sábado, 31 de dezembro de 2011

O Ermitão do D&D.

Marcelo já trafegava por alguns minutos tentando sair da garagem do Shopping D&D. As placas que indicavam a saída geralmente o levavam a outras placas que igualmente indicavam a saída. Direita, esquerda, esquerda outra vez, e novamente a esquerda e dava de cara com outra placa. Marcelo estava quase perdendo a paciência quando aconteceu o fato insólio. Subitamente, um vulto aparece em sua frente saindo de trás de uma coluna, como um gato atravessando a rua. Marcelo bem que tentou frear, pisando tão fundo que, se tivesse um pouco mais de força, provavelmente faria com que seu pé direito atravessasse o assoalho indo encontrar o piso da própria garagem. Não foi suficiente para que o carro parasse antes de atingir o vulto. O som seco do carro atingindo aquele corpo a sua frente, que foi jogado a alguns metros a frente caindo desfalicido no chão. Marcelo devia estar a pouco mais de vinte quilômetros por hora. O carro, enfim parou. O coração de Marcelo quase. Agora, ao contrário, batia acelerado. As pernas moles não permitiam que ele saísse do carro. Mas era preciso. Ele havia atropelado alguém que estava caído no chão e ainda não levantara. Olhou para os lados e não avistou alma alguma que pudesse ter testemunhado o fato.


Marcelo finalmente encontrou calma e forças para descer do carro e ver quem estava ali, caído no chão. Andou e o que viu pareceu a ele muito estranho. Um homem vestindo um jeans muito surrado e rasgado, tão rasgado quanto a sua camisa e um coturno já muito gasto e sem cordões. Os cabelos desgrenhados e uma barba enorme, provavelmente aquele rosto não via uma lâmina há muitos anos. Marcelo ajoelha-se e o cheiro proveniente daquele homem não é dos mais agradáveis. Mas uma coisa é perceptível. O homem respira e agora geme e move-se muito lentamente. Provavelmente bateu com a cabeça no chão e perdeu os sentidos. Lentamente, o homem abre os olhos. Por baixo daquela barba espeça e desalinhada, há uma pele exageradamente branca, como se nunca fosse tocada pelo sol. Uma pele quase cadavélica. Os olhos se arregalam, como que não acreditando que alguém o estivesse notando. O homem salta sobre Marcelo e o abraça efusivamente gritando.

- Gracas a Deus…Graças a Deus!
- Calma, calma – Marcelo o afasta. – Está tudo bem?
- Ah, meu bom homem, agora sim. Agora está! – Diz com lágrimas nos olhos.
- Não está ferido? Não quebrou nada?
- Bendito atropelamento! – Emociona-se o barabado.
- Do que está falando, homem? Qual o seu nome?

O homem, antes de responder às questões de Marcelo põe-se a chorar copiosamente. Marcelo não tem reação a não ser olhá-lo e tentar acalmá-lo para que ele falasse.

- O senhor não sabe – retoma soluçando o barbado - o que tem sido minha vida. Estou nessa garagem desde o final da construção desse prédio.


A história é das mais estapafúrdias. Mas olhando nos olhos daquele homem, Marcelo vê sinceridade. O estado daquela pobre figura ajuda a tornar o seu relato aceitável.

- Essa garagem, meu bom homem. Essa garagem é um verdadeiro labirinto. Após o final da obra eu saía com o último grupo de trabalhadores e notei que tinha esquecido a minha garrafa térmica. Voltei para pegar a garrafa e, sozinho, nuca mais fui capaz de achar a saída. Tenho vivido aqui desde então, meu bom homem.
- O senhor está me dizendo que vive dentro dessa garagem desde que o prédio foi construído?
- Sim. Fiquei preso nesse emaranhado de placas e colunas. Tentando sair em vão. Tive momentos em que perdi a razão.
- Mas quando os carros começaram a chegar, as pessoas. Por que nunca falou com elas, perguntou a saída.
- Ninguém me dava a mínima atenção. Achavam que eu era um mendigo que ia pedir dinheiro e fechavam o vidro do carro em minha cara. Os guardas do estacionamento eram duros, um até me bateu. Passei a fugfir deles.


Marcelo se apiedou daquele homem. Recluso, longe do mundo, preso em um labirinto urbano, uma ilha incomuncável dentro da metrópole desalmada. Pôs o pobre homem no carro e se dirigiu ao hospital. Ele precisava de tratamento urgente. Era preciso achar a sua família. Teria ele filhos? Mãe? Pai? Esposa? Aquela história em breve estaria em todos os jornais. Em todas as rádios e televisões. A incrível história do peão de obra que viveu por mais de dez anos preso na garagem de um complexo de prédios e shopping center. A incrível história do ermitão do D&D.



-x-

Rádios, televisões, com suas câmeras e gravadores apinhavam-se na frente do hospital. Todos querendo uma imagem, uma palavra um pedaço do que eles mesmo rotularam como o Ermitão do D&D. O pobre peão de obra que ficou por dez anos tentando sair da garagem do prédio sem sucesso. Em poucos instantes, descobriram ser ele Juvêncio da Costa, que na época da construçnao tinha 25 anos e hoje estava dez anos mais velho. Era casado com Marina De Oliveira da Costa e com ela tem três filhos: Osvaldson, Amaralina e Paulo Henrique. O verbo ser no passado na linha acima tem uma razão. Com dez anos de desaparecimento, Juvêncio foi considerado como morto e ela pode então casar de novo. Obviamente isso agora é um problema a ser considerado.


Dentro do hospital, um Juvêncio já de barba feita conta para policiais e médicos o seu calvário dentro da garagem do referido shopping center.

- Os primeiros dias foram de desespero. Tentava seguir as placas mas elas não me levavam exatamente a lugar algum. Andava, andava e de repente aparecia uma parede bem na frente, tinha que voltar. Berrava em desespero.

Nesse momento, a lembrança dos primeiros dias preso dentro da garagem labiríntica do shopping faz brotar lágrimas nos olhos de Juvêncio.

- E como você fazia para se alimentar? – Pergunta um dos médicos.
- Comia restos dos restaurantes que chegavam na garagem.


A imprensa obviamente correu atrás da companhia de cosntrução e do arquiteto que projetou a garagem, mas a acessoria tanto de um quanto de outro recusaram-se a falar sobre o homem que ficou dez anos preso no estacionamento do D&D. Aliás, o shopping se resumiu a lançar apenas uma nota onde “sentia profundamente o ocorrido” e oferecia uma cama a escolha da vítima como forma de “compensar pelos anos mal dormidos”.


O alvoroço se tornou ainda maior na frente do hospital quando a mulher, o marido atual e os três filhos chegaram. Foi preciso um cordão de isolamento para que eles pudessem entrar no hospital. As perguntas eram feitas ao mesmo tempo pelo enxame de repórteres. Cliques alucinados das cêmras fotográficas, luzes ofuscando os ohos daquelas cinco pessoas que há bem pouco sequer poderiam cogitar algum resquício da celebridade que agora experimentavam. Mas como disse um dos faxineiros do hospital que por ali passava no momento “pobre só fica famoso com tragédia”.


Antes de entrar no hospital, e conseguindo entender uma das perguntas em meio a tantas formuladas atabalhoadamente, Marina pára, vira-se para todos e, com olhar de pessoa humilde, porém altiva, responde.

- Ontem fui dormir com meu marido atual, o Juarez. Hoje, acordo com dois. O meu pobre Juvência comeu o pão que o diabo amassou preso naquela garagem, sem conseguir sair lá de dentro. Só Deus faz idéia do sofrimento que eu e as crianças passamos. Eu espero que a justiça seja feita e que essa gente que desenhou aquele lugar fique presa, pelo menos, pelos mesmos dez anos que o meu Juvêncio…
- Seu?

Os microfones captam a pergunta do atual marido ao lado dela. Aquele “Seu?” contrariado. Ela cai em prantos. Mais cliques alucinados brigando pelo choro trágico que irá para as capas dos jornais do dia seguinte. Eles dão as costas para os repórteres e entram no hospital.


Lá em cima, um Juvêncio emocionado e ansioso espera a família subir.

- Vou rever minha mulher. Meus filhos. É tanta coisa boa. Pra ficar melhor só se o companheiro Lula fosse presidente.

Médicos e enfermeiras se resumiram a trocar olhares. Seria melhor que ele soubesse das novidades aos poucos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um Natal politicamente correto.

Papai Noel acordou fora do horário. Antes do seu despertador tocar e por isso, mesmo sendo um bom velhinho, estava irritado por causa disso. Papai Noel é uma entidade muito apegada a sua rotina e esta tinha sido quebrada. O motivo era uma algazarra que se formava do lado de fora, em frente a sua casa. Pessoas gritando palavras de ordem como “Ena, ena, ena. Estamos aqui pra salvar a rena!” e outras coisas de gosto e rima duvidosos. O Papai Noel levantou e nem se preocupou em lavar o rosto. Foi até a janela do quarto, que dava para frente da casa e, de lá, pode ver um enorme aglomerado de gente acabando com a paz do seu lar. Uma multidão segurando cartazes do Greenpeace. Ele abriu a janela e gritou para que parassem com aquela barulheira infernal e o que recebeu em troca foi uma bola de neve na cara, aos gritos de “torturador de renas”. A cena foi captada por câmeras de video e fotográficas pertencentes aos jornalistas que também estavam lá aos borbotões, alguns transmitindo ao vivo.

Com aquela bola de neve ainda ardendo em seu rosto e no seu orgulho, o Papai Noel fechou a janela deixando os gritos de protesto do lado de fora. Desceu até a sala e ligou a televisão ainda a tempo de ver a cena que ele recém fora protagonista: aquela bola de neve explodindo em seu rosto, repetida à exaustão, em câmera lenta, com direito a gráfico medindo a distância e velocidade com que ela havia atingido o seu rosto. “Aquilo sim era uma agressão séria e não aquela bolinha de papel na cabeça do José Serra”, pensou o bom velhinho, que a esta altura já não se sentia assim tão bom. Tentou se inteirar do que se passava em frente a sua casa pela televisão. Escolheu o canal e passou a tomar pé da própria situação pela âncora de um jornal matutino..

“Neste momento, manifestantes do movimento Greenpeace se aglomeram na frente da casa do Papai Noel em protesto contra os maus tratos a que as renas do trenó tem sido submetidas durante séculos. O lider do movimento falou em entrevista ao nosso jornal...”

Neste momento, sua atenção é interrompida pelo telefone, que toca.

- Alô?
- Com quem eu falo? – Diz a voz do outro lado.
- Papai Noel.
- Perfeito. Caro Papai Noel, meu nome é John Pierce, da firma de advogados Pierce & Partners. Eu creio que o senhor vai precisar de nossos serviços. Somos especializados em defender empresas petrolíferas, matadouros e também a indústria de armas com excelentes resultados…

Papai Noel desliga o telefone na cara do advogado mantendo os olhos fixos na televisão. Ele vê agora, a imagem do líder dos protestos, um jovem com expressão raivosa, daqueles que acreditam em sua causa, encarando a câmera de forma desafiadora, cercado por manifestantes cheios de cartazes. Num deles, vemos um desenho em traços infantis mostrando o Papai Noel com dois chifres fustigando as renas com um tridente que carrega na mão. Ao fundo ele vê a própria casa, onde está confinado pelas circunstâncias.

“ Não é mais possível que uma entidade que seja exemplo para crianças do mundo inteiro ainda se utilize de meios de transporte de tração animal em um mundo com tantas opções energéticas eficazes e não poluentes a disposição. Isso sem falar que estas renas tem sido as mesmas por muitos séculos.”

Subitamente, a imagem da televisão muda para um gráfico onde que vemos a terra e a lua. Um trenó animado percorre a distância entre o planeta o o seu satélite várias vezes deixando linhas atrás do percurso, enquanto ouve-se a voz firme da âncora do jornal.

“Segundo cálculos da Ong Greenpeace, as renas até hoje ja teriam percorrido a distância entre a terra e a lua por mais de 80 vezes, num total de mais de 240 milhões de quilómetros.”

A imagem agora volta para os estúdios, onde a âncora chama as próximas matérias.

“A onda de protestos contra o Papai Noel levanta novas questões. Os duendes trabalham com carteira assinada e direito a plano saúde? Veja também entrevista com a nutricionista Katleen Joyce, que lançou o livro “Papai Noel tem que ser gordo?” Uma analise profunda sobre os maus hábitos de alimentação e vida sedentária na terceira idade, que também pode pode se transformar em mau exemplo para as crianças já que é praticado por um ícone da infância. Tudo isso depois dos comerciais. “

Papai Noel consultou o identificador de chamadas do seu telefone. Depois daquilo, a tal Pierce & Partners mostrou-se uma opção bem pertinente.

domingo, 23 de outubro de 2011

O mini Papa

Olhando para o garoto nada denuncia que ele pudesse ser um tanto diferente. Saudável, um pouco gordinho, mas nada anormal para alguém com 9 anos de idade, o que prenuncia futuras mudanças morfológicas que iriam desde a sua altura, chegando até o timbre da voz. Porém, bastava um pouco mais de convivência com a família do rapaz para notava-se um certo descompasso entre o Otavinho, filho mais novo do Otávio, e os seus contemporâneos.

