domingo, 31 de janeiro de 2010

De nada, Geofrey.

Este curioso fato que passo a contar agora se passou na Inglaterra. É a história de um inglês, obiamente. Um sujeito chamado Geofrey Sheridan. Ele estava sentado em frente ao balcão de um dos muitos pubs de Londres. Bebia muito. É uma característica um tanto normal entre nós, britânicos em geral. Sim, sou igualmente britânico, mas esse detalhe é irrelevane. O que importa é que o sujeito em questão estava bebendo demais, inclusive para os nossos padrões. Nosso amigo Geofrey era um inglês bem comum. Nariz enorme, cabelo loiro repleto de ondulações como a superfície do Lago Ness em dia de muito vento, dentes um tanto mal cuidados, costeletas generosas, corpo magro e alto metido em um terno sisudo.

Geofrey estava bebendo para esquecer sua profunda decepção. Profunda e fresca, já que a causa havia sido recente. Pouco antes de estar entornando copos e mais copos ali na minha frente, nosso pobre Geofrey voltava para a sua casa, vindo do trabalho, um pouco mais cedo. O motivo era uma insistente dor de cabeça que não o deixava se concentrar em seus afazeres. Estacionou o carro, subiu as escadas do prédio até chegar ao terceiro andar. Parou em frente a porta do apartamento 31 e gastou um certo tempo procurando a chave correta no molho em sua mão ditreita. Destrancou a porta e entrou. Parou dois passos depois. Na verdade foi obrigado a parar. Tentava inutilmente não acreditar no que via. Ali, sobre o sofá azul da sala, estavam a mulher e o seu melhor amigo, Philip. Não apenas isso. A sua mulher usava botas de cano longo de saltos altos e finos enquanto praticava libidinosos exercícios sexuais com uma desenvoltura de dar inveja a qualquer estrela pornô. E ainda por cima, era ela que tomava toda a iniciativa.

Aquela cena inisitia em permanecer em sua cabeça por mais cervejas que bebesse. Geofrey bem que tentou dividir suas fantasias sexuais, seus fetiches com a mulher. Tentativas sempre infrutíferas. Deus sabe como os ingleses são reservados para tais assuntos. Abrir-se desse jeito, mesmo que para sua esposa, foi um um esforco desgastante para o nosso amigo Geofrey. Ele conseguira, mas fora imediatamente tolhido pela esposa, pretensamente puritana demais para o assunto. A mesma mulher que estava sobre o tal sofá azul, que ela comprou a despeito dele detestar aquela cor. E usando aquelas botas brilhantes de cano longo e saltos altos fazendo piruetas com seu melhor amigo Philip.

O que Geofrey sentia naquele momento era uma imensa vontade de desaparecer do mundo. Queria morrer. Morrer era o que mais desejava e ficava repetindo isso incontáveis vezes."Eu quero morrer! Morrer seria um ótimo, um verdadeiro presente", lamuriava-se. "Minha mulher usando botas de salto alto com meu melhor amigo naquele horrendo sofá azul!", repetia entre lágrimas e generosos goles.

Como fiquei sabendo dessa trajédia? Era eu quem estava ao lado dele naquele balcão no pub. Eu, um ilustre desconhecido, tornei-me o depositário de sua angústia, sua dor. Era o amigo forjado pelo acaso e pela grande quantidade de álcool que viajava por suas veias.

E você deve estar se perguntando o que esta história tem demais. De fato, a história seria muito comum, não fosse justamente pelo fato do pobre Geofrey ter contado tudo para mim. E principalmente por ter expressado a sua imensa vontade de morrer com tanta veemência. Porque eu estava lá justamente com um fim específico. Tinha instalado uma bomba no banheiro com poder para mandar aquele pub inteiro pelos ares exatamente as 21 horas, horário em que o lugar atingia o maior movimento. Exatamente como o pessoal IRA tinha me requisitado e me remunerado generosamente para fazer.


Cinco minutos antes das 21 horas saí do lugar e deixei Geofrey lá dentro. Atravessei a rua e me sentei em um dos bancos do parque que ficava em frente ao pub para assistir a meu trabalho em curso. O lugar explodiu exatamente na hora marcada. Naquele momento pensei em Geofrey. Eu era o responsável pelo seu desejo ter sido realizado. Ele devia estar me agradecendo la do além. Fiquei ali sentado ainda um bom tempo, assistindo o movimento das ambulâncias, da policia, da imprensa, a confusão toda. E enquanto isso, pensei em fazer uma visitinha à viúva na semana seguinte. Aquelas botas de cano longo e os tais exercícios sexuais me deixaram bem excitado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ferimentos de batalha

E tem início o final de semana. Dois dias repletos de missões a serem cumpridas por homens corajosos e decididos. Jardins para se conservar, vazamentos por consertar, prateleiras a se construir, cortinas a se pendurar, enfim, uma infinidade de serviços especializados pelos legionários do faça você mesmo.

A loja de ferragens está repleta neste sábado pela manhã. É lá que este heróico exército adquire sua munição. São homens corajosos, prontos para o cumprimento do dever, ávidos por pregos, parafusos, trilhos, vernizes, tintas, brocas, pincéis, regadores, mangueiras, um vasto arsenal que será usado em todos as frentes de batalha desta guerra santa contra o desleixo, o estrago, a imprefeição.

Mas havia algo mais acontecendo no referido estabelecimento comercial, chamando a atenção de um grupo de curiosos. Eles cercam dois homens que estão no meio de numa ferrenha discussão. Um se chama Ovídio e o outro Manuel. Tudo começou quando Ovídio mostrou a mão esquerda para Manuel. Com os dedos bem separados, aponta com o indicador da outra mão para uma escoriação entre o indicador e o polegar.

