domingo, 21 de março de 2010

Um metro e sessenta e sete

O velório já durava algumas horas. A viúva, dona Lucinda, já não tinha mais forças nem para ouvir os sentimentos alheios. Toda aquela lamúria, a palavra pêsames, tudo já havia perdido o verdadeiro sentido. Pobre mulher. Uma morte tão repentina e o velório não amenizava em nada o seu sofrimento. Na verdade, velórios só servem para aumentá-los. Notando o seu estado deplorável, Camila, sua filha, tomou-a nos braços no intuito de levá-la para casa, onde tomaria um um banho relaxante e trocaria as roupas.

Ocupando o centro da capela estava o caixão aberdo do doutor Vicente, cujo corpo se encontrava na posição de praxe. Coroas de flores ladeavam o caixão. Eram duas. Ainda havia muita gente na capela quando chegou Felipe. Era o sobrinho preferido do falecido, uma espécie de terceiro filho - além de Camila, já mencionada, havia também Paulo. Felipe era o único filho da única irmã do doutor Vicente, Glória. O rapaz perdeu o pai quando tinha ainda 3 anos e passou a ter uma relação muito estreita com o tio. De certa maneira mais estreita que os próprios filhos do doutor Vicente.

O rapaz nutria um extremo interesse que pela atividade do tio, o direito. Desde pequeno o Felipe acompanhava o tio em suas idas a tribunais, fascinando-se com as imensas colunas, as salas amplas decoradas em madeira e toda a opulência característica destes prédios. Após atingir a adolescência, a fascinação de Felipe só fez crescer. O rapaz atirou-se de corpo e alma na leitura de espessos livros de direito Civil, Penal e Romano, muito antes de ingressar na faculdade. O tio incentivou o quanto pode a vocação do sobrinho e nasceu daí uma grande amizade. Os dois costumavam permanecer horas a fio na biblioteca do doutor, estudando e discutindo os grandes julgamentos da história.

Felipe se postou ao lado do caixão enquanto olhava para o tio tão querido. Lembrava que o falecido quando vivo sempre dizia que não morreria assim tão fácil. Que iria enganar a morte algumas vezes. E que tudo era um forte pressentimento. Dizia que a única tristeza era que a esposa iria antes dele. Mas o pressentimento do tio não era assim tão forte, pensava o rapaz. A morte o enganou e não havia mais nada a fazer a não ser orar pela alma do falecido. Mas suas orações foram subitamente interrompidas pelo insólito. Felipe jurou ver os olhos do tio, ainda fechados, se mexerem, exatamente como alguém faz quando está sonhando. O coração do jovem rapaz acelerou ao perceber a repetição do movimento. E então, como que acordando de um pesadelo, o defunto levanta de sopetão com um grito, permanecendo sentado no caixão.

Desmaios, corre-corre, espanto generalizado. O doutor Vicente ressucitara diane dos olhos de pelo menos trinta e poucas testemunhas. Ainda sentado no caixão, o ex-falecido encarou o sobrinho que estava quase catatônico.

- Felipe? O que você está fazendo aqui, meu filho

O doutor Vicente ainda não tinha a menor idéia do que estava se passando. Aos poucos foi se dando conta de onde estava.

- Mas o que eu estou fazendo aqui? - Pergunta o estupefato doutor Vicente.
- Tio? – Balbucia o sobrinho.
- Isso é um caixão! Um caixão! Eu estou dentro de um caixão! - Exalta-se o doutor.
- É. - responde o sobrinho com os olhos arregalados. – O senhor voltou. Tal qual Lázaro.

Muitos vieram em socorro do doutor Vicente, que na verdade sofria de catalepsia, fato descoberto ali, a duras penas, mas que, felizmente, teve o desfecho ainda no velório e não embaixo da terra.

Aos poucos tudo foi voltando ao normal dentro da capela. Tiraram o doutor de dentro do caixão e o puseram sentado numa das cadeiras da capela. Deram-lhe um copo de água. Ele perguntou pela esposa.

- Acho que ela já está a caminho com a Camila, pai - respondeu Paulo, o filho.
- Então ligue pra elas – preocupa-se o ex-falecido. - Seria bom alguém avisar a ela antes de me ver aqui sentado.

