segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pais em TPM - Barrigas

Ela estava linda em seu uniforme escolar. Cabelos presos com duas maria chiquinhas. E uma franja mantida meticulosamente reta acompanhando a linha das sobrancelhas. Orgulhosa, porque ja tinha tamanho para ocupar o banco da frente do carro. Uma alegria que contrastava com o seu mau humor quase constante quando estava comigo e com a mãe dela. Os hormônios da adolescência somados a herança genética do pai, confesso. Mas naquele momento, naqueles minutos pós escola ali no carro, o seu sorrido redimia qualquer frase agressiva que terminasse em “saco”, referindo-se a uma simples pergunta do tipo, “você ja escovou os dentes?”. Naquele momento era a filha de 12 anos perfeita. Uma jóia da nossa criação. A coisa mais linda que podia haver no universo. Um ser vivo tão perfeito que mesmo que eu pudesse estar passando pelo pior dia da minha vida – o que não era o caso – tudo se tornaria pequeno, ínfimo, só de olhar para aquele ser vivo ali ao meu lado.

A sensação de alegria só aumentou quando eu perguntei como tinha sido a escola. Ao contrário do usual, a resposta veio leve, emoldurada por um sorriso incomum em circunstância como aquela. “Foi legal.” Sim, duas palavras apenas e nenhuma delas tinha sito “saco”. Se um dia me perguntassem “que momento em sua vida você gostaria que durasse uma eternidade?” eu citaria aquele, sem dúvida alguma. O entrosamento total entre um pai e uma filha. Tudo completamente encaixado, perfeito. As cores do mundo visto através dos vidros do carro estavam no seu exato lugar. O marrom dos troncos das árvores estavam no tom correto. O verde das folhas cintilavam ao encopntrar um raio de sol, dizendo que a clorofila fazia seu diligente trabalho de tirar do ar o famigerado gas carbônico, nos dando de presente o tão estimado oxigênio. O azul do céu bailava graciosamente com o branco de algumas nuvens que vagavam entregues a vontade do vento. E aquele doce sorriso ao meu lado. O sorriso vira-se em minha direção e, ao ouvir uma das música que vem de sua rádio preferida, sintonizada assim que ela entrou no carro, disse.

- Pai, você sabia que hoje é o aniversário do Taylor Lautner?
- Aniversário de quem?

A total ignorância sobre o mundo da minha querida filha de 12 anos revela-se na pergunta anterior e é sacramentada na próxima.

- Você tem um colega norte americano?
- Nããããããão, pai! O Jacob - o sorriso ainda mais lindo quando menciona Jacob.
- Mas afinal, é Taylor, é Jacob, Taylor Jacob ou Jacob Taylor?
- Pai, e Taylor Lautner, que faz o Jacob no filme Crepúsculo.
- Ah! Esse.


Respondi com um conhecimento mentiroso, afinal, não tinha remota idéia da fisionomia do rapaz, o que me foi esclarecido logo em seguida.

- Ele é lindo, pai. Ele tem aquela barriga de tanquinho…ai.


E, a partir daí, ela pasou a explicar os outros dotes físicos do rapaz mas eu ja não estava ouvindo. Barriga de tanquinho? Como uma menina de apenas 12 anos começa a descrever um sujeito que ela acha bonito pela barriga de tanquinho? Não podia ser pelo seus ohos encantadores? Seu sorriso lindo? Seus cabelos maravilhosos? Sua voz maviosa? Não, maviosa não que uma garota de 12 anos nunca usaria maviosa para descrever a voz de quem quer que seja. Não interessa. Quem olha a barriga de tanquinho de alguém são pessoas muito, mas muito mais velhas. Tive ganas de frear o carro. Mas não. Aquele era um momento de crise e nos momentos de crise, após o choque inicial é preciso que nos recomponhamos. Nada de coração, mas sim, a razão. A medida em que tentava me reencontrar no meio daquela conversa, o colorido perfeito de árvores, céu, nuvens desmanchavam-se e misturavam-se numa forma abstrata. Aquela barriga de tanquinho dita com um sorriso e aquelas olhinhos verdes a beira de revirarem-se acabaram com a pintura bucólica que eu acabei de descrever ainda agora.