- Chave de fenda - diz orgulhoso. - Estava colocando uma prateleria na cozinha quando ela escapou e me atingiu com toda força bem aqui.

Manuel, com um desdém impressionante, dá de ombros e tira o sapato do pé direito e a meia. Aponta o dedão do pé, que ostenta uma enorme mancha preta, e diz com mais orgulho do que o outro.

- Paralelepípedo. Caiu sobre o meu dedo quando estava trabalhando naquele caminho que eu tenho no meu jardim. Perto disso este seu ferimento é coisa que só criança reclama.

Após terminar, ele recoloca o sapato e encara Ovídio com expressão desafiadora. Só uma sobrancelha levantada. Sentindo-se fustigado, Ovídio não se faz de rogado. Levantou os cabelos da sua escassa franja revelando uma marca vermelha de mais ou menos três centímetros.

- Martelo. Soltou do cabo quando eu pregava duas partes de uma prateleira. Caiu bem na minha cabeça. Levei cinco pontos.

O grupo de curiosos a volta dos dois só fazia aumentar. Todos mostrando em uníssono o seu espanto a cada ferimento revelado. Já havia até um completo sistema de apostas estabelecido entre os observadores. Não querendo dar a última palavra ao outro, Manuel mostra o dedo indicador da mão direita. Nota-se a falta de um pequeno pedaço no mesmo.

- Serrote - diz cheio de si.- Jorrou uma sangueira danada.

Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi arregaçando a manga do braço esquerdo. O que todos ali testemunham é uma cicatriz enorme no antebraço.

- Facão. Aconteceu quando eu desmatava o terreno que fica ao lado da minha casa. Isso sim foi uma sangueira danada.

Manuel ficou uma fera. Imitando o outro, arregaçou a manga do braço esquerdo e mostrou uma horrível marca de queimadura também no anebraço.

- Solda. Aconteceu quando eu concertava o aparelho de som do meu filho- diz desafiador.

Como antes, Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi levantando a calça mostrando uma funda marca na canela esquerda.

- Enxada. Bati com toda a força na canela quando eu estava reformando o meu jardim.

Aqueles bravos soldados seguiram competindo para ver quem tinha o pior ferimento adquirido em tantas batalhas caseiras nos finais de semana. Depois de algum tempo o grupo se dispersou sem chegar a conclusão alguma. A não ser a de que eles eram muito, mas muito desastrados.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Água mineral, por favor

Foi uma festa daquelas em que você sabe como entrou mas não tem a mínima idéia de como saiu. Quando tomei consciência de mim, tudo ainda estava envolvido em breu. O que não surpreende se considerarmos o fato de meus olhos ainda estarem fechados. Havia uma encarniçada luta dentro de mim. De um lado, uma latejante dor de cabeça - consequência de doses cavalares de uísque e sabe-se mais lá o que - forçava-me a permanecer com os olhos fechados, separado de qualquer fonte de iluminação por mais tênue que fosse. Do outro, uma curiosidade quase incontrolável, provocada pelo fato de estar deitado em uma cama a qual não sabia a quem pertencia, tentava me convencer do contrário. Mas os ouvidos a gente não controla. Os ouvidos a gente só tapa se colocar os dedos. E o que os meus ouvidos contavam é que lá fora havia uma ventania danada, daquelas uivantes, de fazer bater janela fechada.

Curiosidade versus dor de cabeça. A segunda vencia por curta margem. Permaneci imóvel escondido do mundo atrás de minhas pálpebras. Pus-me a lembrar os fatos da festa na noite anterior. Deixei as imagens fluirem livres na mente. Na primeira delas eu ainda estou em casa, antes da festa, dando a última olhada no espelho, procurando alguma fonte de insatisfação na minha roupa. Este quadro se descola da minha atenção, voando para algum canto da mente, como uma folha de papel levada pelo vento, provavelmente o vento que eu ouça vindo la de fora. Agora já me vejo em meio ao burburinho de um salão enfumaçado e a confusão das vozes abafadas por uma música que mais parecia o barulho da obra do lado da minha casa. Não se faz mais música para dançar como antes. Depois, uma sucessão de copos de uísque sendo servidos nas mais diferentes partes do salão se sucedem como numa rapidez estonteante. Até que aparece ela. Um rosto lindo, emoldurado por cabelos castanhos claros que iam até a altura do queixo. Feições delicadas, lisas e claras. A medida em que a minha visão vai explorando lentamente o que vem abaixo do rosto, só fica melhor. O sorriso que vinha daquele rosto era uma brisa morna. Atingindo o meu rosto em cheio. A partir daí, um borrão passa a tomar conta de tudo, como se a imagens misturadas começassem a se esvair por um ralo imaginário. A escuridão volta.

Ainda estou sem me movimentar enquanto o vento lá fora continua sua lúgubre cantoria. Um outro sentido passa a chamar a minha atenção. É o aroma delicioso de café recém passado. Começo a estalar a boca, que está tomada por uma saliva tão espessa como mingau de Maizena com gosto de pilha. Resolvo mexer as pernas e os braços vagarosamente. Sinto-me o Homem de Lata enferrujado. Tenho a intenção de me espreguiçar e abrir os olhos ao mesmo tempo. É o que faço louco para saber onde passei o resto da noite. Começo a me espreguiçar e abro os olhos lentamente. Uma imagem se forma aos poucos na minha frente. Parece um rosto. É um rosto. Aos poucos vai entrando em foco. E quando entra, o meu coração dispara. É ela. Aquele mesmo rosto com o sorriso de brisa morna que há pouco havia aparecido nas minhas lembranças. Ela está sorrindo para mim, vestindo apenas uma camisa. A minha camisa. Os lindos seios aparecem sob a camiseta umedecida pelos cabelos, que estão molhados e lindamente desgrenhados. Nas mãos, tem uma bandeija com café torradas, geléia.