Seria mesmo. Afinal, não seria nada bom dona Lucinda e a filha encontrarem marido e pai ressucitado sem aviso prévio. Sabe-se la que consequências isso acarretaria. Tentaram o celular mas nada. Só dava caixa postal. Paulo foi para a porta do cemitério tentar encontrar as duas antes de chegarem a capela. O que ninguém contava é que, ao voltar para o cemitério, Camila e a mãe viessem por uma entrada alternativa. Mas foi o que elas fizeram. Mãe e filha cruzaram os corredores e, ao entrar na capela, dona Lucinda dá de cara com o caixão vazio. Ainda meio sem entender, ela vira um pouco a cabeça e encontra o doutor Vicente ali, vivíssimo, sentado e cercado por parentes e amigos. É demais para aquele coração cansado. Ela tem um ataque cardíaco fulminante e morre ali mesmo.

Dona Lucinda, que Deus a tenha, tinha exatamente o mesmo tamanho do doutor Vicente. E após todos os procedimentos de praxe, o corpo dela acabou ocupando o mesmo caixão onde antes estava o seu quase falecido marido. E Felipe passou a confiar cegamente nos pressentimentos do seu tio.

domingo, 14 de março de 2010

Presente de Natal

O garçon observava aquele homem sentado na mesa quatorze. Era sempre a mesma mesa, toda a quarta-feira já fazia três semanas. Antes disso, nunca o tinha visto. O homem olha o garçon de soslaio, ergue o copo de uísque vazio num pedido silencioso por mais uma dose. O garçon pega a garrafa, que usa como chapéu um medidor metálico, o balde de gelo e coloca tudo na bandeja. Vai até a mesa do homem solitário, coloca mais três pedras de gelo num copo baixo e serve o líquido que transborda do medidor por um ou dois segundos. Vira o medidor deixando cair todo o líquido no copo. Ouve apenas o estalar do gelo e o melancólico "obrigado" que vem de alguma parte funda do homem solitário da mesa quatorze.

Ele se chama Luiz Onofre. Executivo de uma grande multinacional. Ele olha fixamente para o neon do restaurante em frente ao bar onde está. As palavras "Ristorante Da Mama" tremeluzem em verde, branco e vermelho. Na rua, pessoas passam apressadas com pacotes e sacolas. Estamos perto do Natal, tudo funciona até mais tarde. Um Papai Noel toca o seu sino pedindo ajuda, uma sobra do natal dos afortunados para os desafortunados sem Natal. Na última vez que esteve no bar, na quarta anterior, esse Papai Noel abnegado estava no mesmo ponto. Lembra-se de ter deixado algumas moedas na caixa dele quando saiu do bar. Voltou as atenções para o restaurante. O filho da mãe estava lá dentro como em toda a quarta-feira. Havia seguido a rotina do desgraçado. Hoje, tudo ia terminar. Deu um longo gole no seu uísque, de olhos fechados. O líquido invadiu suas entranhas, como as lembranças tristes abrindo caminho pela mente.


A imagem do carro da esposa com as rodas viradas para o céu, o velório, a cremação, o fim inesperado e lancinante aberto e purgando no peito. A pergunta feita para si mesmo repetidas vezes: por que ela corria tanto? E, de repente, um filho adolescente que ele na verdade mal conhecia, porque tinha se dedicado à carreira como um faminto que finalemte encontra um generoso prato de comida pela frente. Quando quis preencher o abismo entre eles, ja era tarde. Não sabia como falar, o que falar, como agir. Não lembra do último abraço que tinha dado em Alexandre, mas lembra de todos os motivos que o levaram a faltar à maioria das festas de aniversário do filho. Foi a menos de cinquenta por cento das dezessete. Quem preencheu o vazio que a mãe deixou foi outra pessoa. Um traficangte conhecido como Chantal.

Era para Chantal que o filho de Luiz trabalhava quando morreu. Aliás, foi exatamente por trabalhar para ele que acabou morrendo. Vendia drogas na escola e começou a ganhar o seu próprio dinheiro. Orbitava o mundo do traficante. Cheio de mulheres fáceis, de dinheiro fácil, de carros fáceis, de fama fácil. Luiz perdeu fragorosamente o jogo para Chantal. Não conseguia encontrar uma porta pela qual pudesse passar pelo muro criado pelo filho justamente para mantê-lo afastado.

