segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O verdadeiro perigo (selo pais em tpm)

Desacreditem do que a tradição imputa a vocês, pais de lindas meninas, como eu. Não pense que a tragédia suprema e inapelável vai tomar forma no dia em que a sua linda filha chegar em casa trazendo um cebeludo cravejado de piercings, mais parecendo uma daquelas almofadinhas de agulha que a sua mãe tinha quando costurava a próprias roupas.

Nem será o fim do mundo se ela aparecer em casa num sábado a tardinha puxando pela mão um pastiche do Justin Biaber com cabelos penteados para a frente delatando que o pequeno sujeito ali na sua frente ficou pelo menos uma hora e meia em frente ao espelho manejantdo um secador e cabelos e uma escova, quem sabe até um secador/escova que foi surrupiado do quarto do irmã mais velha, com a finalidade estética de fazer com que cabelo atingisse aquele design “levei um vento de popa”.


Nem se desespere se num dia como qualquer outro você chegar em casa depois de um dia repleto de reuniões intermináveis - cuja única finalidade era chegar a conclusão de que novas reuniões seriam necessárias para resolver um problema que na verdade não existe - e ao chegar na cozinha para beber um copo de guaraná com muito gelo, deparar-se com um marmanjo com mais delineador nos olhos do que a a sua filha e sua mulher somadas em dia de casamento, despejando o resto da última garrafa de guaraná da sua geladeira num copo que segura com as suas mãos que ostentam unhas pretas. Não, senhores. Não me refiro a extremidade da unha preta, tal qual um mecânico que ganha sua vida engraxando-se diariamente no processo. Falo de unhas pintadas com esmalte preto.


Dizer que estes sujeitos representam alguma coisa de ruim, algum perigo para nós é a balela das balelas. O folclore dos folclores. Porque nenhum destes seres, caso existam, é ameaça maior do que a sua querida e amada filha aparecer com um sujeito que se veste com uma camisa de um azul normalíssimo, que, por incrível que pareça, combina com as calças, porta-se com o mínimo traquejo social, não só conversa sobre futebol com você como ainda torce para o mesmo time que você. Sua mulher acha que ele é um amor e um primor de educação, o que você acaba descobrindo ser a mais pura verdade. Ele tem pai, mãe e domicílio estabelecido, como diria um juiz no tribunal. Ele é classificado como “esse menino é de ouro”. Estas qualidades envolventes deixam você completamente anestesiado. Quando você menos espera está num jantar com o pai e a mãe dele no tal domicilio estabelecido. Sem se dar conta, com as defesas baixas, não se dá conta de que já caiu na armadilha insidiosa e repugnante.

Então, na manhã com luz outonal de um sábado, com folhas formando um tapete dourado na calçada em frente àquela capelinha romântica que a sua filha e o “menino de ouro” escolheram, você, ainda entorpecido pelo veneno do que foi presa fácil, entrega a mão dela para ele. Você comemora. Discursos, palavras bonitas e algumas doses de tudo o que estiverem servindo depois, você acorda no domingo com duas dores de cabeça: a da bebida, que vai passar no mesmo dia, e a de ter se dado conta de que o menino de ouro passou a perna em você e tomou a sua filha. Essa dor de cabeça também passa. Mas demora mais.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Presentes - (Selo Pais em TPM)

André cambeleava sem destino pela casa, ainda sem consciência total de que havia despertado. Acordara de sopetão ao olhar para o relógio na mesa de cabeceira e perceber que ja passavam das dez da manhã. Em sua cabeça, a confusão musical da noite anterior misturado aos som de inúmeros pré-adolescentes perambulando pela casa. Na verdade, permaneceu em sua mente durante o sono, como se a festa de anviersário da filha tivese atravessado a madrugada e chegado até ali pulsando ao som do bate estaca. Sabe Deus como chegou a cozinha e preparou seu usual café gelado. Achou o pão, pegou o leite e a manteiga na geladeira e a medida em que encheu seu estômago esvaziou a sua mente. Tinha entrado definitivamente no sábado. Foi até a porta da frente e pegou o jornal. A manchete, como sempre, ela alarmante. “Não dão folga nem no sábado”, André pensa. Pega o caderno de esportes. Ele sempre pega o caderno de esportes porque acha o mais inconsequente de todos. As crises lá expostas são tolas e pueris. É atÉ praticamente uma fotonovela. E os comentristas parecem mais lavadeiras fofoqueando sobre a vida alheia. Nada para pensar. Era isso que queria, no momento. Quando a cabeca estivesse cem por cento acordada, passaria para coisas mais inteligentes.

Depois de algum tempo mergulhado na sua leitura, percebeu que as gralhas que ouvia la fora davam gritinhos e falavam português. Foi quando concluiu que não eram gralhas e nem vinham do jardim. Eram Dora e Pati, mulher e a filha no quarto da última. Curioso, André deixou o jornal de lado e foi até a origem daqueles arroubos sonoros. “É incrivel como duas mulheres felizes podem parecer quatro ou cinco juntas. A alegria as multiplica”, ele pensa enquanto caminha em direção ao quarto da filha. Ao chegar, depara-se com as duas sentadas no chão ao lado de uma montanha de presentes, em cuja base, papéis coloridos e ja rasgados dos presentes abertos davam a impresão de lava colorida que jorrou de um vulcão esquisito. As duas estão conferindo os presentes e a cada um que abrem soltam gritinhos. Filha e mãe pareciam ter a mesma idade: 12 anos.

- Olha, isso? – Dora excita-se com uma caixa nas mãos.
- Maquiagem? Uhu! – A filha excita-se.
- Ai, minha filha, olha essas calcinhas?
- Mão, olha qui, olha aqui.
- AaaaaaaaaaaaaaH!!! – As duas gritam juntas.
- Uma bolsa com lugar para o meu celular e o meu MP3.
- É Vuiton, mãe!
- Ah, deve ter sido da sua madrinha.

“Aquela chata esnobe da minha cunhada.", ele pensa enquanto olha aquela cena. Elas nem aí pra ele. Os presentes foram sendo abertos e descobertos e a cada papel rasgado era acompanhado de “ai que lindo“ para os bacanas, “uhus!” para os mais bacanas e o “aaaaaaaaaah!” em uníssono para os realmente incríveis. A operação abre presente durou 40 minutos. O quarto da filha uma bagunça de papéis rasgados. As duas passaram por André e desceram falando ao mesmo tempo num grau de excitação dos mais elevados. Não era um diálogo, nem um monólogo. Não há classificação quando um diiálogo são frases sobrepostas entre dois interlocutores. A medida em que se afastavam o silêncio foi tomando conta do quarto. E o silêncio, que começou como um alívio, passou a se tornar insuportável para André. Porque foi o silêncio que permitiu a ele uma observação mais atenciosa de cada presente naquele quarto. Um a um, em todos os detalhes. Uma gélida corrente percorreu sua espinha. Ficou anestesiado por alguns momentos, prostrado diante do tamanho de sua constatação. Ouviu o bater da porta da rua. Pela força, cloncluiu que a filha tinha saído para se encontrar com alguém no condomínio. O dia estava muito bonito mesmo. Ele desceu e encontrou a esposa colocando as louças sujas na maquina de lavar.

- Ela não está linda? – Orgulha-se Dora.
- É.
- É? André, mas que cara é esta.
- Os presentes, Dora. Os presentes da Pati.
- Ai, cada um mais lindo que o outro. Eu adoro abrir presentes com ela, volto no tempo.
- Não tinha boneca, Dora.
- Como?
- Não tinha boneca, eu disse. Nem cozinha de brinquedo, aliás, a única coisa perto de um brinquedo que tinha ali era um game de Playstation.
- Mas que tristeza é essa?
- Você viu aquelas calcinhas? – Ele parece hiopnotizado. – Os batons. Eu juro que vi uma sandalia com um salto ali no meio. Uma sandália com salto.
- E duas botinhas, com saltinho. Ela ficou uma coisa.
- Coisa é o que eu estou sentindo no peito, Dora, na falta de descrição melhor.
- Você está pálido, André. Está se sentindo bem?
- Cadê os brinquedos, Dora. Nossa filha não ganhou um mísero brinquedo.

Dora olhou para o marido entendendo tudo. Ele parecia um zumbi. Qualquer expressão que ja habitou o rosto de seu marido o havia abandonado naquele exato instante. Ao se olhar para aquele rosto, uma palavra veio-lhe a mente: catatônico. Diante da verdade dos fatos, ela resolveu guardar o noticia que tinha para dar. A de que a filha tinha virado mulher, biologicamente falando. O coitado do André ja tinha tido emoções demais por uma manhã.

domingo, 28 de novembro de 2010

A pertinência dos garçons 1

Casal na mesa 15

Ele:
- Então o que achou?
Ela:
- Ai, Marcelo, que lugarzinho lindo!
Ele:
- Romântico, não?
Ela:
- O que você está querendo, hein?
Ele:
- Ué, um namorado não pode levar a namorada pra jantar num restaurante bacana?
Ela:
- Eu sei, eu sei. Afinal a gente ja está a cinco a os juntos não é?
Ele:
- Cinco anos é um momento decisivo numa relação, não é?
Ele:
- Você ta parecendo ansiosa. Tudo bem?
Ela:
Ai, Marcelo, fala logo.
Ele:
Marisa, o que você tem?
Ela:
Tá bom, tá bom... vou entrar no jogo e esperar o momento.
Ele:
Que momento, meu Deus?
O garçon chega:
- O senhor deseja fazer o pedido agora?




O empreiteiro e o burocrata na mesa 7

Empreiteiro:
- Então, posso contar com essa ponte?
Burocrata:
- Bem…
Empreiteiro:
- Bem? Como assim, “bem”?
Burocrata:
- Tem muita gente interesada na ponte.
Empreiteiro:
- Você não disse que ia ser fácil?
Burocrata:
- Eu disse que ia ser “aparentemente” fácil.
Empreiteiro:
- Isso não está me cheirando nada bem.
Burocrata:
- (risos)
Empreiteiro:
- Qual é a graça?
Burocrata:
- Aparentemente você devia estar acostumado com o cheiro no nosso negócio, não?
Empreiteiro:
- Piadista agora? Tudo bem, tudo bem. O que eu preciso fazer?
Neste momento chega o garçon:
- A comissão não está incluída na conta. Posso cobrar?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Entrevista com Janaína

Janaína é um nome fictício. Ela hoje se diz uma mulher recuperada, plena, completa, mas com um único e pequeno probleminha. Ainda não contou para sua namorada que se entregou de corpo e alma a um homem, o que seria considerado muito mais do que traição pela parceira. Seria um crime muito acima do hediondo. Daí o nome fictício. Mas Janaína não voltou ao sexo com plug natural por um homem qualquer. Muitos já tentaram, até porque trata-se de uma mulher arrebatadora, para dizer o mínimo. Janaína se entregou para ninguém menos do que JJ. Claro, não surpreende. Mas intriga. O maior troféu que a maioria dos homens gostaria de ter, junto com sexo anal e grupal, seria trazer uma lésbica de volta aos bons tratos masculinos. Pois bem, meu caro machão. O fato é justamente esse: JJ não trata o ocorrido como troféu, como você vai perceber ao ler a entrevista com Janaína. Leia e aprenda, ou continue um boçal ignorante e insensível.





Eu:
Quando você percebeu que tinha preferência por mulheres?

Janaína:
Já faz uns 10 anos. Acho que os meus motivos são muito parecidos com o de muitas mulheres que trilharam esse caminho. Os homens com os quais eu me relacionei antes mostravam uma gentileza falsa e uma preocupação excessiva com eles mesmos. Nunca souberam me excitar de verdade. Nunca se importaram. Eu achava que era assim mesmo. Viveria uma vida miserável sexualmente falando. Uma vez, numa festa, eu bebi um pouco além da conta. Estava mais, digamos, liberada. Percebi a amiga de um colega me encarando fixamente. No início me senti intimidada. Mas a medida que a tequila subiu à cabeça eu fui me soltando. Ela percebeu. Saímos dali direto para o apartamento dela. Ela sabia, exactamente, como me fazer feliz. O jeito, o toque tudo. Aquela noite foi a noite da virada.


Eu:
A sua namorada é a mesma daquela noite?

Janaína:
Não. Aquela era muito envergonha (risos). E como eu fui, digamos, introduzida por ela, os meus primeiros anos foram de pura senvergonhice.

Eu:
Em nenhum momento sentiu vontade de ir pra cama com um homem?

Janaína:
Quanto mais eu saía com minhas amigas, mais longe dos homens eu me sentia. E quer saber? Mais mulher eu me sentia.

Eu:
Você é muito sensual, se me permite…

Janaína:
Ta me cantando? (risos)

Eu:
Eu não me atreveria, considerando que você já esteve com JJ.

Janaína (suspirando absorta enquanto morde os lábios):
Ai…o JJ…

Eu:
Ja vamos chegar lá. Bom, você viveu uma vida louca por um tempo. Como foi se apaixonar a ponto de namorar.

Janaína:
Foi normal, como acontece com qualquer um. Um dia você conhece alguém que, além de combinar sexualmente, também combina espiritualmente. Foi também numa festa que eu conheci a Gláucia (nome fictício). Percebemos que quando estávamos juntas era mágico e as vezes passávamos mais tempo conversando do que transando. E quanto estávamos longe, sempre dávamos um jeito de nos falar pelo celular, messager, essas coisas. Assumimos a paixão e fomos viver juntas.


Eu:
Ainda vivem, certo?

Janaína:
Pois é. Vai ser uma coisa difícil contar pra ela.

Eu:
Então chegamos onde interessa: JJ. Defina o homem.