Ao chegarmos em casa ela saiu do carro saltitante como sempre. E eu, acompanhando seus movimentos e me perguntando se aquela alegria era por causa de uma barrida de tanquinho estranjeira. Subi até o quarto e levantei a barra da camisa em frente ao espelho do quarto. Definitivamente, a minha barriga estava longe de ser de tanquinho. Só espero que ela não cresça tão rápido como a minha filha.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

As aventuras de JJ 3 - O serial lover.

Outro dia encontrei o Dr. José Augusto, grande amigo que enveredou pelo estudo da psiquê humana. Grande psiquiatra discípulo de Jung, mas de maneira nenhuma pode ser considerado um radical, uma vez que concorda com vários conceitos freudianos. Mas, o importante a ser tratado nestas linhas não é a corrente que o bom doutor acredita ou deixa de acreditar e sim a luz que ele jogou sobre um assunto recorrente a este que vos escreve. Como eu, o doutor José Augusto conhece muito bem o nosso querido JJ e, nesse nosso encontro para um café no meio da tarde, ele trouxe uma revelação perturbadora.

- Não há a menor sombra de dúvida, meu caro – afirma taxativo, o doutor José Augusto – o nosso amigo JJ é um psicopata.
- Pára com isso, José Augusto. Você quer me dizer que o JJ está na iminência de se tornar um assassino em série?
- Ele já é de certa forma.

Quase engasguei com o expresso carioca que bebia no momento. Seria possível que JJ já tivesse tirado uma vida e extraído do ato vil um prazer indescritível? E que talvez fosse seguir fazendo isso? Teria ele, quando criança, torturado moscas indefesas, arrancando suas asas e vendo-as agonizar em dor profunda? Sequestrado pássaros da gaiola dos vizinhos e deixado as pobres aves a mercê de algum gato esfomeado em uma sala fechada, não sem antes cortar-lhes as asas para impedir o vôo salvador? Mas o bom doutor esclareceu-me aquela afirmação de maneira surpreendente.

- Não, nada disso. Nosso JJ jamais tirou a vida de quem quer que fosse, inseto, pássaro ou ser humano. Seus impulsos são dirigidos para o ato sexual. – Empertigou-se na caderia e começou sua explicação com mais detalhes. - Como sabemos, para muitos psicopatas, o ato de tirar a vida tem conotações sexuais. Alguns, como sabemos, gozam enquanto perpetuam as barbaridades mais indescritíveis.

Eu sinceramente não conhecia tal fato. O cara goza introduzindo não o seu pênis em alguém, mas uma faca?

- Mas no caso de nosso querido JJ o ato é o puramente sexual. Eu classificaria o osso amigo como um “Serial Lover”. JJ, meu caro amigo, é um psicopata do amor.

Pedi outra rodada de cafezinhos com um bolinho de maçã pra acompanhar o relato. Nunca havia pensado em JJ nestes termos. O equivalente a um Jack, o Estripador, só que com consequências muito menos trágicas e horripilantes.

- Veja - seguiu o bom doutor – o nosso querido JJ tem um modus operandi que não nos deixa dúvidas. Primeiro, seu impulso é dedicado ao mesmo tipo de pessoa, no caso, mulheres, todas com atributos físicos, digamos, exuberantes. Como uma ave de rapina, ele avista a sua vítima e passa a sobrevoá-la. E aí, neste momento, revela-se mais um traço inconfundível. Ele invariavelmente encontra uma fraqueza em sua vitima, Algo que ela quer muito ou que a perturba. Encantador como qualquer psicopata, ele se coloca como solução para esta fraqueza. E aí temos o terceiro traço. Nosso amigo não tem moral alguma.

