliz em me ver. Parou na minha frente exalando um perfume caro.
- Alexandre?
- Maria Clara.
- Muito prazer – a voz parecia um pouco mais suave do que a do telefone. – Vamos sentar?
Havia apenas uma cadeira desocupada em nossa mesa, e obviamente era insuficiente para deixar aquela penca de sacolas. Foram necessárias mais duas cadeiras e mesmo assim as sacolas tiveram que ficar umas sobre as outras.
- Estou aproveitando a liquidação do shopping– ela fala enquanto acomoda as sacolas. – Os preços estão ótimos.
O shopping estava liquidando? Pelo que eu concluí dos preços dos preços que testemunhei nas vitrines era uma liquidação em que tudo estava de exorbitante por apenas caro.
- O Julinho falou muito bem do seu trabalho.
- O “Julinho” é um bom amigo.
- Eu gostei de você. – Falou aquilo me olhando fixamente. – Gostei muito de você.
- Mas só falamos uma vez pelo telefone e não faz nem cinco minutos que estamos conversando.
- Digamos que eu sou sensitiva. – Ela aproximou o rosto ainda mais do meu. – Não preciso de muito tempo para gostar de alguém. Ou odiar. E de você eu gostei.
Aquela conversa tomou um rumo estranho. A parte da minha contratação foi muito rápida. E rentável. Eu chutei um cachê alto e ela aceitou sem pestanejar. O triplo do que eu cobrava normalmente. E ainda pagou metade na hora. Depois, ela passou a fazer perguntas sobre a minha vida pessoal. Inúmeras. Maria Clara não era só fisicamente bonita. Era charmosa e insinuante. Havia algo mais do que uma relação contratante-contratado se formando naquele momento, embora eu me recusasse a acreditar que uma mulher daquela casta fosse sequer notar a minha existência enquanto homem.
- Bem, Alexandre, infelizmente eu tenho que ir. O Felipinho vai chegar da escola daqui a pouco e eu gosto de estar em casa quando ele chega.
- É bom para o menino saber que a mãe dá carinho e atenção.
- Tem dias que a mãe gostaria de receber carinho e atenção – falou com os olhos fixos nos meus. – Se você for tão engraçado como palhaço quanto é charmoso, vai fazer o meu filho e os amigos dele muito alegres.
Aproximou seu rosto do meu e me beijou na face esquerda. Seu perfume invadiu minhas narinas, sua respiração invadiu meus ouvidos. Ela roçou o seu rosto no meu. Levantou-se, pegou as sacolas e se afastou sem olhar para trás. Eu fiquei paralisado, olhando Maria Clara se afastar até se misturar ao batalhão frenético de compradoras aproveitando os preços incríveis da tal liquidação. Era uma mulher impressionante. Lembrei-me de Julio César. Olhando os movimentos ritmados daquele conjunto de curvas, saliências e protuberâncias pensei na justiça que tinha feito a ele na noite anterior quando o chamei de Michelangelo. Se o artista italiano exculpisse uma Maria Madalena, ali estaria ela. Sem as sacolas e sem aquele jeans branco agarradinho. Eu me peguei completamente excitado. Uma rocha no meio das pernas. Se eu levantasse dali naquele momento, as senhoras frenéticas iam perceber certo entumecimento por baixo das minhas calças. Talvez ficassem mais frenéticas. Precisava esperar um tempo para tudo voltar ao tamanho padrão. Pedi outro expresso. Ja não importava que fosse caríssimo. Agora eu tinha um cheque bem gordo nas mãos.
- Alô? – Atendi, ofegante.
- Alexandre? – Uma voz feminina, rouca e forte do outro lado.
- Ele mesmo. Falo com quem? – Como se eu não soubesse quem era.
- Meu nome é Maria Clara - esclareceu. - Estou ligando por indicação do Julinho – Julinho, vejam só, isso ele não me conta. – Ele disse que você é um grande animador de festas infantis, como é mesmo o nome do seu personagem?