Eu sei o que estão pensando, mas não é de opção sexual que estamos tratando aqui. Otavinho não tinha qualquer resquício de tendência ao homossexualismo. O que chama atenção era o seu comprometimento com o próprio futuro. Otavinho ja tem muito bem definido o que quer ser no futuro: Papa. Ao contrário dos seus amigos que, em sua maioria queriam ser astronautas, por exemplo, Otavinho quer ter um contato mais espiritual com os céus. Até aí tudo bem, poderia ser uma preferência estranha, talvez potencializada pela presença da avó em casa, uma católica fervorosa. Mas há coisas que a gente percebe serem da própria natureza da pessoa.

Otavinho é focado no assunto e o conhece a fundo. É fã do Papa João Paulo II. No seu quarto há posters do ex-sumo pontífice, que Otavinho cita como seu exemplo de vida tanto pessoal quanto profissional. Isso mesmo, enquanto alguns tem posters de bandas de rock, atroes, cantores sertanejos ou de toda sorte de esportistas, Otavinho decora o seu quarto com fotos do Papa João Paulo II. Ele também gostava muito do Papa Paulo VI, principalmente por ter exercido o seu pontificado num período muito conturbado da humanidade, com guerra fria, ameaças de fim de mundo e outras tantas mazelas. Mas nada se assemelhava ao carisma do velho e bom Karol Wojtyla.

Otavinho chamou atenção pela primeira vez para esta estranha preferência aos sete anos de idade, numa festa a fantasia na escola, cujo tema era "O que eu vou ser quando crescer”. Diante da tentativa dos pais de demovê-lo daquela idéia completamente estapafúrdia, ele foi firme. Inisitiu com diligência que queria ir vestido de Papa. Os pais acabaram cedendo. E como se não bastasse, exigiu que o traje papal que ia utilizar seria o solene, já que festa na escola era um evento. O menino chegou com pompa e circunstância. Um mini pontífice trajando casula, estola e a mitra a ornar-lhe a cabeça. Passava por todos com o bráculo pastoral na mão esquerda saudando a com a mão direita colegas, professores e pais completamente aturdidos com a figura.

Os padrinhos do Otavinho ficam sem saber o que fazer. Toda vez que vão presentear o menino são obrigados a ir em lojas de equipamentos litúrgicos. Quando recebem visita da familia do Otavinho no seu apartamento, o menino corre para a janela. É que o prédio tem uma fachada que lembra o Vaticano, o que o torna irresistível para o menino, que passa horas lá, virado pra fora, acenando para os fiéis imaginários seis andares abaixo. Vez por outra, Otavinho ministra algumas orações em latim lá de cima, abençoando os passantes que olham para aquele menino com trejeitos papais um tanto fora do comum.

No casamento da irmã, ocorrido recentemente, Otavinho subiu no altar e começou a rezar uma missa, mas foi rapidamente retirado de la pelos pais. Mas passou a cerimônia inteira rezou evoz baixa junto com o padre, pois sabia tudo decor e salteado, palavra por palavra. No momento do sermão, ele discordou terminantemente da passagem da Biblia escolhida pelo padre, dizendo "esse aí não vai longe, nem a bispo chega”. Não fosse apenas uma criança, Otavinho seria capaz de casar a irmã.

Outro dia encontrei o Otavio, o pai. Estava inconsolável. Eu perguntei o porquê daquela tristeza, embora ja desconfiasse da causa, e ele me respondeu que, na véspera do Natal o menino estava brincando de rezar a Missa do Galo sozinho no seu quarto, tal qual o Papa faria mais tarde. Havia até montado altar, tudo muito bem feito. Para dar mais veracidade a toda liturgia do culto natalino, Otavinho havia pego escondido uma garrafa de vinho na geladeira para beber o “sangue de Cristo”. O menino tomou um porre. Foi encontrado desacordado no quarto, mas foi salvo a tempo, após tomar glicose na veia. “Isso é castigo divino. Só pode ser!”, reptia o Otávio com voz chorosa.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Exame

O telefone toca. Seis horas da manhã. Luiz Carlos tateia a mesa de cabeceira tentando calar aquela coisa que entra sem pedir licença pelos seus ouvidos até matelar seu sonolento cérebro. Finalmente, consegue alcançar o aprelho e atende balbuciando algo muito parecido com um alô. Do outro lado da linha, excitadíssima, dona Carolina, sua mãe.

- Quem é que vai fazer exame de próstata hoje?

Aquilo não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo. Nenhum ser humano normal liga para o próprio filho as seis horas da manhã e lembra que aquele está para ser um dos mais humilhantes dias da sua vida. Pior, numa segunda-feira. E ainda pior, como quem dá feliz aniversário.

- Alô? Filho, você está aí? – preocupa-se.
- Sim, mãe. – irrita-se.
- Então, ansioso?
- Mãe, não me leve a mal, mas não, não estou nem um pouco ansioso para alguém enfiar o dedo no meu cu.
- Olha a boca, menino.
- Eu tenho quarenta anos e um ex-casamento nas costas. Não sou mais menino.
- Pra mim é. Meu bebezuca.

Ele desliga na cara dela. A estas alturas ele já está completamente desperto. Um tanto arrependido de ter falado com a mãe naqueles termos e de ter desligado o telefone daquele jeito, embora ela já estivesse acostumada. Tanto que o telefone tocou de novo.

- Meu filho, nunca mais faça isso.
- Desculpe.
- A gente vai almoçar hoje, não vai?
- Promessa é dívida.

Acordado, com o sono arrancado dele a força, ele não tem outra alternativa a não ser sair da cama e, como é cedo, pensa em ir à academia. O dia está bonito lá fora e ele toma uma chuveirada para tirar o resto de cama do corpo. Aquele exame está grudado em sua mente como craca em casco de navio mal cuidado. Não é o tipo de coisa que ele se preocuparia em fazer. Se houvesse uma lista de prioridades em sua vida, esse talvez fosse o item número dois mil seiscentos e trinta e oito. Mas teve que capitular diante da insistência ferrenha e incansável de sua mãe. “Aos quarenta anos você vai fazer um exame preventivo de próstata”. Ele ouve essa frase e suas variantes desde que fez trinta. Em cada abraço pelos aniversários que se seguiam ela falava em seu ouvido: “Faltam nove anos para o seu exame”, uma irritante contagem regressiva.

Era perfeitamente compreensível a preocupação da mãe, uma vez que ela vinha de uma família em que casos de câncer eram muito comuns. Perdeu quatro dos sete irmãos por causa disso. A próstata do Luiz Carlos virou uma questão de honra para ela. Uma obsessão. Que foi se agravando com a proximidade da idade considerada chave para o exame ser feito. No dia em que fez quarenta anos ela lhe entregou o exame marcado embrulhado em papel-presente. Podia ter ganho uma gravata, até cuecas, aquela coisa que mãe dá achando que nunca é demais. Mas não a sua mãe. Não a dona Carolina. Ela deu um exame de próstata marcado com o doutor Valério “O urologista do seu irmão mais velho, um grande urologista.” O que ela queria dizer com “grande” ainda não estava claro. Mas quase não conseguiu disfarçar o riso ao saber que o irmão mais velho, de quem apanhou muito, tinha um urologista regular. Mas, subitamente, pensou que uma ligação para o irmão para colher informações sobre o tal doutor Valério seria muito conveniente. Convenhamos, Valério é um nome meio assustador. Parece tudo meio estranho. E se ele tivesse dedos grandes e grossos? Só de pensar tinha arrepios de pavor. Por outro lado, ligar para o irmão mais velho por esse motivo era humilhante. Ele iria se divertir às suas custas, rir da sua preocupação, inventar coisas, o sádico. Ele acabou a chuveirada, vestiu-se, pegou a sacola e foi para a academia.


Na esteira, ele correu como se quisesse fugir da lembrança daquele exame. Fugia desesperadamente dos dedos de bitola indefinida do doutor Valério. Mas a esteira era a perfeita metáfora da sua situação. Por mais que corresse não saía do lugar. Era impossível se afastar. Ao contrário, quanto mais o tempo passava, mais se aproximava. E, quando fossem sete e meia da noite ele estaria lá, deitado na maca, indefeso diante do monstro chamado doutor Valério. Ele não conseguia encontrar definição para esse nome. Valério. Dava-lhe calafrios.

Após uma hora de correria desenfreada e quatrocentos e oitenta e sete calorias a menos, dirigiu-se extenuado para o vestiário. Lá, os mesmos rostos de sempre, as mesmas conversas de sempre. Ele invejando a todos, que não param de reclamar de como a segunda é um dia chato. Mal sabem como a segunda-feira deles pode ser maravilhosa sem um dedo de bitola desconhecida apontando para o seu traseiro. Calafrios de novo. O nomezinho estranho veio-lhe a mente. Foi para o banho. O segundo em menos de três horas. Desta vez, dividindo o local com nadadores, corredores, levantadores de peso e tudo mais. Flácidos, musculosos, gordinhos insistentes e de repente deu-se conta de que o tal doutor Valério não devia ter uma vida fácil. Imagina ter que enfiar o dedo em cada um daqueles caras. O musculoso tatuado tomando banho na frente dele. Só de pensar num cara daqueles deitado em uma maca esperando para ser violado fez o Luiz Carlos ter um pensamento de piedade pelo tal doutor que ainda não conhecia.

A manhã no escritório trnascorreu como uma imagem em sonho. As pessoas passavam por ele em movimentos desencontrados e vagarosos. Vozes se misturando, tudo e todos envolvidos pelo torpor que tomou conta de seu corpo. Pontadas como estalactites de gelo a espetar-lhe o âmago do estômago seguidas de uma respiração profunda. Passou a manhã inteira calado, observando a mão dos colegas, a bitola dos seus dedos, tentando estabelecer um parâmetro, uma média. Seus devaneios foram interrompidos por Jessica, uma das coisas mais lindas que existiam dentro daquele escritório, parada a sua frente, encarando-o.

- Luiz Carlos – voz rouca – eu quero que você saiba que eu estou com você.
- Como? – Responde com o coração aos pulos - Está comigo?
- É, se você quiser conversar comigo ali no café...
- Olha, Jessica, quando a esmola é muita o santo desconfia. Vamos aos fatos: todo homem neste escritório sonha em em ser convidado por você para qualquer coisa, nem que seja esse café horroroso. E agora que isso acontece comigo, eu sinto que tem algo errado no ar.
- Bom, o telefone da sua mesa tocou antes de você chegar e eu estava passando. Era a sua mãe, muito simpática.
- E o que a simpatia da minha mãe pretendia?
- Bom, ela disse que você estava nervoso.
- Nervoso? – O coração parecendo um solo e bateria – Disse por que eu estaria nervoso?
- Não, não, imagina. Só estou aqui porque, sei lá, você é um cara legal.

Estava na cara que a Jessica mentia. Era mais do que óbvio que a mãe bateu com a língua nos dentes, falou do doutor Valério, dos problemas de câncer na família e de como ela estava orgulhosa de ele engolir o orgulho e se submeter ao exame. Enfim, a mulher mais cobiçada do escritório estava sabendo que, no final da tarde, ele seria violado pelo doutor Valério. Por sorte, ela era muito discreta. Por azar, ele era uma carta fora do baralho.


Conforme combinado, Luiz Carlos chegou ao restaurante pontualmente ao meio dia e meia. Queria matar a mãe. Essa já estava na mesa e com ela havia outra senhora, que ele não conhecia. Ao avistá-lo chegando, dona Carolina quase teve um ataque, levantou-se e aos pulinhos passou a abanar para ele, como se estivesse no meio do público num festival de rock tentando chamar a atenção de um amigo. O restaurante todo olhando. Ele corou. Apressou o passo para que aquela cena ridícula terminasse logo.

- Bebezuca da mamãe, dá uma baijoca aqui – já se precipitando sobre o pescoço de Luiz Carlos.
- Mãe, olha o exagero.
- Amor de mãe nunca é exagero. – Falou com indignação falsa – Essa aqui é uma amiga da mamãe, Lucrécia. Lucrécia, esse é o meu caçula, o Luiz Carlos.
- Nossa, é a sua cara – levantando-se e abraçando-o tão forte quanto um urso – coitadinho, deve estar nervoso.
- Nervoso? – Ele, desconfiado – Com o quê?
- Não se preocupe – continua a amiga – o dr. Valério é ótimo e olhando um jovem saudável como você, não vai achar nada que não seja uma próstata vendendo saúde.
- Mãe! – Desolado. – Você contou pra ela?
- Ai os homens! – Carolina suspira – É um exame, meu filho, todo mundo passa por isso mais cedo ou mais tarde.
- Mas o mundo não precisa ficar sabendo que eu vou passar por isso. Onde está a relação confidencial entre médico e paciente?