Percebendo os meus olhos arregalarem, o brom doutor apressa-se em explicar esta última colocação.

- Esta falta de moral é uma “amoralidade”. Isto é, ele simplesmente sofre de falta de culpa. Se ele, por exemplo, descobre que o sonho mais recôndido da sua vítima é casar-se na igreja, ele, sem o mínimo remorso, a convence de que o sonho da pobre moça é também o sonho dele. Essa ausência de culpa junta-se ao seu “descolamento social”, que se manifesta em pequenos atos que o tornam ainda mais encantador.
- Como?
- Abrir a porta do carro para uma mulher na frente de todos os amigos. Dar presentes a elas, de um bouquet de rosas a um brigadeiro na cara de todos no trabalho. Ele faz isso sem abalos, sem se importar com a opinião dos seus pares. Ele é impermeável à gozações, o que, aos olhos da mulher que é alvo de sua atenção, torna-o algo perto de um herói grego. Um semideus. Ela está entregue. E JJ, como sabemos, faz delas o que quer. E por último, vem a “pantomima da morte”.

O doutor deu aquela paradinha para criar suspense. Bebeu um gole do seu café. Foram segundos que pareciam durar décadas. Meu olhar era suplicante. O que seria a “pantomima da morte”?

- Delicioso este café. Eu dizia?
- A pantomima, José Augusto. A pantomima.
- A pantomima da morte. É uma consequência muito simples dos atos amorosos e sexuais de nosso amigo. Ele e a vítima ingressam em intenso relacionamento, para ela de profunda dependência. Para ele, sexual. Os encantos do nosso serial lover intensificam-se. Mas há um momento em que, saciado, JJ simplesmente desliga. Passa a não mais querer aquela mulher, a não ser como amiga e troféu vivo de carne e osso. Continua por perto, mantendo curta distância e, com isso, a chama que queima no peito de vítima continua viva e intensa. Elas todas saem destes idílios combalidas e entregues e, mesmo sabendo que JJ talvez nunca mais volte a ser delas, não conseguem pensar em outro homem que não nele. Enfim, elas, enquanto mulheres disponíveis jazem mortas para mim, para você e para todos os outros bilhões de habitantes do sexo masculino deste planeta.

Seguimos tomando o nosso café em silencio. Aquelas eram revelações científicas irrefutáveis. Terminamos e nos despedimos. Enquanto me dirigia para casa fiquei pensando em quantas vitimas JJ já tinha amealhado em sua coleção. Uma coisa era certa. Ele só ia ser procurado pela polícia se algum dia resolvesse ter caso com a mulher de algum delegado.

sábado, 21 de maio de 2011

O Papai Noel e o cientista.

Quando eu tinha sete anos de idade, minha mãe virou-se para mim com aquele seu jeito amável e perguntou o que eu iria pedir ao Papai Noel. Eu olhei fixamente para ela e disse que o Papai Noel era uma impossibilidade. Como é que um velho gordo metido numa fantasia vermelha e branca poderia ser capaz e de presentear todas as crianças do mundo em uma só noite? Ainda mais se locomovendo em um trenó voador puxado por renas, até porque renas não voavam. Mas se ela quisesse comprar um mini-laboratório de química ou os livros da coleção Conhecer estava ótimo para mim. Eu já tinha uma imensa curiosidade científica desde cedo. Aprender, para mim, era como bricar no balanço. Desde muito cedo eu fui dominado por uma lógica inascessível a uma criança da minha idade e, portanto, lendas nunca me emocionaram, incluindo o Natal, com todas suas histórias de velhos entrando por chaminés, renas voadoras e duendes empacotadores.

