Desacreditem do que a tradição imputa a vocês, pais de lindas meninas, como eu. Não pense que a tragédia suprema e inapelável vai tomar forma no dia em que a sua linda filha chegar em casa trazendo um cebeludo cravejado de piercings, mais parecendo uma daquelas almofadinhas de agulha que a sua mãe tinha quando costurava a próprias roupas.
Nem será o fim do mundo se ela aparecer em casa num sábado a tardinha puxando pela mão um pastiche do Justin Biaber com cabelos penteados para a frente delatando que o pequeno sujeito ali na sua frente ficou pelo menos uma hora e meia em frente ao espelho manejantdo um secador e cabelos e uma escova, quem sabe até um secador/escova que foi surrupiado do quarto do irmã mais velha, com a finalidade estética de fazer com que cabelo atingisse aquele design “levei um vento de popa”.
Nem se desespere se num dia como qualquer outro você chegar em casa depois de um dia repleto de reuniões intermináveis - cuja única finalidade era chegar a conclusão de que novas reuniões seriam necessárias para resolver um problema que na verdade não existe - e ao chegar na cozinha para beber um copo de guaraná com muito gelo, deparar-se com um marmanjo com mais delineador nos olhos do que a a sua filha e sua mulher somadas em dia de casamento, despejando o resto da última garrafa de guaraná da sua geladeira num copo que segura com as suas mãos que ostentam unhas pretas. Não, senhores. Não me refiro a extremidade da unha preta, tal qual um mecânico que ganha sua vida engraxando-se diariamente no processo. Falo de unhas pintadas com esmalte preto.
Dizer que estes sujeitos representam alguma coisa de ruim, algum perigo para nós é a balela das balelas. O folclore dos folclores. Porque nenhum destes seres, caso existam, é ameaça maior do que a sua querida e amada filha aparecer com um sujeito que se veste com uma camisa de um azul normalíssimo, que, por incrível que pareça, combina com as calças, porta-se com o mínimo traquejo social, não só conversa sobre futebol com você como ainda torce para o mesmo time que você. Sua mulher acha que ele é um amor e um primor de educação, o que você acaba descobrindo ser a mais pura verdade. Ele tem pai, mãe e domicílio estabelecido, como diria um juiz no tribunal. Ele é classificado como “esse menino é de ouro”. Estas qualidades envolventes deixam você completamente anestesiado. Quando você menos espera está num jantar com o pai e a mãe dele no tal domicilio estabelecido. Sem se dar conta, com as defesas baixas, não se dá conta de que já caiu na armadilha insidiosa e repugnante.
Então, na manhã com luz outonal de um sábado, com folhas formando um tapete dourado na calçada em frente àquela capelinha romântica que a sua filha e o “menino de ouro” escolheram, você, ainda entorpecido pelo veneno do que foi presa fácil, entrega a mão dela para ele. Você comemora. Discursos, palavras bonitas e algumas doses de tudo o que estiverem servindo depois, você acorda no domingo com duas dores de cabeça: a da bebida, que vai passar no mesmo dia, e a de ter se dado conta de que o menino de ouro passou a perna em você e tomou a sua filha. Essa dor de cabeça também passa. Mas demora mais.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
Presentes - (Selo Pais em TPM)
André cambeleava sem destino pela casa, ainda sem consciência total de que havia despertado. Acordara de sopetão ao olhar para o relógio na mesa de cabeceira e perceber que ja passavam das dez da manhã. Em sua cabeça, a confusão musical da noite anterior misturado aos som de inúmeros pré-adolescentes perambulando pela casa. Na verdade, permaneceu em sua mente durante o sono, como se a festa de anviersário da filha tivese atravessado a madrugada e chegado até ali pulsando ao som do bate estaca. Sabe Deus como chegou a cozinha e preparou seu usual café gelado. Achou o pão, pegou o leite e a manteiga na geladeira e a medida em que encheu seu estômago esvaziou a sua mente. Tinha entrado definitivamente no sábado. Foi até a porta da frente e pegou o jornal. A manchete, como sempre, ela alarmante. “Não dão folga nem no sábado”, André pensa. Pega o caderno de esportes. Ele sempre pega o caderno de esportes porque acha o mais inconsequente de todos. As crises lá expostas são tolas e pueris. É atÉ praticamente uma fotonovela. E os comentristas parecem mais lavadeiras fofoqueando sobre a vida alheia. Nada para pensar. Era isso que queria, no momento. Quando a cabeca estivesse cem por cento acordada, passaria para coisas mais inteligentes.
