domingo, 22 de janeiro de 2012

Depois daquele beijo (selo pais em tpm)

Melissa não entendeu patavina quando viu a cena. Gilberto arrumava o quarto de Marina. Arrumava copiosamente. Arrumava sofregamente. Colocava ordem nas mínimas coisas. Nem Maria, que naquele domingo gozava o merecido descanso semanal, arrumava aquele quarto com o zelo empregado por Gilberto. Ele dava tanta atenção ao que estava fazendo que nem percebeu a esposa ali parada. A expressão no rosto dele era de uma compenetração tão acachapante que nada tirava o foco de sua missão auto infringida.“ Mas o que deu no Gilberto para arrumar o quarto da filha desse jeito em pleno domingo?” perguntava-se. Ele adorava arrumar o quarto dela no tempo em que ela não tinha coordenação motora necessária para tal empreitada. Ordenava os brinquedos, os bonecos de pelúcia como se fizesse um carinho na filha. Mas esse não era mais o caso. Gilberto vivia travando batalhas e mais batalhas de uma guerra que parecia eterna. Discussões intermináveis dentro dos seus cinco minutos de duração. “Marina, pelo amor de Deus, esse quarto parece uma cena do apocalipse!”, gritava ele diante de camisas jogadas ou penduradas em lugares insólitos como a luminária, de um tapete formado por livros e cadernos espalhados, de calças retorcidas e pés de tênis solitários, hora um pé direito, hora o esquerdo. Marina respondia com a suas duas palavras preferidas: “Não enche!”, que as vezes era acrescida de um artigo e um sujeito “o saco!”. Um objeto direto no queixo do pai, que sentia o golpe, mas mantinha a fleuma por fora e a irritação crescente por dentro. Gilberto recusava-se a arrumar o quarto que mais parecia a instalação de algum artista obscuro e fadado ao fracasso. Ordenava a Maria, a empregada para, no máximo, arrumar a cama e mais nada. Achando que a negligência da filha fizesse com que a bagunça atingisse a níveis tão insuportáveis até para a dona do recinto e esta, vencida, procederia a uma arrumação decente. O plano foi um total fracasso. A filha arrumou umas três ou quatro vezes o quarto, se muito. Nas outras duzentas e oitenta e cinco vezes a arrumação foi feita por Maria, sempre as escondidas em comum acordo com Marina. Quando Gilberto descobriu a conspiração entre as duas quase cometeu a insanidade de demitir a pobre Maria. Maria adora Marina. Viu-a nascer, viu-a virar mulher aos onze anos, dois anos antes deste exato momento em que Gilberto opera a arrumação insólita. Melissa estava encafifada. Gilberto simplesmente capitulou? Não. Gilberto não era homem de desistir. Havia algo mais. Algo que o estava impelindo a fazer aquilo. Depois de um tempo observando o marido percebeu algo mais do que vontade de ver o quarto organizado. Havia ternura no olhar dele. E os gestos? Os gestos não eram de quem arrumava o quarto pragmaticamente. Eram carícias. Isso mesmo, é como se ele estivesse acariciando aquele quarto inteiro e não pondo ordem, simplesmente. Como no tempo em que Marina era uma criança sem coordenação para arrumar o quarto. “O beijo”, pensou Melissa. O primeiro beijo da Marina, o acontecimento da festa na noite anterior. “De língua?”, Gilberto perguntou. Claro que era de língua. “Mas não conta pra ela que eu te contei, Gilberto”. Ele só virou para o lado e pegou no sono. Marina está certa de que essa arrumação tem uma relação direta com a ocorrência da noite anterior.

- O que você está fazendo, Gilberto?
- Voltando ao passado, Melissa. Voltando ao passado.

Ele falou com um sorriso distante. Melissa deixou Gilberto com a sua máquina do tempo. Se era esse o jeito dele aceitar a filha crescendo, mal não fazia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Confissão