Por favor, não me julguem mal. Não é que eu não goste do Natal. Eu acho até uma bela data pelo poder que exerce nas pessoas. Há os que se deprimem, os que lançam irados protestos contra o excessivo mercantilismo e aqueles que são dominados por uma generosidade incontida, tentando dar em uma semana o que não deram o ano todo. Em mim, nada. O espírito natalino era uma impossibilidade para mim, visto que espírito era um conceito nada científico. E, para o físico que eu havia me tornado, conceitos nada científicos são uma total perda de tempo. Se tinha um velhinho de cabelos brancos que fez “milagres”, para mim, foi Einstein.

Mas no último Natal a minha falta de fé e emoção sofreu um sério abalo. Naquele 24 de dezembro me fui para o apartamento de minha tia Alberta. Ela foi a minha mais abnegada incentivadora para que eu tomasse o caminho da ciência. Eu simplesmente adoro a tia Alberta e, apesar de tudo o que já expliquei, sou presença certa nas suas ceias natalinas em seu apartamento.

Quando cheguei no prédio olhei o relógio de pulso. Eram dez horas em ponto. Astrogildo, o porteiro, cumprimentou-me com um ligeiro menear de cabeça. Não estava com boa cara. Provavelmente por estar trabalhando numa noite daquelas em que certamente preferia estar junto às filhas e à mulher. Caminhei até o elevador social e apertei o botão para subir. O elevador do prédio da tia Alberta sempre foi lento. Fiquei ali esperando entediado quando tive minha atenção chamada por vozes. O Astrogildo falava no interfone. A sua frente, todo empertigado e com um imenso saco nas costas, estava o Papai Noel. Bem, não o Papai Noel, mas um Papai Noel. Astrogildo balbuciou algo ininteligível para a figura encarnada, que tomou o rumo do elevador, que acabara de chegar. A porta se abriu e eu deixei que ele entrasse primeiro. Ele agradeceu como que por obrigação e logo entrou. Entrei atrás. Ele apertou o botão do vigésimo andar, a cobertura, eu o do décimo sétimo. A porta se fechou e a lenta ascensão começou. Ao chegar no nono andar um tranco. O elevador parou. Olho para o Papai Noel que retribui o olhar. Ele poreja e a sua respiração acelera.

- E agora? – pergunta ele, nervoso.

Minha resposta é apertar o botão de emergência. Nada. Nenhuma reação. Olhamo-nos de novo e tomamos a única decisão lógica para dois homens sensatos numa ocasião como aquela: socamos a porta aos gritos de socorro. Olhei para o relógio de pulso. Dez e cinco. Certamente alguém iria chegar e eu estaria no apartamento da tia Alberta em tempo de saborear uma deliciosa coxa de peru. O problema é que, naquele instante, o Papai Noel não compartilhava do meu otimismo.

- Quando sair daqui que eu vou encher aquele porteiro de porradas – esbravejou.
- Quem sabe ele já chamou ajuda? – Falei pausadamente, tentando acalmá-lo.
- Entende a merda que o mundo é? – Ele poreja por todo o rosto vermelho, uma extensão da sua roupa. – Esse incompetente aí fora tem um emprego.
- Deve haver algum motivo para ele não ter ouvido.
- O motivo eu já falei, é um incompetente.

Passou a chutar a porta novamente e a gritar. Eu ali olhando aquela cena patética. Um Papai Noel completamente fora de si aos berros dentro de um elevador.

- Isso não vai adiantar nada, meu amigo.
- Que intimidades são essas? – Ele se vira pra mim com o rosto desfigurado – Eu não sou seu amigo.
- Eu só estou tentando puxar conversa. É um bom remédio pra claustrofobia.
- Claustrofobia? – Ele ri pela primeira vez, um riso de escárnio - Quer conversar? Então vamos conversar. O seu nome, qual é?
- Gerson.
- Muito prazer, Gerson, como você já percebeu eu sou o Papai Noel. E o senhor faz o que?
- Sou físico.
- Eu não entendi.
- Sou formado em física e trabalho em pesquisas no campo da física quântica.
- Bem, doutor gênio, será que o senhor tem aí um telefone celular?
- Tenho.
- Então, por que não usar o seu aparelho para ligar seja lá para quem for que você veio visitar nesse prédio?