Para alívio do Luiz Carlos, a tal Lucrécia não ia almoçar com eles. Ela despediu-se e saiu em direção as suas compras. Foi a Lucrécia sair para o garçom chegar.

- Não querem pedir as bebidas?
- Uma Coca com gelo e limão – Luiz Carlos emenda de mau humor.
- Nada disso – interrompe a mãe. – Traga a carta de vinhos.
- Vinho? Mãe, eu tenho que trabalhar.
- Você tem que relaxar um pouco – e virando-se para o garçom – ele vai fazer exame de próstata, sabe? Tá nervoso.

Seria a melhor coisa do mundo se o diabo, naquele momento, abrisse as portas do inferno justamente embaixo da cadeira dele. Por acidente. Nada poderia ser pior do que olhar para a cara desnorteada do garçom num esforço descomunal para não cair na gargalhada. Em breve, todos, do maitre ao cozinheiro, incluindo a linda garçonete atendendo a mesa ao lado, saberiam que o cara da mesa sete ia ser violado por um estuprador com diploma de medicina. Mas o diabo não apareceu. Ele fuzilou a mãe com um olhar. Mas ela continuou impassível. Olhou de volta e falou:

- Eu vou com você ao exame.

Será que as coisas poderiam ficar ainda piores naquele dia?


-x-

Luiz Carlos passou a tarde inteira enganando. As estalactites de gelo não paravam de espetar-lhe a barriga à medida que o tempo ia passando. Só de pensar em cruzar com a Jessica fazia o seu estômago embrulhar. Só se levantou do lugar para coisas de extrema necessidade, ou seja, ir ao banheiro. O reloginho do seu computador impassível e torturante avisava que o dedo do doutor Valério ia se aproximando. O esforço para se concentrar no trabalho era cada vez mais inútil. Seus braços não se mexiam, seus neurônios formigando, seu corpo inteiro era uma massa inútil sentada sobre uma cadeira de rodinhas. Pessoas paravam para conversar com ele, mas ele enxergava apenas formas difusas produzindo sons ininteligíveis. Até que o telefone tocou.

- Luiz Carlos - fala, seco.
- Meu filho, acho melhor você sair para não perder a hora.
- A senhora deve ter sido um instrumento de tortura na outra encarnação.
- Sou católica, não espírita. O trânsito está um horror.

Luiz Carlos levantou-se, pegou suas coisas e dirigiu-se a passos pesados para a garagem. Sentia-se um condenado andando pelo corredor da morte. Sem direito a padre. Sem direito à última refeição. Durante o seu caminho olhava o semblante das pessoas em seus carros. Gente irritada com o trânsito caótico do final da tarde. Apenas ele estava satisfeito com a demora. E se chegasse bem atrasado? Poderia adiar seu horrível destino. Mais uma vez invejou os problemas alheios. O que é ficar no trânsito por mais alguns minutos comparado com o dedo do doutor Valério desbravando o seu corpo virgem, imaculado?


Luiz Carlos chegou ao consultório dez minutos antes da hora marcada. A mãe lá, sentada com uma revista de fofocas. Ao vê-lo, levantou-se excitada e olhando para as recepcionistas dizia “ é ele, é ele”. Pelo sorriso desajeitado das duas moças, a mãe já devia ter dado todo o serviço. Não que elas nunca vissem alguém que ia fazer um exame igual. Isso pra elas era rotina. O que saía completamente da rotina era a mãe contando o óbvio para elas. Para elas e todas as pessoas na sala de espera. Sim, havia mais gente na sala de espera, todos olhando para ele como se fosse uma atração de circo. Ele preencheu a ficha e sentou-se ao lado da mãe. Não demorou muito. Seu nome foi chamado por uma das recepcionistas. Ele se levantou e ela o acompanhou até a sala do doutor Valério. E quando chegou lá e encarou o médico, o mundo devastado de Luiz Carlos acabara por explodir de vez. Ele já havia visto o doutor Valério. Não conhecia apenas o seu rosto, como tudo o que estava por baixo do seu jaleco. Sim, as coisas poderiam ficar muito piores. O doutor Valério era o gordinho que ele encontrava na academia todas as manhãs. Nu, no banho.

- Vamos sentando - disse o médico com voz amável. - Nós Ja nos conhecemos? Seu rosto é familiar.
- Mais do que o meu rosto: frequentamos a mesma academia.
- Ah, é verdade. Vamos sentando.
- Eu não vou sentar.
- Que é isso, deixe de bobagens. Somos colegas de gasto calórico, não é mesmo?
- Razão suficiente para eu não sentar. Razão suficiente para eu não dar as costas para você, a não ser dar as costas e sair daqui.
- Que é isso, Luiz Carlos. Eu sou um profissional. E depois, tem a relação confidencial entre médico e paciente.
- Sim, uma relação na qual você é o ativo e eu o passivo. E depois, tenho certeza de que, mesmo você repeitando a confidencialidade, o que eu não duvido, vai ter o momento em que nos encontraremos no vestiário. E eu não vou conseguir mais encarar aquele lugar. É como ser a vítima de um estupro e ter que conviver em silêncio com o estuprador.

Virou-se e saiu em passos rápidos em direção à recepção. Iria embora, nada de exame. Mas aí, topou com a mãe. Ela não ia deixar ele sair invicto dali de jeito nenhum. Iria fazer um escândalo na frente daquelas pessoas. O inferno seria ainda pior. Deu meia volta. Iria procurar outra academia no dia seguinte.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A chupeta da discórida

O restaurante estava lotado. Gente esperando senhas por uma mesa. “Mesa para quantos, senhor?”, repete a exaustão para todo mundo que chega a simpática recepcionista conhecida agora pela pomposa e importada definição de “hostess”, o que não é de se admirar num bairro como os jardins, onde encontramos lojas e restaurantes com o nomes grafado em idiomas dos mais diversos, inclusive o português.

Roberto, Laura e o pequeno João Paulo haviam chegado ao local perto da uma hora da tarde. Era a primeira vez que almoçavam fora desde que João Paulo nascera. Assim que chegaram, Roberto é abordado pela hostess, seu salto alto, sua calça jeans justa, seus peitos empinados, tão artificiais quanto o seu sorrido.

- Bom dia! Mesa para quantos?
- Somos eu, minha esposa e o bebê.
- Mas que coisinha mais linda.
- Obrigado.
- Tem uma pequena espera, mas muitas mesas já estão pedindo a conta. Bebem alguma coisa enquanto esperam?
- Uma chopp pra mim.
- Eu gostaria de uma Coca – Laura olha para a barriga ainda inchada por causa da cesárea e arremata – light.

Ela estendeu uma pequena folha de papel com a marca do restaurante impressa e o número dezesseis escrito em caneta vermelha. Anotou os pedidos e armou novamente o seu sorriso e os deixou para trás. Aqueles clientes eram favas contadas e novas pessoas chegavam. Deviam ser abordadas assim que pusessem os pés nos limites do restaurante. Atenção imediata é a regra da casa. “Distribua um sorriso, a senha, diga que várias mesas estão para sair e adiante o pedido da bebida.” Pronto, a resistência a ficar esperando por uma mesa é em geral quebrada com esses simples procedimentos. Digamos que com um apreciável índice de sucesso que beira oitenta e nove por cento.


Depois de esperar por vinte minutos, mas ainda assim calmo e paciente pelo efeito de dois chopps, Roberto ouve o número dezesseis ser anunciado por um maitre que em seguida os conduz à mesa de número trinta e dois, que já os espera impecavelmente arrumada com toalhas alvas, pratos, copos e talheres tinindo de tão limpos. Eles sentaram e colocaram o carrinho com o pequeno João a vista dos dois. O garoto dormia a sono solto, agarrado a uma enorme chupeta vermelha, que parecia ser maior que o seu rosto.

- Bom dia, mais um chopp para o senhor e uma Coca Light para a senhora? – pergunta o garçom com voz amável.
- Não – responde Roberto – duas cocas, por favor.
- Limão e gelo?
- Isso.


O garçom vira as costas e sai em passos lépidos deixando para trás a entrada e o cardápio. Repararam que na mesa ao lado havia um casal na mesma situação. Também estavam acompanhados por um carrinho onde um bebê dormia a sono solto. O tal casal já estava desfrutando o prato principal. Roberto e Laura notaram algo estranho no casal. Eles tinham parado de comer e os encaravam com uma expressão clara de insatisfação. Estavam nitidamente incomodados. Assumindo que era pelo fato de estarem olhando para a garotinha dormindo no carrinho, eles simplesmente desviaram o olhar e se fixaram no cardápio.


Enquanto mordiscavam as cenouras da entrada e escolhiam o que iriam pedir, sua atenção foi chamada pela presença de uma pessoa em pé, ao lado da mesa. Roberto baixou o cardápio e viu o homem da mesa ao lado, com cara de poucos amigos.

- Tem gente que não sabe conviver em sociedade – dispara com fúria.
- Perdão?
- Não se faça de desentendido, meu amigo. O senhor e a sua esposa estão violando o sagrado direito de almoçarmos em paz e harmonia.
- Como? – Pergunta Roberto aturdido. – Nós estamos em um restaurante, escolhendo o nosso prato, não vejo como isso possa estar prejudicando alguém.
- A chupeta, meu senhor. Aquela enorme chupeta na boca do seu pobre filho.
- O que tem a chupeta dele?
- Ele está chupando essa chupeta ao lado da minha filha.
- E?
- O que eu estou tentando fazê-lo entender e parece que o senhor deliberadamente não quer, é que o seu filho está chupando uma chupeta perto da minha filha, o que a torna uma chupadora de chupeta passiva.

Roberto e Laura ficam em silêncio. Olham-se procurando um nos olhos dos outro uma resposta par aquilo. E como aquele homem em pé aumentara o volume da voz para explicar a razão do descontentamento, acabou chamando atenção das mesas a volta.

- Eu não sei o que falar.
- O senhor não tem que falar nada, apenas tirar a chupeta do seu filho.
- Mas e como é que a chupeta do meu filho vai poder prejudicar a sua filha?
- As crianças, meu amigo, agem por imitação. Quando a minha filha acordar e notar o seu filho chupando com tanto prazer esse instrumento que só serve para facilitar a vida de pais irresponsáveis e preguiçosos como o senhor e a sua esposa, obviamente vai querer fazer o mesmo.
- Irresponsável e preguiçoso não – levanta-se Roberto – quem está passando dos limites agora é o senhor.

O que chamava a atenção das mesas a volta começa a tomar conta do restaurante inteiro. Enquanto isso, Laura encarava a mãe da mesa ao lado que devolvia o olhar na mesma moeda. Se alguém passasse ne meio das duas provavelmente sofreria queimaduras em parte do corpo tal a energia dispendida naquele cara a cara. O garçom chega com as Cocas de Roberto e Laura.

- O que o senhor pensa que está fazendo? - pergunta o homem para o garçom.
- Eles pediram Coca light. Estou servindo, ué?
- O senhor vai recolher as Cocas, a entrada e vai colocá-los em uma outra mesa.
- Os incomodados que se retirem – retruca Roberto.

Como a discussão tomava proporções indesejáveis, o maitre aparece para tentar solucionar o caso.

- Qual é o problema, senhores?
- O problema? – Exalta-se ainda mais o pai da menina – O problema é que o seu restaurante tem área para fumantes, mas não tem uma área para viciados em chupeta.
- Mas isso é um tanto incomum.
- Isso é coisa de louco – completa Roberto.

O restaurante definitivamente pára para assistir aquela disputa. A hostess desistiu de distribuir senhas e foi até o meio do salão para poder assistir melhor a justa. Ninguém pegava num garfo, numa colher. A comida esfriava nos pratos. Laura e a outra mulher fuzilavam-se com os olhos.

- Louco é o senhor que deixa o seu filho chupar esse troço. Vai ver que arcada dentária ele vai ter.
- Em primeiro lugar a chupeta dele é ortodôntica, meu amigo. E se continuar insultando o meu filho você é que vai ficar com a arcada dentária prejudicada.
- Senhores, pelo amor de Deus, sejamos razoáveis.
- Com um viciado sentado na mesa ao lado? – Grita o pai da menina sem chupeta. – Disse uma vez e repito. Minha filha não vai ser uma usuária de chupeta passiva. Trate de resolver esse assunto. Porque nós não saímos dessa mesa.
- Nós é que não vamos arredar pé da nossa mesa. – Grita ainda mais alto o Roberto - Ainda não inventaram uma lei anti-chupeta nesse país.

Os dois vizinhos de mesa estão cara a cara. Uma distância ridícula de mais ou menos cinco centímetros separam as pontas de seus narizes. Partir para vias de fato parece uma consequência iminente e inevitável. O maitre estava prestes a arrancar os cabelos. Nesse momento em que qualquer acordo de paz está fora de questão, dois gritos ainda mais altos dos que os dos dois pais exaltados fizeram-se ouvir. O choro dos bebês. Um berro potente, invadindo as dependências do restaurante. Só podia ser uma coisa: fome. As mães prontamente desarmaram-se e, instintivamente, puseram-se a amamentar. O garçom e o maitre olhavam aquela cena terna emocionados. Roberto e o pai do garoto perceberam os dois olhando para as suas esposas. Eles, então se olharam.