“Não é um processo complicado. Em verdade, é tão simples. E é isso que impressiona na mente de Deus, não é mesmo? A simplicidade. O prosaico. O óbvio. É por isso que poucos alcançam a mente Dele. Acham que Deus está no complexo. Acham o universo complexo? Cada coisa no universo é o resultado da lei da causa e efeito. Isso não é simples? Mas voltemos ao meu processo e às minhas motivações. Eu acordo pela manhã e um dia eu simplesmente digo a mim mesmo: hoje é um bom dia. Então me preparo. Tomo um banho lento. Sinto cada gota d’agua que golpeia o meu corpo. Sou capaz de contá-las. Uma por uma. Sou capaz de dar nomes a cada uma delas. Ah, a excitação! Cada célula do meu corpo está determinada. Vocês já sentiram isso? Cada célula de cada órgão vibrando por um objetivo? Ah, vocês não têm pista de como é sentir isso, têm? Não têm, vejo pelas suas expressões desatinadas. Continuemos. Coloco uma roupa, pego o meu iPod e faço uma selecção de musicas, como chamam?...playlist. Vou escolhendo ao acaso mas, curiosamente, a seleção sai com uma coerência impressionante. Saio de casa e ando em direcção ao parque. No caminho, só me detenho para comprar um copo de capuccino e um biscoito doce. Ando pela rua e agora sinto o vento no meu rosto, os odores e aromas são plena e facilmente destacáveis. Diesel. Gasolina. Channel. Bolo. Costelas de porco. Suor. Posso ficar a manhã inteira relatando tudo o que entrou pelas minha narinas e que o meu cérebro foi capaz de identificar. Quando chego ao parque escolho um banco. Um que me proporcione boa visão, de onde eu possa observar a multitude que é a espécie humana. Vocês, que vivem suas vidinhas nessa patética ordem de compromissos regidos por uma máquina atada aos seus pulsos não fazem ideia da riqueza da qual vocês fazem parte. O tempo importa para vocês, não é mesmo? Até que horas vai o seu turno? E o seu? Patético. Eu não tenho turnos. As coisas são as coisas e se sucedem. Ponto. Causa e efeito, viu? Assim como Deus fez. Eu sento no banco do parque, coloco os fones e passo ouvir a minha playlist enquanto observo as pessoas. Eis o máximo da excitação da qual eu antecipava. Eis o momento. O motivo que causou todas as reacções anteriores em mim descritas aqui. O ápice do meu dia. Eu, sentado, ouvindo um música, experimentando a minha invisibilidade, a minha total insignificância aos olhos dos que ali andam, correm, passeiam, tomam sol. Um deles não vai chegar em casa. Nunca mais. Não é divino? Um ser invisível que simplesmente aponta o seu dedo para alguém e esse alguém, momentos depois, cessa de existir. Meu dedo aponta para várias pessoas. Depois muda de direcção. Vocês tem ideia.? Um dedo condena e depois absolve. Meu dedo é como uma doença. E o apontado não faz a menor ideia de que foi condenado por alguns segundos para depois ser salvo pelo meu desinteresse. Ah, isso é ser Deus. Você vai morrer. Não, vou poupá-lo. ? Você é que vai morrer. Pensando bem, não. Você ja se masturbou? Longamente. Por uma, duas horas sempre segurando o gozo e prolongando o final? É a mesma coisa. Condeno e salvo, condeno, salvo. Centenas de seres humanos. Até que o meu dedo aponta alguém e esse alguém combina com a música que estou escutando. O ritmo do andar. As roupas. O jeito. É a música que eu estou ouvindo em forma de gente. Em forma de vítima. Meu dedo não consegue parar de apontar. Levanto. Passo a seguir seja essa pessoa quem for: homem, mulher, criança. No caminho, passo por muitos dos quais meu dedo desistiu. Eu sinto prazer ao passar perto deles. De sentir os seus cheiros. Da presença deles vivos, respirando, provando a minha divindade. O resto da história é apenas o desfecho obrigatório. Uma formalidade aborrecida. Matar não tem tanta graça, mas é uma necessidade. Eu só mato porque é o ato que torna real toda a excitação. Matar é o ponto final de uma sentença, de um conto. Se não estivesse lá, seria errado e tudo o que aconteceu antes não teria sentido.”

Os dois investigadores se olharam. Não tinham muito mais o que fazer. Levaram o matador para a cela imaginando se alguma vez o dedo dele tinha apontado para um deles.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Psicose

