terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fidelidade


- Crepitar?
- Essa é boa.Realmente muito boa.
- E não é? Dúvido que na língua portuguesa tenha palavra mais fiel ao que ela define quanto essa.
- Deve ter. Deve ter, vamos ver…
- Crepitar é incrível, vai? É praticamente o que a madeira fala quando estala. A palavra é o som do que ela define.
- Pomposo.
- Quem? Eu?
- Não, pomposo é uma palavra fiel.
- Sob que critério.
- Se você falar para quem não entende a nosso língua a palavra pomposo, eu tenho certeza que ele vai chutar e acertar. A sonoridade dela é perfeita.
- Esse critério do estrangeiro é bom, mas, cretpitar é melhor do que pomposo. É muito mais fiel. Não da para comparar.
- É tem razão. Mas tem que ter outra.
- Firula. Firula é concorrente séria.
- Ah, é verdade. Firula é bem fiel ao que ela significa. Mas, se bem que, se usarmos o critério do estrangeiro e disermos a ele que isso na sua perna é uma firula em vez de uma ferida, ele é capaz de acreditar, você não acha?
- Tem reazão, tem toda razão. Ah, mas essa é boa: tique-taque.
- Pera…pera.Vamos impor umas regras. Onomatopéia não vale. Tem que ser palavra que define uma coisa ou ação. Imitação do som é óbvio que ganha.
- Certo, certo. Corretíssimo.
- Então tá, onomatopéia não vale.
- Combinado. Ah, olha essa: altivo.
- Essa é boa. E ouvir a palavra e me vem a cabeça uma pessoa de queixo erguido, olhar decidido, para frente, mesmo nos piores momentos.
- É, mas se você colocar ao lado de crepitar, perde.
- Perde feio.
- Goleada acachapante?
- Opa, acachapante é boa.
- Acachapante vem como toneladas caindo sobre a gente.
- É boa…é boa.
- Mas não como crepitar.
- Tem razão, perde de um a zero, nada acahapante, mas perde.
- E ingles? Eu acho mais fiel: ugly.
- Inglês não. É contra as regras.
- E que tal diáfana.
- Sabe que eu não sei o que ela significa? Mas ouvindo assim, me parece uma pessoa sensivel, amável. Uma pessoa diáfama.
- Então essa está fora. Diáfama é uma coisa que, mesmo sólida, deixa passar a luz. Um véu de noiva, por exemplo, é uma coisa diáfama.
- Então, crepitar continua soberano.
- Bruxuleante.
- O que?
- A luz bruxuleante das velas.
- Opa, temos uma candidata. E tem a ver com fogo também. Não é uma coincidência? E por falar em bruxuleqnte, que tal lúgubre?
- Ah, lúgubre é outra séria candidata. Acho que se um estrangeiro ouve lúgubre, o castelo do Drácula é a primeira coisa que vem a cabeça dele.
- Castelo do Drácula me lembra vento. Vento que balança as árvores e faz as folhas “farfalharem”.
- Na mosca. Farfalhar é perfeito. Melhor do que crepitar. Muito mais fiél.
- Será?
- Hum. Pensando bem. Farfalhar. Crepitar. Crepitar. Farfalhar.
- Acho que temos um empate.
- Então, empatado está.

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