Depois de algum tempo mergulhado na sua leitura, percebeu que as gralhas que ouvia la fora davam gritinhos e falavam português. Foi quando concluiu que não eram gralhas e nem vinham do jardim. Eram Dora e Pati, mulher e a filha no quarto da última. Curioso, André deixou o jornal de lado e foi até a origem daqueles arroubos sonoros. “É incrivel como duas mulheres felizes podem parecer quatro ou cinco juntas. A alegria as multiplica”, ele pensa enquanto caminha em direção ao quarto da filha. Ao chegar, depara-se com as duas sentadas no chão ao lado de uma montanha de presentes, em cuja base, papéis coloridos e ja rasgados dos presentes abertos davam a impresão de lava colorida que jorrou de um vulcão esquisito. As duas estão conferindo os presentes e a cada um que abrem soltam gritinhos. Filha e mãe pareciam ter a mesma idade: 12 anos.
- Olha, isso? – Dora excita-se com uma caixa nas mãos.
- Maquiagem? Uhu! – A filha excita-se.
- Ai, minha filha, olha essas calcinhas?
- Mão, olha qui, olha aqui.
- AaaaaaaaaaaaaaH!!! – As duas gritam juntas.
- Uma bolsa com lugar para o meu celular e o meu MP3.
- É Vuiton, mãe!
- Ah, deve ter sido da sua madrinha.
“Aquela chata esnobe da minha cunhada.", ele pensa enquanto olha aquela cena. Elas nem aí pra ele. Os presentes foram sendo abertos e descobertos e a cada papel rasgado era acompanhado de “ai que lindo“ para os bacanas, “uhus!” para os mais bacanas e o “aaaaaaaaaah!” em uníssono para os realmente incríveis. A operação abre presente durou 40 minutos. O quarto da filha uma bagunça de papéis rasgados. As duas passaram por André e desceram falando ao mesmo tempo num grau de excitação dos mais elevados. Não era um diálogo, nem um monólogo. Não há classificação quando um diiálogo são frases sobrepostas entre dois interlocutores. A medida em que se afastavam o silêncio foi tomando conta do quarto. E o silêncio, que começou como um alívio, passou a se tornar insuportável para André. Porque foi o silêncio que permitiu a ele uma observação mais atenciosa de cada presente naquele quarto. Um a um, em todos os detalhes. Uma gélida corrente percorreu sua espinha. Ficou anestesiado por alguns momentos, prostrado diante do tamanho de sua constatação. Ouviu o bater da porta da rua. Pela força, cloncluiu que a filha tinha saído para se encontrar com alguém no condomínio. O dia estava muito bonito mesmo. Ele desceu e encontrou a esposa colocando as louças sujas na maquina de lavar.
- Ela não está linda? – Orgulha-se Dora.
- É.
- É? André, mas que cara é esta.
- Os presentes, Dora. Os presentes da Pati.
- Ai, cada um mais lindo que o outro. Eu adoro abrir presentes com ela, volto no tempo.
- Não tinha boneca, Dora.
- Como?
- Não tinha boneca, eu disse. Nem cozinha de brinquedo, aliás, a única coisa perto de um brinquedo que tinha ali era um game de Playstation.
- Mas que tristeza é essa?
- Você viu aquelas calcinhas? – Ele parece hiopnotizado. – Os batons. Eu juro que vi uma sandalia com um salto ali no meio. Uma sandália com salto.
- E duas botinhas, com saltinho. Ela ficou uma coisa.
- Coisa é o que eu estou sentindo no peito, Dora, na falta de descrição melhor.
- Você está pálido, André. Está se sentindo bem?
- Cadê os brinquedos, Dora. Nossa filha não ganhou um mísero brinquedo.
Dora olhou para o marido entendendo tudo. Ele parecia um zumbi. Qualquer expressão que ja habitou o rosto de seu marido o havia abandonado naquele exato instante. Ao se olhar para aquele rosto, uma palavra veio-lhe a mente: catatônico. Diante da verdade dos fatos, ela resolveu guardar o noticia que tinha para dar. A de que a filha tinha virado mulher, biologicamente falando. O coitado do André ja tinha tido emoções demais por uma manhã.