Andava para lá e para cá em seu pequeno apartamento, ansiosa. Ele tinha ligado e marcado hora. Ligou no dia anterior, como de costume. E por ele, fazia qualquer coisa. Naquele dia não aceitou cliente nenhum. Era o dia em que ele vinha e, portanto, não lhe interessava ganhar dinheiro. Olhava o relógio com um Mickey no centro. Presente fútil (não para ela) que ele tinha trazido de uma viagem a Disney com a família. Os braços do personagem que faziam as vezes de ponteiros marcavam sete horas e cinquenta minutos. Faltavam dez minutos. Uma pontada que não era nem frio, nem coceira, nem mesmo pontada, um vazio que parecia cheio, tomou conta de sua barriga. Os saltos dos sapatos pareciam castanholas frenéticas num flamenco ansioso. Vez por outra perguntava-se como tinha baixado a guarda e deixado chegar àquele ponto. Como aquele homem havia invadido o seu escudo protetor até então impenetrável. Homens até mais bonitos, mais jovens e mais charmosos nunca o haviam transposto. Perguntava-se constantemente o que tinha ele feito para conseguir tal feito. Até o conhecer, tinha sido um exemplo perfeito de garota de programa. Linda, um corpo escultural, mais inteligente que a média e, no entanto, havia se colocado naquela situação a que nenhuma garota de programa devia estar metida. Estava perdidamente apaixonada por um cliente. Tudo bem, ele não era uma pessoa completamente insensível, que a tratava como uma máquina. Isso não. Tinha algum interesse em sua vida durante as duas horas do programa que ela deixava passar, as vezes até em dobro. Queria saber o que ela tinha feito no final de semana, Adorava quando ele falava de cinema e do seu diretor preferido, Alfred Hitchcock. Chegaram a assistir alguns filmes do mestre do suspense nus em cima da cama.


A campainha do apartamento tocou. Ela saiu correndo, mas não para atender a porta e sim para o espelho do quarto. A derradeira verificada para ver se estava tudo certo. Se tudo que ele gostava estava naquela imagem do espelho. Aprendeu tudo aquilo que ele gostava. Algumas coisas ele deixou claro, outras, percebeu pela convivência. O coração disparado. Respirou fundo para não transparecer a ansiedade. Abriu a porta. Ele deu um sorriso e ela quase desmontou. Foi um esforço inútil. Durou apenas uns dois, talvez três segundos. Depois disso, jogou o corpo contra o dele e os seus lábios encontraram os dele. Eles se beijavam enquanto andavam pra dentro do apartamento. Ele, como um craque do futebol, fechou a porta usando o calcanhar direito. Após as bocas se separarem ele pediu um uísque. Ele mesmo tinha levado algumas garrafas em um encontro anterior. Ela adorava quando ele pedia um drink. Sentia-se, naquele ínfimo momento, a sua mulher. Se pedisse para ela passar alguma de suas camisas naquele momento ela o faria com um prazer incontestável. Vestida daquele jeito mesmo, incluindo a cinta-liga. Ela trouxe dois copos baixos, que aliás, ele também tinha deixado lá, com uísque e bastante gelo. Conversaram um pouco. Ela percebeu que sorria, que gargalhava. Adorava aquela conversa pré-programa. Ela levantou-se, já ardendo. Queria o corpo dele. Começou ela a tirar-lhe a roupa. Desabotoou a camisa enquanto beijava o peito dele. Adorava o resquício de perfume que ele provavelmente tinha colocado pela manhã mas que ainda estava registrado em pelos do seu peito misturado ao suor suave de um dia de trabalho no escritório. Viva um sonho. Seu escudo protetor completamente desativado. Ele então afastou a cabeça dela por um instante e levantou-se. Tirou a carteira do bolso e colocou um maço de notas sobre uma pequena mesa. Ela sentiu-se levemente desconcertada com aquilo. Como sempre sentia quando ele fazia aquele gesto. Em seguida ele tirou a aliança da mão. E aquele novo gesto foi totalmente inusitado. Na verdade ele nu ca trazia a aliança. Talvez a tivesse esquecido de tirar no carro. O fato é que aquele gesto a deixou horrorizada. Petrificada. Era um recado claro, só que desta vez dado cara a cara. Era um ato desinfetante. A aliança não podia encostar em seu corpo. Ele poderia infestar aquele pedaço de ouro. Sentiu-se como uma doença, um animal microscópico capaz de provocar febre, vômitos e incômodo em sua preciosa mulher e nos seus queridos filhos. Ele passou a mão em seu rosto, olhou nos seus olhos sem perceber o horror que eles traziam e foi para o banho. Ela continuou parada no meio da sala, sem chão e com um ódio crescente se apoderando do seu corpo. O som do chuveiro recém ligado a colocou de volta no mundo. Sentia-se insuportavelmente pequena. Foi até a cozinha e pegou a maior e mais afiada faca que estava a mão. Em seguida, dirigiu-se até o banheiro e repetiu uma das cenas mais famosas de Hitchcock, o diretor de cinema preferido dele.