domingo, 8 de agosto de 2010

Conveniências

Três amigos inseparáveis, Zé, Tuti e Neco, relambravam os anos em que a maior responsabilidade deles era entregar os trabalhos e ter notas boas na escola, posteriormente faculdade. O Zé lembrou que naquela época começou entre eles a sindrome de 1984, o livro de George Orwell. No livro, haviam 3 continentes em eterna guerra. Num dia, a Eurásia era aliada da Oceania contra a Lestásia. No outro dia, a Eurasia e Lestásia eram aliados contra a Oceania e, de acordo com o Estado, sempre fora assim. Enfim, as alianças trocavam de acordo com a conveniênca do Estado totalitário descrito pelo autor inglês. No caso dos três amigos, dependendo do assunto, alianças semelhantes de formavam. Sempre dois contra um.

Nos primeiros anos da amizade entre eles, quando se falava em futebol, o gremista Tuti ficava a mercê dos requintes de crueldade dos colorados Zé e Neco. As gozações eram intermináveis. Tuti sofria as vezes calado e resignado, as vezes com reações intempestivas e sem o menor sentido. Como quando apostou, na véspera de um grenal, que, se o seu time não vencese, iria cantar o hino do Interncaional em plena hora civica para toda a escola ouvir. Os outros dois fariam inverso se o Grêmio saísse vecedor no clássido de domingo. Era uma aposta injusta e completamente descabida, movida pelo desejo irracional de que Deus, se apiedando dos seus anos de sofrimento, ouviria seu desespero e intercederia no andamento da peleja, dando a vitória ao seu time do coração, uma vez que, pelos meios normais isso não aconteceria ja que a distância dos dois times era imensa.

A zebra divina não apareceu no clássico domingueiro. Deus nem aí para o Tuti. E, se aparecesse, era sempre dois contra um, ou seja, para Zé e Neco seria fácil escapar do vexatório pagamento. Mas Tuti estava solitário. Argumentou o que pode, mas os dois simplesmente ignoraram as súplicas. Foi arrastado para a frente da escola inteira e cantou trechos iniciais do "Celeiro de Ases" até ser contido pelo bedel. Ele nunca ficou tão feliz de ter sido pego pelo bedel.


As alianças mudavam quando o tema era a música. Eram todos roqueiros convictos. Porém, as concordâncias cessavam no estilo musical. O rock, como o futebol, era um território onde levantam-se bandeiras a favor deste o daquele grupo, cantor ou gênero. E neste caso, Tuti, um fã arodoroso e viceral do Led Zeppelin, contava com a companhia de Neco, que também adorava o grupo inglês. Zé era obrigado a ouvir o som do Yes, seu grupo prerido, na solidão de seu quarto. No porão da casa de Neco, local oficial das audições, apenas e se os outros o permitissem, o que era praticamente impossível. Numa destas audições a três, regadas a um baseado ou dois, se o Zé se atrevesse a colocar o Yes Album, o seu LP preferido, no Technics, sofria a pena máxima imposta pelos outros dois: eles dividiam só entre eles o baseado, deixando o Zé a mingua, enquanto assistia os amigos darem generosas baforadas e não menos generosas gargalhadas só de olhar para a expressão de criança sem doce que o Zé fazia. Doce, aliás, que os dois devoravam sem dó nem piedade – a mãe do Neco era doceira de mão cheia- após as audições vespertinas, enquanto Zé era privado do prazer de matar a larica.


Quando se tratava de cinema, acontecia um novo arranjo. Neco detestava filmes de terror, justamente os preferidos do Tuti e do Zé. Ainda no reinado do vídeo cassete, os dois alugavam toda sorte de filmes arrepiantes, iam para o porão para demoradas sessões de cinema. O Neco se recusava a participar. Dizia que era um cinema pobre, de mau gosto, até porque os dois adoravam filmes como A Morte do Demônio e similares. "Se ainda fosse um clássico, como Nosferatu", repetia Neco. Um dia alugaram Nosferatu e o Neco deu mil desculpas para não assistir. "Cagão", repetiam os dois. "Esse papo de cinema clássico é desculpa, tem é medo de dormir a noite", debochava o Zé. "Vai ver ainda faz xixi na cama, o debilóide", completava o Tuti. Um dia colocaram a fita de Sexta Feira 13 dentro da caixa de e Chuva Negra o pobre do Neco caiu na artimanha. Amarraram o coitado na cadeira e o fizeram assistir o filme todo com eles. Conta-se que o Neco chegou na escola todos os dias da semana com cara de quem não dormiu.


Os três divertiam-se, lembrando desta época mágica. O olhar, os fios brancos no cabelo e as rugas revelando os anos que os separavam destas lembranças . Conheceram suas respectivas ex-esposas quase que ao mesmo tempo. E quando lembraram disso a mágica desapareceu. Não foi um final de casamento pacífico para nenhum dos três. Reclamaram juntos da pensão, da casa que tiveram que deixar pra trás e de ter que ver os filhos com hora marcada. Nesse momento, o Zé lembrou que, pela primeira vez na história, os três estavam do mesmo lado. Ergueram os copos, fizeram um brinde. O momento era triste, mas raro. Merecia.

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