- Depois de ontem você merece- diz com voz meiga.


Olhava para ela tomado de desespero. Era óbvio que eu estava em seu quarto. Era clara a satisfação em seu rosto. Era certo que tiveramos uma noite e tanto. E era definitivo que eu não lembrava de absolutamente de nada. Olhando para ela, naquele segundo, tentava lembrar. Tentava achar naquele quarto uma referência que disparasse a lembrança da noite de sexo com aquela maravilhosa mulher que estava a me trazer café na cama. Tentativa infrutífera. Se aquela noite fosse assunto de alguma prova eu tiraria um rotundo zero. Era como se não tivesse havido nada. Era como se algumas das horas mais divinas de minha vida tivessem sido roubadas de mim. Como se a sensação da conquista tivesse sido pilhada de minha mente após um ataque de hunos. Tivemos mais momentos, é verdade. Mas o especial, o primeiro, este está em algum lugar irrecuperável. É por isso que agora eu só bebo água mineral. Com gás.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Morgado, o mau humorado.

Morgado é mau humorado. Segundo costuma dizer aos mais próximos, a mãe, consciente do futuro do filho, não deu-lhe um nome e sim uma rima. O pai? Não sabe quem é. Filho de mãe solteira, o Morgado. Não se incomoda. "Não reclamo do meu destino, mas do destino dos idiotas quando cruzam com o meu" - é uma de suas máximas. Morgado é cheio de máximas. Uma das suas clássicas é em relação ao sorriso. Morgado não costuma sorrir com facilidade, segundo seu detratores. Ele refuta. "Sorriso é como ouro, diamante. Tem valor porque raro, porém sincero. Riso fácil é que nem bijuteria. Brilho barato e sem valor." Morgado sorri, os amigos próximos juram que já viram. Aliás, para Morgado, o termo amigos próximos é um pleonasmo inconcebível. Amigo é próximo por natureza, segundo ele. Se não é próximo, não é amigo. É conhecido, colega ou um chato inconteste com quem você é obrigado a conviver segundo as convenções sociais para as quais ele tanto torce o seu nariz adunco.

Morgado continua uma criança em relação ao tal traquejo social. Do que não gosta, fala. "A verdade é confundida com mau humor" - repete. Detesta reuniões."Os japoneses são geniais. Inventaram a sala de reuniões sem cadeiras, para as pessoas irem direto ao ponto e rapidamente implementem o que foi decidido. Nós, aqui, colocamos biscoitos, doces, café meia boca, sucos de caixinha e perdemos horas preciosas em conversa pra lá de fiada. Reunião propriamente dita dura um terço do tempo utilizado na sala." Morgado é econômico copm as palavras tanto quanto o é com o soriso. "Gente articulada me dá calafrios. Aquele muro de palavras geralmetne esconde a inoperância profissional. Ou seja, na hofra do vamos ver, não vemos nada. Se colocam como autoras do trabalho daqueles que falam menos porque estão fazendo alguma coisa de útil."


Morgado não acredita na isenção da imprensa. "Meu amigo, o homem é um ser imparcial por natureza." - repete sempre que pode." Aquele que confessa em público ter um lado é mais imparcial do que os auto-imaculados." Morgado não lê jornais, apenas passa os olhos. "Você ja viu como os jornais estão cheios de articulistas? São os latifundiários do centímetro/coluna. Eu quero saber o que está acontecendo, não o que eles pensam sobre o que está acontecendo" - repete após alguns dry matinis, sua bebida preferida.


Se a ignorância é uma benção, Morgado é um amaldiçoado, que, aliás, também rima com o seu nome. Se bem que ele já não se importa. Aceita. "Melhor assim do que ser um cagão" - aforma. "Sabe, os cagões? São aqueles que repetem sem parar 'As coisas são assim mesmo.' Detesto o tipo com ainda mais força do do que detesto os articulados" - não perdoa. Quando encontra um, não hesita "Você é um cagão" - diz-lhe na cara. "O cagão é a engrenagem que faz a máquina funcionar do jeito que aí está. Lubrifica-se o sujeito com um bom salário e ele abana o rabinho. Nascem com um botão play embutido. Repete sempre a mesma meia dúzia de expressões para qualaquer situação com os olhos inexpressivos. Mando tomar no cu. Faz bem mandar quem você acha que merece tomar no cu. Experimente" – aconselha. "É mais eficiente que chá de boldo."

Morgado é mau humorado. Vai aparecer por aqui de volta e meia com suas aventuras. Ele me acha uma besta por estar dando importância toda as suas opiniões. Não esperaria outra coisa, vindo dele.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Agressividade do mercado

Já tinha mais de uma hora que Josias estava encostado no parapeito no topo do prédio. Prédio que ele frequentou por mais de dez anos como corretor de uma seguradora. Foram dez anos dedicados à firma que agora o chutava sem mais nem menos. "É hora de renovação nos quadros" disse-lhe o agora ex-patrão, "o negócio de seguros está mais agressivo e infelizmente você não se enquadra em nossa nova filososfia", completou.