Janaína:
Na minha concepção de ver e sentir as coisas, ele não é um homem. Homem são todos os canalhas que tentaram me comer. Essa é a diferença, homens tentam te comer, mulheres trocam prazer e sentimentos e o JJ, bem JJ é uma alma evoluída. Talvez não seja deste planeta.

Eu:
Pelo que sei, mesmo neste seu período mulherengo, inúmeros homens tentaram se aproximar sem sucesso de você, certo? Como eu disse, você é realmente uma mulher linda. Mas o que JJ fez que os outros não fizeram?

Janaína:
Você está vendo como são os homens? Olha a sua pergunta: “O que JJ fez”. Os homens estão sempre pensando em tácticas, subterfúgios, planos e o diabo para terem uma mulher. JJ não fez nada. Essa é a diferença. Vou começar com o olhar. Aqueles olhos postos em você te fazem repensar tudo. Eu não sei te explicar, é uma admiração. Ele me olhava como quem olha para uma obra de arte no Louvre e não como um croque mounsieur num prato do bistre da esquina. Entendeu? Duvido.

Eu:
Entendi, mas não tenho esse dom. E quando isso aconteceu? Já sei, numa festa.

Janaína:
(muitos risos) Acertou. Ele estava lá com uma amiga da irmã da Glaucia. Cruzamos na cozinha. Ele estava pegando uma cerveja na geladeira e me ofereceu uma long neck. Não sei o que foi, mas já nesse momento, minhas pernas balançaram.



Nota do entrevistador: lembram-se que eu falei do “miasma hipnotizante” no ultimo texto sobre JJ? Olha a prova aí.



Janaína:
Eu peguei a long neck e passamos a conversar. Ficamos um tempão batendo papo. Nenhuma vez ele disse que eu tinha um sorriso lindo, que meus cabelos eram maravilhosos ou que eu era gostosa. Mas a impressão é que ele tinha dito tudo aquilo com os olhos, nas entrelinhas. Quer que eu te diga uma coisa? Falei que a minha bebida preferida era Dry Martini. Ele me contou como ele prepara o dele. Do jeito que ele falou, me olhando com aquela ternura, eu sentia claramente que era de mim e não do Dry Martini que ele falava. Era como se ele me derramasse como Gin, me perfumase com Vermouth de Marselha e me girasse no gelo. No final daquela conversa eu estava entregue como se tivesse bebido uns três ou quatro Drys. E sabe o que ele fez depois? Comigo nesse estado de letargia sexual?

Eu:
Fala logo…

Janaína:
Nada. Porque ele não tinha me cantado, efetivamente, entende? Ele falou de Dry Martini, de um monte de outras coisas, mas me cantar como qualquer homem faria, não cantou. Ele me encantou.

Eu:
Mas e daí?

Janaína:
Ele foi embora com a amiga. Eu fiquei completamente arrebatada. Não dormi a noite. Deu o maior trabalho pra esconder da Glaucia o que estava se passando comigo. No outro dia o JJ simplesmente não saía da minha cabeça. O dia inteiro, cada segundo. Eu fui atrás dele. Simples assim. Eu tinha que ver o JJ. Eu perdi qualquer amarra, qualquer vergonha. Ele tinha me dito onde trabalhava. Saí mais cedo do trabalho e fui atrás dele.

Eu:
E?

Janaína:
Ele ainda estava trabalhando. Quando me viu, aqueles olhos…ai…mostrou satisfação, mas não surpresa. Parece que sabia que iasao iria acontecer. Acho que sabia. Pediu para eu esperar um pouco. Eu esperaria muito se ele quisesse. Ele logo apareceu. Nós saímos, jantamos, quer dizer, eu não consegui comer. Saímos dali, fomos para o seu apartamento. Eu vou resumir uma coisa e é só o que eu vou contar do que aconteceu dali pra frente: ele me fez descobrir algumas partes do corpo que nem eu sabia que tinha.

Eu:
Você não vai revelar nenhum detalhe? Nenhum?

Janaína:
Bom, vou dizer apenas um. Lembra do seu personagem, o Palhaço Lelé? Fizemos a cena da lavadora de roupa na centrifugação.



Nota do entrevistador: ela se refere ao conto “E o Palhaço o que é?”, que está neste blog, no momento em que Lelé está transando com Maria Amélia. Ele sentado na lavadora de roupa e ela sentada sobre nele, encaixada. A lavadora na centrifugação fazendo todos movimentos.



Janaína:
Não sei se você experimentou isso de verdade. Uma loucura…uma loucura.






E assim termina a minha entrevista com Janaína, a linda lésbica que voltou a ser mulher só por causa de JJ. Uma entrevista reveladora, esclarecedora e que põe todos nós, homens comuns, em nosso devido lugar. O positivo, pra mim, é que o JJ lê meus contos. Ele e minha mãe, pelo que sei.

domingo, 7 de novembro de 2010

JJ

Vez por outra, a humanidade recebe de presente espíritos evoluídos em forma de seres humanos. Aqueles que vêm para nos dar um empurrão evolucionário. Mozart e Bethoven na música, Einstein e Drawin na ciência, Jobs e Bowermann na cultura empresarial. Quando o assunto é a lide com o sexo oposto, este espírito veio na forma do JJ (pronuncia-se Jei-Jei).

JJ não é lindo, não tem abdome de tanquinho, não é alto, não tem uma voz aveludada, não toca guitarra, não é famoso em nenhum assunto que torna as pessoas famosas. Tem um bom emprego, é bom no que faz e tem uma vida material boa, isso lá ele tem. Mas o que ele realmente tem é uma admiração profunda e sincera por toda e qualquer mulher do planeta. É algo tão singelo, tão verdadeiro e tão estrondosamente poderoso que emana em forma de algum miasma hipnotizante que só atinge o sexo oposto. Ele não procede à gentilezas porque quer levar as mulheres para a cama. Ele faz porque as admira, ama sinceramente a todas e por isso, lhe é natural como respirar. Enquanto o homem comum abre a porta do carro para que uma mulher entre apenas no estágio “quero te comer”, JJ não. JJ continua abrindo a porta do carro mesmo para aquela com a qual trocou carícias e líquidos corporais, coisa que, aliás, faz semana sim e outra também.

As mulheres percebem esta sinceridade, esta verdade em cada movimento. JJ não tem vergonha de passar em frente a uma Kopenhaggen e comprar uma caixa de lingua de gatos para dar a secretária do seu chefe porque, uma vez, a ouviu dizer que adorava tal iguaria. Ele não espera nada dela, a não ser ver um sorriso iluminar o seu rosto. E por isso mesmo ela lhe deu muito mais do que o tal sorriso.

Para JJ não existe mulher feia. As mulheres “foram feitas por último e os homens foram apenas um rascunho para o Criador chegar a perfeição, que são elas”, costuma repetir. Para JJ, existem mulheres pelas quais ele sente desejos, mas a admiração por elas é um sentimento democrático. JJ não se importa de dar seu casaco a uma gordinha que sente frio, nem de ceder seu bombom Sonho de Valsa a uma baixinha de medidas desproporcionais e rosto de fuinha. Todas são mulheres e todas são admiradas igualmente. Desejo é outra coisa. Esse respeito e atenção com que trata as não tão abençoadas fisicamente acaba por provocar ainda mais simpatia e desejo entre as lindas e bem dotadas de curvas e volumes. JJ não é galenteador de oportunidade. JJ é assim.

Muitos homens tentam vilipendiar JJ, gozando de seus gestos amáveis e gentis. Ele não se importa e não sente vergonha por isso. Segue sua sanha incansável de agradar toda a mulher do mundo, simplesmente porque ela é mulher A cada gozação, a cada manifestação de escárneo, JJ segue impassível, sem se importar, fato que só faz crescer o seu magnetismo natural perante elas. Pobres homens que não conseguem alcançar a inteligência emocional de JJ, a superioridade energética de JJ. Tolos. Voltam para casa e vão fazer justiça com as próprias mãos inspirados em algum site de sacanagem, enquanto JJ divide carícias e atenções com suas fêmeas completamente entregues, lânguidas.

Existe várias histórias sobre JJ, por isso, para terminar esse relato emocionado e admirado. JJ foi recentemente acometido de um mal súbito. Corre dali, corre daqui e la se foi o nosso herói para o hospital. Após os exames, constatou-se que ele precisaria passar por procedimento cirúrgico: tirar pedras da vesícula. Conta-se que, pouco antes de perder a consciência devido a anestesia, ouviu uma das enfermeiras contando para o anestesista o quanto ela adorava bomélias. Foi ouvir isso e apagar. No outro dia, a enfermeira recebeu um lindo arranjo de bromélias com um cartão agradecendo a ela pelo carinho na sala de cirurgia. Ele mal conhecia a enfermeira, nem viu se era bonita ou feia, apenas se apressou em saber o nome dela e pediu para que enviassem as bromélias. Só JJ para inverter a ordem natural das coisas. Em vez de receber flores no hospital, ele foi quem as deu. Por amor as mulheres. Não é preciso dizer que JJ anda saindo com a enfermeira (Lana é o nome dela). E parece que aquelas pedras andam adornando as orelhas da moça em forma de brincos. Ela adorou. Parece estranho para você? É por isso que você é você e JJ é JJ.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sem pé nem cabeça

Ele era um excelente contador de histórias, do tempo em que as histórias que ele contava ainda eram chamadas de estórias. Quando começava a contá-las as pessoas ficavam hipnotizadas.

- Mas o cara saiu correndo de que, vovô?
- Isso eu não sei. Só sei que ele saiu correndo e rolou numa ribanceira e só foi parar de rolar no chão duro, preto e meio áspero.

Uma pausa dramática leva os netos a loucura.

- Então vovô.
- Era asfalto, minha filha, ele caiu no meio de uma estrada. Quando deu por si viu a luz de dois faróis em sua direção.
- E então vovô?- Todos falaram em uníssono - E então?
- Não sei. Mas como era a vítima do tombo que estava contando esta história para um amigo, julga-se que escapou ileso, pois não?

Os netos odiavam quando isso acontecia, ou seja, sempre, mas nunca conseguiam resistir quando ele começava a contar suas histórias. As vezes, algo no meio de um jantar era o suficiente para lembrá-lo de uma de suas histórias inacabadas. Fora os filhos, que se divertiam muito sabendo como elas não iam acabar, os outros convidados eram capturados pelo talento do seu Maurício na arte de contá-las.

- Milho me lembra a história de uma moça que morava no interior. Ela estava para casar com o seu namorado de anos. Uma eternidade tinha aquele namoro. Nos fundos da casa do pai tinha um enorme milharal e um dia ela resolveu se embrenhar por entre a tal plantação. Como as hastes com os milhos estavam altas ela se perdeu, acreditam? Se perdeu completamente. O dia estava nublado e sem a referência do sol, não sabia para que lado ir. A coitada ficou desesperada. De repente, do nada, surgiu um lindo rapaz, segundo ela disse. Alto, cabelos e faces brilhantes e uma vestimentas deveras esquisita. Ela tinha a mais absoluta certeza de que ele não era deste mundo.

Como de costume, recorria a sua pausa dramática. Pegou um milho e fitou-o como se aquele milho pudesse ser a testemunha da história que ele contava ali. Os convivas na mesa nem respiravam. Ele sabia captar a audiência.

- O rapaz pegou na mão dela e, sem falar nada a conduziu pelo milharal. Apesar dele ser um completo estranho ela simplesmente não conseguiu resistir aquela mão estendida. Por alguma razão que não conseguia explicar, confiava plenamente naquela figura alva. Ele a conduziu sem dizer uma palavra até a saída daquele labirinto verde e amarelo. Quando olhou a casa, sentiu um alivio imenso. Virou-se para agradecer e aí veio a surpresa…

Mais uma pausa, mas desta vez, a impaciência tomou conta da mesa.

- Que surpresa, seu Mauricio. O homem era de outro planeta mesmo?
- Não.
- Ele sumiu, era um espírito?
- Talvez.
- Como talvez, seu Moreira?
- Eu não sei, gente, juro que não sei. A tal moça e a amiga para quem ela contava a história desceram no décimo primeiro andar. Vida de ascensorista era assim, meus filhos. Muitas histórias ou sem pé, ou sem cabeça, ou sem nenhum dos dois. Nunca foi fácil. Nunca foi fácil. Delicia esse milho, hein?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O vórtice das vitrines.

Márcia e Cláudio saem do cinema com os créditos ainda fazendo o seu caminho vertical de baixo para cima. Seguem o fluxo de pessoas em direção à saída da sala. Não conversam, ao contrário de muitos outros que fazem seus comentários sobre o filme recém-findo em voz alta, já que a música ainda sai pelos potentes alto falantes estrategicamente distribuídos dentro da sala. Após alguns passos morosos eles alcançam a saída. Os olhos tendo que se acostumar à claridade acachapante das luzes alvas do shopping. Eles então seguem caminho pelos corredores.

- Então, gostou do filme? – Ele pergunta.
- Adorei. – Ela abre um sorriso – E você?
- Não foi o que eu esperava.
- Nossa, logo você que adora ficção científica.
- Deve ser por isso, quando a gente gosta do gênero, fica mais exigente.

Os dois continuam andando pelo corredor ainda sem destino definido. Andam no mesmo passo vagaroso das pessoas que estão ali pelo prazer de ver as lojas e pela temperatura amena proporcionada pelo ar condicionado. Lá fora, 34 graus.

- Eu estou com fome. – Ele, passando a mão no estômago.
- Muita?
- Você conhece o meu estômago. Aquelas pipocas não fizeram nem cócegas. E depois, eu estou louco para comer aquele sanduíche de pão francês com tiras de filé e cebola frita que eles fazem naquela lanchonete da praça de alimentação...