Não admira que ele me chamasse de gênio com todo aquele sarcasmo. Eu já devia ter pensado nisso há muito. Mas a idéia que era perfeita sofreu um pequeno revés.

- Fora de serviço.
- Droga! Mas que maldita droga!

Enquanto pragueja, ele enfia a mão no enorme saco e tira de lá um revólver. Uma pistola pra ser mais exato. Não era de plástico. Uma pistola verdadeira. Ele continua falando e gesticulando como antes, nervosamente. Só que agora eu também estou nervoso. Ele tem uma pistola na mão.

- Essa pistola é verdadeira? – Arrisco.
- Mas claro que é? Não tem outro jeito de fazer o que eu pretendo se ela disparar água, meu amigo cientista.
- E o que é que você pretende?
- Já que você quer mesmo conversa, eu vou te contar toda história – ele retoma o fôlego, senta-se ao meu lado e eu não tiro o olho da pistola em sua mão. – O homem aí da cobertura era o meu ex-patrão. Eu trabalhava na contabilidade de uma empresa de advocacia. Esse filho da puta me demitiu. O departamento estava buscando um novo perfil de profissional. – Faz uma suposta imitação do seu ex-patrão ao falar isso. - Cagou para todos os anos de dedicação à empresa e para a minha família.
- Eu sinto muito.
- Faça um favor para mim, amigo gênio, cale a boca e me deixe continuar.

Aquela pistola dava a ele toda a autoridade. Eu não iria discutir.

- O nome do dono da cobertura é Olegário. Nomezinho feio, não? Um dia eu recebo um recado do senhor Olegário. Ele queria que eu fosse até a empresa pois precisava muito falar comigo. Imagine a excitação que eu senti no momento em que recebi o recado. Achei que ele iria reparar a injustiça e me chamar de volta. Tudo não havia passado de um pesadelo. De um enorme engano. Lá cheguei, meu amigo gênio, com o peito inflado de felicidade. Somos tão idiotas, não é verdade? Ficamos felizes porque estamos ganhando algo que já tínhamos há muito. Cheguei na sala do senhor Olegário por quem fui muito bem recebido. Ele olhou para mim e disse “Meu bom José Carlos” ao que eu corrigi “João Carlos” e ele, então continuou, “Eu sempre confundi José e João. Bem, meu caro João Carlos, eu tenho uma proposta para o senhor. O Natal se aproxima e como eu sei que o senhor ainda não conseguiu uma colocação, eu posso, pelo menos, conseguir um meio de o senhor conseguir um dinheiro para o final de ano.” Eu fiquei um tanto decepcionado, mas segui ouvindo “A idéia é a seguinte, seu João Carlos. As ceias de Natal são sempre um acontecimento em nossa família. Mas as crianças, o senhor sabe, seu João Carlos, elas andam muito espertas. E como estão espertas! Bom, nestas ceias sempre alguém da nossa família faz as honras de ser o Papai Noel. Mas a criançada sempre descobre que o Papai Noel é falso, que é alguém da família com aquela barba de algodão. Então eu me lembrei do senhor, seu João Carlos. Essa barba branca e essa barriga acentuada, tudo de verdade. Sendo mais direto, seu João Carlos, eu queria que o senhor fosse o Papai Noel da nossa ceia deste ano. A criançada vai ficar maluca. Vai mesmo acreditar que o Papai Noel em pessoa está passando um tempo conosco. Vai ser o maior presente para os meus netos, seu João Carlos. Claro, que eu vou pagar um bom cachê pela sua atuação. E a roupa, claro, eu também fornecerei.

Ele começa a chorar copiosamente. Depois de ver um Papai Noel perturbado chutando a porta do elevador aos berros, agora vejo um Papai Noel se desmoronando emocionalmente ao meu lado. E com uma pistola na mão. Resolvi olhar para o meu relógio de pulso. Ele marcava dez e cinco. Ele tinha parado, até aí nada demais. Mas o estranho é que eu tinha trocado a bateria do relógio no dia anterior. Uma bateria já sem carga? Não se pode confiar em mais ninguém.