Aquelas palavras latejavam em sua cabeça. A lembrança da cena da demissão também. Ele entrou na sala enorme de Antônio Oliveira Filho. Como o nome diz, Antônio Oliveira é filho de outro Antônio Oliveira, o fundador da seguradora, que havia se afastado da empresa poucos dias antes do acontecimento que está sendo relatado aqui. Antônio Filho era um sujeitinho de olhar arrogante, muito magro, de cabelo constantemente embebido em gel e sempre metido em ternos Armani que pareciam estar dois números acima do seu tamanho. Mas voltemos ao meomento em que Josias ingressou na sala da presidência. Ao entrar, Josias encontrou Antônio Filho, que estava de costas para a porta, olhando pela enorme janela que ficava atrás de sua igualmente enorme mesa. Sua cabeça estava imersa na densa fumaça que saía do seu charuto Monte Cristo, hábito fino que passou a cultivar após seus estudos no exterior. Fez um sinal com a mão para que Josias sentasse. Não se dignou a virar para encará-lo, enquanto o demitia falando todas aquelas coisas em meio a generosas baforadas em seu charuto.

Agora Josias estava no alto do prédio olhando fixamente os transeuntes trinta andares abaixo. Eram minúsculos pontos que se movimentavam de um lado para outro. Pontos sem identidade, sem importância. Não queria ser como elas. Estava prestes a perpetuar o ato que o tornaria alguém. O vento batia no seu rosto sem dar trégua. O zunido era constante nos seus ouvidos. Trinta andares acima do nível da rua é um lugar onde venta muito. Agora, a sua atenção se voltava para o cruzamento de duas importantes avenidas. O prédio ficava em uma das esquinas. Seria uma queda e tanto. E se calculasse direito, o corpo poderia se esborrachar bem no cruzamento. Iria causar uma confusão e tanto.

Dez anos na companhia e ele não se enquadrava mais no perfil agressivo exigido pelo novo mercado de seguros. Era um corretor dos velhos tempos, que gostasva de conhecer a fundo o segurado, ter uma boa conversa e conhecer a sua família. Mas agora, o que valem são estatísticas, a competição. O que vale é matar o concorrente. E ele não tinha estas características, segundo aquele pulha embebido em gel. Pois Josias estava lá em cima para provar o contrário. Iria se tornar famoso pela sua agressividade. Os jornais da televisão iriam falar nele ainda naquela noite. Imagine um corpo se esborrachando em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. Vai ser o assunto das edições extraordinárias. Olha para o relógio. São 20:43 horas. Ouve uma sirene ao longe. Dali de cima parece uma ambulância pedindo passagem. E se o corpo se esborrachar sobre um carro? Será que o dono do carro teria seguro? E se tivesse, seria da sua ex-empresa? E se fosse, teria sido ele o corretor responsável? O pensamento provoca-lhe um sorriso maldoso.

Chega de pensar. Está na hora de agir de acabar com tudo de uma vez. Está na hora de provar para aquele seu ex-patrão idiota que ele tem toda a agressividade exigida. Saiu do parapeito e se dirigiu até Antônio Filho, que estava amarrado e amordaçado com os olhos arregalados de pavor poucos metros atrás. Josias tirou o celular do bolso interno do paletó do horrorizado ex-patrão, levantou-o e carregou-o nos ombros, como se fosse um ferido de guerra. "Magro e muito leve", pensou o Josias. Dirigiu-se ao parapeito, atirou o homem lá de cima e permaneceu ohando o corpo cair em silêncio, bem no cruzamento, tal como havia planejado. Pegou o celular do ex-patrão e ligou para a polícia se entregando. Ficou lá no alto, vendo a confusão provocada por ele naquele cruzamento enquanto esperava ser devidamente preso. Ninguém mais poderia dizer que Josias não tinha um perfil agressivo exigido pelo novo mercado de seguros. Sentia uma imensa alegria e nenhum remorso. Até porque, a família do ex-patrão iria receber um polpudo seguro de vida. Ele sabe muito bem. Foi o próprio Josias que encaminhou os papéis.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Missa de sétimo dia

O Astrogildo não gostava de igreja. Na verdade, tinha verdadeiro horror a tudo o que se relacionasse com os dogmas da fé católica. Era da opinião de que os padres eram um bando de cínicos que enchiam a barriga com boas carnes, boas massas, bons vinhos, tudo a custa da boa vontade dos incautos fiéis. Ele costumava afirmar esta aversão originou-se em sua infância, quando a sua avó, uma tremenda carola, que rezava toda noite o terço em latim, costumava levá-lo a tira-colo nas missas dominicais. Tinha que acordar cedo, para um domingo, a fim de estar às dez horas da manhã na igreja. Uma tortura que durou anos a fio até o dia em que a velha foi encontrar o criador pessoalmente. "Provavelmente a primeira coisa que Ele perguntou a ela quando chegou lá em cima foi: Por que latim, minha senhora?" Astrogildo costumava repetir. Desde então, falar em igreja causava-lhe urticárias. Quando aparecia uma cerimônia, daquelas infaltáveis, era um suplício para a pobre dona Marta tentar convencie-lo.

- Astrô, você tem que ir. – suplica.
- Marta, você tem certeza que a minha presença na igreja é indispensável?
- É o nosso casamento, Astrogildo.

E casaram com o Astrogildo se coçando durante a cerimônia inteira. E a vida seguiu com seus batizados, casamentos e missas de sétimo dia que ele teve que aturar heroicamente, se bem que ele nunca entrava e nem sentava nos bancos da igreja. Sempre ficava lá atrás, bem perto da porta, em pé, criticando tudo o que acontecia durante o rito, às vezes com a voz um tom acima do que devia.