Cláudio percebe que as pessoas estão olhando para ele. Algumas claramente apiedadas, outras com um sorrisinho indisfarçável. Uma menininha passa, olhinhos arregalados na direção dele, agarrada às pernas da mãe, que a abraça enquanto se afasta dele a uma distância que julga segura. Todas aquelas reações eram sinais claros e inequívocos do que ele mais temia. Olhou para o lado e teve certeza. Ele estava falando do tal sanduíche para ninguém. Falava sozinho, com água na boca, do seu sanduíche favorito, pois sua amada Márcia havia sumido de uma hora para a outra. Havia sido sugada pelo vórtice da vitrine. Estancou no meio do corredor. Olhou para trás. Vitrine era o que não falta dentro de um shopping. O vórtice da vitrine, segundo Cláudio, é uma anomalia no espaço-tempo, uma singularidade, que afeta a maioria esmagadora das mulheres. Ele se forma ao passarmos por uma determinada vitrine, que suga suas vítimas para dentro de uma outra dimensão: o mundo da gastança. A princípio pensou que o fenômeno afetava apenas a Márcia, mas após cuidadosos estudos com amigos e parentes, chegou à conclusão de que este era um fenômeno tão corriqueiro quanto as massas de ar quente e frio que se chocam causando as chuvas.

O próximo passo é procurar por Márcia loja por loja, refazendo todo o caminho já percorrido. Num shopping, o trabalho fica ainda mais árduo por razões óbvias. Alguns se gabam de ter muitos quilômetros de vitrines. Mas, não é hora para esmorecer. Não há tempo a perder, pois neste momento, Márcia já deve estar sob o domínio dos seres que habitam a dimensão para a qual o vórtice da vitrine leva suas vítimas: as sereias atendentes. Insidiosas, elas atacam suas vítimas com elogios e paparicações com o único e pérfido objetivo de se obter seu alimento: a comissão. O tom hipnótico da voz se torna irresistível. Aquele par de brincos ficaria ainda mais lindo com a gargantilha. A gargantilha, por sua vez, combina perfeitamente com a blusa marrom, que fica divina com a calça jeans stone washed, que fica perfeita com a bota de bico fino e cano médio. Obviamente, a bota pede um cinto no estilo e cores pertinentes e, por último, a bolsa. Ele precisa achar Márcia rapidamente, antes que ela seja seduzida a levar um guarda-roupa ineiramente novo. E, dependendo da loja, pode estar até levando o guarda-roupa mesmo. O móvel. Cláudio olha desesperado, loja em loja. Invade provadores, procura por entre araras, assustando clientes. Cláudio é um homem desesperado. Finalmente, após vinte minutos de procura desenfreada, ele enxerga Márcia cercada por duas sereias atendentes. “Covardes”, pensa, “Atacando em bando”. Ele entra na loja como um cavaleiro andante pronto a salvar sua donzela. Só que, em vez da espada, ele saca o seu cartão de crédito. Cláudio sabe muito bem que ela não vai sair lá de dentro de mãos vazias. As sereias atendentes mudam o tom gentil e solícito para o desesperado assim que percebem a chegada Cláudio. Mas só ele percebe, porque só os homens percebem esse tipo de mudança. Ele finge não ver e toma todos os cuidados, pois está numa dimensão que não é a sua. Márcia percebe a sua presença, vira-se segurando a uma blusa abóbora na frente do corpo.

- O que você achou.

Estava feliz. Era ele quem dava as cartas. As sereias atendentes recuaram, conformadas com a mísera comissão que tinham conseguido até ali. Ele tinha pressa, muita pressa. Além de tirar ela do mundo da gastança, lembrou de sua fome. Aquele sanduíche parecia cada vez mais delicioso.

domingo, 19 de setembro de 2010

Cinco boleiros e um menino.

O menino ainda estava em formação. Não falo da formação física porque esta já se tinha concluído. Pulmões, rins, cérebro, coração, tudo em pleno funcionamento. O que ainda estava por ser difinido eram certas convicções do menino. Dentre as quais a mais sagrada: o time do coração. Como qualquer menino, ele teve os primeiros contatos com o futebol pela mão do pai. Mão que o levava todo final de semana ao estádio Olímpico. Os sons da torcida, o grito dos vendedores, o cheiro de cigarro recém-aceso e aquele azul-celeste desfilando pelo gramado deram ao menino a condição de gremista. Mas veja bem, meu amigo leitor, que uma coisa é ser gremista e outra é ser gremista convicto. E tal afirmação vale para qualquer preferência clubística. E não é fácil chegar à convicção. É um caminho doloroso, cheio de espinhos, solitário, triste e, por isso mesmo qualquer um pode fraquejar e se tornar o tipo mais abjeto de ser humano a habitar este planeta: o vira- casaca.

Pois o nosso menino acabou percorrendo o tal caminho em meados dos anos 70. Nessa época surgiu na cidade um bando formado por quatro sujeitos que pareciam ter como meta de vida fazer esse menino trocar a cor da sua paixão. Eram eles Figueroa, Falcão, Carpegiani e Lula. O primeiro, seguro e elegante até para dar uma cotovelada. O segundo, altivo como um rei, cargo que aliás ocupou mais tarde em outra cidade. O terceiro era rápido, incansável e inteligente. E o quarto driblava e ia à linha de fundo como se ninguém estivesse a marcá-lo. Quatro sereias a cantar todo final de semana no ouvido desse pobre menino: vira colorado, guri. Vira colorado, guri. E o menino lá, resistindo bravamente, mas longe de vencer a tentação.

Dia que tinha Grenal então era um suplício. Sempre pela mão do pai, lá ia ele para o estádio. Sentava nas cativas, pronto para torcer para o seu time. Mas lá no fundo ele também ia admirar o maravilhoso futebol dos quatro. Tentava não admitir para si, mas que admirava, admirava. Sabia que o Grêmio não teria a menor chance com aquele bando de craques jogando do outro lado. Seria tudo tão mais simples se ele fosse colorado. Imagina poder bater no peito e dizer: O Falcão, o Carpegiani, o Lula e o Figueroa são do meu time. Mas no que pensava em tal coisa a consciência aparecia e gritava no seu ouvido: Vira- casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser?

Outra prova a que esse menino tinha que passar era enfrentar as peladas no recreio do colégio. Todo colorado tinha uma vantagem incontestável. Cada um que pegasse a bola podia se imaginar um craque do seu time. Narrando em voz alta, era comum ouvir avoz deles, enquanto carregavam a bola, um "lá vai Lula", ou um "que passe maravilhoso de Falcão!" e assim por diante. O pobre menino não tinha um ídolo no seu Grêmio que pudesse incorporar em seu imaginário enquanto estivesse com a bola de couro número cinco já sem tinta nos pés. Seria tão mais fácil se adotasse o vermelho. Poderia ser Lula, Falcão, Carpegiani ou Figueroa,quer dizer, este último com certa relutância, porque não gostava muito de jogar na zaga. Mas aí, a consciência apareceia mais uma vez e repetia no ouvido dele: Vira-casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser? Uma tortura. Uma dolorosa tortura.

Mas tudo mudou numa noite chuvosa do inverno porto-alegrense. O pai novamente pegou na mão do menino e o levou ao Beira Rio para assistirem a mais um Grenal. E lá foi ele para ver mais um show do quarteto fantástico. Havia três anos que o Grêmio não ganhava um mísero Grenal nem que fosse por laranjas. E não havia nada que projetasse uma jornada diferente naquela noite. O jogo começou e o Grêmio jogou como nunca. Naquela noite fria e chuvosa, os quatro ficaram pequenos na frente de um ponta-direita de cabelos altos estilo black power, parecia um dos Jackson Five. Um carioca que não tinha nada a ver com aquele clima gélido, polar. Era conhecido pela alcunha de Zequinha. Pois o endiabrado ponteiro fez três gols naquele Grenal e o Grêmio acabou vencendo por três a um. Um gol para cada ano sem vitória sobre aqueles vermelhos. O peito do menino inflou como nunca havia acontecido antes. Inflou de felicidade. Inflou de convicção. E no dia seguinte, na tradicional pelada da hora do recreio, na primeira vez que tocou na bola de couro número cinco já sem tinta, o menino, imitando narrador de rádio, falou em alto e bom som: bola com Zequinha.

domingo, 12 de setembro de 2010

Pais em TPM apresenta: confusão na firma.

Ernesto chegou no trabalho no horário de sempre. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. O jeito metódico estava encrustrado em algum de seus gens, herdado da mãe, que tudo organizava, tudo anotava e tudo planejava. Não tinha os exageros da velha senhora, mas mostrava certos traços, o suficiente para atrapalhar, vez por outra, a convivência com a sua esposa, Celina. Ernesto entrou em sua sala cumprimentando Dona Olga, sua secretária, com a firmeza e a mesma frase de todos os dias “Bom dia, dona Olga, como estamos hoje?” Quando sentou-se em sua mesa e ligou o seu computador, percebeu algo errado. Não conseguia estabelecer a razão daquela pequena incomodação, daquele desconforto, até que percebeu que os jornais não estavam sobre a mesa como é usual. Fato que o fez lembrar que ao passar poor dona Olga e feito a pergunta de praxe não ouviu resposta alguma. E como estava com a audição em ordem, como bem disse o úktimo check up, então a expressão certa não seria não ouviu e sim a dona Olga não respondeu. O que era muito estranho. Julgando o mundo a sua volta pela sua ótica oredeira, alguma coisa estava errada. Levantou-se e foi até a dona Olga. Percebeu um olhar de desaprovação vindo dela. Não uma desaprovação total, mas desaprovação, por certo.

- A senhora está bem dona Olga?
- Em pefeito estado de juizo, seu Ernesto. Coisa que falta a uns e outros neste escritório.
- A senhora está se referindo a quem, dona Olga?
- Tome aqui os seus jornais – falou ela estendendo-lhe os jornal. – Estou só com uma indisposição.

Aquilo era muito esquisito. Ela estava se referindo a ele quando dizia “certas pessoas”? é claro que estava. Quando um interlocutor fala a expressão “certas pessoas” com aquele tom pejorativo certamente está se referindo àquele com o qual está conversando. Enquanto ruminava o que poderia ele ter feito à dona Olga, se esquecido do aniversário? Uma promessa de aumento não cumprida?

Ao voltar de suas divagações percebeu alguns olhartes acompanhando a seus passos até o bebedouro. Havia olhares de reprovação como os de dona Olga e outros acompanhados por um sorriso sorrateiro e cúmplice. Estaria ele imaginando tudo aquilo? Sentiu o coração disparar. Havia muita coisa fora do lugar para o seu gosto organizado. Quando estava chegando ao bebedouro percebeu dois estagiários que conversavam e teve a nítida impressão de ouvir claramente um “é ele, não é?”. Constranfeito e descioncertado, passou pelo bebedouro e alcançou a cozinha que, felizmente, estava deserta. Jogou os jornais sobre a mesa e procurou a térmica. Sentiu que precisava de um café quente, mesmo que fosse o café meio sem gosto da dona Rúbia. Ele nunca javia entrado naquela minúscula cozinha e notou a bagunça, para os seus parâmetros, que era aquele lugar. Pegou um copo plástico, despejou o café fumegante até a metade, acresceuntou uma colherinha de açucar e sorveu o oprimeiro gole. O líquido quente pareceu abrandar um pouco a sua ansiedade. Estava tentando se colocar nos trilhos e se perguntando se aquilo não era apenas uma ilusão da sua parte. Subitamente a figura lânguida, esguia e sensual entra cozinha adentro.

- Bom dia, Ernesto? Que surpresa encontrar você nesta cozinha – ela era toda sorrisos.
- Bom dia, Clarice.
- Como foi seu final de semana?
- Normal.
- Olha – ela baixou a voz e se aproximou dele a ponto dele sentir o cheiro do shampoo caro que ela usa – se você quiser passar outro destes seus finais de semana normais, me avisa, tá?


Ela saiu da cozinha como se estivesse mostrando um vestida da nova coleção Dolce & Gabana na passarela, deixando-o completamente desconcertado e certo de que algo estranhíssimo estava ocorrendo. Aqueles olhares, aquele comportamento de dona Olga não eram truques da sua imaginação. Por que diabos estava sendo o foco de atenção dos colegas? Sim, ele ja não tinha mais dúvida. Era alvo de comentários. E aquela cozinha ja devia ter ouvido poucas e boas sobre ele. “Esse lugar é praticamente o estúdio de onde é transmitia a rádio corredor”. Olhou para a geladeira, o fogão, a violeta da janela como se pedisse para contarem alguma coisa que tivessem testemunhado. O cheiro do shampoo da Clarice impregnando suas vias nasais. A cantada da Clarice ainda viajando pela sua mente. Tinha vontade de ficar ali naquela cozinha e não sair mais, mas a dona Rúbia chegou e começou a lavar as xícaras e pires que povoavam a pia.

- Ué, doutor Ernesto. O que o senhor ta fazendo aqui?

Teve vontade de beijar a dona Rúbia. Era a única que permanecia a mesma, a dona Rúbia do seu mundo organizado e ordeiro, longe da bagunça que se encontrava agora. Precisava criar coragem e sair da cozinha. Afinal, havia trabalho a fazer. Passou por todos novamente e os olhares disfarçados, mas nem tanto, o acompanhavam de todos os lados. Ele precisava encontrar o Jarbas. Era mais que um colega, era alguém com que podia contar e que colocaria ordem no seu mundo. Passou por dona Olga que coninuava emburrada. Foi até a sala do Jarbas e cruzou com dona Juliana sem nem perceber que ela o olhava como se ele fosse um idolo. Irrompeu a sala do colega e quase aos prantos suplicou.