- Lelé, o palhaço.
- Exatamente! Ele me disse que o Lelé faria o maior sucesso na festa do meu filho. É na semana que vem, no dia quatro, você está livre?
- Um momento, eu vou consultar a minha agenda.
A frase foi um reflexo, uma jogada de marketing. Pareça ocupado e ganhe respeito. Até porque a minha agenda era uma seqüência de folhas em branco. Quer dizer, não totalmente em branco. Havia os dias da semana e do mês impressos na parte superior.
- Perfeito! - Respondo. - No dia quatro está perfeito. A que horas?
- A festa vai começar às 18 horas.
- Eu preciso do endereço para poder me comunicar com os proprietários do buffet e checar o local da apresentação.
- Muito profissionalismo da sua parte. Gosto disso.
- Tudo pela alegria das crianças, minha senhora.
- Por favor, apesar de casada, tem coisas que prefiro manter como antes. Nada de senhora.
- Você manda!
- Falando nisso, precisamos nos encontrar antes da festa para fechar os últimos detalhes. Preciso conhecer você pessoalmente antes de contratá-lo.
- Justo.
Na tarde naquele mesmo dia eu estava no lugar combinado: um shopping chique da cidade onde ela iria fazer umas comprinhas. Ela marcou comigo em um café no piso superior e descreveu a roupa que usaria. Eu também descrevi a minha, que, nos padrões antigos, seria definida como uma roupa de domingo, em plena terça feira. Subi dois lances de escadas rolantes e cheguei ao café. Ninguém usando roupa com a descrição dada por ela se encontrava ali. Sentei e pedi um expresso. Era caríssimo. Mas eu devia encarar aquele despêndio de dinheiro como investimento. Cinco minutos depois ela apareceu. O número de sacolas em cada mão era assustador. No entendimento de uma pessoa em total crise fianceira, como era o meu caso, aquilo estava longe de ser definido como comprinhas. Estava prestes a fazer parte de um encontro de dois mundos completamente diferentes. Só possível naqueles termos: ela pagava para eu ser o palhaço.
Levantei-me para que ela me localizasse. Era uma mulher e tanto. Que corpo! O Julio César era mesmo muito bom. Cabelos negros ondulados harmonizando com feições fortes, marcantes. Um olhar decidido e ao mesmo tempo com certa tristeza. Devia medir um metro e setenta. Apesar do jeans, era possível vislumbrar pernas torneadas. Era robusta, mas muito bem distribuída. Ao me ver, abriu um sorriso que quase me derrubou. Veio em minha direção com aquele sorriso de dentes sadios, simétricos e alvos cercados pela moldura vermelho escura dos sues lábios. Parecia feliz em me ver. Parou na minha frente exalando um perfume caro.
- Alexandre?
- Maria Clara.
- Muito prazer – a voz parecia um pouco mais suave do que a do telefone. – Vamos sentar?
Havia apenas uma cadeira desocupada em nossa mesa, e obviamente era insuficiente para deixar aquela penca de sacolas. Foram necessárias mais duas cadeiras e mesmo assim as sacolas tiveram que ficar umas sobre as outras.
- Estou aproveitando a liquidação do shopping– ela fala enquanto acomoda as sacolas. – Os preços estão ótimos.
O shopping estava liquidando? Pelo que eu concluí dos preços dos preços que testemunhei nas vitrines era uma liquidação em que tudo estava de exorbitante por apenas caro.
- O Julinho falou muito bem do seu trabalho.
- O “Julinho” é um bom amigo.
- Eu gostei de você. – Falou aquilo me olhando fixamente. – Gostei muito de você.
- Mas só falamos uma vez pelo telefone e não faz nem cinco minutos que estamos conversando.