- Pronto, Lá vem a cestinha. Esses padrecos tem muita cara de pau..
- O que foi que o senhor disse?
- Ah, nada freira. Só estava orando.

A frase mais esperada pelo Astrogildo era o "vão em paz e que o senhor voz acompanhe", a única coisa dita por um padre que ele obedecia sem questionar nem pestanejar. Saía correndo e entrava no carro para esperar por dona Marta, encarregada de cumprir a missão diplomática, que consistia em dar parabéns aos noivos, quando casamento, aos pais (inclusive dos próprios netos) quando batizado ou então prestar consolo aos familiares em caso de missa de sétimo dia. Quando dona Marta chegava, ele começava com a implicância.

- Pensa que eu não vi?
- Viu o que, Astrô.
- Você depositou dinheiro naquela famigerada cestinha.
- Ai, Astrô. Foi só um real.
- Um real daqui, outro dali...tudo pro Papa. O Papa tudo.

Apesar de não gostar de igreja o Astrogildo não tinha nada contra Cristo em si. "Na verdade", ele dizia, "no dia em que nós nos encontrarmos, tenho certeza de que ele vai concordar comigo sobre essa corja de batina ganhando dinheiro as custas dele." Pois o Astrogildo acabou tendo esta oportunidade pouco tempo depois. Um dia o Astrogildo simplesmente não acordou. Estava com 76 anos. Dona Marta ficou arrasada, pois apesar da ranzinice dele com relação às coisas da igreja, ele era um bom marido, bom pai, enfim, ela o amava muito. E como é costume quando um ente tão querido morre, ela acabou marcando uma missa de sétimo dia em memória do marido, não se dando conta de que ele provavelmente não aprovaria a idéia. Na véspera, um pouco antes de ir para a cama, a dona Marta sentiu uma coisa estranha, um calafrio. E quando entrou no quarto lá estava o fantasma do marido. Sentado na cama, com aquela cara de quem ia reclamar com ela. Ela não sentiu medo. Ela simplesmente aceitou a aparição do marido. Ficou até feliz.

- Marta você mandou rezar missa de sétimo dia?
- Não começa, Astrô. Até aí do outro lado você continua com essa mania?
- Isso não é mania, é convicção.Você vai, né?
- Sei não.
- Você não me faz essa desfeita. Aliás, não se faça essa desfeita.

E na outra manhã a dona Marta estava na primeira fila, bem perto do altar. E quando a missa começou ela deu uma olhadinha para trás, em direção a porta. E lá estava o fantasma do Astrogildo. No lugar de sempre. Ela ficou feliz, felicíssima. Nem percebeu que ele estava fazendo um sinal pra que ela não colocasse um centavo sequer naquela famigerada cestinha.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ciúmes

O Cunha é uma daquelas pessoas ótimas de se conversar. Constantemente bem disposto e falante, nada o tirava do sério. Quer dizer, quase nada. Há uma coisa que o atormentava. Uma coisa pesando dez quilos, peludo, olhos azuis que atende pelo nome de Deco. É o gato de estimação do Cunha e da Dora, esposa dele. Só dela, segundo o Cunha, que sofre de um ciúme exagerado em relação ao bichano. É verdade que de vez em quando a Dora exagera nos cuidados com o gato. Mas não justifica.

Os amigos do Cunha, sabendo dos sentimentos que ele tem pelo felino, atiçam-no sempre que possível, o que é extremamente divertido. No happy hour, quando as garrafas de cerveja se acumulam sobre a mesa e as línguas perderam há muito a destreza dos movimentos, alguém vira para o Cunha e faz a pergunta fatídica.

- E aí, o Cunha, como vai o gato?

- Não me fale neste merdinha – reponde com expressão contrairada. – Ontem cheguei em casa e a Dora estava na cozinha, preparando algo. Eu cheguei por trás dela, cheio de carinho e quartas intensões. Fui abraçando e beijando aquele pescoço a mostra. Adoro pescoço a mostra. Nos pegariamos ali mesmo sobre o balcão da cozinha em meio a cebolas, nabos e bererrabas. Uma salada sexual. Puro engano. Quando virou para mim, era um pudim de lágrimas. Temi o pior. Morte de um parente, por exemplo. Aos prantos e soluços explicou que o Deco passou mal e ela levou o pobrezinho para o médico. Ela chama veterinário de médico, como se o Deco fosse gente. O gato ja estava medicado e ela estava preparando uma "carninha moida para o doentinho". Tudo com ele é "inho". Quando eu tive aquela gripe forte no mês passado, nem canja de pacote ela me fez.

O ciúmes do Cunha não conhece limites. Tinha vezes que ele aparecia emburrado no trabalho. Aquela expressão característica delatava problemas com o Deco. Era a cara "perguntem-me o que aquele gato aprontou". No happy hour, como sempre, alguém se encarregou de perguntar.

- Hoje é dia cinco - ele respondeu.- É o dia da contabilidade.
- Ja está no vermelho, Cunha?
- Não falo de dinheiro. Todo dia 5 eu faço a contabilidade dos dos beijos do Deco a dos meus.
- Como é que é?
- A Dora vive beijando aquele infeliz. Deve ter quilos de pelo no estômago. Eu conto quantos beijos ele ganha e quantos eu ganho no período. Tenho uma tabela estatística mensal. Aquela peste me ganha de lavada. Isso contandos só os beijos que acontecem na minha frente. Vocês fazem idéia do quanto isso dói? Eu levo flores e o Deco é que leva os beijos.