- Eles estão olhando para os seios de nossas esposas? – Pergunta Roberto.
- É o que está parecendo. – responde o pai da menina.


Finalmente, aqueles dois pais brigões estavam do mesmo lado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Desfutibolizado

Ele era louco por futebol. Não podia passar na frente de alguma televisão, fosse no bar, na quitanda, na vitrine, aeroporto, era só ver aquele imenso verde na tela e sobre este verde pequenos pontos, alguns em uma matiz de cor predominante e outros em outra, correndo atrás de uma esfera branca que estancava o passo para dar uma olhadela. Era –lhe irresistível.

Um dia, quase bateu o carro porque passava por uma estrada que beirava um campo de futebol de várzea, onde dois times duelavam num sábado cinzento, devidamente fardados, e ele resolveu acompanhar os lances da peleja em vez de olhar para frente, Felizmente, para aproveitar o máximo do jogo, havia diminuído dramaticamente a velocidade e foi isso que evitou o acidente. Isso e o grito de susto da esposa, que o fez voltar a olhar pra frente a tempo de ver a traseira de um caminhão de entrega de bebidas se aproximando.
Como todo bom brasileiro, passou a gostar de futebol pela via do seu time do coração, que vinha a ser, também o mesmo time pelo qual o seu pai torcia. Seus primeiros passos na arquibancada foram dados de mãos dadas com o velho, quer dizer, na época, para quem tinha uns 4 anos, ele parecia velho.

Nos ciclos vencedores sempre era mais fácil encarar as segundas na escola, onde chegava com o peito inflado de orgulho, como se ele mesmo tivesse entrado em campo no domingo e amealhado mais uma vitória acompanhada de uma “atuação convincente”, como diziam os comentaristas. Nas derrotas, as segundas-feiras eram-lhe um suplício, mas aguentava com coragem as gozações de colegas que torciam para o time rival, sabendo que a volta ia ser doce, caramelada. O que era certo, garantido, é que continuava indo ao estádio dar força para o time nestes momentos.

Fato é que, os anos passaram e aquele garoto tornou-se um adulto que continuava vibrando com as alegrias, sofrendo com as tristezas proporcionadas pelo seu time, dono daquelas arquibancadas onde dera seus primeiros passos de torcedor. Até chegarmos aos dias de hoje.


Seu time, coitado, segue há mais de dez anos sem títulos de vulto, o que, para uma grande associação, é mesmo um problema. E neste ano então? O coitado passou a amargar domingos cada vez mais tristes, onde o seu time, numa regularidade impressionante, só faz perder e, no máximo, comemorar um empate. Caminha célere para a segunda divisão. O mais grave é que ele, diferente das outras vezes em que sofreu, não parece ver solução e tampouco longínqua. Seu time já fez três a alegria de pagar indenizações gordas a dois treinadores e está com um terceiro na casamata,

Para ele, parece óbvio que a causa dessa coleção de desastres, segundo suas convicções, não está exatamente lá dentro do campo. O que acontece ali é uma consequência de anos e anos de usurpação da associação pelos que a tem dirigido. Na direção, no conselho do clube, os nomes e sobrenomes são os mesmos desde os tempos em que ia ao estádio pelas mãos do pai. Nomes que também andavam pelos tribunais e pelos corredores e galerias do Congresso Nacional e Assembleia Legislativa Estadual. Ele deu-se conta de que seu clube do coração sempre fora trampolim de interesses e, depois de anos dessa prática, exauriu-se, sem produzir novos dirigentes, com novas ideias e, principalmente, ideais. O clube parece uma monarquia anacrônica, doente, com consequências que se espalharam como uma septicemia por toda a associação, hoje combalida.

A torcida, sedenta por títulos e imediatista por natureza, discursa olhando para trás, pedindo nomes ainda mais antigos e retrógrados só porque ganharam títulos num passado remoto que não volta mais. Ele, bem, ele passou a sofrer um fenômeno interessante. A desesperança com seu time é tanta, que passou a mergulhar no que chamou de um processo de desfutebolização voluntária. Ele não tinha mais pra quem torcer, pois seu time não representava mais a sua maneira de ver a vida e, portanto, não queria ter mais interesse no esporte em si.

Nos primeiros momentos foi difícil. Esforçava-se para não ver mais jogos na televisão, mas era-lhe difícil vencer um hábito, que ele percebeu ser praticamente um vício. O que nos leva a seguinte conclusão: a desfutibolização voluntária é, nada mais, nada menos, um processo de desintoxicação. E como tal, um processo penoso. Quando mudava de canal e passava por um partida sendo transmitida, compacto de um jogo da rodada ou uma mesa redonda, parava. Quando dava-se conta, que já xingava juiz, chamava comentarista de burro, voltava a acionar o controle remoto sentindo-se culpado, como quem fuma um cigarro depois de ter tomado a decisão de parar de fumar.

A seguir, tomou uma decisão mais drástica. Ligou para a operadora de televisão a cabo e pediu cancelamento do pacote que transmitia os jogos do campeonato nacional. Levou horas para completar a operação, já que o atendente não queria entregar assim, de mão beijada, os mais de cinquenta reais mensais que o pacote custava.

A medida em que foi se desfutibilizando, passou a ter mais tempo. Seus finais de semana tornaram-se ricos em novas atividades. Passou a cozinhar, tocar mais seu violão, retomou o prazer de dedicar muito mais tempo a leitura, passou a sair em excursões com a família para conhecer a própria cidade e arredores. Estava livre de ouvir as besteiras de comentaristas exibidos que desfilavam sua arrogância rasa em microfones e em frente as câmeras. Livrou-se também das mesas redondas. Estava completamente desfutibolizado. Nem sabia em que estado andava o eu ex-time.



Mas não estava livre de ouvir os xingamentos de alguns amigos que, com o olhar furibundo, o acusavam de abandonar a causa, de ser infiel ao seu time. E sempre que ouvia tal acusação levantava-se cheio de brios e discursava:

“Questionam a minha fidelidade, o amor ao meu time? Mas, e a fidelidade do meu time por mim? Eu penso grande e quero torcer para um clube grande, mas este clube, o qual acompanhei minha vida inteira hoje não é fiel aos seus antigos preceitos pelos quais o escolhi como meu amor bretão. A grandeza foi jogada no lixo das vaidades e hoje caminhamos a passos largos parra a pequenez. Se eu escolhesse o caminho fácil, iria torcer para outro time, quem sabe, um time de alhures como o Arsenal ou o Barcelona. Isso sim, seria a infidelidade, a pequenez da minha sangrada alma. Essa é para mim uma atitude tão inconcebível quanto pra vocês. Por isso, trilhei um caminho doloroso. Eu me desfuteboliozei, meus camaradas. Preferi a morte do futebol dentro de mim. Vocês fazem ideia do quanto isso foi sofrido? Pois foi. Por isso, não vou admitir dedos acusadores na minha cara. Eu fui muito mais digno do que você podem sequer imaginar. Agora me deem licença, porque vou pra casa assistir a decisão do campeonato canadense de curling, que está emocionante. Daqui a dez minutos começa”

domingo, 31 de julho de 2011

Crônicas de San Francisco 4 – Encontro no John’s Grill

Lá estava ele, encravado na Ellis Street, mas, mesmo de dia, chamava atenção com seu toldo verde e seus neons que falavam de um jeito orgulhoso “Ei, rapaz, sou eu, John’s Grill. Isso mesmo, o lugar onde Sam Spade costuma aparecer para saborear suas costeletas com batatas e rodelas de tomate, enquanto pensa em como resolver os intrincados casos para os quais é contratado. Aqui, mesmo, meu rapaz. Aqui é a casa do Falcão Maltês.” Entramos por uma porta de madeira e vidro e fomos dar em um mini hall de com outra porta, esta sim, nos colocava para dentro do restaurante.

A primeira visão que temos do lugar é um sorriso enorme, cercado por um rosto bochechudo, com olhos apertados, justamente por causa do sorriso enorme. O cabelo preto e encaracolado parece uma moldura rococó para aquele rosto. Do pescoço para baixo, um corpo proporcional ao rosto, enfiado num vestido preto, que termina nos dois joelhos e viram canelas muito breves porque logo entram pelos canos altos de um par de botas da mesma cor do vestido. A hostess nos leva para a mesa com passos leves e ágeis a despeito do seu peso avantajado. Enquanto a sigo, presto atenção no interior do restaurante. Em frente a porta pela qual entramos, atrás do púlpito onde estava a hostess, existe uma fileira com não mais do que três mesas. A fileira acaba em um bar, onde um barman mexicano nos recebe mostrando seus dentes muito brancos contrastando com o bigode negro, que parece um toldo sobre a sua boca. A parte mais extensa do bar não fica virada para a porta, mas para o salão com as demais mesas, duas fileiras delas, iluminadas pela luz que vem do janelão que dá pra a rua e que fica ao lado da porta de entrada. Essa é,aquela hora do dia, a fonte de iluminação do lugar.

Os olhos vão se acostumando a esta iluminação propositalmente deficiente e descobrem, aos poucos, detalhes como os quadros com fotos nas paredes, como os olos que testemunharam tudo o que a cidade de San Francisco andou passando desde que o John’s Grill existe. E por falar nisso, há um cheiro bem pronunciado de passado, como se bolsões de ar dos anos 40 ainda perambulassem pelo lugar, o que, não duvido, seja verdade.

Como são quase quatro horas da tarde, a frequência se resume a três homens no bar e apenas uma das mesas do restaurante ocupadas por uma família de turistas, como nós. A hostess, cujo nome era Geena, nos colocou em uma mesa perto da janela. Foi sentarmos a mesa para uma garçonete séria, de cabelos longos, lisos e loiros, corpo esguio, praticamente o inverso de Geena, vir nos atender. Ela tinha um nome surpreendentemente latino: Carmem. As meninas perguntaram a ela onde era o banheiro e a e ela, com uma objetividade tipica dos Estados Uinidos tanto na voz quanto nos gestos, respondeu a questão e la se foram elas, juntas demorar no toilete enquanto fiquei lendo o menu.

De repente, senti uma coceira nos olhos e então passei a massagear as pálpebras fechadas com o polegar e o indicador para aliviá-la. Ao acabar a massagem e abrir os olhos vi uma figura sentada a minha frente, ainda meio fora de foco. E quando etrou em foco, achei que estava fora de mim

- Humphrey Bogart?
- Ah, mais um que me chama por este nome! – Humphrey respondeu com aquela fala rápida e arrastada - Deixe-me esclarecer uma coisa: meu nome é Sam Spade, detetive particular. E, neste caso, eu sou o Sam Spade que está no seu inconsciente. No caso, o baixinho aqui. Você sabe que na verdade fui concebido como um cara alto, de cabelos castanhos bem claros. Mas Hollywood reduziu o meu tamanho em uns bons centímetros e, ainda por cima, colocaram-me estes cabelos negros.
- Bom, funcionou, de qualquer maneira.

Falei algo espantado por estar aceitando como normal o fato de conversar com um ator ícone que já morreu, mas que na verdade dizia ser um dos mais famosos detetives da literatura policial, criado por Dashiel Hammett e que costumava frequentar o restaurante em que eu estava, como já foi explicado no inicio.

- Eu posso perguntar...
- Por que eu estou aqui, bem a sua frente? - Interrompeu ele adivinhando o óbvio. – Você é um escritor que veio aqui pela atmosfera. Por tudo o que este lugar representa.
- Bom, escritor seria um certo exagero.
- Você escreve histórias. Você cria pessoas do mesmo jeito que eu fui criado. Você termina suas histórias. Você é um escritor,
- De onde você tirou essa ideia?
- O caderninho e o pequeno lápis que você tirou do bolso ao sentar me disseram isso, meu caro.
- Perspicaz.
- Qualidade essencial em um detetive.
- É.
- Bom e já que você veio aqui pelos motivos que já expus, achei justo que tivéssemos esta conversa.
- Estamos mesmo tendo esta conversa?
- Claro que estamos. E digo mais: ela é um dos pontos altos da sua viagem a San Francisco.

Ele pegou um cigarro me encarando com um leve sorriso no rosto. Um sorriso de quem vai revelar algo que eu devo saber.