- Digamos que eu sou sensitiva. – Ela aproximou o rosto ainda mais do meu. – Não preciso de muito tempo para gostar de alguém. Ou odiar. E de você eu gostei.
Aquela conversa tomou um rumo estranho. A parte da minha contratação foi muito rápida. E rentável. Eu chutei um cachê alto e ela aceitou sem pestanejar. O triplo do que eu cobrava normalmente. E ainda pagou metade na hora. Depois, ela passou a fazer perguntas sobre a minha vida pessoal. Inúmeras. Maria Clara não era só fisicamente bonita. Era charmosa e insinuante. Havia algo mais do que uma relação contratante-contratado se formando naquele momento, embora eu me recusasse a acreditar que uma mulher daquela casta fosse sequer notar a minha existência enquanto homem.
- Bem, Alexandre, infelizmente eu tenho que ir. O Felipinho vai chegar da escola daqui a pouco e eu gosto de estar em casa quando ele chega.
- É bom para o menino saber que a mãe dá carinho e atenção.
- Tem dias que a mãe gostaria de receber carinho e atenção – falou com os olhos fixos nos meus. – Se você for tão engraçado como palhaço quanto é charmoso, vai fazer o meu filho e os amigos dele muito alegres.
Aproximou seu rosto do meu e me beijou na face esquerda. Seu perfume invadiu minhas narinas, sua respiração invadiu meus ouvidos. Ela roçou o seu rosto no meu. Levantou-se, pegou as sacolas e se afastou sem olhar para trás. Eu fiquei paralisado, olhando Maria Clara se afastar até se misturar ao batalhão frenético de compradoras aproveitando os preços incríveis da tal liquidação. Era uma mulher impressionante. Lembrei-me de Julio César. Olhando os movimentos ritmados daquele conjunto de curvas, saliências e protuberâncias pensei na justiça que tinha feito a ele na noite anterior quando o chamei de Michelangelo. Se o artista italiano exculpisse uma Maria Madalena, ali estaria ela. Sem as sacolas e sem aquele jeans branco agarradinho. Eu me peguei completamente excitado. Uma rocha no meio das pernas. Se eu levantasse dali naquele momento, as senhoras frenéticas iam perceber certo entumecimento por baixo das minhas calças. Talvez ficassem mais frenéticas. Precisava esperar um tempo para tudo voltar ao tamanho padrão. Pedi outro expresso. Ja não importava que fosse caríssimo. Agora eu tinha um cheque bem gordo nas mãos.
sábado, 1 de maio de 2010
E o Palhaço o que é? - Parte 1
Eu podia ver o reflexo distorcido do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Era ridículo morrer vestido daquele jeito. Vestido de palhaço. O personagem e o criador prestes a ir desta para melhor, é o que dizem, mas sinceramente não estava com a mínima vontade de ir para algo melhor, até porque ninguém voltou de lá para comprovar. Como alguém tinha coragem de apontar a arma para a cabeça de um palhaço e simplesmente acabar com a vida dele? Não teve infância? Não lembra do famoso “Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim, senhor. E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Ladrão de mulher. Mas que ironia de merda. Ladrão de mulher. A rima que eu tornei realidade. E que agora era a minha condenação. A rima que se tornou uma filosofia de vida, era agora a minha passagem para a escuridão, a inexistência. O palhaço Lelé, alegria da criançada, lenda viva dos buffets infantis estava prestes a virar apenas lenda. E tudo porque eu também era a alegria de algumas mães. Três delas para ser mais exato. Mas enquanto a bala não vem, convido você, querido leitor, a acompanhar o relato do como cheguei a esta situação desesperadora.