Nesses últimos tempos o Cunha andava meditabundo. Genuinamente tristonho, cabisbaixo. Não era a cara "perguntem-me o que o Deco aprontou". Estava muito claro que o problema era realmente sério. Não estva indo ao bar com a turma, algo impensável. Até que um dia, o Cunha foi praticamente arrastado para lá pelos amigos após o expediente. Ele bebeu. Bebeu muito. E como todo mundo que bebe, acabou abrindo o seu coração.

- Olha, pessoal. Eu e a Dora não estamos mais juntos. É isso. Eu já andava desconfiado. Ela estava fria, distante.
- Bom, Cunha. Pelo menos olha pelo lado positivo. Você está se livrando do gato - alguém fez uma tentativa de animá-lo.
- Me livrando? Pois sim. A Dora se apaixonou pelo veterinário do Deco. Aquele que ela chama de médico. Saiu de casa e nos deixou. Eu e aquele gato. Dois cornos morando juntos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A grande heresia

O local do julgamento é um enorme depósito velho. Tem que ser, porque a concentração de pessoas também é enorme. Entre todos, chama a atenção o vasto uso do "tu", do "bah" e do "capaz", expressões ouvidas entre os inúmeros diálogos travados no local. Era o julgamento anual do herege do ano, promovido pelo CTG do B - Centro de Tradições Gaúchas do Brasil - que reúne os gaúchos que, por vários motivos, estão espalhados pelo nosso imenso país.

E a hora tão esperada finalmente chega. Num patamar mais alto entram perfilados o juiz, o taquígrafo, o acusado, cercado por dois guardas e o promotor. A pedido do acusado, ele mesmo iria se defender, até porque nenhum advogado seria louco de defender alguém de um crime tão grave. Muito mais grave ainda pelo fato de nunca ter sido negado pelo réu. Todos ocuparam os seus lugares e a gritaria que tomou conta da turba foi silenciada a golpes de martelo que o juiz desferia contra a mesa aos gritos de “ordem, indiada!”. Feito o silêncio, o juiz deu início a sessão. Logo após, o promotor tomou para si a palavra.

- Senhoras e senhores, irmãos das terras farroupilhas. Estamos aqui hoje para julgar este homem - aponta para o acusado - José Rocha, nascido em Porto Alegre, pelo crime de heresia. Este homem é acusado de não gostar de, que Deus me perdoe, costela.

Ao mencionar o crime a turba não se contém e começa a chamar o acusado de traidor aos berros e de punhos cerrados. Muitos pedem pena máxima. O juiz volta a bater com o martelo na mesa pedindo ordem naquela casa, ou melhor, naquele depósito. Após conseguir serenar os ânimos, o promotor continua.

- Este crime inominável, que atinge um dos sustentáculos de nossa cultura, que une chimangos e maragatos, gremistas e colorados, vem sendo cometido sem pudores por este senhor. Como vocês poderão ver, este homem fala abertamente, a quem quiser ouvir, e a quem não quiser, que não gosta de costela. E mais. Diz a todos que a simples visão de uma costela no espeto, com aquela fina e apetitosa manta de gordura causa-lhe ânsias.

Nova reação irada da multidão força o juiz a tomar providências novamente. Com muito trabalho, paciência e marteladas o juiz consegue o seu intento. O promotor chama a primeira testemunha, Marília Cunha, paulistana, vinte e cinco anos.

- Senhorita Marília - o promotor fala em tom calmo e sereno. - Conte-nos a sua experiência com o acusado na churrascaria Minuano.
- Bom, uma noite eu estava com vontade comer numa churrascaria e convidei o José, que é meu colega. Fomos ao Fogo de Chão. Os garçons, sempre muito gentis, passavam a toda hora na mesa, oferecendo todos os tipos de carne: picanha, maminha, lombo de porco, enfim, de tudo. Aí, um dos garçons, percebendo que o José era gaúcho, quiz ser gentil.
- E foi aí que aconteceu o grave fato, não foi, senhorita Marília? - interrompe o promotor encarando a platéia.
- Bom, não diria que é grave alguém não gostar de alguma coisa, certo? Gosto é gosto.
- Resuma-se a resposta, senhorita Marília.
- Este garçon trouxe um espeto de costela, que o José recusou. Disse que não gostava de costela.
- Ele disse mais uma coisa, senhorita, não disse?
- Disse, sim. Depois que o garçon se foi, ele disse que na verdade odiava costela e só não teve um ataque por educação, já que o garçon fez aquilo tentando agradar.

O garçon da churrascaria também foi chamado a depor e confirmou a história de Marília. A última testemunha foi chamada. Outro gaúcho, Marcelo Tavares, casado, 35 anos.

- Conte-nos, senhor Marcelo, o que aconeceu naquela festa.

- Seguinte assim, carinha: era aniversário de um amigo em comum. Eu conheci o José por lá e vendo que ele era conterrâneo começamos a conversar sobre a terrinha. Falávamos saudosos de muitas coisas e, num certo momento, eu falei da costela. Falei que não existe no mundo carne como costela.

- Por favor, senhor Marelo - interrompe o promotor. - Tente lembrar as palavras exatas mencionadas pelo acusado quando ele ouviu esta sua maravilhosa frase.
- Bah, quando eu falei que não tem no mundo carne como costela ele teve um chilique. Disse "Deus me livre! Eu acho um horror, um nojo. Aqueles ossos todos, aquela gordura. Se tem coisa que eu não como nem amarrado é costela".Tchê, fiquei chocado. Minha vontade foi de surrar este traidor - apontando para o acusado - mas me contive.