- Jatbas, pelo amor de Deus, diz que eu não sou louco. A empresa inteira, tirando a dona Rúbia, está me tratando como se eu tivesse feito alguma sandice.
- E você não sabe? Nem desconfia? – O Jarbas mostra aquele mesmo sorriso sorrateiro de alguns.
- Você também quer me enlouquecer, Jarbas? É claro que eu não faço a menor idéia. O que é estranho é que metade da empresa me olha como criminoso e a outra metade como um herói. Até cantada da Clarice eu levei.
- A gostosa da Clarice? – Impressiona-se o Jarbas. - Meu Deus, Ernesto, depois de tanto tempo, você resolve mudar e virar um predador.
- Jarbas, PELO AMOR DE DEUS! Eu nao sei o que está acontecendo.
- Não se faz de desentendido. Você foi flagrado e o flagra foi documentado.


Jarbas vira o computador que mostra vearias fotos do Ernesto com uma menina linda. Fotos que mostram os dois em inúmeras demonstrações de afeto. Carinhos, mãos dadas, abraços.

- Jarbas, você e essa maravilha. Num shopping. Que gatinha é essa, meu Deu?
- Quem tirou essas fotos?
- O Romano, estagiário. Mas antes que vocé se irrite com o rapaz, confesso que até eu, no lugar dele, fotografaria e espalharia a foto pra empresa inteira. Garanhão! Essa mulher é uma…uma
- Uma o que Jarbas?
- Uma gostosa. Olha isso, meu Deus, que coisinha Ernesto. Como é o nome dela.


Ernesto se jogou sobre o Jarbas com uma fúria descontroada. Cairam sobre a mesa e depois no chão. Ernesto pegou o Jarbas pelo colarinho e chacoalhava o colega que batia com a cabeça no chão. Com os dentes cerrados, porém gritando sempre a mesma coisa.

- Essa é a Joyce. A Jouyce que você viu nascer, seu pedófilo potencial.

Demorou pra separarem os dois. A Joyce, que o Jarbas viu nascer mas que foi estudar na Europa fazia dois anos e apareceu de surpresa no final de semana. A Joyce que estava linda e apenas com 16 anos. Que estava no shopping com o pai no momento em que as fotos foram tiradas por aquele maldito estagiário fofoqueiro.

domingo, 29 de agosto de 2010

O exterminador de discussões.

Quanto entrava na discussão, era acachapante, definitivo. Tinha um argumento tão inatacável que a discussão perdia o sentido. Não importava o assunto, a discórdia, ele era o ponto final, a tecla "mute". Sua visão neutra, gélida e coberta da mais racional das razões desestruturava qualquer embate. Tirava-lhe o sustento. Implodia-o impiedosamente. Um: “Foi pênalti”. Outro: “Bola na mão, bola na mão”. Um: “Penalidade mais do que máxima, meu amigo. Teu time vive recebendo mãozinha dos de preto.” Ele: “A bomba já explodiu, de que adianta continuar discutindo se o fio que devia ser cortado é o branco ou o verde?”. Silêncio. Sepulcral. Inconteste. Entre cada sílaba daquela frase completamente coberta de sabedoria ecoava a completa inutilidade daquela discordância. Um: “Como pode votar nele? É um inepto. Quando estava no Ministério da Educação, o investimento em ensino básico caiu drasticamente”. Outro: “E quando foi que ocorreram aqueles dois apagões? Quando o teu candidato era Ministro das Minas e Energia”. Um: “E o filho do teu candidato, que de desempregado virou milionário prestando serviços para o Ministério da Educação?”. Outro: “Filho? E o teu candidato que empregou filho, nora, genro, mulher e o escambau na época em que era Deputado Federal? “. Ele: “Ótimo. Vocês me deram razões para não votar em nenhum deles. Vou de terceira via.” Novamente, o silêncio insuportável. O silêncio de quem cai em si. De quem constata a sua própria estupidez. Ele sempre foi assim, ouvia dezenas de colocações, de justificativas apaixonadas, envolvendo qualquer assunto. O casamento, o trabalho, o trânsito, tudo. Quando abria a boca era definitivo. Era uma única frase. Certeira. Mortal. Um atirador de elite. Um matador frio. Era abrir a boca para termos uma cizânia morta. Desfalecia ante a constatação de sua estrondosa inutilidade. Mas seu tirocínio tornou-se um fardo. Uma maldição a persegui-lo. Implacável. Afinal, quem, em sã consciência, deseja ficar perto de uma pessoa dessas? Quem, em em seu juízo perfeito, deseja ter por perto alguém que espelha o nosso lado mais débil? Ninguém. Alma viva. E depois, uma discussãozinha é sempre muito bem vinda. Que o digam as mesas redondas. Essa maldita inteligência, essa perspicácia corrosiva foi, com o tempo, se virando contra ele. Se tinha um bolinho, este se desfazia quando ele chegava. Ninguém o queria por perto. Hoje, vaga solitário, acompanhado apenas da sua razão indómita. Ainda bem que gosta de cachorros.

domingo, 22 de agosto de 2010

Pais em TPM apresenta: O justiceiro recalcitrante

Sou um assassino. Um assassino obstinado. Um serial killer da mesma pessoa. Já a matei de várias formas. Mas nenhuma foi cruel o bastante para aplacar a minha ira inconsolável. É sempre igual. Assim que o mato, comprazo-me, extasio-me. Mas no que volto a mim, lá está ele novamente. O maldito bípede de cabelos compridos continua vagando por esse planeta, incólume. Não sofreu o bastante, então preciso de uma forma ainda mais dolorosa de tirar-lhe a existência.

A primeira vez que o matei foi muito simples, singelo até. Nada elaborado. Foi pura reacção. Simplesmente parei na frente dele e descarreguei uma pistola. O pirralho caiu imediatamente, estendido no chão com vários pontos por onde o sangue jorrava. Não durou muito. Não adiantou nada. Não era assim que eu queria. Precisava demorar mais. No outro dia eu apareci com uma faca e o esfaqueei repetidas vezes, um crime muito mais visceral, demorado, doloroso. Esfaqueei-o tal um Caim obstinado. Não contei quantas foram as estocadas. Gostei mais, pois ouvi gritos e gemidos vindos daquele boca. A mesma de onde saíram as palavras que causaram todos os problemas.

No outro dia parecia que nada havia acontecido. E não havia mesmo. Ele obviamente estava vivo, desfrutando de saúde e provavelmente jogando seu charme em alguma incauta. Decidi aumentar o nível de crueldade. Sequestrei-o, levei para um lugar ermo e o enfiei em uma pilha de pneus usados. Joguei gasolina, peguei um isqueiro Zipo. Acendia e apagava, acendia e apagava, enquanto encarava o moleque desfrutando cada segundo. Seus olhos arregalados eram uma imagem doce para mim. Seus gritos desesperados eram a mais afinada das sinfonias, trilha sonora perfeita para a minha vingança, quero dizer, a nossa. Suas explicações entre lágrimas e soluços cheios de pavor me faziam dançar. Depois de alguns minutos joguei o isqueiro e o fiquei observando-o queimar. Urros e o crepitar do fogo. Nem bem passaram dez minutos e eu obviamente voltei a realidade. Nela sabia que ele estava e contente, talvez ouvindo música alta em seu quarto incomodando os próprios pais.

Teve a vez em que eu o sequestrei novamente, levei-o para um depósito abandonado e o amarrei numa cama. Dava-lhe apenas um copo de água por dia. Ficava observando-o definhar dia a dia, aquele moleque insolente e cruel. Pensei no quanto estavam sofrendo os seus pais. Talvez sofriam como eu estava sofrendo. Um sofrimento lancinante e agudo. Uma sensação de impotência tão completa, tão pesada, tão escura que faz justamente me tornou nesse assassino frio. Lá pelo sexto dia de cativeiro tudo mudou. Radicalmente. No café da manhã eu olhei a minha filhinha, carregando um sorriso sincero no rosto.

- Bom dia filhinha.
- Oi, pai.
- Que sorriso lindo. Há quanto tempo não via esse sorrido.
- Meu coração está aliviado, pai. Bem que você me disse “o tempo vai curar essa dor”.
- Esqueceu aquele moleque?
- Acredita? Assim, simplesmente. Sumiu. É a melhor sensação do mundo. Bem que o senhor me falou.

Ela levantou, beijou gostosamente a minha face e foi para a escola. Eu fiquei olhando para ela, leve, normal de novo. Longe daquela alma penada andando pela casa carregando o sofrimento da rejeição nos ombros pela primeira vez na vida. Fazendo-me sofrer ainda mais do que sofri com as minhas próprias desilusões quanto tinha a idade dela. A única coisa que eu podia fazer por ela não parecia o bastante: estar sempre perto, abraçá-la, repetir o óbvio sobre o tempo curar a dor. Por mim eu nada podia fazer, a não ser matar a causa desse sofrimento tantas vezes quanto eu podia em minha imaginação. Mas agora, isso já não importa mais. Libertei o moleque da minha tortura imaginária. Ele passa bem. Mas ai do moleque que fizer isso conosco novamente.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O diretor e o bedéu

"Veja, meu caro Juliano, não admira você estar aí feito um dois de paus encarando-me admirado por não entender a minha atitude. É, basicamente, por isso que eu sou diretor desta prestigiada instituição de ensino e o senhor é apenas o bedéu. Por outro lado, seu espanto é que, de alguma forma, me espanta, porque, afinal de contas, o senhor é uma figura de autoridade e como tal deveria entender as pequenas sutilezas a que um homem em cargo de comando deve lidar diariamente. Eu não tenho preferência nem por Milena e nem por Isabela. Eu sei que o senhor está com essa caraminhola na sua cabeça porque o mundo das duas é completamente diferente, já que, por exemplo, uma pinta as unhas caprichosamente. Todas as unhas da mão da mesmo cor. Uma uniformidade cromática que denota equilíbrio e sistema. A outra tem uma unha da cada cor. Um caso cromárico. Um arco-iris na ponta dos dedos. Diferente, sem dúvida. É incrível como a maneira de uma mulher pintar as suas unhas diz muito sobre ela, não é verdade? Uma certinha, a outra, louquinha, um tanto, como direi, esquisita? Esquisito é uma boa palavra. Eu não nego que senti um certo, digamos, júbilo, o senhor sabe o que significa júbilo, Juliano? Pelo balançar da cabeça vejo que sabe. Pois muito bem, eu senti um certo júbilo ao ver as duas sentadas lado a lado na ante sala do meu gabinete. Aquelas duas vivem em mundos diferentes, nunca sentariam lado a lado em lugar algum. Mas o que não faz o infortúnio, não é mesmo, Juliano? O infortúnio junta pessoas injuntáveis. Homogeniza os heterogênios. Mas vejamos, onde eu estava? A, as duas lado a lado na ante-sala porque cometeram o mesmo deslize. Chegaram atrasadas, desconsiderando até mesmo a nossa tolerância de dez minutos. Eu sou uma pessoa razoável, não sou Juliano? Queria ouvir o que elas tinham a dizer, afinal, sabe-se lá que acidentes inomináveis poderiam ter acontecido para provocar os tais atrasos. E aí voltamos ao início da nossa conversa. O senhor não compreende porque depois de me contar aquela história esapafúrdia do cano que estourou no banheiro e a quase inundação que o vazamento provocou, fazendo, como ela disse?, "agua cair escada abaixo como as cataratas do Niágara." Não é uma beleza enquanto metáfora pobre? Onde estava?Ah, sim, o senhor não compreende porque depois de me contar esta mentira tão descarada eu liberei Milena para assistir a aula, enquanto Isabela, que simplesmente olhou nos meus olhos e disse "dormi demais" foi para a detenção esperar o segundo período. Ora, Ora, Juliano. Eu não premiei a mentira em detrimento da verdade como eu supõe essa sua expressão espantada no rosto. Não sou insensível a esse ponto. Eu premiei o respeito e castiguei o escárnio e o sentimento de superioridade em relação a uma autoridade. Aquela mentira deslavada, ou se quiser, lavada em água do cano que na verdade não vazou é uma forma de respeito a mim. Demonstra que ela me vê como alguém capaz de manejar o seu destino aqui dentro desta instituição. Ja a outra, Isabela, tomou apenas sete segundos para atirar na minha cara a verdade. Isso demonstra o que, meu caro Juliano? Demonstra que a outra simplesmente não me vê como alguém que pode influir em sua vida. É um atrevimento jogar assim a verdade na cara de uma autoridade, mesmo com aquele jeitinho meio maluquinho. Não se fala uma verdade desse calibre, numa situação dessas para alguém numa pisção superior. Isso é uma ofensa, uma total falta de respeito. A punição é uma consequência lógica para este ato. Não é simples, Juliano? Cristalino como água a mesma água…isso do cano que não vazou. O senhor aprendeu, não aprendeu? Agora pode ir e leve esta valiosa lição com o senhor."

domingo, 8 de agosto de 2010

Conveniências

Três amigos inseparáveis, Zé, Tuti e Neco, relambravam os anos em que a maior responsabilidade deles era entregar os trabalhos e ter notas boas na escola, posteriormente faculdade. O Zé lembrou que naquela época começou entre eles a sindrome de 1984, o livro de George Orwell. No livro, haviam 3 continentes em eterna guerra. Num dia, a Eurásia era aliada da Oceania contra a Lestásia. No outro dia, a Eurasia e Lestásia eram aliados contra a Oceania e, de acordo com o Estado, sempre fora assim. Enfim, as alianças trocavam de acordo com a conveniênca do Estado totalitário descrito pelo autor inglês. No caso dos três amigos, dependendo do assunto, alianças semelhantes de formavam. Sempre dois contra um.