O Início
Há pouco mais de um ano eu devia meses de aluguel. Já era o palhaço Lelé e fazia alguns números em festas de aniversário de crianças, mas nunca tive o meu talento reconhecido pelo que eu chamo mainstream no mundo dos buffets infantis. Fazia meus números em buffets de segunda, com aqueles brinquedos descascados, comprados usados e uma piscina de bolinhas que fedia a chulé porque a faxineira dos locais não aparecia com frequência. Os pais pagavam meus honorários em dez parcelas, muitas vezes paravam na quarta ou na quinta e me mandavam reclamar com o bispo. Minha vida estava fadada ao fracasso. Nunca passaria pelos grandes buffets de Moema ou dos Jardins. Ali estava a grana. Ali era o mundo que eu merecia viver, o lugar onde o meu talento merecia ser apreciado.
O meu destino começou a mudar numa noite em que comia tangerinas como jantar e sobremesa ao mesmo tempo - uma idéia que roubei de um livro de Joe Fante, cujo personagem principal, Arturo Bandini, um pretenso escritor sem dinheiro que vivia em um hotel barato, tinha como sua principal fonte de alimentação laranjas cedidas por um feirante oriental muito gentil.
Mas voltando a minha história, eu comia minhas tangerinas, e o meu celular, que eu mantinha a muito custo como telefone de meu escritório ambulante, tocou. Do outro lado da linha estava o meu amigo, talvez único amigo, o Júlio César. Diferente de mim, Julio César estava com a vida mansa. Era personal trainner e tinha como alunas muitas ricaças, mulheres de executivos que podiam pagar o seu preço de 250 a hora-aula.
- Fala, Alê! – Sua voz soava disposta como sempre. – Fazendo o que aí?
- Jantando, ou algo parecido.
- Vamos tomar um choppinho?
- Em primeiro lugar você nunca bebe chopp. Sua profissão não deixa. Em segundo, eu também não. Minha situação financeira não deixa.
- Eu pago.
Eu nem questionei. Ele tinha todas as condições para me fazer aquela oferta e ainda por cima nossa amizade era sincera o suficiente para eu não ter que ficar com aquele papo furado de que não podia permitir que ele me pagasse. Também vi uma oportunidade de ouro de, além de beber chopp, comer algo salgado como bolinhos de bacalhau. Meus dentes já estavam esturricados de tanto ácido cítrico. Excitado pela possibilidade de comida de verdade, levantei-me e fui para bar combinado.
O lugar estava cheio. Gente recém saída dos escritórios, todos prontos para única e exclusivamente rir e se divertir, de preferência falando mal daqueles colegas que não estavam presentes na mesa. Garçons faziam seu costumeiro malabarismo com as bandejas repletas de tulipas se esgueirando pelo espaço apertado entre as mesas. Júlio César, quando me viu, levantou e acenou. Embora como homem eu me torne reticente em descrever qualidades físicas de outro macho da espécie, tinha de admitir que o Júlio César era dono de atributos suficientes para atrair as ricaças. Era forte, mas sua musculatura era bem desenhada e não hipertrofiada pelos exercícios exagerados regados a anabolizantes. Aliás, Julio César tinha horror a tais métodos que ele chamava de "engorda de frangos". Fora isso, ostentava um sorriso constante no rosto, uma simpatia genética. Tinha lá o seu charme. Não admira que muitas de suas alunas eram também amantes. Cheguei até a mesa e sentei.
- Como está a vida, Lelé? - Pergunta animado.
- Fora a afta na ponta de língua de tanto comer tangerinas e a falta crônica de dinheiro, eu estou bem.
- Pelo menos não vai ter problemas de escorbuto e nem gripe. Choppinho?
- E se você não se importar, um enorme prato de sanduíche aberto pra acompanhar.
Ele estalou o dedo e o garçom com um mau humor calculado veio até nós. O pedido foi feito e, em poucos minutos, nossa mesa estava repleta de coisas deliciosas, tirando a água sem gás do Júlio César.
- E então, Júlio, como vão as alunas?
- Alê, não posso me queixar – diz com os olhos transbordando satisfação – minha agenda está cheia.
- Tanto no horário comercial quanto fora dele, eu presumo.