Após todos estes testemunhos acachapantes, José foi chamado para dizer algo em sua defesa. Ele estava só, já que, como foi dito aqui, negar a costela é um crime tão hediondo que nenhum advogado aceita o caso. Advogados que tentaram, sofreram as consequências de tal ato: o preconceito e perseguição velados, porém persistentes, caindo em desgraça com os colegas, sendo jogados a um cruel ostracismo. Mas José seguiu firme em sua convicção.

- Não nego, senhoras e senhores, não gosto de costela.


Mais uma vez a multidão se enfurece e grita sem parar "Herege. Traidor". O juiz mais uma vez a muito custo consegue reestabelecer a ordem. José segue o seu pequeno discurso.

- Sou livre para gostar e não gostar do que eu bem enterder. Tirem minha liberdade, minha vida, se quiserem, as nunca poderão simplesmente negar a verdade. Sim. Como eu, existem mais gaúchos que não gostam de costela. Eles se revoltarão contra esse comportamento medieval e revoltante. Quem viver verá.

Após seu emocionado discurso, José foi evidentemente condenado ao exílio permanente. Estava proibido de voltar a sua terra natal. Sua foto foi espalhada por todos os aeroportos, rodoviárias e churrascarias de estrada do Rio Grande do Sul. Se tentar entrar no estado será imediatemente detido. Dizem que o senhor Lauro e a dona Justina, pais do José, já deserdaram o filho em sessão solene na Semana Farroupilha. Eles não poderiam aceitar um filho subversivo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pum

Aquilo era inadmissível, impensável e inacreditável. De tão absurdo ela simplesmente achou que não tinha ouvido direito. Mas uma coisa eram os ouvidos, outra o nariz. Não havia como negar. Era um pum. Um pum solto sem a menor cerimônia. Um pum incólume e poderoso pairando no ar. Não podia ser possível que ele tivesse o desleixo de soltar aquele pum e continuar olhando a televisão como se nada tivesse acontecido. Ela fez ainda uma tentativa, já que uma voz interna lhe dizia "e se escapou sem que ele pudesse segurar? agora ele está aí, nervoso, louco pra que você não tenha percebido." Se isso tivesse realmente acontecido seria uma forma de respeito.
- Luiz Cláudio, você soltou um pum? 
- Desculpe, amor.
 
     Desculpe amor? Assim, com esta cara de sonso? Mas o que estava acontecendo? E o casamento? Como é que este cara dá um pum na sua frente e simplesmente pede desculpas com tamanha desfaçatez? Era pra ficar vermelho, cheio de vergonha, desconcertado. Até agora, quando eles tinham vontade de dar um pum, sempre disfarçavam. Ela, por exemplo. No caso de estarem assistindo televisão juntos e viesse aquela vontade, aquela que chega a doer na cintura, levantava e ia se segurando com passinhos bem curtos, como uma gueixa, até a área de serviço. Lá, devido a ventilação natural, o gás era levado para fora do apartamento. Ele nunca perguntou o que ela ia fazer de repente, vez por outra, na área de serviço no meio do filme. Nunca quis saber por que ela saía naquele passinho curto e voltava andando normalmente com uma expressão mais aliviada na face. Isso era respeito.
 
  Por sua vez, ela nunca soube como e onde ele costumava soltar os seus gases. Ela tinha uma teoria. Ele conseguia controlar a saída com extrema maestria. Soltava pum na hora e no lugar que bem quisesse. Não tem gente que mexe com a orelha e coisas assim? Então é perfeitamente possível que alguém domine a técnica de soltar pum na hora e no lugar mais conveniente.
    
Mas tudo isso caiu por terra. Ele, Luiz Cláudio, seu marido, soltou um pum pela primeira vez na sua frente depois de três anos de vida a dois e nem ficou sem jeito. Aquele pequeno deslocamento de ar havia derrubado as bases sólidas sobre as quais o casamento entre os dois estava apoiado. Logo após gás se livrar das paredes do itestino e, completamente livre dos limites a que estava subjugado, espalhar-se pelo ar até chegar a seu nariz, não sem antes fazer uma pequena algazarra sonora na saída, ela tomou uma triste mas realista decisão: era preciso conversar. Hoje é um simples pum. Amanhã um arroto enquanto solta o cinto da calça após uma farta refeição e depois, sabe-se lá mais o que. Seria este este o caminho de todo o casamento? Um fim escatológico? Seria por isso que os seus pais se separaram?  Era preciso cortar o mal pela raiz.
 
- Luiz Cláudio. Nós precisamos ter uma conversa. Muito séria - intima.
- Dá pra esperar uns minutinhos? Eu estou louco de dor de barriga.