- Meu amigo gênio – ele se recompõe - eu deveria ter levantado, dado meia volta e ido embora ou, quem sabe, dar um murro na cara daquele filho da puta. Mas não. Simplesmente fiquei encarando aquele rosto narigudo por alguns segundos, totalmente prostrado na poltrona. E foi quando eu ouvi a voz que me soprou o plano em meu ouvido. Ela disse “aceite, vista a roupa de Papai Noel, pegue a sua pistola, entre com salvo conduto na casa deste idiota e quando toda a família estiver reunida, celebrando a sua chegada , quando você estiver cercado pelos netinhos dele, puxe a arma a atire na têmpora do vovô”. Então eu disse “sim, eu topo”. E agora, o elevador pifa e estamos nós aqui. O tempo passa, meu amigo gênio. E a minha determinação também.
- Você quer dizer que já não está mais tão certo do que vai fazer? – Pergunto carregando uma certa esperança.
- Não, eu não estou.
- Então por que você não me dá essa arma?

Ele ficou olhando para a pistola e começou a chorar outra vez e eu passei a ficar preocupado. Não por mim, mas por ele. Por um instante tive um grande receio dele apontar a arma para a própria cabeça e atirar. A idéia de passar o Natal com um Papai Noel morto num elevador não é a melhor, nem mesmo para alguém que não dá importância para data. Ele levantou a mão com a pistola até a altura dos olhos e passou a observa-la em todos os detalhes. Minhas narinas dilataram. Eu sentia um frio lancinante no estômago. Ele me encarou, olhos encharcados. Eram de uma tristeza avassaladora. Tive certeza que ele se mataria. Então, ele estendeu a mão com a arma em minha direção. Cano virado para ele. Ele estava me entregando a pistola. Eu a peguei imediatamente, antes que ele pudesse mudar de idéia. E, neste exato momento, o elevador passou a funcionar. O elevador parou no décimo sétimo. Eu saí sem dar uma palavra. A arma na mão. Virei-me e tive tempo de ter uma última visão do Papai Noel que logo desapareceu atrás das portas do elevador. Fiquei um tempo contemplando aquela arma, pensando naquilo tudo o que acabara de se passar. A lembrança de tia Alberta fez com que caísse na realidade novamente. Tinha de ir logo, pois ela e todos deviam estar preocupados com a minha ausência. Pelos meus cálculos havíamos passado mais de uma hora trancados lá dentro. Apressei o passo e logo cheguei ao apartamento. Num reflexo olhei para o relógio e ele marcava dez horas e nove minutos. Ele voltara a funcionar. Apertei a campainha. Podia ouvir o som de vozes, risadas, música que vinham de dentro do apartamento. Não parecia haver ninguém preocupado. A porta abriu e o sorriso iluminou o rosto de tia Alberta assim que ela pôs os olhos em mim.

- Gerson, meu querido, seja bem-vindo!

Ela não parecia nem um pouco preocupada. Estavam todos lá: primos, tios, meu irmão, a esposa e os meus sobrinhos. Ninguém parecia estar curioso por saber a razão da minha demora. Uma coisa me chamou a atenção. O peru estava inteiro, dominando o centro da mesa. Havia algo muito estranho no comportamento de todos. Nada denunciava que eu havia passado mais de uma hora trancado num elevador. E foi então que eu olhei para o relógio de parede na sala da tia Alberta. Ele marcava dez horas e onze minutos. Tia Alberta me deu uma taça de champanhe. Eu a peguei automaticamente. Bebi de um só gole ainda olhando para o relógio.

- Tudo bem, Gerson? – Perguntou a tia Alberta.
- O relógio da parede está certo, tia?
- Perfeito como sempre.