Nos primeiros anos da amizade entre eles, quando se falava em futebol, o gremista Tuti ficava a mercê dos requintes de crueldade dos colorados Zé e Neco. As gozações eram intermináveis. Tuti sofria as vezes calado e resignado, as vezes com reações intempestivas e sem o menor sentido. Como quando apostou, na véspera de um grenal, que, se o seu time não vencese, iria cantar o hino do Interncaional em plena hora civica para toda a escola ouvir. Os outros dois fariam inverso se o Grêmio saísse vecedor no clássido de domingo. Era uma aposta injusta e completamente descabida, movida pelo desejo irracional de que Deus, se apiedando dos seus anos de sofrimento, ouviria seu desespero e intercederia no andamento da peleja, dando a vitória ao seu time do coração, uma vez que, pelos meios normais isso não aconteceria ja que a distância dos dois times era imensa.

A zebra divina não apareceu no clássico domingueiro. Deus nem aí para o Tuti. E, se aparecesse, era sempre dois contra um, ou seja, para Zé e Neco seria fácil escapar do vexatório pagamento. Mas Tuti estava solitário. Argumentou o que pode, mas os dois simplesmente ignoraram as súplicas. Foi arrastado para a frente da escola inteira e cantou trechos iniciais do "Celeiro de Ases" até ser contido pelo bedel. Ele nunca ficou tão feliz de ter sido pego pelo bedel.


As alianças mudavam quando o tema era a música. Eram todos roqueiros convictos. Porém, as concordâncias cessavam no estilo musical. O rock, como o futebol, era um território onde levantam-se bandeiras a favor deste o daquele grupo, cantor ou gênero. E neste caso, Tuti, um fã arodoroso e viceral do Led Zeppelin, contava com a companhia de Neco, que também adorava o grupo inglês. Zé era obrigado a ouvir o som do Yes, seu grupo prerido, na solidão de seu quarto. No porão da casa de Neco, local oficial das audições, apenas e se os outros o permitissem, o que era praticamente impossível. Numa destas audições a três, regadas a um baseado ou dois, se o Zé se atrevesse a colocar o Yes Album, o seu LP preferido, no Technics, sofria a pena máxima imposta pelos outros dois: eles dividiam só entre eles o baseado, deixando o Zé a mingua, enquanto assistia os amigos darem generosas baforadas e não menos generosas gargalhadas só de olhar para a expressão de criança sem doce que o Zé fazia. Doce, aliás, que os dois devoravam sem dó nem piedade – a mãe do Neco era doceira de mão cheia- após as audições vespertinas, enquanto Zé era privado do prazer de matar a larica.


Quando se tratava de cinema, acontecia um novo arranjo. Neco detestava filmes de terror, justamente os preferidos do Tuti e do Zé. Ainda no reinado do vídeo cassete, os dois alugavam toda sorte de filmes arrepiantes, iam para o porão para demoradas sessões de cinema. O Neco se recusava a participar. Dizia que era um cinema pobre, de mau gosto, até porque os dois adoravam filmes como A Morte do Demônio e similares. "Se ainda fosse um clássico, como Nosferatu", repetia Neco. Um dia alugaram Nosferatu e o Neco deu mil desculpas para não assistir. "Cagão", repetiam os dois. "Esse papo de cinema clássico é desculpa, tem é medo de dormir a noite", debochava o Zé. "Vai ver ainda faz xixi na cama, o debilóide", completava o Tuti. Um dia colocaram a fita de Sexta Feira 13 dentro da caixa de e Chuva Negra o pobre do Neco caiu na artimanha. Amarraram o coitado na cadeira e o fizeram assistir o filme todo com eles. Conta-se que o Neco chegou na escola todos os dias da semana com cara de quem não dormiu.


Os três divertiam-se, lembrando desta época mágica. O olhar, os fios brancos no cabelo e as rugas revelando os anos que os separavam destas lembranças . Conheceram suas respectivas ex-esposas quase que ao mesmo tempo. E quando lembraram disso a mágica desapareceu. Não foi um final de casamento pacífico para nenhum dos três. Reclamaram juntos da pensão, da casa que tiveram que deixar pra trás e de ter que ver os filhos com hora marcada. Nesse momento, o Zé lembrou que, pela primeira vez na história, os três estavam do mesmo lado. Ergueram os copos, fizeram um brinde. O momento era triste, mas raro. Merecia.

domingo, 1 de agosto de 2010

Pais em tpm apresenta: Uma e meia

Felicio abriu os olhos de repente. Era como se não tivesse aberto, pois a escuridão do quarto era imensa. Vagarosamente, formas foram aparecendo na escuridão, denunciando o aumento de sua pupila. Ouvia respiração relaxada da esposa ao seu lado. Dormia tranquilamente. Que horas seriam? Tateou a mesa de cabeceira procurando o relógio de pulso. Encontrou. Só então acendeu a luz. Meia noite e quarenta e dois. Conclui o óbvio. Tinha dordmido no máximo durante meia hora. Sentou-se na cama e a medida em que os segundos avançavam a consciência ia se inteirando das coisas. Perguntou-se por que diabos tateou o relógio no escuro e só então acendeu a luz? Não seria mais lógico ter feito o inverso? Estava inquieto e aquela meia hora de sono seria o máximo que ele conseguria naquele momento. Apagou a luz novamente, levantou-se e, antes de abandonar o quarto, ouviu o ressonar da esposa acompanhado de um movimento. Deiva ter se revirado. Mas continuava dormindo. “Como ela consegue?”, ele se pergunta.

Felicio abre a geladeira. Está cheia. A carne crua prenunciando o churrasco no dia seguinte. Um belo pedaço de alcatra, outro de picanha. Salsichões, coração para a criançada. Eles adoram coração de galinha no espeto. Misturam tudo com farinha e se lambuzam. Um cachorro late la fora. Ele aguça o ouvido. Nada. Ele avistra a ambrosia. É irresistível. Serve-se de uma generosa porção e vai até a sala. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto e liga a tv. Abaixa o volume até ele sumir. Ele não está interessado no que está passando, apenas quer a companhia de algo que está acordado. Ele saboreia a ambrosia em colheradas lentas. Gruda aquela pasta doce meio granulada no céu da boca, prensando com a língua. É uma sensação maravilhosa. Ele olha pra o telefone enquanto pensa. "Será que eu ligo? Eu prometi não ligar." Felicio não pára de pensar. Ele pega o telefone. "Azar." Nove, nove, cinco, oito…"Não. Onde estou com a cabeça!" Olha para o relógio e são uma da manhã. Não há nada errado. Ainda. Falta meia hora. Os próximos trinta minutos serão cruciais. Ele tenta não pensar e se concentrar na ambrosia. Na televisão, um homem degola outro num parque. A noite. Aquela imagem não ajuda em nada. Muda de canal. Lobos correm na estepe perseguindo coelhos. Muda novamente. Victor Mature aparece com aquela cara de bebê chorão. “Que canastrão!”, ele pensa. Abre um soriso. Mas é um sorriso carregado, contido. Victor Mature está meio descolorido. “É o Manto Sagrado”, Felicio conclui em pensamento. “Meu Deus, ainda exibem o Manto Sagrado perto da semana santa.” Felicio aumenta um pouco o som da televisão. O filme está dublado. Dublagem dos anos 60. São uma e dez da manhã. Ele termina a ambrosia e olha para o telefone de novo. Está chegando perto. Ele já sente a derrota iminente. Faltam quinze minutos. “Eu sabia”, pensa. “Eu sabia.” De repente, ele pensa em outra possibilidade. A violência la fora. “Onde eu estava com a cabeça quando deixei?”, clupa-se falando para o Victor Mature. Uma e vinte e três. O cachorro late. Um som de carro. Ele corre para a janela. Vê a Isabela saindo do carro. Vem em direção a porta da frente escoltada pelo namorado. Ela cumpriu o prometido. Chegou antes da uma e meia da manhã. Ele saiu correndo, desligando o Victor Mature no caminho e se enfiando na cama o mais rápido possível. A filha não podia sequer desconfiar que ele havia, por um breve instante, perdido a confiança. Virou para o lado, mas não ia pegar nos sono tão rápido. Agora, era a culpa que não o deixava dormir. Ah, que inveja da esposa.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O encontro

Encontraram-se na mesma hora de sempre. Encararam-se mutuamente, como de costume.

- Você ta um tiozinho bem charmoso.
- Como é que é? Tiozinho?
- Não, falei um tiozinho bem charmoso.
- Isso é crueldade. Precisa ser assim cruel?
- Eu não sou cruel. É só a verdade.
- Mas tiozinho? Uma palavra imortalizada num comercial de refrigerante sabor laranja artificial? Podia aliviar?
- Eu diria que é melhor difinição, o que eu posso fazer, eu digo o que vejo.
- Eu não te perguntei.
- Você sabe muito bem que minha função não é responder perguntas. Minha função é falar. Parou aqui, eu falo. É incontrolável. É mais forte que eu. É a minha missão nesse mundo.
- Tiozinho é humilhante.
- Você queria o que?
- Sei la. Uma outra abordagem, quem sabe. Mais repeitosa.
- Ja que você está pedindo vou dar aqui a,gumas opções.
- Pensando bem, deixa assim.
- Não, agora provocou. Vou desfilar minha erudção em logismos.
- Deixa pra la.
- Você está conservado. Conservado é bom.
- Não torutura.
- Hummmm, você está com uma aparência jovial.
- Pegou pesado.Pegou muito pesado.
- Calma, tem mais, que tal…
- CHEGA! Ja entedi.

Virou as costas e se afastou daquele espelho maldito, mas aina deu tempo de ouvi-lo falando "fofo".

sábado, 24 de julho de 2010

O desenhista

João Clemente desenhava desde pequeno. Ele não lembra de alguma vez em sua vida que não estivesse com um lapis na mão colocando no papel o seu testemunho em traço firmes das coisas que o cercavam. Seu impressionante sentido de perspectiva e dimensões nasceu com ele. Aos 14 anos, resolveu que o talento nato pedia um pouco de técnica. Entrou para uma escola. Ganhou solidez, nobreza e recursos que o tornaram um verdadeiro artista. Quando fez 16 anos, João resolveu ganhar um dinheiro com a sua arte. Não queria ser como os seus amigos que fganhavam mensada. Foi para uma praça no centro da cidade com um caderno de desenho, um tripé, seus lápis e um banquinho. Se ajeitou em uma área onde a circulação de pessoas era intensa. Colocou la a sua plaquinha. "Caricaturas em 3 minutos R$ 5,00. Retratos R$ 15,00.


Foi um período muito rico para João Clemente. Ganhou algo que nenhum curso de técnica poderia dar: conhecimento profundo do comportamento humano. Aprendeu enxergar a alma, que mesmo invisível, molda o mundo materia e a reagir de acordo com o que vial. Aprendeu a ser cinico com pessoas que pediam caricaturas e depois as rasgavam tomadas pela ira porque "isso aqui não sou eu".

Aprendeu a compaixão ao perceber, no olhar fixo das pessoas que pediam seus retratos, o pavor do que aquele espelho no papel poderia revelar. Com o tempo soube perceber como exaltar o que elas tinham de melhor, ou, se não tivessem, podia inventar algo para que elas saissem felizes com a sua versão em crayon no papel.


Aprendeu a ler os olhos das pessoas e perceber que as criancas tinham um olhar igual ao papel branco a sua frente, puro e totalmente aberto para receber o que a vida resolvesse desenhar neles.


Aprendeu a custo de sua própria consciência que não exitem atos incionsequentes.


Era um dia como qualquer outro. João estava na mesma praça com seu caderno, seu tripé e o seus lápis. Ja anoitecia e ele pensava em ir embora quando dois policiais apareceram na sua frente. Eles escoltavam uma mulher, pequena, loira com os olhos borrados de sombra desfeita pelas lágrimas que ainda caiam. Ela tremia e soluçava.

- Você desenha rostos, não é? – Perguntou o policial mais velho. – Eu vejo você por aqui. Você é bom nisso.
- Obrigado.
- É o seguinte, essa mulher acabou de ser assaltada. Eu quero que você faça um retrato falado do assaltante.
- Eu não sei fazer retrato falado.Eu faço retratos e caricaturas das pessoas que estão na minha frante.
- Meu filho, você vai ter que se esforçar. Isso pode ajudar a gente a pegar o cara ainda hoje.


João relutou, mas acabou concordando com o policial. Sabia que era um despropósito, mas de que adiantaria argumentar mais? Ele pegou um papel, o lápis e a mulher foi descrevendo o sujeito. Ele foi seguindo aquelas as instruções truncadas por os soluços e fungadas. Lembrou-se das aulas de proporção e foi fazendo o que lhe desse na telha. Ele sabia muito bem que aquele não era o rosto do criminoso, mas também, não era o rosto de ninguém. Aquilo não ia dar em nada. Ao terminar, entregou a ela o desenho e ela apontou firme para o rosto no papel "Sim, é ele, é ele!". Claro que não era, pensou João Clmente. Aquele era um rosto que não existia. Mas a mulher naquele estado confirmaria qualquer rosto que ele fizesse. O que ele queria mesmo era se livrar daquila missão o mais rapido possível.


Minutos depois, ele ouve gritos. É ela, a loira do olho borrado novamente. Os policiais trazem com eles um homem algemado que jura inocência. João Clemente corre para ver de perto. Olha bem para o rosto. Seu coração dispara. É incrivelmente parecido com o desenho que ele tinha feito a alguns minutos atrás.