Mais um gole e a sua mente viaja para o dia em que olhava para o filho estendido no chão. Um tiro na boca, foi o que disseram os policiais. "Dizem que esse Chantal atira na boca de quem sabe muito.", dizia o policial consternado e impotente. "O senhor fique tranquilo, pois vamos fazer de tudo pra pegar esse filho da puta que matou seu menino".

Luiz sabe que o policial queria acreditar naquilo que acabara de dizer. Mas não havia provas, embora todos soubessem quem era o mandante, não havia muito o que fazer pelo lado oficial. Luiz passou a seguir o traficante. Queria saber se na rotina de Chantal haveria um momento de fraqueza, de descuido em que ele pudesse acabar com a vida de quem tirou a vida do filho. Acabou encontrando. Toda quarta-feita, Chantal jantava no "Ristorante da Mama". Sozinho. Incógnito. Não entende como nunca aconteceu nada com ele nesse momento de descuido. Ele deveria ter pencas de inimigos. Talvez fosse protegido por algum deus dos bandidos. Sabe-se lá. Mas isso terminaria hoje.


Pediu a conta. Deixou a polpuda gorjeta de sempre. Passou pelo Papai Noel e deixou uma boa soma em sua caixa de coleta. Postou-se nos fundos do restaurante. Lá estava o carro do traficante. Não o que ele sempre usava, que era muito mais espalhafatoso. Um carro comum, sem graça, fácil de passar desapercebido. Pegou a pistola que conseguiu no mercado negro. O mesmo tipo e calibre que tirou a vida do filho. Quando Chantal saiu pela porta dos fundos, sozinho como de costume, Luiz ordenou.

- Parado aí, filho da puta.

O traficante levou um susto. Genuíno. Olhou nos olhos do seu algoz. Aqueles olhos não eram de um algoz, concluiu. Recupoerou a confiança e a arrogância.

- E quem é você?
- O cara que vai acabar com a tua raça.
- Bom, tem muita gente querendo acabar com a minha raça. Eu realmente dou muitos motivos. – Chantal ganha tempo porque sabe que quanto maior a demora para Luiz puxar o gatilho, maiores são as chances de desistência. - Qual o que eu dei a você?
- Você matou o meu filho.
- Eu matei o filho de muita gente.

Luiz comecava a fraquejar. Por mais raiva que sentisse daquele verme a sua frente, puxar o gatilho e acabar com uma vida, mesmo aquela vida, era algo assustador. Ele não iria conseguir.

- O Alexandre, seu filho da mãe.
- Ah, você deve ser o Luiz, como é mesmo? Onofre.
- Cala a boca.
- Ta com medo de ouvir o que você ja sabe? Que eu fui mais pai pra ele do que você?

Luiz estava com raiva. Com raiva porque o verme estava certo. Com raiva da mulher que adorava andar com carro em alta velocidade. Com raiva dele mesmo, que não tinha nem coragem de puxar o gatilho. Chantal sentiu isso e, sorrateira e vagarosamente, preparava-se para pegar a sua pistola. Iria "juntar pai e filho", pensou na hora, com certo prazer. Seria fácil. Nesse momento tenso os dois ouviram uma risada muito familiar. E muito fora de propósito para aquele momento. Viraram-se para o ponto de onde vinha a risada. O Papai Noel que angariava fundos para os menos necessitados estava lá, parado, segurando uma pisgtola em cada mão, apontadas para o traficante. Desta vez Chantal percebeu que estava perdido. Os olhos por trás daquele barba falsa eram realmente frios.

- Não precisa fazer isso, Luiz – diz o Papai Noel. – Eu fui pago pra apagar esse lixo que matou seu filho.
- Como assim?
- Esse rapaz que parece todo poderoso também presta contas para alguém. Seu filho acabou testemunhando uma transação na qual esse aí iria ter um lucro maior do que o que era dvido a ele às custas de quem ele deve prestar contas. Soubemos, claro. Sempre sabemos. Agora baixe a arma, deixe comigo. Eu faço o serviço pra você. Considere um presente de Natal.

