- O senhor adredita em Deus, doutor?
- Eu entendo que na sua situação…
- Não me interprete mal, doutor. Não vou agora me agarrar à religiosidade de ocasião dos desesperados. Apenas seja sincero, como ja foi agora há pouco me dando a notícia. O senhor acredita em Deus?
- Não. Vou ser obrigado a usar um chavão: sou um homem da ciência. Mas confesso que ja vi coisas inexplicáveis no exercío da medicina.
- Eu não quero, absolutamente, levar a nossa conversa para esse lado. Não estou esperando milagre algum, doutor.
- Então, por que a pergunta?
- Sabe, doutor, segundo o detetive Poirot, Deus está nas coincidências. Mas eu discordo dele, doutor.
- O senhor gosta de Agatha Cristie?
- Sim, muito, o que não me obriga a concordar com ela sempre.
- Então, Deus não está nas coincidências.
- Absolutamente. A frase correta é “Deus está nas ironias”.
- E a sua condição tem tudo a ver com isso, eu suponho.
- A minha dondição, doutor, é o exemplo acabado de que eu estou certo e a senhora Cristie não.
- O senhor pode ser um pouco mais específico?
- Eu ainda estou em consulta ou há outro condenado lá fora esperando?
- Ainda temos tempo.
- Não sei se o senhor fazia idéia da minha fobia.
- Qual seria?
- Voar, doutor. Entrar em um avião sempre foi um sofrimento…não, mais do que isso, um suplício. De tão avassalador que era eu simplesmente parei de voar faz dez anos.
- Faz dez anos que o senhor não entra em um avião?
- Pouco mais, pouco menos.
- O senhor nunca tratou isso?
- Claro, mas nenhum tratamento rendeu frutos, a não ser para entender exatamente do que eu tinha pavor.
- Mas isso não era óbvio?
- Medo de morrer? É o que todos pensamos, doutor. É a conclusão mais fácil. Mas não, não é o medo de morrer.
- Então o que é?
- É aí que está a ironia doutor. O meu pavor está relacionado ao fato de que, há um momento entre a pane e o acidente. É esse momento é a causa da minha fobia. Ou seja, o tempo em que você está ainda vivo, mas sabe que vai morrer. Entende isso? Podem ser dez segundos, um minuto, não importa. Há um momento em que você sabe que a sua morte é iminente e não há nada mais que possa fazer. Não seriaisso Deus me usando como papagaio, português? Eu assunto de piada dEle.
- Considerando seu dioagnóstico.
- Bem doutor, tenho ainda pelo menos 6 meses.
- No mínimo.
- Mas de um ano não passo.
- Não.
- Então, ja sei que vou morrer. Ja tenho consciência da pane. Nada posso fazer a respeito. E confesso, não está sendo ruim.
- Ja dei este tipo de notícia algumas vezes, mas esta sendo, realmente, a mais curiosa.
- Eu só quero um favor.
- Claro.
- Que lugar do mundo o senhor mais gostou de ter visitado até agora?
- Grécia.
- Então, doutor, é pra lá que eu vou.
- Quer dizer então que o senhor…
- De avião, doutor. De avião.
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