- Parabéns desenhista – diz o policial.
- Obrigado, moço – repete a loira.

João simplesmente não conseguiu dizer que o rosto que ele fez foi completamente cirado do nada. Ele olhava para a vítima na esperança dela cair em si e dizer que aquele não era o ladrão, Mas em sua confusão mental, a pobre e perturbada mulher afirmava ser aquele o assaltante e ainda apontava para o retratpo falado, que agora estava na mãos dela como se fosse prova insofismável.


João foi para casa naquele dia sem saber o que fazer. Mal tocou na comida e foi se trancar no quarto mas mesmo assim não conseguia se livrar da sensação de estar sendo vigiado por alguém superior com cara de poucos amigos. Resolveu acabar com aquile sentimento. Tirar o peso insuportável. Saiu em direção a delegacia para onde foi levado o inocente e ao chegar la viu o policial com cara consternada.

- Olha, o desenhista.
- Onde está o homem que vocês prenderam?
- O assaltante? Morreu.
- O que? Como assim, morreu?
- Você sabe como é. Ficou numa cela com outros presos esperando os procedimentos. Deve ter se metido am alguma treta com outro detento. Mataram. Essa gente se merece.

João aina não pegou num lápis. Ja faz cinco anos.

domingo, 4 de julho de 2010

E o palhaço o que é? - Final

Cada vez que ia a um lugar público com Vera, tremia com a possibilidade de encontrar uma das três Marias por acaso. Elas seguiam me indicando para festas, mas as idas ao “nosso apartamento” para sessões de sexo estavam se tornando mais escassas, com excessão de Maria Amélia. Ela realmente não havia percebido nada de diferente no meu comportamento. E continuava se divertindo. Eu procurava ir com Vera a lugares onde a possibilidade de encontrá-las se aproximasse do zero por cento. Sempre escolhia uma mesa em que eu pudesse ficar de frente para a porta de entrada para ver quem entrava. Prestava atenção nos carros no estacionamento. Meu comportamenteo não passava desapercebido por Vera.  Era evidente, por algumas mudanças en seu semblante, que ela percebia o meu comportamento um tanto suspeito, mas, mesmo assim, nunca havia me confrontado. No máximo um "tudo bem?"e mais nada. Até que um dia tudo parecia ter desandadeo de vez. Estavamos em um restaurante quando noto Maria Amélia entrando pela porta. Pôs os olhos em mim assim que passou da porta. Lançou-me o seu típico sorriso de criança. Meio disfarçado, pois estava com o marido e os filhos. Uma estalactite entrou pelo meu estômago. Naquele momento, Vera segurava a minha mão demonstrando todo o carinho do mundo. Eu fiquei lívido. Uma estalactite de gelo imaginária penetrou meu estômago. Sabia que Maria Amélia não viria falar com a gente, já que estava com toda a família. Passou direto por nós e foi sentar-se em uma outra mesa, longe da minha vista.


Desta vez nnao houve como Vera não me interpelar. Se uma mulher inteligente percebe uma mínima mudança molecular no comportamente de um homem, imagine uma surpresa daquelas estampada na minha cara como um luminoso de motel.

- Você está bem?
- Como assim?
- Você não está bem – ela fica séria. - Quando homens querem sair pela tangente sempre dizem isso.

Já tinha ouvido aquilo recentemente. Maria Clara veio a minha mente na hora.

- Eu não sei o que é – faço voz de doente. – Acho que é o camarão. Tem vezes que não cai bem.
- Quer ir para casa?
- Se você não se importa.

Quando saí do restaurante o ar puro invadiu meus pulmões com a força da cavalaria salvadora. Estava, em parte, aliviado. Mas seria lógico pensar que Maria Amélia iria comentar a cena de amor entre mim e uma chinesa muito bonita na mesa do restaurante. Estava me sentindo muito mal pelo fato de elas saberem da minha relação com Vera daquele jeito. Fui arrancado de meus pensamentos por um beijo doce, quente no meu rosto. Vera e seu carinho oriental. Olhei para ela e as minhas preocupações se esvaneceram. Ela era perfeita. Uma chinesa da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Mas fora os traços, era tão brasileira quanto o seu primeiro nome. Nada de paciência oriental, nada de provérbios milenares para me dar alguma lição. E mais um item de atração: dirigia como um homem. Muito melhor do que eu. E olhando para aquela mulher dirigindo furiosamente pensei que seria um verdadeiro ato de amor contar tudo para ela. Tinha que reunir coragem e cuspir aquilo de uma vez. A coragem que não tive com as três Marias eu devia a ela. Eu precisava fazer isso o quanto antes.



-x-

Passaram-se mais de duas semanas daquele encontro fotuito no restaurante e nada demais havia acontecido. Eu via Vera praticametne todos os dias. As festas continuavam a aparecer na minha agenda. A única diferença é que eu não havia recebido nenhuma ligação de qualquer uma das três Marias. Aquele silêncio me deixava tenso. Pensei em ligar para Maria Clara algumas vezes. Eu a tinha como ponto de referência. Tudo havia começado por ela. Até porque, como já disse, tinha Maria Clara como a mais carente dentre as três, apesar de sua casca de mulher decidida. Na verdade, eu tinha mais medo dela do que as ameaças do Xuxu e o seu mentor, o palhaço Xexé.


-x-


Estava em casa treinando novos truques para as festas e pensando seriamente em falar com as três para desfazermos o nosso trato quando o telefone tocou. Era Maria Alice.

- Oi, Alê.
- Maria Alice – meu coração disparou – por onde vocês andavam?
- As outras eu não sei. Eu estava viajando.
- Onde você está?
- No nosso apartamento.
- Fazendo o que?
- Esperando você – era possível sentir o aroma de dry martinoi saindio pelo poros do telefone. – Pega o Peraltinha e vem.

Pensei em dizer não. Mas vi ali uma oportunidade para conversar com ela sobre tudo. Ligaria de lá e chamaria as outras duas. Estava decidido. Seria assim, embora Maria Amélia tivesse me visto no restaurante com Vera, eu tinha mais a contar, a história inteira. Todas elas mereciam o meu respeito. Elas mudaram minha vida. O mínimo que eu poderia fazer era ir até lá e contar sobre Vera olhando nos olhos de cada uma delas.  Antes de sair vi a caixa do Peraltinha. Não teria sentido levá-lo.  Mas pensei bem e achei que seria um bom presente de despedida para Maria Alice. La fomos os dois para a garçoniere. Pela última vez.


-x-


Quando cheguei ao apartamento a porta estava entreaberta, como na primeira vez que entrei lá. Empurrei e não a vi ninguém lá dentro. Dei dois passos e o mundo escureceu. Quando voltei a mim estava sentado no sofá com as mãos atadas, usando minha fantasia de palhaço. Maria Alice estava em pé na minha frente apontando uma pistola em direção a minha testa numa mão, enquanto segurava uma taça de dry martini com a outra. Peraltinha jazia desajeitado sobre o sofá, com um furo de bala na no meio dos olhos. Ela tinha o rosto transfigurado.

- Minha cabeca está doendo – tentei permanecer calmo. – Com o que você me bateu?
- É só eu apertar o gatilho que passa, seu filho da puta.

O bafo de vários dry matinis ja consumidos saiam pela boca junto com os impropérios mal articulados também pelo efeito da bebida.

- Talvez você não acredite, Maria Alice, mas eu vim aqui no intuito de contar tudo.
- Depois que a Maria Amélia nos contou? Muito fácil.
- Onde estão as duas?
- Sei lá - balbucia.
- Elas sabem que você está aqui me apontando isso?
- Elas não viram nada de mal em você estar dando atenção para outra. Compreendem perfeitamente. Queriam até fazer almoço de despedida. Muito compreensivas, as idiotas.
- Desculpe a sinceridade, Maria Alice, mas se você puxar esse gatilho, a idiota vai ser você. Eu vou desta para melhor e você para a cadeia.
- Eu amava o Peraltinha e você, seu palhaço.
- É o que eu sou.
- Você não é mais meu e nem vai ser de mais ninguém. Vou enterrar você e esse boneco na mesma vala.

E cá estou eu. Vestido e maquiado de palhaço por Maria Alice quando estava inconsciente. Olho fixo para o reflexo do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Estamos em silêncio. Meu coração apertado, batendo como nunca, talvez querendo pulsar tudo o que pode antes de parar. Ela arfando e liberando seu hálido de dry martini na minha frente, a arma apontada firmemente na minha testa. Olho para o lado e vejo Peraltinha caído desajeitadamente no sofá com aquele buraco na testa e um sorriso idiota na face. Estou esperando ela decidir quando parto desta vida quando, subitamente, dois sujeittos invadem a sala bruscamente. Um brutamontes com um revólver na mão e um outro mais magro com um boneco na mão. Maria Alice vira a cabeca na direção deles.

- O que é isso? – Assusta-se. – Quem são vocês?
- Eu é que pergunto – Xuxu responte. – Quem é você, sua vaca?
- Sou a dona do apartamento que vocês estão invadindo.


Ela desvia a arma de minha cabeca e aponta para eles. Muscles, em resposta, aponta a sua arma para ela.

- Saiam já daqui! - As palavras dela saem pastosas.
- Não sem antes acertar contas com esse palhaço no sofá, sua puta.
- Calma, Xuxu – interrompe Xexé no seu tom sibilante. – Parece que a dama vai fazer o serviço para a gente. O seu coleguinha já levou um teco bem no meio dos olhos.
- Dama nada – responde Xuxu. - Uma puta. Puta e gostosa. Puta, gostosa e metida. Eu é que devia mandar o Peraltinha dessa para melhor, caralho!


Se eu não estivesse duplamente ameaçado de morte, acharia essa cena hilária. O Xuxu é mesmo um pentelho. Aliás, pude perceber que isso tinha causado certa impressão em Maria Alice.

- E por que vocês querem acertar contas com ele?
- Minha senhora…
- Puta, puta e gostosa! – Xuxu interrompe Xexé.
- Chega, Xuxu! – Xexé perde a calma pela primeira vez. – Este palhaço está intrometendo-se em nosso pequeno círculo de animação infantil e nos tirando um mercado promissor.
- Em resumo, sua gostosa, ele tá fodendo com a gente – Xuxu não se contém.
- Nós avisamos a ele para sair por bem. Ele não escutou. Então, passamos a segui-lo e decidimos que hoje seria o dia.
- Pow, bem no meio dos cornos dele – se não fosse pelo fato de ser um boneco, eu poderia jurar que tinha baba escorrendo da boca do Xuxu – Sua puta gostosa.

A medida em que o boneco fala mais e mais obsenidades, Maria Alice vai se entregando ao tesão. Ela deixa a pistola cair no chão e lança o corpo contra o de Xexé, dá-lhe um beijo cheio de lascívia enquanto acaricia o boneco. Muscles olha a cena atônico. E eu louco para rir. Um boneco e seu dono. E um boneco boca suja. Era tudo o que Maria Alice queria. Ela parece ter conseguido o seu menage a trois de novo, já que Xexé e Xuxu respontem aos beijos e carícias com intensidade.

- Vem comigo pra cama. Você e esse boneco deliciosamente pervertido.
- E ele? – Pergunta Xexé, apontando pra mim.
- Ele não vai ser mais problema. Você vai ter uma nova empresária. E ele vai sumir do mercado.


Os três vão para cama e me deixam com o Muscles na sala. Eu vejo os olhos de Muscles que estão postos no falecido Peraltinha. Uma lágrima escorre pelo rosto daquele brutamontes. Peço para ele me soltar. Ele obedece enquanto soluça, triste por ver Peraltinha morto. Levanto. Vou até o banheiro e tiro a maquiagem e a roupa de palhaço. Saio e despeço-me do enorme sujeito que agora segura Peraltinha no colo, desconçolado. Estou louco pra encontrar Vera.  O elevador chega. Entro.  Vou passar em casa antes e tomar um banho. Suei muito embaixo do braço quando estava sob ameaça daquela pistola. Suor nervoso. E fede um bocado.

domingo, 27 de junho de 2010

E o palhaço om que é? - Parte 9

Os dias


O reflexo distorcido do meu nariz vermelho de palhaço no cano prateado daquela pistola me incomoda profundamente. Falta pouco para terminar o relato de como eu cheguei até aqui. Na verdade, estou na reta final e isso me apavora, porque tenho a forte impressão de que quando acabar os dedos que estão encostados no gatilho vão pressioná-lo.


Os dias que se seguiram ao primeiro encontro com Vera e, principalmente, depois daquela primeira vez em que estivemos na cama, foram de apreensão. Em primeiro lugar pelo fato de não ter contado nem a Vera sobre o meu pacto com as três Marias e nem a elas sobre a minha estonteante e definitiva paixão por Vera. Sempre que pensava em falar para as três o meu estômago se transformava em um embrulho malfeito de feira. Sentia um profundo senso de dever para com elas e ao mesmo tempo, justamente por esse senso, sentia que não era justo estar com elas ao mesmo tempo em que outra mulher tomava conta de todos os meus sentidos e do meu coração. Bem, não é preciso dizer que era ainda mais injusto com a própria Vera. Ser desonesto com ela era a principal razão das minhas dores de caebeça e da minha consiência que mais parecia um promotor público apontando o seu dedo acusador para mim debaixo de uma toga encardida e malcheirosa. Não há nada pior do que a indecisão. Equilibrar-se no fio entre duas atitudes, sendo que este fio é tão afiado que maltrata a sola do seu pé. Mas foi o que decidi fazer até achar um meio de contar a elas.