Pedi mais uma taça de champanhe. Ao contrário do relógio, a minha lógica acabava de perder sua perfeição.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Cavinato e o cinema.

Cavinato chegou ao trabalho furibundo. A cada bom dia bem humorado que ouvia durante o caminho até a sua mesa, respondia com uma onomatopéia gutural. Estava possesso dentro das calças. O olhar em chamas, a respiração ofegante. Parou na cozinha e, em gestos completamente automáticos, pegou um copo descartável, serviu-se de café da garrafa térmica, colocou açúcar, pegou a colher de plástico e, mexendo energicamente, como se quisesse agredir o copo, o café dentro dele a pobre colher de plástico transparente, subiu as escadas e foi para o seu lugar. Ligou o computador usando uma foça desproporcional ao apertar o botão. Fosse um jogo de futebol levaria um amarelo pelo ato. Se ja tivesse um amarelo, seria expulso. Colocou o copo de café na mesa e, ato continuo, trouxe o telefone para perto, teclando raivosamente o número que os colegas ja sabiam ser de algum SAC. Enquanto esperava alguém atender do outro lado, tamborilava os dedos com energia de dar inveja a John Bonham, que, quando vivo, costumava largar as baquetas e solar em sua bateria usando as próprias mãos e dedos. Se deslocasse algum tarso ou metatarso, não seria de surpreender.

- Telefala as suas ordens, Maria da Graça, as suas ordens, com quem falo.
- Cavinato.
- Seu Honrato…
- Ca-vi-na-to – interrompe.
- Correto. O senhor pode dizer o número do seu telefone com DDD, por obséquio?

A palavra obséquio entrou pelos ouvidos do Cavinato como navalha afiada. São raríssimas as pessoas que usam, no seu dia a dia, a palavra obséquio e uma menina com aquele sotaque de Pirituba, naquela idade certamente não era uma delas. É óbvio que isso fazia parte do “manual” da empresa, o que leva Cavinato a ter certeza que vai falar com uma autômata de carne e osso. Mesmo assim, ele tenta.

- Maria da Graça…é esse o seu nome, né? Maria da Graça.
- É, seu Cavinato.
- Escuta, Maria da Graça, você assistiu Black Swan?
- Como senhor?
- Ah, desculpe, é essa minha mania de ser fiel ao nome original dos filmes. Eu perguntei de você assistiu ao Cisne Negro no cinema.
- Eu vi sim.
- Que bom, Marica da Graça. E você gostou?
- Não estou entendendo, seu Cavinato. O senhor ligou para falar do Cisne Negro ou fazer uma reclamação?
- Pois essa é justamente a minha reclamação, Maria da Graça.
- Não estou entendendo.
- A empresa que a senhora trabalha deixou a senhora ir ao cinema assistir Cisne Negro. Mas a mim não deixou. Não permitiu. Manteve-me em cárcere privado.
- Não entendi, o senhor trabalha aqui também?
- Estou sendo sarcástico, mas parece que não está surtindo efeito, bem como o serviço de reparos de vocês?
- O senhor pode explicar?
- Minha linha está muda e vocês prometeram ir ontem a minha casa, no horário comercial, o que significa até as dezoito horas.
- Entendo.
- Não, a senhora não entende. Porque eu ainda não terminei. Eu passei o domingo dentro de casa e não vieram, Maria da Graça.
- Entendo.
- Pois muito bem, como perdi a tarde toda enfurnado em casa, preso feito um condenado pelo crime de ter um telefone da sua companhia, acabei tendo que ir a sessão de cinema depois das seis. E sabe o que aconteceu?
- Senhor…
- Lotado, Maria da Graça. Todos os cinemas que eu tentei…lotados. Porque domingo a noite, metade da cidade vai ao cinema e a outra metade não consegue porque as sessões estão lotadas.
- Desculpe, mas o senhor tem smartphone?
- E o que tem isso a ver, Maria da Graça?
- É G3?
- Sim, dona Maria da Graça.
- Podia ter comprado o ingresso pela internet para uma sessão da noite e garantido lugar. Não podia?