- Perfeitamente. Você não imagina o poço de insatisfação e tensão sexual que impera nas grandes academias. Minhas alunas têm uma energia acumulada que transborda pelos poros.
- Energia?
- Os maridos primeiro casam com elas, para depois traí-las com outra: a carreira. E aí a coisa entorna – diz com ares de analista.
- Sei.
- Agora, cá pra nós, que é uma sensação fora do comum você dar forma ao corpo que você vai levar pra cama, isso é.
- Digamos que, apesar de não estar casado com alguém que tem uma carreira como amante, tenho uma certa energia acumulada. Essa falta de dinheiro não me deixa comer nada direito. – Falo e logo me arrependo pela piada sem graça.
- E pra que são os amigos?
- O que você está tramando?
- Provavelmente amanhã, uma de minhas alunas, a Maria Clara, vai ligar pra você. Tem quarenta anos, mas que corpo, modéstia parte. O filho dela vai fazer seis anos e eu comentei sobre você. Ela se interessou, e eu dei seu celular. Ela tem muita grana.
- Mais uma das esculturas que você comeu, Michelangelo?
Julio Cesar solta uma gargalhada.
- Essa não. Tem aquele olhar de predadora, sabe? Mulher insatisfeita. Mas eu ainda não tive sucesso com ela. Quem sabe você?
Quem soltou a gargalhada dessa vez, fui eu.
Naquela noite demorei muito para dormir por causa da ansiedade. Se a tal Maria Clara ligasse, eu teria a minha chance de entrar no mundo dos buffets de primeira linha. Era a chance que eu precisava. Além da mãe do aniversariante, muitas mães estariam lá. Muitas possibilidades de trabalho assistindo o meu desempenho. Aquele maldito celular precisava tocar. (continua)
O Início
Há pouco mais de um ano eu devia meses de aluguel. Já era o palhaço Lelé e fazia alguns números em festas de aniversário de crianças, mas nunca tive o meu talento reconhecido pelo que eu chamo mainstream no mundo dos buffets infantis. Fazia meus números em buffets de segunda, com aqueles brinquedos descascados, comprados usados e uma piscina de bolinhas que fedia a chulé porque a faxineira dos locais não aparecia com frequência. Os pais pagavam meus honorários em dez parcelas, muitas vezes paravam na quarta ou na quinta e me mandavam reclamar com o bispo. Minha vida estava fadada ao fracasso. Nunca passaria pelos grandes buffets de Moema ou dos Jardins. Ali estava a grana. Ali era o mundo que eu merecia viver, o lugar onde o meu talento merecia ser apreciado.
O meu destino começou a mudar numa noite em que comia tangerinas como jantar e sobremesa ao mesmo tempo - uma idéia que roubei de um livro de Joe Fante, cujo personagem principal, Arturo Bandini, um pretenso escritor sem dinheiro que vivia em um hotel barato, tinha como sua principal fonte de alimentação laranjas cedidas por um feirante oriental muito gentil.
Mas voltando a minha história, eu comia minhas tangerinas, e o meu celular, que eu mantinha a muito custo como telefone de meu escritório ambulante, tocou. Do outro lado da linha estava o meu amigo, talvez único amigo, o Júlio César. Diferente de mim, Julio César estava com a vida mansa. Era personal trainner e tinha como alunas muitas ricaças, mulheres de executivos que podiam pagar o seu preço de 250 a hora-aula.
- Fala, Alê! – Sua voz soava disposta como sempre. – Fazendo o que aí?
- Jantando, ou algo parecido.
- Vamos tomar um choppinho?
- Em primeiro lugar você nunca bebe chopp. Sua profissão não deixa. Em segundo, eu também não. Minha situação financeira não deixa.
- Eu pago.