É lógico que eu passei a me comportar com um certo distancioamento em relação às três. A minha dedicação integral era humanamente impossível. Maria Amélia nem percebeu. Com seu jeito infantil, ela continuou me ligando quando dava na telha e seguíamos trepando por todo aparamento em posições cada vez mais esquisitas. Seguramente é a que mais se divertia. Não era capaz de perceber o meu natural afastamento emocional. Eu era um brinquedo na mão de uma criança. Era a mais desapegada de todas. Uma separação, para ela, seria pouco traumática. Na verdade, não seria trauma nenhum.


Com Maria Alice seria bem mais complicado. Aquele negócio de menage a trois com o Peraltinha perdera todo o sentido. Passei a me sentir o mais ridículo dos seres humanos e, impulsionado pela paixão verdadeira que estava sentindo, passei a enxergar aquela pobre mulher como uma patológica sexual. Tentei algumas vezes convencê-la a deixar o Peraltinha na caixa e irmos os dois para a cama, mas ela recusava terminantemente a fazer sexo só comigo. O Peraltinha tinha que estar sempre conosco, falando obsenidades no seu ouvido. E “ai de você se não for assim”. Aquele, “ai de você” provocou calafrios que percorreram minha espinha de cima a baixo.


Maria Clara obviamente percebeu o meu distanciamento. E como sempre foi a mais direta de todas. Não teve problemas em me perguntar tudo. Na cama, depois de uma sessão de sexo, ela acendeu um cigarro e, toda borrada de maquiagem de palhaço que eu estava usando, começou a me questionar:

- O que é que você tem?
- Como assim?
- Como assim é a resposta mais usada para quem quer sair pela tangente.
- Me dá um trago do seu cigarro? – Desconverso
- Não, você não fuma – irrita-se. - Por que você está distante?
- Não sei.
- Olhe nos meus olhos.

Comecei a rir.

- Rindo do que?
- Desculpe, mas é difícil falar sério com você toda borrada de maquiagem.

Ela também começou a rir. Os dois riam, um alimentando o outro até o riso virar uma gargalhada retumbante. E naquele momento eu senti algo terno por Maria Clara. Eu a beijei. Ela respondeu o beijo com vontade. E trepamos novamente. E ela não perguntou mais nada. Foi para o banheiro tomar um banho. Enquanto ouvia o chuveiro, ficava remoendo algumas idéias que vinham à mente. Maria Clara provavelmente já sabia que o pacto não ia durar por muito tempo. Talvez soubesse até o porquê. E isso me assustava. Ela me parecia a mais carente das três. As vezes o seu olhar me dava medo. Sinceramente, achava que ela podia ser capaz de qualquer coisa se contrariada.

Ela saiu do apartamento e me dixou lá. Nem bem bateu a porta e o meu celular tocou. Atendi automaticamente, sem ver o número no visor.

- Alô?
- E aí, seu palhaço de merda?
- Xuxu?
- Ele mesmo, em madeira e pano.
- O que é que você quer?
- Será que aquele aviso amável não foi o suficiente, seu filho da puta?
- Meu Deus! Só tem porcaria nessa sua boca de boneco?
- A sua boca é que vai ficar cheia de formigas se você não ouvir o meu aviso, seu imbecil: saia do nosso negócio.

Ele bateu o telefone com tanta força que o estalo incomodou o meu tímpano. Calafrios percorriam meu corpo de maneira descorndenada. Eu claramente fui ameaçado de morte. Depois, comecei a rir do ridículo. A tal ameaça havia partida de um boneco de ventríloquo pelo celular. Eu devia estar enlouquecendo, pois eu dissosciava o boneco do seu manipulador, o palhaço Xexé. Parecia-me óbvio que aquilo era para me assustar. Estava fora de qualquer razão eu ser assassinato por alguém só porque eu fazia sucesso no meu ramo de trabalho. Ainda mais sendo esse alguém um boneco. Assumi que o tal Xexé era um maluco. Um completo maluco.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A malcriação de Dunga é uma benção.

Arrisco-me quixotescamente a defender uma causa das mais ingratas e ainda por cima usando um ícone que é atualmente o mais visado pelos defensores das causas que se disfarçam de nobres. Fazer o que? Sou um imbecil que tem realmente uma opinião.

Fato é que Dunga, apesar de convocar uma seleção que eu também não sou lá muito fã (Felipe Melo, Michel Bastos, Gilberto Silva e Doni é impalatável), tem tido uma atuação exemplar no que tange a desmascarar a casta abjeta conhecida como critica esportiva nacional. Se concordo com os modos de Dunga? A falta de modos dele é que está pondo às claras essa gentalha que se acha acima do bem e do mal, porque se diz representante de uma categoria que se considera “imparcial”. Quanto a isso, vamos logo estabelecer o óbvio: somos seres humanos e, por natureza, a imparcialidade é um conceito ideal, logo, inexistente. Posto isso, voltemos ao nosso malcriado treinador. Ele cometeu o pecado mortal: responder esta gente à altura e com a emoção acima da educação sabuja dos que engolem desaforos em nome da elegância e do medo da desaprovação pública. As favas com a elegância. Essa gente deselegante, arrogante e imbeclizante passa o dia inteiro achicalhando os pobres desafetos tal qual aquelas pobres mulheres acusadas de bruxaria nos idos de 1600. Queimam sem perdão o dia inteiro e o pobre condenado tem que arder quieto, sob a ameaça de, se soltar um gritinho, ser ainda chamado de “dodói”.

A metáfora acima não apareceu de graça. Dunga, esse insolente, escancara o que eu ja sabia: a esmagadora maioria dos jornalistas esportivos da pátria de chuteiras estão mais para inquisitores da santa fé. As malcriações do nosso treinador são as mãos que removem a pedra do chão e revela os vermes que se contorcem com a luz indesejada do sol. Dados a generalizações e simplismos que ofendem a quem tem mais de três neurônios funcionais, essa gente, por exemplo, chama todo dirigente, pejorativamente, de cartola. Para eles, todos fazem parte de uma quadrilha a mamar nas tetas dos clubes. Todos. Meu pai foi dirigente do Grêmio na década de 70. Entrou lá dono de três casas de comércio. Saiu com uma. As outras duas perdeu por dedicar seu tempo e amor ao clube. Portanto, meus amigos, cartola o caralho. Sim, vou ser tão malcriado quanto o nosso treinador. Vocês não merecem a boa educação que esse mesmo pai me deu.

Ah, sei o que vocês estão pensando. Estou generalizando também. Não, não estou. La em cima me referi a vocês como “imensa maioria”, portanto, não contem como a minha memória curta, uma das melhores amigas de vocês. Os poucos jornalistas esportivos de verdade estão atolados nessa montanha de prepotência.

Por fim, caros (e são caros mesmo, se levarmos em conta o número de catedráticos na boca livre da Africa do Sul, tudo pago para sentar no fim do dia a dar pitacos em frente as câmeras), o jornalismo que eu respeito é aquele que prima pela sua base maior: a informação. Jornalista que informa errado devia ser caso de demissão sumária. Quem faz pior? Dunga ou Renato Mauricio Prado que “informou” que Felipão era o novo técnico do Flamengo? Os palmeirenses se divertiram a beça. Eu não. Porque o sujeito continua a dar pitacos de doutor do futebol e do comportamente humano via satélite, mesmo depois de errar grosseiramente no básico da profissão.

Não me interessa e nunca me interessou a análise dos bedéis da especialização. É muito mais criativo e inteligente, por exemplo, colocar os dois lados opostos de um fato a debater entre si para que nós mesmos formemos opinião, como faz Herodoto Barbeiro toda a manhã na CBN (ah, sim, não é jornalismo esportivo). O que alivia a minha solidão é ler a análise de um destes inquisitores a colocar lenha na fogueira de Dunga, o Impertinente, nos blogs na web e ver que os comentários que vêm da massa leitora são, na imensa maioria, destoantes da opinião desta gente. A internet, esta sim, é uma santa. E a Dunga só peço uma coisa. Não, não é o hexa. Apenas, que continue malcriado.

domingo, 20 de junho de 2010

E o palhaço o que é? - Parte 8

Vera

Subitamente, num daqueles dias em qeu chamamos, um dia qualquer, a minha vida deu uma segunda guinada. Eu estava almoçando quando o celular tocou. Não conhecia aquele número no visor, mas isso não tinha nada de anormal. Provavelmente era mais um garotinho fazendo aniversário querendo os serviços do grande Lelé. Atendi.

- Alô?
- Por favor - voz feminina do outro lado - é por esse número que entro em contato com o palhaço Lelé?
- É o meu alter ego - gostei daquela voz.
- Ahahahah! Muito espirituoso - adorei aquela voz. – Isso é bom. Meu nome é Vera. Eu gostaria de ter você coo atração principal do aniversário de sete anos do meu filho. Você foi muito bem recomendado. Na verdade você é famoso.
- É muita bondade sua.

- Poderíamos tratar disso frente a frente? Gostaria de conhecer você pessoalmente. Nnao abro mão disse antes de contratar quem quer que seja.
- Quando?
- Hoje à tarde, lá pelas quatro horas?
- Tudo bem.

Desliguei pensando quantas pessoas a Vera costuma contratar e se isso era um indicador de que ela era dona de um séquito de empregados que cuidavam de seu castelo, o que me levava diretamente para uma questão crucial: o cachê.


Cheguei ao endereço que ela me deu um pouco antes da hora combinada. Era um prédio cuja fachada nos encarava com o nariz empinado dos milhnários. De uma suntuosidade assustadora. Todos os apartamentos duplex. Sendo que o ultimo andar, para onde eu ia, era triplex.

Passei por inúmeros procedimentos de segurança. Só faltaram perguntar qual a cor da cueca que eu estava usando. Depois de mais ou menos vinte minutos consegui chegar ao elevador que levava direta à painthouse. No meu caminho eu contei três câmeras. George Orwell devia ser o nome daquele prédio. Mas acho que ele tinha um nome afrancesado. Chahteau alguma coisa. A porta do elevador se abriu e eu encarei uma nova porta feita de jacarandá, sem dúvida nenhuma. Aquela porta deve ter custado um ano de trabalho com agenda lotada. Apertei o botão da campainha. Segundos depois uma loira com bochechas muito vermelhas e olhos muito azuis vestindo uniforme azul escuro e aventalzinho branco abriu a porta e um sorriso simpático para mim.

- Por favor, siga-me.


"Siga-me". Fiquei imaginando o salário de uma empregada saudável como aquela, capaz de usar a ênclise com a propriedade de um professor de português de escola particular. O apartamento era enorme. Se a loira saudável me largasse ali eu só sairia usando um GPS. Eu não vou perder meu tempo descrevendo cada detalhe porque o que não faltava naquele lugar eram justamente detalhes. O que posso dizer em poucas palavras é que os tais detalhes eram todos de origem oriental. Chineses, para ser mais exato. E nenhum deles sequer passava perto de ser uma imitação. Neste caso, o made in china emprestava uma nobreza indizível a cada peça. Isso me deu um calafrio na boca do estômago. Acredite, razões eu tenho, como vocês vão saber logo adiante.

Finalmente, depois de andar numa escala de medida que se aproximava ao quilômetro, cheguei a uma sala aconchegante, com sofás imponentes, cobertos por lenços lindamente estampados. A simpática loira me deixou ali e, no meio daquela decoração rica meu olhar alcançou Vera. Estava sentada em uma poltrona com um livro na mão. Meu coração disparou e aquele calafrio se transformou em um vendo gélido que tomou conta de todo o meu sistema digestivo. Minhas pernas fraquejaram. Ela tinha cabelos curtos e negros e olhos puxados tão negros quanto os cabelos. Era chinesa. Não era coreana, nem japonesa. Por que coreanas e japonesas não costumam provocar em mim tais reações. Eu simplesmente tenho um fraco por chinesas. Elas me perturbam. Turvam meus pensamentos. Eu perco todo o meu senso de equilíbrio. Eu tive três namoradas chinesas e fui completamente louco por todas. Mas a contrapartida também é verdadeira. De alguma forma eu atraio as chinesas. Sei lá eu o porquê de tal empatia étnica.  Talvez eu lance um triplo de feromônio no ar quando as encontro como naquela caso. Esses três namoros foram intensos. Achei que ia casar nas três ocasiões. Mas ali, naquele momento, estava a chinesa mais linda que eu já havia tido a honra de dividir o ar que estava respirando.

- Oi, Alexandre! – Levantou-se e veio em minha direção. – Gostei da pontualidade.
- É.


Foi a única coisa que consegui balbuciar. Um raquítico monossílabo que só teve a função de informar a ela que eu tinha voz. Estava ainda mais perturbado, porque, quando levantou, percebi que ela tinha uma borboleta linda tatuada na lateral da panturrilha esquerda. Outra coisa pela qual eu tenho fraco: mulheres com tatuagem na lateral da panturrilha.

- É? - Ela pergunta com um sorriso curioso.
- Que...quer dizer, pontualidade...eu costumo chegar na hora – minha boca está seca. - Velha mania.
- Boa mania.
- Engraçado, o seu nome.
- Vera? O que tem de engraçado?
- Bom, noto que você tem traços...
- Orientais.
- É.
- Vera Sing Ly.
- Ah!
- Por favor, vamos sentar. – Em seguida, ela auemtna o tom de voz. - Solange!
- Sim, madame. - A loira uniformizada reaparece.
- Bebe alguma coisa?
- Um suco de laranja.
- Pra mim, um chá, Solange - pede com uma gentileza firme na voz.