- Responda uma coisa: de que você prefere ser chamado, de cínico ou de hipócrita?
- Cínico.
- E poderia me esclarecer por que?
- Os cínicos são de uma sinceridade insuportável. Costumam dizer a verdade por ironia. Hipócritas, são os bons moços de fachada. Nada de interessantes sai de um Hipócrita, pelo contrário, eles lutam com um afinco religioso para tornar o mundo tão medíocre quanto eles.
- Você diria que cínicos dão bons escritores e hipócritas dão bons críticos?
- Não existe algo como um bom crítico.
- Não mesmo. Alguém que esconde a própria covardia para julgar aquele que tem coragem de pelo menos tentar é um imbecil completo. Aqueles que criam parâmetros medíocres para definir o que é bom e o que não é destroem a energia criativa. Existem muito mais pessoas como eles do que pessoas como você.
- O que são pessoas como eu?
- Cínicos, que tem a coragem de sublinhar as verdade com mentiras que, de modo geral, todos sabem que são mentiras e aí mesmo está a beleza do cinismo.
- Não entendi.
- Dashiel me criou diferente dos outros detetives. Durão, egoísta, nada bom moço. Porque um detetive de verdade perambula no mundo onde o pior do ser humano se revela. Dashiel disse o que pensa através de mim. Isso é cinismo no seu mais alto grau.
- Então, todo escritor tem que ser cínico.
- Cínico e corajoso para se expor do jeito mais solitário do mundo. A sua única companhia, neste momento, somos nós. E nós gostariamos de continuar existindo. Eu estou aqui para pedir a você que nunca desista. Continue a ser cínico, que se exponha e que não tenha medo do que os hipócritas vão pensar das coisas que você faz.
- Eles que se danem?
- Quando você faz algo relevante três coisas acontecem: primeiro eles te ignoram. Depois, te ridicularizam.
Depois, te combatem e por último, você vence.
- Apreneu isso com o pior do ser humano?
- Não, lewndo Gandhi. Eu lido com a escória, mas tenho meus momentos.

Ao ver o meu sorriso ele respondeu com outro. Um sorriso amistoso. Pegou o chapéu que estava sobre a mesa e, antes de colocá-lo na cabeça, olhou-me nos olhos e arrematou.

- E aqui vai outro conselho: não peça as costeletas com batatas e tomates que eu pedia.
- E porque não devo pedir?
- O cozinheiro daqui já não é o mesmo da minha época. Este sempre passa do ponto ideal das costeletas e deixa as batatas um pouco cruas. Peça um spaguetti com almôndegas que você vai gostar mais.

Sam colocou chapéu na cabeça e foi embora. Passou pelas meninas que vinham do banheiro. Elas nem perceberam.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Crônicas de San Francisco 3 - Os Grisalhos do Castro

O bairro do Castro, em San Francisco, dispensa maiores explicações. É só mencioná-lo para ouvirmos risinhos e piadinhas homofóbicas de sempre, incluindo as minhas, é bom que fique claro antes que me chamem de engajado, coisa que não sou para nada, a não ser em defesa do bom senso. Pois um passeio pelo bairro revela-nos um lugar realmente aprazível, com casas vitorianas em sua maioria reformadas, porém, respeitando a arquitetura e pintura originais, ladeiras de fazer a gente bufar e por muito pouco não deixar mesmo o coração em San Francisco, como dizia o Tony Bennett, , árvores e pássaros gorjeando dando um ar ainda mais bucólico à região. Pensem o que quiser, mas eu moraria lá fácil, provavelmente passando o primeiro mês repetindo a frase "thank you, I`m flattered, but I´m straight".
Quanto mais nos aproximamos da Market Street, mais a coisa vai ficando diferente. As casas dão lugar à lojas e o ar bucólico da lugar ao movimento.. A primeira sensação é estranha. Não estava, definitivamente, acostumado a perambular por um mundo onde os homossexuais são a imensa maioria. A diferença é que ninguém estava me olhando feio. Ninguém falou alguma gracinha. Aliás, não estavam nem aí para mim e para as meninas. O tempo passa e você vai ficando mais a vontade com o mundo inverso. E daí, começa a perceber uma coisa curiosa. A maioria dos habitantes do bairro, pelo menos os que ali perambulavam em casais de homens de mulheres ou solitários, tinham idade um tanto avançada. Não sei se acontece só comigo, mas quando a palavra gay é mencionada perto de mim, a primeira coisa que me vem a mente são pessoas entre os 20 e 40 anos. Mas o que eu vi por lá foi um enorme contingente de gays com mais de 55 anos. Cabelos grisalhos aos borbotões. Em certos casos, cabelos e bigodes grisalhos, como os de Erik, um dos típicos habitantes do bairro que, ao ouvir a gente conversando na mesa da lanchonete Orphan Andy´s, aproximou-se de nós e passou a travar um diálogo que transmito agora, devidamente traduzido.

- Desculpe, mas de onde são vocês?
- Brasil – respondeu minha filha.
- Ah, eu estava ouvindo vocês falarem. Adoro a musicalidade do português. É a primeira vez em San Francisco?
- É. E você, mora aqui no bairro?
- Moro. Depois de anos em guerra comigo mesmo, encontrei a paz e vim morar aqui.
- Guerra com você mesmo¿
- Isso
- Eu tenho uma curiosidade. Como foi pra você até o momento que você assumiu – perguntei. – Quero dizer,ser gay há décadas atrás era bem mais dificil, não¿
O que veio daqui pra frente foi surpreendente. Aquele homem que mais tarde disse que tinha 63 anos de idade passou a contar a história da sua vida em pouquíssimas linhas.

- Era. E, antes de assumir, eu era um aqueles que tornava as coisas mais difíceis, Eu fiz carreira no exército americano. Fui oficial no Vietnam e, felizmente, voltei com a minha sanidade intacta. Na época, o jeito de lsufocar aquilo que eu realmente era foi me tornar um homofóbico ferrenho. Durante a guerra descobri dois homossexuais no pelotão que eu comandava. Eu os persegui incessantemente. Dava a eles as piores missões, dizia que eles faziam errado quando faziam certo. Num dia, em uma missão de reconhecimento, caímos em uma emboscada e eles deram a vida para salvar oito homens do pelotão. Passei o resto da guerra vendo os dois em cada missão. Assombrações me vigiando, apontando o dedo pra mim, lembrando da minha opção sexual que eu tentava esquecer. Quando a guerra acabou e eu voltei pra casa, o meu filho, que nascera enquanto eu estava no Vietnam, já tinha um ano e meio de idade. Não demorou muito e minha mulher engravidou de novo. Foi uma gravidez complicada e ela acabou morrendo no parto da nossa filha, Melinda. Criei os dois sozinho. Meu filho, Edward, começou a demonstrar claramente suas tendências homossexuais desde pequeno. Eu sabia exatamente o que ele sentia, suas dúvidas, seus medos. Aquela era a primeira mensagem. A segunda não tardou. Melinda também passou a demonstrar claras tendências homossexuais. Meu filho e minha filha eram ambos gays. Querem saber o que eu penso?- aproximou o rosto dos nossos e passou a falar num tom ais baixo, como se tivesse medo de que as pessoas nas mesas pr[oximas fossem escutar. - Eu acho que aqueles dois soldados voltaram como meus filhos. E para mim isso foi o suficiente para que eu me tornasse quem sou de verdade. Casei novamente. E agora, moro aqui. Estou pela primeira vez no meu verdadeiro lugar.


Neste momento, o garçon que nos atendeu estava saindo. Era o final do seu turno. O nome dele é Joel. O marido de Erik. Saíram de mãos dadas e pareciam bem felizes. E nós...bem, nós tivemos que chamar outro garom para pedir a conta.

sábado, 9 de julho de 2011

Crônicas de San Francisco 2 - O Paraiso dos Esquizofrênicos

Não sei por quantos já passei, mas não conto menos de vinte diferentes desde quando cheguei, o que dá uma média de cinco por dia. Refiro-me aos moradores de rua que falam sozinhos. Temos dos mais variados tipos. Os que falam baixinho, com olhos arregalados, para o seu companheiro imaginário ao lado, como que contando um segredo terrível o qual, não descarto, seja uma conspiração alienígena que visa não destruir cidades com armas de incrível poder destrutivo, mas, quem sabe, escravizar os humanos para que eles venham a trabalhar para os futuros donos do campinho.

Tem os que reclamam com gestos largos, também para um companheiro imaginário ao lado, contra o aumento dos impostos que ele, ou ela, de qualquer maneira, já nem pagam mais, mas enfim, reclamar pode ser um vício igualzinho ao cigarro e uma crise de abstinência não é, de maneira alguma, algo que este pessoal esteja com vontade de encarar.

Há os teatrais, que falam em voz empostada, contando verdadeiras epopeias, talvez candidatos a atores e atrizes que tenham fracassado na sua busca pelo estrelato na Califórnia, mas obtido sucesso tremendo na quantidade consumida de drogas a ponto de fazer da rua o seu cenário e dos transeuntes o seu publico cativo.

E há os de filme, aqueles que parecem ter caído direto alguma das tantas guerras em que este país está metido, para as ruas de San Francisco. Parecem acuados, esperando que alguma bomba vinda sabe-se lá de onde vá explodir perto deles a qualquer momento.

Enfim, chama a atenção essa imensa quantidade de esquizofrênicos vagando por aqui. Fico tentando formular alguma teoria válida. Por exemplo, San Francisco foi a meca do movimento hippie com farto consumo de heroína, mescalina e tantas outras inas. Será que isso comprometeu o bom funcionamento cerebral das gerações vindouras? Ou a teoria da minha filha que diz que após o grande terremoto de1906 as pessoas que perderam suas casas e não puderam comprar novas criaram gerações de moradores de rua que foram enlouquecendo aos poucos. Outra boa teoria: todos os moradores de rua daqui são médiuns e, portanto, dialogam com os espíritos que vagem pela cidade. Agora, como este é um país riquíssimo, talvez todos eles tenham bluetooths de tamanho irrisório em suas orelhas e eu é que acho que estão todos falando sozinhos.

Crônicas de San Francisco - Turismo e descoberta.

Toda vez que chego a algum lugar penso que vou alugar um carro e conhecer um monte de coisas incríveis em pouquíssimo tempo. Algumas que a gente já sabe que existem de antemão, outras que são sugeridas por amigos seja porque você perguntou, seja porque eles estão realmente interessados em que você se divirta. Ocorre que, quando chego em alguma cidade, esteja ela onde estiver, não consigo simplesmente não andar usando o meio de transporte mais antigo que existe: as pernas direita e esquerda. Chegar direto ao ponto determinado, ou seja, fazer turismo, não tem a menor graça, pelo menos pra mim. Liberar doses cavalares de ácido láctico pode ser doloroso por um lado, mas nos oferece momentos únicos. E depois, as dores musculares somem, mas as descobertas ficam guardadas em um ponto da nossa memória que resume todas as sensações que passaram por nossos cinco sentidos.

Hoje, saímos do hotel decididos a pegar um daqueles bondinhos típicos da cidade de San Francisco e cair direto no fervo que é o Pier 39, num local chamado Fisherman’s Wharf, região de Embarcadero, onde fica o porto da cidade. Mas ao sairmos do hotel, sem prévia combinação, passamos a caminhar olhando absortos cada prédio, ouvindo cada barulho e passando por inúmeros homeless , muitos deles falando com algum companheiro imaginário (assunto de que me ocuparei em outra oportunidade). E quando nos demos conta, descobrimos um parque encravado entre a MIssion Street e a 4th street chamado Yerba Buena Garden.

Até aí, nada demais, a despeito do parque ser muito interessante. O que fez a diferença é que, neste exato momento, acontecia um show que, viemos a saber depois, fazia parte de um festival chamado Yerba Buena Gardens Festival. A ideia do festival é promover a convivência entre as pessoas em parques e espaços abertos da cidade. Havia uma incrível variedade de tons musicais, de cores e até de seres humanos espalhados pela grama com cheiro de recém cortada com seus pratos de comida, já que era hora de almoço. Nos misturamos a tudo, como residentes, ouvindo uma banda da melhor qualidade acariciando nossos ouvidos com o jazz mais bossa nova que eu já tinha ouvido.

Aquela era uma oportunidade única que a cidade, agradecida por não sairmos correndo feito obcecados para ver aquelas coisas que dela sempre querem ver, resolveu nos revelar como quem se abre para um amigo em quem confia. Caminhar é entrar em escaninhos, fiordes, desvios. Andar é falar a toda hora “olha, vamos ver o que tem ali?” e sempre tem alguma coisa. Andar é descobrir.

É claro que fomos ao Fischerman Wharf e é lógico que também foi muito divertido. Lojas e restaurantes coloridos, tudo tremendamente organizado para o consumo, o que também tem lá o seu apelo. Amanhã tem mais. Agora, por favor, deem licença mas vou fazer uns alongamentos. Minhas pernas vão precisar.

domingo, 3 de julho de 2011

Espelho

Andavam os dois de carro pela cidade. Um dirigia, o outro só falava.

