domingo, 12 de dezembro de 2010

Presentes - (Selo Pais em TPM)

André cambeleava sem destino pela casa, ainda sem consciência total de que havia despertado. Acordara de sopetão ao olhar para o relógio na mesa de cabeceira e perceber que ja passavam das dez da manhã. Em sua cabeça, a confusão musical da noite anterior misturado aos som de inúmeros pré-adolescentes perambulando pela casa. Na verdade, permaneceu em sua mente durante o sono, como se a festa de anviersário da filha tivese atravessado a madrugada e chegado até ali pulsando ao som do bate estaca. Sabe Deus como chegou a cozinha e preparou seu usual café gelado. Achou o pão, pegou o leite e a manteiga na geladeira e a medida em que encheu seu estômago esvaziou a sua mente. Tinha entrado definitivamente no sábado. Foi até a porta da frente e pegou o jornal. A manchete, como sempre, ela alarmante. “Não dão folga nem no sábado”, André pensa. Pega o caderno de esportes. Ele sempre pega o caderno de esportes porque acha o mais inconsequente de todos. As crises lá expostas são tolas e pueris. É atÉ praticamente uma fotonovela. E os comentristas parecem mais lavadeiras fofoqueando sobre a vida alheia. Nada para pensar. Era isso que queria, no momento. Quando a cabeca estivesse cem por cento acordada, passaria para coisas mais inteligentes.

Depois de algum tempo mergulhado na sua leitura, percebeu que as gralhas que ouvia la fora davam gritinhos e falavam português. Foi quando concluiu que não eram gralhas e nem vinham do jardim. Eram Dora e Pati, mulher e a filha no quarto da última. Curioso, André deixou o jornal de lado e foi até a origem daqueles arroubos sonoros. “É incrivel como duas mulheres felizes podem parecer quatro ou cinco juntas. A alegria as multiplica”, ele pensa enquanto caminha em direção ao quarto da filha. Ao chegar, depara-se com as duas sentadas no chão ao lado de uma montanha de presentes, em cuja base, papéis coloridos e ja rasgados dos presentes abertos davam a impresão de lava colorida que jorrou de um vulcão esquisito. As duas estão conferindo os presentes e a cada um que abrem soltam gritinhos. Filha e mãe pareciam ter a mesma idade: 12 anos.

- Olha, isso? – Dora excita-se com uma caixa nas mãos.
- Maquiagem? Uhu! – A filha excita-se.
- Ai, minha filha, olha essas calcinhas?
- Mão, olha qui, olha aqui.
- AaaaaaaaaaaaaaH!!! – As duas gritam juntas.
- Uma bolsa com lugar para o meu celular e o meu MP3.
- É Vuiton, mãe!
- Ah, deve ter sido da sua madrinha.

“Aquela chata esnobe da minha cunhada.", ele pensa enquanto olha aquela cena. Elas nem aí pra ele. Os presentes foram sendo abertos e descobertos e a cada papel rasgado era acompanhado de “ai que lindo“ para os bacanas, “uhus!” para os mais bacanas e o “aaaaaaaaaah!” em uníssono para os realmente incríveis. A operação abre presente durou 40 minutos. O quarto da filha uma bagunça de papéis rasgados. As duas passaram por André e desceram falando ao mesmo tempo num grau de excitação dos mais elevados. Não era um diálogo, nem um monólogo. Não há classificação quando um diiálogo são frases sobrepostas entre dois interlocutores. A medida em que se afastavam o silêncio foi tomando conta do quarto. E o silêncio, que começou como um alívio, passou a se tornar insuportável para André. Porque foi o silêncio que permitiu a ele uma observação mais atenciosa de cada presente naquele quarto. Um a um, em todos os detalhes. Uma gélida corrente percorreu sua espinha. Ficou anestesiado por alguns momentos, prostrado diante do tamanho de sua constatação. Ouviu o bater da porta da rua. Pela força, cloncluiu que a filha tinha saído para se encontrar com alguém no condomínio. O dia estava muito bonito mesmo. Ele desceu e encontrou a esposa colocando as louças sujas na maquina de lavar.

- Ela não está linda? – Orgulha-se Dora.
- É.
- É? André, mas que cara é esta.
- Os presentes, Dora. Os presentes da Pati.
- Ai, cada um mais lindo que o outro. Eu adoro abrir presentes com ela, volto no tempo.
- Não tinha boneca, Dora.
- Como?
- Não tinha boneca, eu disse. Nem cozinha de brinquedo, aliás, a única coisa perto de um brinquedo que tinha ali era um game de Playstation.
- Mas que tristeza é essa?
- Você viu aquelas calcinhas? – Ele parece hiopnotizado. – Os batons. Eu juro que vi uma sandalia com um salto ali no meio. Uma sandália com salto.
- E duas botinhas, com saltinho. Ela ficou uma coisa.
- Coisa é o que eu estou sentindo no peito, Dora, na falta de descrição melhor.
- Você está pálido, André. Está se sentindo bem?
- Cadê os brinquedos, Dora. Nossa filha não ganhou um mísero brinquedo.

Dora olhou para o marido entendendo tudo. Ele parecia um zumbi. Qualquer expressão que ja habitou o rosto de seu marido o havia abandonado naquele exato instante. Ao se olhar para aquele rosto, uma palavra veio-lhe a mente: catatônico. Diante da verdade dos fatos, ela resolveu guardar o noticia que tinha para dar. A de que a filha tinha virado mulher, biologicamente falando. O coitado do André ja tinha tido emoções demais por uma manhã.

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