Vera Sing Ly, separada, trinta e dois anos, um filho chamado Wang Sing Ly neto com o mesmo nome do avô, dono da rede de restaurantes China Town, espalhados através de franquias pelo país inteiro. O filho iria comemorar sete anos na casa do avô. Bom, casa é um conceito um tanto humilde para descrever as fotos do local que me foram mostradas por Vera. Não fui indicado por nenhuma das três Marias. O filho me viu atuando numa festa e não parou de falar em mim desde então. Vera não foi a tal festa, o garoto foi com o chofer e a babá. Só sei que ela conseguiu o meu número com a mãe do aniversariante e lá estava eu.

- Bom, então eu posso contar com os seus serviços na festa do meu filho?
- Quem sou eu para negar o pedido de um pequeno fã?
- E é só dos pequenos fãs que você não nega um pedido? - Os olhos em mim.
- Só tenho pequenos fãs - saio pela tangente. - Desconheço que exista algum de outro tamanho.
- Você é uma pessoa especial, sabia?

Aqueles olhos puxados parecendo navalhas atravessando a minha débil força de vontade para permanecer imóvel e não saltar sobre ela naquele momento.

- E você uma pessoa muito direta, sabia?
- Sabia.

Saí de lá apaixonado. Completamente apaixonado. Perdidamente
apaixonado. Eu queria casar com a Vera Sing Ly. Com separação de bens. Ela e só ela me bastava. Ela e uma cabana. O resto da minha vida.


Paixão mútua e algumas histórias


A festa na casa dos Ly foi um evento digno de umas cinco páginas na revista Caras. Algo inimaginável. Aquele vasto pedaço de terra ornado por lindos jardins oreintais, alguns recantos e fileiras de amendoeiras e pinheiros. O esforço do senhor Ly de fazer da sua morada um pedaço da China dera certo. Bom, pelo menos acredito que tenha dado, uma vez que jamais estive na China.  E naquele dia então, com o lugar repleto de convidados de olhos puxados andando para todos os lados, a maioria falando cantonês, mandarim, ou, seja lá que dialeto fosse, a impressão de se estar na China era ainda maior. Até o cônsul do país estava presente. Quando cheguei e vi aquela multidão, fiquei com os nervos abalados. Era o maior público para o qual eu ia me apresentar. E me parecia um público bem exigente. Como me sentia um pouco acuado, enfraquecido, pensei no meu grande amigo Peraltinha.

Outra coisa perturbadora é que, logicamente, havia muitas chinesas lindas andando por lá, filhas mais velhas, mães, aquilo fervilhava e eu estava arrebatado, perdido em total convulsão hormonal. Mas quando Vera apareceu, exibindo o seu sorriso estonteante, tudo ficou em paz. Aquele sorrido me dava confiança. E foi graças a ele que eu fiz a maior apresentação da minha vida.





Dois dias depois do evento e eu já dividia uma mesa em um restaurante com Vera. Aqueles olhinhos puxados postos em mim, desafiadores e carentes ao mesmo tempo. Desde a primeira vez que a vi, no meio daquele monte de almofadas em sua casa, a imagem dela ficou estampada na minha retina, os seu aroma na minha memória olfativa e o seu espírito no meu coração. Todos os meus atos, a partir daquele dia, tinham o rosto dela no meu campo de visão. Como o logotipo de um canal de televisão que fica na tela durante a programação. Toda noite eu acordava e o rosto dela era a primeira coisa que a minha mente ia buscar. Falei daquelas outras chinesas que namorei? Pois Vera era a que mais rápido tinha me conquistado. Estava entregue. Mas eu podia perceber que havia a mesma intensidade de sentimentos que vinham do caminho inverso. Sentia claramente que Vera havia se apaixonado por mim.

- Você não tocou na comida – ela fala olhando o meu prato cheio.
- Nem você. Seu prato está muito parecido com o meu.

Ficamos nos olhando por um tempo.

- Você me deixa sem fome

A última frase foi falada por nós dois ao mesmo tempo. Rimos muito daquilo. Era um clichê de comédia romântica. Só faltava a gente tentar pegar o mesmo garfo e, por isso, tocar as mãos involuntariamente. Mas a cena não era de filme e nós na verdade não tínhamos nada mais a fazer naquele restaurante. Já havia contado a minha vida - excetuando o pequeno detalhe das três Marias – e ela havia me contado a dela. O casamento que não dera certo, mas que dera a ela o pequeno Wang. Não havia dado certo por inúmeras razões, mas basicamente porque o “Jorge era um pulha irresponsável que na verdade havia casado com o dinheiro do meu pai”.  Vera contou que Jorge estava sempre em contato e que o contato não era apenas por causa do filho. Sentia uma necessidade que ela classificava como patológica de continuar a vê-la e de saber da vida dela. Meteu-se muito quando ela teve o seu primeiro caso depois do casamento, um antigo amigo da família e namorado de infância chamado Ho Yuin. Era comum, os dois saírem para jantar ou ir a um cinema e dar de cara com o Jorge, que fingia surpresa ao vê-los, como se não tivesse perseguido os dois. Mas fora isso, o Jorge era totalmente inofensivo. Ho Yuin fora compreensivo, aquele famoso ombro amigo depois da separação. De ombro passou a ser o corpo todo. Mas o namoro entre os dois acabou sem maiores problemas. Aos poucos foi se acostumando com a vida de ex-casada e estava realmente sentindo-se muito feliz e sem a necessidade de ter alguém ao seu lado além, é claro, do filho. Mas isso havia mudado desde o dia em que ela me viu pela primeira vez em sua casa. “Meu coração disparou, eu fiquei zonza, mas como boa mulher e chinesa soube segurar minha perturbação e manter a pose”, coisa que eu claramente não consegui e que ela percebeu “como boa mulher e chinesa.”.


Saímos do restaurante fomos para o apartamento dela. O pequeno Wang estava dando o prazer de sua presença na casa dos avós. Só havia Solange, a empregada loira e educada que usa a ênclise, cujo quarto devia ficar à léguas de distância e que, como empregada educada que era, tinha entre as suas aptidões o dom da discrição. Entramos e não falamos nada um para o outro. Apenas fizemos amor apaixonadamente. A cada segundo que eu passava com Vera via as três Marias sendo soterradas pela minha paixão avassaladora. Juntamos nossos corpos, nossos líquidos, nossos sensos. Pela primeira vez em minha vida senti o que é a verdadeira unidade formada por duas pessoas. Aquela comunhão que eu nunca pensei ser possível. Enquanto rolávamos e nos beijávamos e nos penetrávamos, imagens de Maria Alice, Maria Amélia, Maria Clara, Peraltinha, Palhaço Xexé, Xuxu vinham a minha mente de um jeito muito peculiar: todos caíam em um abismo fundo e escuro até sumirem.

Quando adormeci, sonhei como nunca. Sonhei com nuvens brancas, plácidas e confortáveis de puro algodão. Não tinha idéia se isso era a felicidade. Mas que se danasse o mundo. No meu sonho eu flutuava com Vera deitado sobre aquelas nuvens. Experimentava uma sensação de júbilo que preenchia os meus pulmões. O mundo lá embaixo não fazia mais parte de nossas vidas. E eu não queria acordar mais.

terça-feira, 15 de junho de 2010

E o palhaço o que é? - Parte 7

Maria Alice


O recado na caixa postal do meu celular era conciso e muito claro. “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha amanhã às três e meia da tarde em nosso lugar. Beijos. Maria Alice”. O amanhã era hoje. Estava tão cansado na noite anterior que desliguei o telefone e fui para a cama cedo. Tentei em vão ler uma revista. Adormeci na segunda linha de um artigo qualquer. O que me intrigava naquele recado era aquele “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha”. Que diabos tinha ela na cabeça? Que planos sexuais ela reservava para aquela tarde? Ela sempre foi a mais discreta das três. Séria, de pouca conversa, sempre muito direta. Exatamente como o recado que tinha deixado. Mas eu não tinha absolutamente nada a questionar. Se tivesse a intenção de continuar com a minha “dolce vita”, tinha que cumprir minha parte no acordo. Mas confesso que, levar o Peraltinha para uma seção de sexo era algo que ia um pouco além do que eu tinha imaginado.


Eram três e trinta e dois da tarde quando abri a porta da garçoniere. Maria Alice estava sentada no sofá da sala com uma taça de dry martini nas mãos. Ela estava bebendo aquela coisa bem no meio da tarde de um dia de semana. Seus olhos um pouco injetados combinavam com a nova cor do seu cabelo. Ela agora estava ruiva. Estava muito bem feito, o que não é de se surpreender. Gosto muito de cabelos ruivos em uma mulher. Ela se levantou e caminhou com passos lânguidos em minha direção. Diria que um pouco da languidez era culpa das doses da bebida que ela havia ingerido. Passou os braços pelo meu pescoço a língua gelada pela minha orelha. Estava usando um vestido com alças, muito leve e estava de pés descalço. Era a mais magra das três. Aquela língua gelada pelo dry matini estava me deixando bem louco. Larguei a mala onde estava o meu amiguinho Peraltinha no chão e ela protestou.

- Cuidado com o nosso amiguinho – apesar de falar no meu ouvido, era possível sentir o ar carregado de bebida saindo de sua boca - ele tem que estar inteirinho para daqui a pouco.
- Como assim? - Perguntei com medo da resposta.
- Eu adoro um ménage a trois.


Ela se afastou, preparou dois dry martinis e me estendeu um deles. Confesso que ela me amedrontava um pouco. Antes de beber, ela tirou o vestido. Exceto ela, não havia mais nada embaixo dele. Nem sinal de calcinha ou soutiein. Estava como viera ao mundo. Claro, com um pouco mais de peito e bunda, eu diria. Ela se recostou no sofá e me chamou para perto dela com o dedo indicador em forma de gancho fazendo movimentos repetidos. Eu obedeci. Em seguida, começou a jogar o dry martini pelo corpo e sussurrou um “bebe” quase inaudível. Eu bebi até ficar com câimbra na língua. Duas taças. De certa forma, sentia-me o cachorrinho da madame. Ela gemia muito. Era, de longe, a mais barulhenta das três. Depois levantou e disse.

- Traga o seu amiguinho e venha pra cama.
- O meu amiguinho está sempre comigo. E está bem duro.
- Estou falando do Peraltinha.


O que aconteceu daí em diante foi um tanto bizarro para os meus padrões, mas de certa forma, excitante. Eu transava com ela enquanto o Peraltinha falava Frases obcenas no ouvido dela. No início foi meio difícil pegar o jeito e o equilíbrio. Tinha que ser dois ao mesmo tempo. Mas na medida em que o tempo passava eu consegui achar o ritmo. Ela urrava e só falava com o boneco. Pedia para ele falar coisas que deixariam o rosro de qualquer pessoa da cor do meu nariz falso. Vaca era o que de mais leve ele teve que falar no ouvido de Maria Alice naquela tarde. Na hora, entretanto, nem eu nem ele estávamos nos preocupando com isso. A excitação e a bebida misturados nos fizeram perder a noção da normalidade. Era o que Maria Alice queria. Todos juntos, numa orgia louca, desenfreada. Num estado etílico avançado. Era como se ela quisesse estar fora da realidade. Como se fosse em um universo paralelo, uma outra vida. Era isso que ela desejava. Foi isso que ela teve.



Peraltinha

Depois daquela tarde com Maria Alice, algo mudou radicalmente na minha vida. Seria impossível enxergar o Peraltinha com os mesmos olhos outra vez. Ele tinha esse apelido justamente por ter uma personalidade forte, não tão politicamente correta, porém, infantil. Ele fazia e dizia peraltices. Mas naquela cama sua personalidade havia se transformado de uma maneira irreversível. Ele havia tido uma experiência sexual, a primeira, e já participara de uma orgia sem precedentes, com direito a ficar bêbado.

Naquele dia, quando cheguei em casa ainda um pouco tonto, lembro-me de ter ido tomar um banho demorado. Quando saí do banho, dei de cara com o Peraltinha jogado na poltrona da sala de estar. Ele me encarava com aquele ar de riso permanente de boneco, só que com algo de safadeza adulta. Pode parecer ridículo, mas o fato é que até a expressão em seus olhos já não era mais a mesma. A inocência havia se esvaído daquele olhar. Eu olhava para ele e imagens da orgia recente vinham-me a mente. Ele falando aquelas coisas obcenas e a cada uma ela gemia e gritava, enquanto eu a penetrava. Sentei ao lado do meu amiguinho. Era preciso ter uma conversa com ele.

- Então, amigo velho, o que foi isso?
- Uma tarde de sexo louco – ele responde - e eu adorei.
- Nossa! Como você cresceu, meu amigo.
- Eu não quero mais me apresentar em seus shows.
- Como?
- Estou de saco cheio, estou pedindo demissão. Só quero sair da mala para encontrar Maria Alice.
- Mas você faz parte importante no show.
- Você acha que eu vou encarar aquelas crianças depois de tudo o que aconteceu? Você acha que eu consigo falar coisas engraçadinhas depois das coisas que eu disse? Não tem mais volta, Alê. Estou fora. Nem você conseguiria encarar a criançada comigo no seu colinho. - Falou irônico. -  Você iria lembrar de todas as coisas que eu disse e fiz.
- Como assim, fez?
- Não diga que você não viu quando pus a cabeça no meio das pernas dela? – Ele geme. – Ela adorou o meu nariz roçando nela enquanto você trabalhava.

Eu tinha que aceitar. O meu amiguinho conhecera uma outra realidade. Provara do fruto do prazer e havia gostado de tal maneira que não era mais possível continuar a sua carreira.Era irreversível. Peraltinha agora só saía de sua maleta para se encontrar com Maria Alice. Ele passou a morar naquele apartamento.