- E essa copa de 2014? Neguinho vai se locupretar atrasando obra de aeroporto, de estádio, tudo de propósito pra fazer as coisas a toque de caixa e superfaturar sem licitação…sai de trás desse cara,…passa pela direita mesmo. E o Paloccil? Enriquecer 20 vezes em 4 anos com uma empresa de consultoria de um homem só? Conta outra, pelo amor de Deus…O que? Claro que dá pra parar, faz filinha dupla ali que dá eu fico aqui no carro no caso de chegar o guarda….o que eu tava falando mesmo? Ah, esses politicos não têm jeito. E não é só politico, não. Você viu o presidente do supremo que levou a mulher com verba pública? Estamos pagando pra madame fazer compras em Nova Iorque. É o fim da picada…passa logo esse sinal vermelho que não tem ninguém atravessando mesmo, sinal inútil esse!…ah, e a votação do código ambiental? Mais uma palhaçada deste governo mancomunado com a bancada ruralista …o que? Ah, não vi o cinzeiro..também é só uma bitucazinha de nada, não faz nem cócegas em bueiro. E falando em bueiro, e o prefeito que agora se deu aumento? De 12 paus passou pra 20 e poucos paus. Eles não querem saber, o negócio é tirar vantagem, essa gentalha…ah, olha aqui essa nota de vinte. Tava com tinta vermelha, veio de assalto a caixa eletrônico, mas eu e uns amigos inventamos um jeito de lavar a tinta, que eu não vou até banco trocar que dá um trabalho do cão. Ta nova. E o Ricardo Teixeira que embolsou os tubos em propina? E continua mandando na CBF graças a bancada da bola la no Congresso, pouca vegonha. Aliás, falar em bola, ja arrajei as coisas pra liberar a carteira da tua filha, até semana que vem ela ta com tudo na mão. E ninguém se deu mal naquela história do dossier do Serra, hein? Isso aqui é mesmo uma terra de ninguém, vou te contar. Se é nos Estaduso Unidos ja tem uma dúzia atrás das grades…põe logo o carro na vada de idosos, não sei pra que tanta vaga pra eles. Duvido que tenha tanto velhinho assim dirigindo carro aqui dentro desse shopping…

Fidelidade

- Crepitar?
- Essa é boa.Realmente muito boa.
- E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
- Deve ter. Deve ter, vamos ver…
- Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
- Pomposo.
- Quem? Eu?
- Não, pomposo é uma palavra fiel.
- Sob que critério.
- Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
- Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
- É tem razão. Mas tem que ter outra.
- Firula. Firula é concorrente séria.
- Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
- Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
- Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
- Certo, certo. Corretíssimo.
- Então tá, onomatopéia não vale.
- Combinado. Ah, olha essa: altivo.
- Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
- É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
- Perde feio.
- Goleada acachapante?
- Opa, acachapante é boa.
- Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
- É boa…é boa.
- Mas não como crepitar.
- Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
- E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
- Inglês não. É contra as regras.
- E que tal diáfana.
- Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
- Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
- Então, crepitar continua soberano.
- Bruxuleante.
- O que?
- A luz bruxuleante das velas.
- Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
- Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
- Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
- Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
- Será?
- Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
- Acho que temos um empate.
- Então, empatado está.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Apartheid

Renato não tinha um smartphone. Para ele, uma coisa sempre foi muito clara: telefone é telefone. Não é relógio, não é agenda não é câmera fotográfica e tampouco computador. Telefone era uma peça que servia para comunicação a distância e a única vantagem que um celular trazia era ser um telefone sem fio que funcionava há muito mais do que os usuais trezentos metros da base. Renato nunca foi tocado pelas constantes e cada vez mais rápidas mudanças de tamanho, design e funções que aparelho vem sofrendo. Só trocava por um novo quando o que ele usava já mostrava sinais cabais de completa desfiguração funcional e física. E assim sempre viveu satisfeito e incólume a todo o movimento evolutivo dos tais “handsets” , alcunha com a qual os seus amigos mais moderninhos passaram a chamar o aparelho.

No entanto, esta postura pragmática diante das maravilhas cada vez mais impressionantes acumuladas em cada aparelho, acabou por afetar as interações sociais com as quais Renato se envolvia diariamente. No início, as reações eram tênues, quase imperceptíveis. No ambiente de trabalho, quando o seu celular tocava e ele atendia, risadinhas disfarçadas de colegas que ostentavam orgulhosos os seus BlackBerrys e seus iPhones ao perceberem que o Renato ainda lidava com um simples celular. Era o escárnio tecnológico ainda silencioso, quase mudo, mas presente como um miasma pairando no ar.

Ao sair com os colegas para almoçar, passou a perceber com um pouco mais de clareza que algo não estava certo. Ao chegar, todos colocavam os seus smartphones sobre a mesa normalmente, mas quando o Renato colocava ali o seu celular, todos olhavam para aquele celular e depois para o Renato como quem dizia, sem mencionar em palavras, que aquilo era um tanto inadmissível. Durante o almoço, a capacidade dos smartphones era o assunto da mesa. Discutia-se sobre novos aplicativos, trocavam músicas, fotos e endereços via bluetooth, o que deixava o Renato naturalmente alheio, mudo e sem assunto.


Com o tempo e inúmeros updates depois destes primeiros almoços, as reações preconceituosas contra Renato só aumentavam de intensidade. O ato de colocar os telefones sobre a mesa ganharam uma reação bem mais dramática. Era o Renato colocar o celular dele para os outros afastarem os seus smartphones de perto, como se fossem pegar algum vírus só por estar próximo daquela coisa antiquada e completamente demodê. Isso, primeiro era feito de maneira disfarçada, um pouco envergonhada. Mas, depois, passou a ser feito ostensivamente. As claras. Um recado inconteste que dizia: Renato, você e este celular não pertence a nossa turma.

O apartheid ficava ainda mais evidente quando, nestes almoços e também nos happy hours, o pessoal resolvia registrar os momentos de descontração usando as poderosas câmeras de sete, oito e até nove megapixels contidas em seus smartphones. No dia seguinte as fotos eram baixadas nos computadores e compartilhadas no escritório. Todos apareciam, menos o Renato. Notava-se o esforço para tirá-lo de quadro, o que as vezes era impossível e, portanto, algumas das fotos mostravam meio Renato, um quarto de Renato. O pobre era fatiado sem dó nem piedade.

Por fim, Renato passou a não ser convidado para mais nada. Combinavam todos os almoços e os happy hours nas suas costas. Não era convidado para festas. Era mantido como um leproso, longe da convivência da sociedade sadia. Solitário e sem apoio, Renato se tornou amargurado e descuidado. Tão descuidado que um dia, com a cabeça nas nuvens, acabou deixando cair o seu celular que se espatifou em centenas de pedaços. Ele disse que foi um acidente. Mas a mãe jura que o aparelho, em total depressão, suicidou-se.

domingo, 5 de junho de 2011

Golias e Davi

Sentado em sua ampla poltrona dentro de sua igualmente ampla sala acarpetada e com paredes revestidas em madeira de um marrom denso, peças decorativas cuja a mais barata pagaria dois anos de salário da sua secretária, Rafael Guedes não estava nada satisfeito. O cabelo cuidadosamente cortado e penteado, com cada fio parecendo ocupar o seu lugar correto no universo era uma perfeita moldura para um rosto que ia ficando avermelhado a medida em que a inveja empurrava sangue para a superfície de sua pele. Os olhos pequenos, fumegavam olhando para a revista em suas mãos. Ele contou e recontou as páginas, tendo o cuidado de esfregar cada uma delas usando indicador e o polegar molhados com a saliva para na vã esperança de que encontrar duas delas grudadas. Em sua concepção de vida, estava diante de um pecado. Dos mais graves. Daqueles puníveis de forma exemplar. Rafael pegou o telefone e com voz baixa e monotônica, chamou a secretária, dona Lucia. .

- Sim, seu Guedes.
- A senhora, por favor, chame a Miram, dona Lúcia?
- Agora mesmo, seu Guedes.

Um minuto e meio depois, entra pela sala, esbaforida e com os olhos arregalados uma mulher de 32 anos, cabelos negros, presos em coque, rosto de feições delicadíssimas. Uma delicadeza agredida sem piedade pelo cansaço que agora se misturava com um pavor que prenunciava o que estava por vir. Ela parou em frente a enorme mesa de mogno de seu patrão, se bem que ela pensava mais nele com seu dono. Os olhos contrariados de Rafael encontram os olhos condenados de Miriam. Ele sentiu um frêmito de prazer ao perceber aquele sentimento expresso no olhar dela. Sentia sabor de filé suculento na boca ao olhar aquela pessoa desmoronando a sua frente. As pernas bambas mal se sustentando sobre o sapato caro de salto, a cabeça fervendo e o corpo fragilidade formigando de cima a baixo. Ele sentia estendeu o silêncio por puro prazer. Até o sabor do filé desaparecer da sua boca. Então, jogou a revista sobre a mesa, que pousou, mansa, bem na frente dela.

- Eu quero acreditar que a senhora já tenha total consciência disso.
- Eu não sei como aconteceu.
- A senhora não é paga para saber ou não saber como isso aconteceu. É paga para que isso nunca aconteça. E muito bem paga.
- Mas eu acompanhei toda a publicação – a voz saía aos pedaços, falhada -, eu realmente não entendo como o artigo sobre ele saiu com duas páginas a mais do que o seu.
- Em primeiro lugar, não é ele. É Newton Johansen, que vem a ser meu ex-sócio e, como a senhora está sabendo, a pessoa que menos suporto neste planeta.
- Ele deve...ele deve
- O que ele deve ter feito a senhora devia ter sabido antes de ele fazer, obviamente, e desfazer ou fazer mais. Ninguém, em momento algum, deve ter um artigo, em qualquer revista com mais páginas do que um artigo sobre mim. Essa é a regra numero um de nosso contrato, dona Miriam. E a senhora a descumpriu logo com ele. A senhora sabe que eu vou monitorar a sua vida daqui pra frente, não sabe? A senhora que aprenda a fazer outra coisa, porque como assessora de imprensa nunca mais vai arranjar emprego em lugar algum. Saia da minha frente e deste prédio imediatamente.

Dona Lúcia vê Miriam saindo da sala de Rafael aos prantos. Já presenciara cenas como aquela inúmeras vezes. Uma pessoa entra na sala, a porta se fecha. Não se ouve som algum vindo de lá de dentro. E dona Lucia entende que aquele silêncio é a forma que Rafael tem de gritar. Ele se comporta como um Deus, o que naquele prédio ele realmente é. Quando está contrariado, não grita, apenas muda a expressão dos olhos, apertando-os um pouco mais, mirando quem está a sua frente, e passa a falar em uma nota só, pausando as palavras, do jeito que ele havia pedido para chamar Miriam ainda há pouco pelo telefone. O procedimento tem um efeito devastador. Valia mais que berros insuportavelmente altos. De repente, a porta se abre a pessoa que entrou sai como um zumbi ou como se tivesse passado por uma tortura ministrada por algum inquisitor espanhol.

Rafael sai revigorado de uma situação como esta. Se alimenta do pavor que extrai daqueles que trabalham para ele. É uma espécie de vampiro corporativo. Ele vê os seus funcionários, do menos ao mais graduado, como pratos de um banquete diário do qual serve-se a hora em que bem entende. Quando ninguém comete aquilo que ele julga como pecado, passa a criar situações de desconforto para alguém que ele escolhe a esmo. São dias torturando psicologicamente essa pessoa, mudando parâmetros de trabalho de uma hora para outra, fazendo com que a vítima sofra constantes descargas de adrenalina, muitas vezes destratando ele ou ela com uma insuportável elegância na frente dos seus colegas.

Apesar da truculência psicológica e um ego que sufoca quem está a sua volta, muitos são atraídos por ele. Ele é um imã para os ambiciosos e, como sabemos, estes estão em todo o lugar. A ambição alheia é a sua coleira. Com ela, domina completamente as pessoas que para ele trabalham. Joga com o ciúme e a competição bastando para isso dar um elogio que na verdade tem a função, não de incentivar o elogiado, mas de provocar os não elogiados. É como um sequestrador que tem mais de seiscentas vítimas com Síndrome de Estocolmo trabalhando para ele. Elas criam uma dependência doentia e, por mais maltratados que sejam, basta um sorriso vindo dele para terem a certeza de que vale a pena estar em suas empresas.

Após ter demitido Miriam, ele saiu de sua sala e dirigiu-se ao elevador particular, mas é impedido de utilizá-lo por um defeito banal. Ja tinha a quem destratar a tarde, mas o almoço marcado com o governador era no momento mais importante. Iria pelo elevador comum. Entrou e nem notou o jovem mensageiro do ali dentro. O corpo esbelto e alto de Rafael parecia ocupar todo o elevador, tal era a imponência que a sua presença transmitia. O garoto ficou espremido no canto do elevador. A porta se fechou e o elevador começou a descer. Ouvia-se apenas o zunido do motor do elevador ao longe. Rafael, embora percebendo a presença de alguém na caixa de três metros quadrados, não se dignou a sequer virar o pescoço para ver quem era. Naquele momento, ele parecia ter três metros de altura e o rapaz, que atendia pelo nome de Antonio, sentia-se com 50 centímetros. Foi quando Antônio pensava nessas duas medidas que ocorreu o tranco. O elevador parou entre o quarto e o quinto andar.