Aparvalhado pela lógica incontestável da Maria da Graça, Cavinato ficou sem fala. Passou o domingo todo tão obsecado pela certeza de que o técnico não viria e, portanto, excitado pela possibilidade de ligar para o SAC da companhia telefônica – não esqueçamos que esse é o seu vício – que esqueceu de usar a cabeça e garantir o seu ingresso em caso do técnico não vir. Antes de desligar, ainda teve que ouvir a dona Maria da Graça.

- Alô?...Seu Cavinato… Alô?...Xi, ficou mudo igual ao telefone da casa dele.

domingo, 15 de maio de 2011

Diálogos - A Ironia

- O senhor adredita em Deus, doutor?
- Eu entendo que na sua situação…
- Não me interprete mal, doutor. Não vou agora me agarrar  à religiosidade de ocasião dos desesperados. Apenas seja sincero, como ja foi agora há pouco me dando a notícia. O senhor acredita em Deus?
- Não. Vou ser obrigado a usar um chavão: sou um homem da ciência. Mas confesso que ja vi coisas inexplicáveis no exercío da medicina.
- Eu não quero, absolutamente, levar a nossa conversa para esse lado. Não estou esperando milagre algum, doutor.
- Então, por que a pergunta?
- Sabe, doutor, segundo o detetive Poirot, Deus está nas coincidências. Mas eu discordo dele, doutor.
- O senhor gosta de Agatha Cristie?
- Sim, muito, o que não me obriga a concordar com ela sempre.
- Então, Deus não está nas coincidências.
- Absolutamente. A frase correta é “Deus está nas ironias”.
- E a sua condição tem tudo a ver com isso, eu suponho.
- A minha dondição, doutor, é o exemplo acabado de que eu estou certo e a senhora Cristie não.
- O senhor pode ser um pouco mais específico?
- Eu ainda estou em consulta ou há outro condenado lá fora esperando?
- Ainda temos tempo.
- Não sei se o senhor fazia idéia da minha fobia.
- Qual seria?
- Voar, doutor. Entrar em um avião sempre foi um sofrimento…não, mais do que isso, um suplício. De tão avassalador que era eu simplesmente parei de voar faz dez anos.
- Faz dez anos que o senhor não entra em um avião?
- Pouco mais, pouco menos.
- O senhor nunca tratou isso?
- Claro, mas nenhum tratamento rendeu frutos, a não ser para entender exatamente do que eu tinha pavor.
- Mas isso não era óbvio?
- Medo de morrer? É o que todos pensamos, doutor. É a conclusão mais fácil. Mas não, não é o medo de morrer.
- Então o que é?
- É aí que está a ironia doutor. O meu pavor está relacionado ao fato de que,  há um momento entre a pane  e o acidente. É esse momento é a causa da minha fobia.  Ou seja, o tempo em que você está ainda vivo, mas sabe que vai morrer. Entende isso? Podem ser dez segundos, um minuto, não importa. Há um momento em que você sabe que a sua morte é iminente e não há nada mais que possa fazer. Não seriaisso Deus me usando como papagaio, português? Eu assunto de piada dEle.
- Considerando seu dioagnóstico.
- Bem doutor, tenho ainda pelo menos 6 meses.
- No mínimo.
- Mas de um ano não passo.
- Não.
- Então, ja sei que vou morrer. Ja tenho consciência da pane. Nada posso fazer a respeito. E confesso, não está sendo ruim.
- Ja dei este tipo de notícia algumas vezes, mas esta sendo, realmente, a mais curiosa.
- Eu só quero um favor.
- Claro.
- Que lugar do mundo o senhor mais gostou de ter visitado até agora?
- Grécia.
- Então, doutor, é pra lá que eu vou.
- Quer dizer então que o senhor…
- De avião, doutor. De avião.