E lá se foi o Luiz Cláudio para o banheiro com os mesmos passos curtinhos de gueixa que ela costuma dar quando visita a área de serviço. Não ouviu a porta do banheiro fechar. Talvez estivesse ficando paranóica. Por via das dúvidas, pegou o controle remoto e aumentou o som da televisão. Queria estar segura de não ouvir nada proveniente daquele banheiro.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Pais em tpm apresenta: O vestidinho verde

Ele lia a sua revista calmamente no sofá da sala, aproveitando o começo da noite de sábado. O único som que ouvia era um eventual estalo do gelo em seu copo de Jack Daniels sobre a mesinha que fica ao lado da poltrona. Um silêncio que acalentava, abraçava, acolhia. A matéria da revista falava algo sobre pessoas que começaram a desenvolver técnicas para a fabricação de diamantes. Muito interessante. Ele praticamente devorava o artigo. Pegava o copo e dava um gole aqui, outro ali sem tirar os olhos da revista. Naquele instante, precioso, divino, o mundo era a pura perfeição. Respirava com êxtase, a alegria entrando pelas narinas e preenchendo seus pulmões. Nada seria capaz de quebrar o encanto daquele momento. A simplicidade como fonte de prazer. A não ser, claro, o fato de a sua filha de dezesseis anos estar descendo a escada trajando um mini vestido verde. O “toc – toc” do salto da sandália da filha delatando a sua descida pela escada. Ele tirou os olhos da revista e virou-se na direção do som. Estancou o olhar. Todo o seu bem estar esvaneceu-se como que por encanto. Ele podia jurar que viu a sua menina subindo a escada dizendo que ia se aprontar para a festa a fantasia. Agora, vê uma mulher descendo a escada. Uma mulher irritantemente maravilhosa, perturbadoramente encantadora. Olhou fixamente para o rosto dela para certificar-se de que era mesmo a sua filha. Havia uma grande esperança de que fosse uma amiga dela, mais liberada para usar um vestidinho daqueles. Não, não era.

- Alto lá – ele ordena. – Que roupas são essas?
- A minha fantasia, pai – a filha responde naturalmente – pra festa.
- Minha filha, fantasia é cowboy, bataman, palhaço, anos 30, por exemplo, mas isso?
- Então, pai, eu estou indo de anos 70.


Suas pernas ficam bambas. Não bastasse sua filha naqueles trajes diminutos, ele se dá conta de que os seus amados anos 70, quando vicejaram Led Zeppelin, Pink Floyd e Raul Seixas, quando ele jogava futebol na escola e o corpo fazia o que o cérebro ordenava, tudo tinha virado passado. Um passado distante. Tão distante que nem tocava na existência de sua própria filha. Era motivo de fantasia em uma festa. Ele se irritou com aquela constatação acachapante, inconteste. Não estava ficando velho. Estava velho.

- Anos 70 o escambau – esbravejou. - Não com esse vestido.
- Mas pai, a mamãe me ajudou.
- Sua mãe? Ela nunca usou um vestido reduzido como esse.
- Mas esse vestido é dela – explica – aliás, ela disse que você adorava.

Sim, o vestidinho verde que a Joana usava e ele adorava. Ficava louco. A Joana tinha pernas lindas. Na verdade ainda tem, mas no tempo em que namoravam, eram as melhores pernas da escola. O pai dela, seu Bernardo, reclamava muito quando ela vestia aquele mini vestido verde. Seu Bernardo – que na época tinha a idade que ele tem agora – discutia com a dona Clarissa e ele só ficava ouvindo. A Dona Clarissa sempre contemporizava, dominava a ira do seu Bernardo com paciência e conversa. Ele adorava, quer dizer, idolatrava a sogra. Dona Clarissa sempre esteve adiante do seu tempo, bem informada das coisas pertinentes ao mundo da filha e dos amigos da filha. Era perfeitamente capaz de manter uma conversa com qualquer um da turma. Eles até esqueciam que era a mãe da Joana e só eram alertados quando soltava um ou outro termo que pensava ser moderno. O seu preferido era o “prafrentex”. Mas ela era tão bacana que todo mundo perdoava. Mas agora, olhando a própria filha com aquele vestidinho verde, não tinha mais tanta certeza se a sogra era assim tão boa influência.

- Ela disse? Bom, ela está enganada – gagueja, – Eu gostava era de outro vestido verde.
- Pai, eu sei quando você está mentindo.
- Eeeeeeeeeeeu?
- Você sempre levanta a sobrancelha direita quando mente.
- Quem disse isso pra você?
- Ué, foi a...
- Não responde. Não responde. Já sei.
- Então? É ou não é aquele vestidinho verde que você adorava?
- Parece que é. – Diz contrariado. – Mas na sua mãe não tinha esses dois quilômetros de perna aparecendo.
- Não exagera, Arnaldo – intromete-se Joana descendo a escada – O vestido ficou uma graça nela.
- Mas ela é muito mais alta do que você. Logo ele está muito mais curto. Olha essas pernas, Joana.
- Não são lindas?
- Implicância não. – Irrita-se. – Filhinha, sua mãe tem uma bata indiana muito mais anos 70 do que esse vestido.
- Puiu, Arnaldo. A bata indiana que o papai adorava e que me cobria do pescoço até as canelas puiu.
- Eu vou com o vestido verde, pai. Ele tá o máximo.
- O mínimo. Você quer dizer o mínimo.
- Não seja incoerente Arnaldo. – Irrita-se Joana. - Se era bom pra você na época, é bom pra você agora.
- A incoerência é uma qualidade, Joana. Incoerência significa mudança. Tudo nesse mundo muda. Eu mudei. Eu evoluí.
- Isso não é evoluir, é virar a casaca.
- Nada me convence a deixar a menina ir a festa com esse vestido.
- Mãe! – Desespera-se a filha
- Sem pudim de leite.
- Golpe baixo não, Joana. Golpe baixo não.
- Ou ela vai a festa assim ou nunca mais você vai comer meu pudim de leite.
- Hoje vai ter?
- To indo pra cozinha.

A festa foi ótima. O vestidinho verde foi um sucesso. E o Arnaldo comeu todo o pudim naquela noite mesmo. Ele tinha que fazer alguma coisa enquanto esperava a menina chegar em casa.