Houve aquele momento em que os dois esperavam que aquilo não tivesse acontecido. Que tinha sido apenas uma impressão e que, na verdade, o elevador estava ainda fazendo o seu caminho descendente. A constatação cabal de que o elevador tinha realmente parado não demorou a chegar. Não havia zunido vindo do motor. Não havia movimento. Não havia dúvida. A respiração de Rafael torna-se ofegante. Ele passa a bater com as mãos espalmadas no metal frio que reveste as paredes do elevador e a gritar desesperadamente por socorro, para espanto de Antônio, ainda no canto do elevador, acuado. Rafael então, pela primeira vez, olha para o outro. E o que Antônio vê muda completamente a percepção inicial daquela viagem. Os olhos de Rafael que eram como canos de uma arma apontados para qualquer um, que davam recado a todos que por ventura cruzassem o seu raio de visão que ali estava uma rocha feita de algum material fora deste mundo, quem nunca pediram ajuda a ninguém, estavam suplicantes, indefesos, desesperados. Sua testa porejava indiscriminadamente. Na visão de Antônio, aquele homem que há pouco media três metros diminuía a olhos vistos, como uma Alice após ter tomado a poção de diminuição. Tinha virado alguém comum, minúsculo, insignificante. Rafael estava tomado pelo pavor. Passava por uma situação que fazia tempo havia enterrado em algum lugar distante e insondável. Pela primeira vez em décadas, não estava no controle. Desmoronou na frente de Antônio. Ajoelhou-se em frente a este, pôs as duas mãos em seus ombros e o sacudia energicamente, enquanto repetia “eu preciso sair, eu preciso sair”. Estava histérico e só parou quando Antônio desferiu-lhe um tapa no rosto. Ali, dentro daquele elevador, os dois haviam trocado os papéis. Antônio mandou que se calasse e que respirasse fundo. O outro obedeceu. Em seguida, agindo com a razão, Antônio apertou o botão de alarme. Em seguida o som estridente da campainha era ouvido em todo prédio. Rafael observava e invejava a calma e o discernimento de Antônio, que, pela sua visão, movimentava-se com a graça e a leveza dos calmos diante de situações extremas como aquelas. Rafael faria tudo o que Antônio ordenasse. Em seguida, Antônio sentou-se ao lado e Rafael. Este, encostou a cabeça no ombro do rapaz, como se o toque naquela fortaleza transmitisse calma por osmose.

Passaram-se dez minutos até que fossem resgatados. Rafael saiu primeiro. Bastou respirar um pouco de ar fresco para resgatar o seu comportamento normal. Olhou parra Antônio e disse no ouvido deste “Você vai ser recompensado, desde que não fale nada a ninguém. Dirija-se ao meu secretário, ele estará esperando com um cheque com um valor que você nunca viu em sua vida.” Antonio vibrou com a possibilidade de realizar alguns sonhos que para Rafael eram pequenos demais. No carro Rafael mandou um recado ao secretário. “Avise Genésio. Quando o menino sair do banco...bom você já sabe… essa cidade anda mesmo muito violenta.”

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pais em TPM - Barrigas

Ela estava linda em seu uniforme escolar. Cabelos presos com duas maria chiquinhas. E uma franja mantida meticulosamente reta acompanhando a linha das sobrancelhas. Orgulhosa, porque ja tinha tamanho para ocupar o banco da frente do carro. Uma alegria que contrastava com o seu mau humor quase constante quando estava comigo e com a mãe dela. Os hormônios da adolescência somados a herança genética do pai, confesso. Mas naquele momento, naqueles minutos pós escola ali no carro, o seu sorrido redimia qualquer frase agressiva que terminasse em “saco”, referindo-se a uma simples pergunta do tipo, “você ja escovou os dentes?”. Naquele momento era a filha de 12 anos perfeita. Uma jóia da nossa criação. A coisa mais linda que podia haver no universo. Um ser vivo tão perfeito que mesmo que eu pudesse estar passando pelo pior dia da minha vida – o que não era o caso – tudo se tornaria pequeno, ínfimo, só de olhar para aquele ser vivo ali ao meu lado.

A sensação de alegria só aumentou quando eu perguntei como tinha sido a escola. Ao contrário do usual, a resposta veio leve, emoldurada por um sorriso incomum em circunstância como aquela. “Foi legal.” Sim, duas palavras apenas e nenhuma delas tinha sito “saco”. Se um dia me perguntassem “que momento em sua vida você gostaria que durasse uma eternidade?” eu citaria aquele, sem dúvida alguma. O entrosamento total entre um pai e uma filha. Tudo completamente encaixado, perfeito. As cores do mundo visto através dos vidros do carro estavam no seu exato lugar. O marrom dos troncos das árvores estavam no tom correto. O verde das folhas cintilavam ao encopntrar um raio de sol, dizendo que a clorofila fazia seu diligente trabalho de tirar do ar o famigerado gas carbônico, nos dando de presente o tão estimado oxigênio. O azul do céu bailava graciosamente com o branco de algumas nuvens que vagavam entregues a vontade do vento. E aquele doce sorriso ao meu lado. O sorriso vira-se em minha direção e, ao ouvir uma das música que vem de sua rádio preferida, sintonizada assim que ela entrou no carro, disse.

- Pai, você sabia que hoje é o aniversário do Taylor Lautner?
- Aniversário de quem?

A total ignorância sobre o mundo da minha querida filha de 12 anos revela-se na pergunta anterior e é sacramentada na próxima.

- Você tem um colega norte americano?
- Nããããããão, pai! O Jacob - o sorriso ainda mais lindo quando menciona Jacob.
- Mas afinal, é Taylor, é Jacob, Taylor Jacob ou Jacob Taylor?
- Pai, e Taylor Lautner, que faz o Jacob no filme Crepúsculo.
- Ah! Esse.


Respondi com um conhecimento mentiroso, afinal, não tinha remota idéia da fisionomia do rapaz, o que me foi esclarecido logo em seguida.

- Ele é lindo, pai. Ele tem aquela barriga de tanquinho…ai.


E, a partir daí, ela pasou a explicar os outros dotes físicos do rapaz mas eu ja não estava ouvindo. Barriga de tanquinho? Como uma menina de apenas 12 anos começa a descrever um sujeito que ela acha bonito pela barriga de tanquinho? Não podia ser pelo seus ohos encantadores? Seu sorriso lindo? Seus cabelos maravilhosos? Sua voz maviosa? Não, maviosa não que uma garota de 12 anos nunca usaria maviosa para descrever a voz de quem quer que seja. Não interessa. Quem olha a barriga de tanquinho de alguém são pessoas muito, mas muito mais velhas. Tive ganas de frear o carro. Mas não. Aquele era um momento de crise e nos momentos de crise, após o choque inicial é preciso que nos recomponhamos. Nada de coração, mas sim, a razão. A medida em que tentava me reencontrar no meio daquela conversa, o colorido perfeito de árvores, céu, nuvens desmanchavam-se e misturavam-se numa forma abstrata. Aquela barriga de tanquinho dita com um sorriso e aquelas olhinhos verdes a beira de revirarem-se acabaram com a pintura bucólica que eu acabei de descrever ainda agora.

Ao chegarmos em casa ela saiu do carro saltitante como sempre. E eu, acompanhando seus movimentos e me perguntando se aquela alegria era por causa de uma barrida de tanquinho estranjeira. Subi até o quarto e levantei a barra da camisa em frente ao espelho do quarto. Definitivamente, a minha barriga estava longe de ser de tanquinho. Só espero que ela não cresça tão rápido como a minha filha.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

As aventuras de JJ 3 - O serial lover.

Outro dia encontrei o Dr. José Augusto, grande amigo que enveredou pelo estudo da psiquê humana. Grande psiquiatra discípulo de Jung, mas de maneira nenhuma pode ser considerado um radical, uma vez que concorda com vários conceitos freudianos. Mas, o importante a ser tratado nestas linhas não é a corrente que o bom doutor acredita ou deixa de acreditar e sim a luz que ele jogou sobre um assunto recorrente a este que vos escreve. Como eu, o doutor José Augusto conhece muito bem o nosso querido JJ e, nesse nosso encontro para um café no meio da tarde, ele trouxe uma revelação perturbadora.

- Não há a menor sombra de dúvida, meu caro – afirma taxativo, o doutor José Augusto – o nosso amigo JJ é um psicopata.
- Pára com isso, José Augusto. Você quer me dizer que o JJ está na iminência de se tornar um assassino em série?
- Ele já é de certa forma.

Quase engasguei com o expresso carioca que bebia no momento. Seria possível que JJ já tivesse tirado uma vida e extraído do ato vil um prazer indescritível? E que talvez fosse seguir fazendo isso? Teria ele, quando criança, torturado moscas indefesas, arrancando suas asas e vendo-as agonizar em dor profunda? Sequestrado pássaros da gaiola dos vizinhos e deixado as pobres aves a mercê de algum gato esfomeado em uma sala fechada, não sem antes cortar-lhes as asas para impedir o vôo salvador? Mas o bom doutor esclareceu-me aquela afirmação de maneira surpreendente.

- Não, nada disso. Nosso JJ jamais tirou a vida de quem quer que fosse, inseto, pássaro ou ser humano. Seus impulsos são dirigidos para o ato sexual. – Empertigou-se na caderia e começou sua explicação com mais detalhes. - Como sabemos, para muitos psicopatas, o ato de tirar a vida tem conotações sexuais. Alguns, como sabemos, gozam enquanto perpetuam as barbaridades mais indescritíveis.

Eu sinceramente não conhecia tal fato. O cara goza introduzindo não o seu pênis em alguém, mas uma faca?

- Mas no caso de nosso querido JJ o ato é o puramente sexual. Eu classificaria o osso amigo como um “Serial Lover”. JJ, meu caro amigo, é um psicopata do amor.

Pedi outra rodada de cafezinhos com um bolinho de maçã pra acompanhar o relato. Nunca havia pensado em JJ nestes termos. O equivalente a um Jack, o Estripador, só que com consequências muito menos trágicas e horripilantes.

- Veja - seguiu o bom doutor – o nosso querido JJ tem um modus operandi que não nos deixa dúvidas. Primeiro, seu impulso é dedicado ao mesmo tipo de pessoa, no caso, mulheres, todas com atributos físicos, digamos, exuberantes. Como uma ave de rapina, ele avista a sua vítima e passa a sobrevoá-la. E aí, neste momento, revela-se mais um traço inconfundível. Ele invariavelmente encontra uma fraqueza em sua vitima, Algo que ela quer muito ou que a perturba. Encantador como qualquer psicopata, ele se coloca como solução para esta fraqueza. E aí temos o terceiro traço. Nosso amigo não tem moral alguma.

Percebendo os meus olhos arregalarem, o brom doutor apressa-se em explicar esta última colocação.

- Esta falta de moral é uma “amoralidade”. Isto é, ele simplesmente sofre de falta de culpa. Se ele, por exemplo, descobre que o sonho mais recôndido da sua vítima é casar-se na igreja, ele, sem o mínimo remorso, a convence de que o sonho da pobre moça é também o sonho dele. Essa ausência de culpa junta-se ao seu “descolamento social”, que se manifesta em pequenos atos que o tornam ainda mais encantador.
- Como?
- Abrir a porta do carro para uma mulher na frente de todos os amigos. Dar presentes a elas, de um bouquet de rosas a um brigadeiro na cara de todos no trabalho. Ele faz isso sem abalos, sem se importar com a opinião dos seus pares. Ele é impermeável à gozações, o que, aos olhos da mulher que é alvo de sua atenção, torna-o algo perto de um herói grego. Um semideus. Ela está entregue. E JJ, como sabemos, faz delas o que quer. E por último, vem a “pantomima da morte”.

O doutor deu aquela paradinha para criar suspense. Bebeu um gole do seu café. Foram segundos que pareciam durar décadas. Meu olhar era suplicante. O que seria a “pantomima da morte”?

- Delicioso este café. Eu dizia?
- A pantomima, José Augusto. A pantomima.
- A pantomima da morte. É uma consequência muito simples dos atos amorosos e sexuais de nosso amigo. Ele e a vítima ingressam em intenso relacionamento, para ela de profunda dependência. Para ele, sexual. Os encantos do nosso serial lover intensificam-se. Mas há um momento em que, saciado, JJ simplesmente desliga. Passa a não mais querer aquela mulher, a não ser como amiga e troféu vivo de carne e osso. Continua por perto, mantendo curta distância e, com isso, a chama que queima no peito de vítima continua viva e intensa. Elas todas saem destes idílios combalidas e entregues e, mesmo sabendo que JJ talvez nunca mais volte a ser delas, não conseguem pensar em outro homem que não nele. Enfim, elas, enquanto mulheres disponíveis jazem mortas para mim, para você e para todos os outros bilhões de habitantes do sexo masculino deste planeta.

Seguimos tomando o nosso café em silencio. Aquelas eram revelações científicas irrefutáveis. Terminamos e nos despedimos. Enquanto me dirigia para casa fiquei pensando em quantas vitimas JJ já tinha amealhado em sua coleção. Uma coisa era certa. Ele só ia ser procurado pela polícia se algum dia resolvesse ter caso com a mulher de algum delegado.

sábado, 21 de maio de 2011

O Papai Noel e o cientista.