Depois de algum tempo mergulhado na sua leitura, percebeu que as gralhas que ouvia la fora davam gritinhos e falavam português. Foi quando concluiu que não eram gralhas e nem vinham do jardim. Eram Dora e Pati, mulher e a filha no quarto da última. Curioso, André deixou o jornal de lado e foi até a origem daqueles arroubos sonoros. “É incrivel como duas mulheres felizes podem parecer quatro ou cinco juntas. A alegria as multiplica”, ele pensa enquanto caminha em direção ao quarto da filha. Ao chegar, depara-se com as duas sentadas no chão ao lado de uma montanha de presentes, em cuja base, papéis coloridos e ja rasgados dos presentes abertos davam a impresão de lava colorida que jorrou de um vulcão esquisito. As duas estão conferindo os presentes e a cada um que abrem soltam gritinhos. Filha e mãe pareciam ter a mesma idade: 12 anos.
- Olha, isso? – Dora excita-se com uma caixa nas mãos.
- Maquiagem? Uhu! – A filha excita-se.
- Ai, minha filha, olha essas calcinhas?
- Mão, olha qui, olha aqui.
- AaaaaaaaaaaaaaH!!! – As duas gritam juntas.
- Uma bolsa com lugar para o meu celular e o meu MP3.
- É Vuiton, mãe!
- Ah, deve ter sido da sua madrinha.
“Aquela chata esnobe da minha cunhada.", ele pensa enquanto olha aquela cena. Elas nem aí pra ele. Os presentes foram sendo abertos e descobertos e a cada papel rasgado era acompanhado de “ai que lindo“ para os bacanas, “uhus!” para os mais bacanas e o “aaaaaaaaaah!” em uníssono para os realmente incríveis. A operação abre presente durou 40 minutos. O quarto da filha uma bagunça de papéis rasgados. As duas passaram por André e desceram falando ao mesmo tempo num grau de excitação dos mais elevados. Não era um diálogo, nem um monólogo. Não há classificação quando um diiálogo são frases sobrepostas entre dois interlocutores. A medida em que se afastavam o silêncio foi tomando conta do quarto. E o silêncio, que começou como um alívio, passou a se tornar insuportável para André. Porque foi o silêncio que permitiu a ele uma observação mais atenciosa de cada presente naquele quarto. Um a um, em todos os detalhes. Uma gélida corrente percorreu sua espinha. Ficou anestesiado por alguns momentos, prostrado diante do tamanho de sua constatação. Ouviu o bater da porta da rua. Pela força, cloncluiu que a filha tinha saído para se encontrar com alguém no condomínio. O dia estava muito bonito mesmo. Ele desceu e encontrou a esposa colocando as louças sujas na maquina de lavar.
- Ela não está linda? – Orgulha-se Dora.
- É.
- É? André, mas que cara é esta.
- Os presentes, Dora. Os presentes da Pati.
- Ai, cada um mais lindo que o outro. Eu adoro abrir presentes com ela, volto no tempo.
- Não tinha boneca, Dora.
- Como?
- Não tinha boneca, eu disse. Nem cozinha de brinquedo, aliás, a única coisa perto de um brinquedo que tinha ali era um game de Playstation.
- Mas que tristeza é essa?
- Você viu aquelas calcinhas? – Ele parece hiopnotizado. – Os batons. Eu juro que vi uma sandalia com um salto ali no meio. Uma sandália com salto.
- E duas botinhas, com saltinho. Ela ficou uma coisa.
- Coisa é o que eu estou sentindo no peito, Dora, na falta de descrição melhor.
- Você está pálido, André. Está se sentindo bem?
- Cadê os brinquedos, Dora. Nossa filha não ganhou um mísero brinquedo.
Dora olhou para o marido entendendo tudo. Ele parecia um zumbi. Qualquer expressão que ja habitou o rosto de seu marido o havia abandonado naquele exato instante. Ao se olhar para aquele rosto, uma palavra veio-lhe a mente: catatônico. Diante da verdade dos fatos, ela resolveu guardar o noticia que tinha para dar. A de que a filha tinha virado mulher, biologicamente falando. O coitado do André ja tinha tido emoções demais por uma manhã.
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