Eu nem questionei. Ele tinha todas as condições para me fazer aquela oferta e ainda por cima nossa amizade era sincera o suficiente para eu não ter que ficar com aquele papo furado de que não podia permitir que ele me pagasse. Também vi uma oportunidade de ouro de, além de beber chopp, comer algo salgado como bolinhos de bacalhau. Meus dentes já estavam esturricados de tanto ácido cítrico. Excitado pela possibilidade de comida de verdade, levantei-me e fui para bar combinado.
O lugar estava cheio. Gente recém saída dos escritórios, todos prontos para única e exclusivamente rir e se divertir, de preferência falando mal daqueles colegas que não estavam presentes na mesa. Garçons faziam seu costumeiro malabarismo com as bandejas repletas de tulipas se esgueirando pelo espaço apertado entre as mesas. Júlio César, quando me viu, levantou e acenou. Embora como homem eu me torne reticente em descrever qualidades físicas de outro macho da espécie, tinha de admitir que o Júlio César era dono de atributos suficientes para atrair as ricaças. Era forte, mas sua musculatura era bem desenhada e não hipertrofiada pelos exercícios exagerados regados a anabolizantes. Aliás, Julio César tinha horror a tais métodos que ele chamava de "engorda de frangos". Fora isso, ostentava um sorriso constante no rosto, uma simpatia genética. Tinha lá o seu charme. Não admira que muitas de suas alunas eram também amantes. Cheguei até a mesa e sentei.
- Como está a vida, Lelé? - Pergunta animado.
- Fora a afta na ponta de língua de tanto comer tangerinas e a falta crônica de dinheiro, eu estou bem.
- Pelo menos não vai ter problemas de escorbuto e nem gripe. Choppinho?
- E se você não se importar, um enorme prato de sanduíche aberto pra acompanhar.
Ele estalou o dedo e o garçom com um mau humor calculado veio até nós. O pedido foi feito e, em poucos minutos, nossa mesa estava repleta de coisas deliciosas, tirando a água sem gás do Júlio César.
- E então, Júlio, como vão as alunas?
- Alê, não posso me queixar – diz com os olhos transbordando satisfação – minha agenda está cheia.
- Tanto no horário comercial quanto fora dele, eu presumo.
- Perfeitamente. Você não imagina o poço de insatisfação e tensão sexual que impera nas grandes academias. Minhas alunas têm uma energia acumulada que transborda pelos poros.
- Energia?
- Os maridos primeiro casam com elas, para depois traí-las com outra: a carreira. E aí a coisa entorna – diz com ares de analista.
- Sei.
- Agora, cá pra nós, que é uma sensação fora do comum você dar forma ao corpo que você vai levar pra cama, isso é.
- Digamos que, apesar de não estar casado com alguém que tem uma carreira como amante, tenho uma certa energia acumulada. Essa falta de dinheiro não me deixa comer nada direito. – Falo e logo me arrependo pela piada sem graça.
- E pra que são os amigos?
- O que você está tramando?
- Provavelmente amanhã, uma de minhas alunas, a Maria Clara, vai ligar pra você. Tem quarenta anos, mas que corpo, modéstia parte. O filho dela vai fazer seis anos e eu comentei sobre você. Ela se interessou, e eu dei seu celular. Ela tem muita grana.
- Mais uma das esculturas que você comeu, Michelangelo?
Julio Cesar solta uma gargalhada.
- Essa não. Tem aquele olhar de predadora, sabe? Mulher insatisfeita. Mas eu ainda não tive sucesso com ela. Quem sabe você?
Quem soltou a gargalhada dessa vez, fui eu.
Naquela noite demorei muito para dormir por causa da ansiedade. Se a tal Maria Clara ligasse, eu teria a minha chance de entrar no mundo dos buffets de primeira linha. Era a chance que eu precisava. Além da mãe do aniversariante, muitas mães estariam lá. Muitas possibilidades de trabalho assistindo o meu desempenho. Aquele maldito celular precisava tocar. (continua)
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