Quando eu tinha sete anos de idade, minha mãe virou-se para mim com aquele seu jeito amável e perguntou o que eu iria pedir ao Papai Noel. Eu olhei fixamente para ela e disse que o Papai Noel era uma impossibilidade. Como é que um velho gordo metido numa fantasia vermelha e branca poderia ser capaz e de presentear todas as crianças do mundo em uma só noite? Ainda mais se locomovendo em um trenó voador puxado por renas, até porque renas não voavam. Mas se ela quisesse comprar um mini-laboratório de química ou os livros da coleção Conhecer estava ótimo para mim. Eu já tinha uma imensa curiosidade científica desde cedo. Aprender, para mim, era como bricar no balanço. Desde muito cedo eu fui dominado por uma lógica inascessível a uma criança da minha idade e, portanto, lendas nunca me emocionaram, incluindo o Natal, com todas suas histórias de velhos entrando por chaminés, renas voadoras e duendes empacotadores.

Por favor, não me julguem mal. Não é que eu não goste do Natal. Eu acho até uma bela data pelo poder que exerce nas pessoas. Há os que se deprimem, os que lançam irados protestos contra o excessivo mercantilismo e aqueles que são dominados por uma generosidade incontida, tentando dar em uma semana o que não deram o ano todo. Em mim, nada. O espírito natalino era uma impossibilidade para mim, visto que espírito era um conceito nada científico. E, para o físico que eu havia me tornado, conceitos nada científicos são uma total perda de tempo. Se tinha um velhinho de cabelos brancos que fez “milagres”, para mim, foi Einstein.

Mas no último Natal a minha falta de fé e emoção sofreu um sério abalo. Naquele 24 de dezembro me fui para o apartamento de minha tia Alberta. Ela foi a minha mais abnegada incentivadora para que eu tomasse o caminho da ciência. Eu simplesmente adoro a tia Alberta e, apesar de tudo o que já expliquei, sou presença certa nas suas ceias natalinas em seu apartamento.

Quando cheguei no prédio olhei o relógio de pulso. Eram dez horas em ponto. Astrogildo, o porteiro, cumprimentou-me com um ligeiro menear de cabeça. Não estava com boa cara. Provavelmente por estar trabalhando numa noite daquelas em que certamente preferia estar junto às filhas e à mulher. Caminhei até o elevador social e apertei o botão para subir. O elevador do prédio da tia Alberta sempre foi lento. Fiquei ali esperando entediado quando tive minha atenção chamada por vozes. O Astrogildo falava no interfone. A sua frente, todo empertigado e com um imenso saco nas costas, estava o Papai Noel. Bem, não o Papai Noel, mas um Papai Noel. Astrogildo balbuciou algo ininteligível para a figura encarnada, que tomou o rumo do elevador, que acabara de chegar. A porta se abriu e eu deixei que ele entrasse primeiro. Ele agradeceu como que por obrigação e logo entrou. Entrei atrás. Ele apertou o botão do vigésimo andar, a cobertura, eu o do décimo sétimo. A porta se fechou e a lenta ascensão começou. Ao chegar no nono andar um tranco. O elevador parou. Olho para o Papai Noel que retribui o olhar. Ele poreja e a sua respiração acelera.

- E agora? – pergunta ele, nervoso.

Minha resposta é apertar o botão de emergência. Nada. Nenhuma reação. Olhamo-nos de novo e tomamos a única decisão lógica para dois homens sensatos numa ocasião como aquela: socamos a porta aos gritos de socorro. Olhei para o relógio de pulso. Dez e cinco. Certamente alguém iria chegar e eu estaria no apartamento da tia Alberta em tempo de saborear uma deliciosa coxa de peru. O problema é que, naquele instante, o Papai Noel não compartilhava do meu otimismo.

- Quando sair daqui que eu vou encher aquele porteiro de porradas – esbravejou.
- Quem sabe ele já chamou ajuda? – Falei pausadamente, tentando acalmá-lo.
- Entende a merda que o mundo é? – Ele poreja por todo o rosto vermelho, uma extensão da sua roupa. – Esse incompetente aí fora tem um emprego.
- Deve haver algum motivo para ele não ter ouvido.
- O motivo eu já falei, é um incompetente.

Passou a chutar a porta novamente e a gritar. Eu ali olhando aquela cena patética. Um Papai Noel completamente fora de si aos berros dentro de um elevador.

- Isso não vai adiantar nada, meu amigo.
- Que intimidades são essas? – Ele se vira pra mim com o rosto desfigurado – Eu não sou seu amigo.
- Eu só estou tentando puxar conversa. É um bom remédio pra claustrofobia.
- Claustrofobia? – Ele ri pela primeira vez, um riso de escárnio - Quer conversar? Então vamos conversar. O seu nome, qual é?
- Gerson.
- Muito prazer, Gerson, como você já percebeu eu sou o Papai Noel. E o senhor faz o que?
- Sou físico.
- Eu não entendi.
- Sou formado em física e trabalho em pesquisas no campo da física quântica.
- Bem, doutor gênio, será que o senhor tem aí um telefone celular?
- Tenho.
- Então, por que não usar o seu aparelho para ligar seja lá para quem for que você veio visitar nesse prédio?

Não admira que ele me chamasse de gênio com todo aquele sarcasmo. Eu já devia ter pensado nisso há muito. Mas a idéia que era perfeita sofreu um pequeno revés.

- Fora de serviço.
- Droga! Mas que maldita droga!

Enquanto pragueja, ele enfia a mão no enorme saco e tira de lá um revólver. Uma pistola pra ser mais exato. Não era de plástico. Uma pistola verdadeira. Ele continua falando e gesticulando como antes, nervosamente. Só que agora eu também estou nervoso. Ele tem uma pistola na mão.

- Essa pistola é verdadeira? – Arrisco.
- Mas claro que é? Não tem outro jeito de fazer o que eu pretendo se ela disparar água, meu amigo cientista.
- E o que é que você pretende?
- Já que você quer mesmo conversa, eu vou te contar toda história – ele retoma o fôlego, senta-se ao meu lado e eu não tiro o olho da pistola em sua mão. – O homem aí da cobertura era o meu ex-patrão. Eu trabalhava na contabilidade de uma empresa de advocacia. Esse filho da puta me demitiu. O departamento estava buscando um novo perfil de profissional. – Faz uma suposta imitação do seu ex-patrão ao falar isso. - Cagou para todos os anos de dedicação à empresa e para a minha família.
- Eu sinto muito.
- Faça um favor para mim, amigo gênio, cale a boca e me deixe continuar.

Aquela pistola dava a ele toda a autoridade. Eu não iria discutir.

- O nome do dono da cobertura é Olegário. Nomezinho feio, não? Um dia eu recebo um recado do senhor Olegário. Ele queria que eu fosse até a empresa pois precisava muito falar comigo. Imagine a excitação que eu senti no momento em que recebi o recado. Achei que ele iria reparar a injustiça e me chamar de volta. Tudo não havia passado de um pesadelo. De um enorme engano. Lá cheguei, meu amigo gênio, com o peito inflado de felicidade. Somos tão idiotas, não é verdade? Ficamos felizes porque estamos ganhando algo que já tínhamos há muito. Cheguei na sala do senhor Olegário por quem fui muito bem recebido. Ele olhou para mim e disse “Meu bom José Carlos” ao que eu corrigi “João Carlos” e ele, então continuou, “Eu sempre confundi José e João. Bem, meu caro João Carlos, eu tenho uma proposta para o senhor. O Natal se aproxima e como eu sei que o senhor ainda não conseguiu uma colocação, eu posso, pelo menos, conseguir um meio de o senhor conseguir um dinheiro para o final de ano.” Eu fiquei um tanto decepcionado, mas segui ouvindo “A idéia é a seguinte, seu João Carlos. As ceias de Natal são sempre um acontecimento em nossa família. Mas as crianças, o senhor sabe, seu João Carlos, elas andam muito espertas. E como estão espertas! Bom, nestas ceias sempre alguém da nossa família faz as honras de ser o Papai Noel. Mas a criançada sempre descobre que o Papai Noel é falso, que é alguém da família com aquela barba de algodão. Então eu me lembrei do senhor, seu João Carlos. Essa barba branca e essa barriga acentuada, tudo de verdade. Sendo mais direto, seu João Carlos, eu queria que o senhor fosse o Papai Noel da nossa ceia deste ano. A criançada vai ficar maluca. Vai mesmo acreditar que o Papai Noel em pessoa está passando um tempo conosco. Vai ser o maior presente para os meus netos, seu João Carlos. Claro, que eu vou pagar um bom cachê pela sua atuação. E a roupa, claro, eu também fornecerei.

Ele começa a chorar copiosamente. Depois de ver um Papai Noel perturbado chutando a porta do elevador aos berros, agora vejo um Papai Noel se desmoronando emocionalmente ao meu lado. E com uma pistola na mão. Resolvi olhar para o meu relógio de pulso. Ele marcava dez e cinco. Ele tinha parado, até aí nada demais. Mas o estranho é que eu tinha trocado a bateria do relógio no dia anterior. Uma bateria já sem carga? Não se pode confiar em mais ninguém.

- Meu amigo gênio – ele se recompõe - eu deveria ter levantado, dado meia volta e ido embora ou, quem sabe, dar um murro na cara daquele filho da puta. Mas não. Simplesmente fiquei encarando aquele rosto narigudo por alguns segundos, totalmente prostrado na poltrona. E foi quando eu ouvi a voz que me soprou o plano em meu ouvido. Ela disse “aceite, vista a roupa de Papai Noel, pegue a sua pistola, entre com salvo conduto na casa deste idiota e quando toda a família estiver reunida, celebrando a sua chegada , quando você estiver cercado pelos netinhos dele, puxe a arma a atire na têmpora do vovô”. Então eu disse “sim, eu topo”. E agora, o elevador pifa e estamos nós aqui. O tempo passa, meu amigo gênio. E a minha determinação também.
- Você quer dizer que já não está mais tão certo do que vai fazer? – Pergunto carregando uma certa esperança.
- Não, eu não estou.
- Então por que você não me dá essa arma?

Ele ficou olhando para a pistola e começou a chorar outra vez e eu passei a ficar preocupado. Não por mim, mas por ele. Por um instante tive um grande receio dele apontar a arma para a própria cabeça e atirar. A idéia de passar o Natal com um Papai Noel morto num elevador não é a melhor, nem mesmo para alguém que não dá importância para data. Ele levantou a mão com a pistola até a altura dos olhos e passou a observa-la em todos os detalhes. Minhas narinas dilataram. Eu sentia um frio lancinante no estômago. Ele me encarou, olhos encharcados. Eram de uma tristeza avassaladora. Tive certeza que ele se mataria. Então, ele estendeu a mão com a arma em minha direção. Cano virado para ele. Ele estava me entregando a pistola. Eu a peguei imediatamente, antes que ele pudesse mudar de idéia. E, neste exato momento, o elevador passou a funcionar. O elevador parou no décimo sétimo. Eu saí sem dar uma palavra. A arma na mão. Virei-me e tive tempo de ter uma última visão do Papai Noel que logo desapareceu atrás das portas do elevador. Fiquei um tempo contemplando aquela arma, pensando naquilo tudo o que acabara de se passar. A lembrança de tia Alberta fez com que caísse na realidade novamente. Tinha de ir logo, pois ela e todos deviam estar preocupados com a minha ausência. Pelos meus cálculos havíamos passado mais de uma hora trancados lá dentro. Apressei o passo e logo cheguei ao apartamento. Num reflexo olhei para o relógio e ele marcava dez horas e nove minutos. Ele voltara a funcionar. Apertei a campainha. Podia ouvir o som de vozes, risadas, música que vinham de dentro do apartamento. Não parecia haver ninguém preocupado. A porta abriu e o sorriso iluminou o rosto de tia Alberta assim que ela pôs os olhos em mim.

- Gerson, meu querido, seja bem-vindo!

Ela não parecia nem um pouco preocupada. Estavam todos lá: primos, tios, meu irmão, a esposa e os meus sobrinhos. Ninguém parecia estar curioso por saber a razão da minha demora. Uma coisa me chamou a atenção. O peru estava inteiro, dominando o centro da mesa. Havia algo muito estranho no comportamento de todos. Nada denunciava que eu havia passado mais de uma hora trancado num elevador. E foi então que eu olhei para o relógio de parede na sala da tia Alberta. Ele marcava dez horas e onze minutos. Tia Alberta me deu uma taça de champanhe. Eu a peguei automaticamente. Bebi de um só gole ainda olhando para o relógio.

- Tudo bem, Gerson? – Perguntou a tia Alberta.
- O relógio da parede está certo, tia?
- Perfeito como sempre.

Pedi mais uma taça de champanhe. Ao contrário do relógio, a minha lógica acabava de perder sua perfeição.