sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ferimentos de batalha

E tem início o final de semana. Dois dias repletos de missões a serem cumpridas por homens corajosos e decididos. Jardins para se conservar, vazamentos por consertar, prateleiras a se construir, cortinas a se pendurar, enfim, uma infinidade de serviços especializados pelos legionários do faça você mesmo.

A loja de ferragens está repleta neste sábado pela manhã. É lá que este heróico exército adquire sua munição. São homens corajosos, prontos para o cumprimento do dever, ávidos por pregos, parafusos, trilhos, vernizes, tintas, brocas, pincéis, regadores, mangueiras, um vasto arsenal que será usado em todos as frentes de batalha desta guerra santa contra o desleixo, o estrago, a imprefeição.

Mas havia algo mais acontecendo no referido estabelecimento comercial, chamando a atenção de um grupo de curiosos. Eles cercam dois homens que estão no meio de numa ferrenha discussão. Um se chama Ovídio e o outro Manuel. Tudo começou quando Ovídio mostrou a mão esquerda para Manuel. Com os dedos bem separados, aponta com o indicador da outra mão para uma escoriação entre o indicador e o polegar.

- Chave de fenda - diz orgulhoso. - Estava colocando uma prateleria na cozinha quando ela escapou e me atingiu com toda força bem aqui.

Manuel, com um desdém impressionante, dá de ombros e tira o sapato do pé direito e a meia. Aponta o dedão do pé, que ostenta uma enorme mancha preta, e diz com mais orgulho do que o outro.

- Paralelepípedo. Caiu sobre o meu dedo quando estava trabalhando naquele caminho que eu tenho no meu jardim. Perto disso este seu ferimento é coisa que só criança reclama.

Após terminar, ele recoloca o sapato e encara Ovídio com expressão desafiadora. Só uma sobrancelha levantada. Sentindo-se fustigado, Ovídio não se faz de rogado. Levantou os cabelos da sua escassa franja revelando uma marca vermelha de mais ou menos três centímetros.

- Martelo. Soltou do cabo quando eu pregava duas partes de uma prateleira. Caiu bem na minha cabeça. Levei cinco pontos.

O grupo de curiosos a volta dos dois só fazia aumentar. Todos mostrando em uníssono o seu espanto a cada ferimento revelado. Já havia até um completo sistema de apostas estabelecido entre os observadores. Não querendo dar a última palavra ao outro, Manuel mostra o dedo indicador da mão direita. Nota-se a falta de um pequeno pedaço no mesmo.

- Serrote - diz cheio de si.- Jorrou uma sangueira danada.

Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi arregaçando a manga do braço esquerdo. O que todos ali testemunham é uma cicatriz enorme no antebraço.

- Facão. Aconteceu quando eu desmatava o terreno que fica ao lado da minha casa. Isso sim foi uma sangueira danada.

Manuel ficou uma fera. Imitando o outro, arregaçou a manga do braço esquerdo e mostrou uma horrível marca de queimadura também no anebraço.

- Solda. Aconteceu quando eu concertava o aparelho de som do meu filho- diz desafiador.

Como antes, Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi levantando a calça mostrando uma funda marca na canela esquerda.

- Enxada. Bati com toda a força na canela quando eu estava reformando o meu jardim.

Aqueles bravos soldados seguiram competindo para ver quem tinha o pior ferimento adquirido em tantas batalhas caseiras nos finais de semana. Depois de algum tempo o grupo se dispersou sem chegar a conclusão alguma. A não ser a de que eles eram muito, mas muito desastrados.

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