Luiz obedeceu. Saiu sem olhar pra trás. Ouviu as suplicas de Chantal e depois, uma salva de tiros. Não contou quantos. Iria saber o número exato lendo os jornais do dia seguinte

domingo, 7 de março de 2010

Morgado e os comentaristas esportivos

Morgado é mau humorado. As barbaridades que ele percebe e com as quais ninguém se incomoda o deixam nesse estado. Tem dias que ele acorda sem entender porque vive no mundo onde alguém é pago para dar opiniões. "Opinião eu, você, todo mundo tem. Já se perguntou porque a opinião de um jornalista é melhor que a sua? Por que a deles vale um bom salário e notoriedade e a sua não?" Morgado se pergunta muito. Por isso é tão mau humorado. E por isso ainda não casou.

Os que mais irritam o Morgado são os "luminares do futebol". Para Morgado, o futebol "é matéria fácil. Esporte nacional, todo mundo entende. Então por que opinião de um sujeito tão douto quanto eu em assuntos que ocorrem dentro das quatro linhas vale mais que a minha? O geraldino não entende que o que um colunista escreve no jornal ou diz em mesa redonda é tão bom, ou ruim, quanto o que ele mesmo fala na mesa do bar." Morgado se irrita, porque o geraldino da mesa do bar aceita ser inferior ao sujeito da mesa redonda como torcida que abandona o estádio ao ver o time da casa tomando o quinto gol sem ter feito nenhum aos trinta e cinco do segundo tempo.


Morgado é mau humorado, porque eles são todos engenheiros de time pronto. "E quando comentam sobre como escalariam as equipes? 'Se colocar fulano aqui no lugar do cicrano, deslocar o beltrano para a direita a dinâmica de jogo melhora e o time flui. Se técnico não fosse tão teimoso o time estaria melhor na tabela.' E seguem queimando o treinador, essa Joana D'Arc das casamatas, sem dó nem piedade. Contam com a ja conhecida amnésia nacional persistente, pois quando nada do que ele falou se confirma ninguém mais lembra. E se o treinador lembrar e cobrar é 'porque não sabe receber críticas'"

Morgado perde mais o seu humor, porque eles têm a mais absoluta das certezas que "que entendem mais do riscado do que os que ralam no dia a dia, sujeitos a erros e acertos, porque, afinal, são seres humanos como eu, você e até o sabe tudo dos microfones e colunas" ele nnao pára e emenda. "Imagina se todo mundo fosse para o seu trabalho e no final do dia fosse obrigado a ouvir um pequeno julgamento sobre o sua atuação: 'fulano cometeu muitos erros de digitação e o relatório ficou muito aquém do aceitável. Mas também, o fulano sai toda quarta para a happy hou. É por essas e outras que anda fazendo relatórios fracos ultimamente. Sem falar que abandona a mesa frequentemente pra tomar cafezinho.' Já pensou no inferno que seria? Pois é, idiota sou eu, que penso", conclui.


Morgado é mau humorado, porque "eles têm aquele olhar de superioridade e a empostação dos acadêmicos.Pra falar de futebol? E eles ainda dão nota. Não é demais? Vêem os jogadores como colegiais debilóides que correm atrás da bola. É três para o fulano que errou todos os passes, cinco para o cicrano que falhou na marcação e seguem distribuindo canetaços diretamente das salas refrescadas pelo ar condicionado das redações aos que suaram em bicas dentro do campo e têm o direito de acordar um ou outro dia com o pé esquerdo como qualqeur um de nós."


Um dia, Morgado encontrou um desses comentaristas quando saía do restaurante. Ao ver o sujeito a mesa, comendo um espaguete a carbonara não teve dúvidas. Parou na frente dele e disparou:."Sua crônica de ontem foi patética. Repetiu a frase "valorizar a posse de bola" oito vezes, disse no primeiro minuto do jogo que o técnico se enganou a escalar o fulano numa posição que rende menos e o fulano foi o melhor em campo. Pediu desculpas para o técnico no final? Não. Esqueceu o assunto. Quer saber, sua nota é um. E é porque eu estou muito generoso hoje." E deixou o homem lá plantado com o garfo de espaguete a carbonara a meio caminho da boca.