Foi acordado as seis e quinze da manhã por um terremoto de 7.5 graus
na escala Richter, ocorrido na China, e que ja tinha um número parcial de
vítimas fatais que passava dos dez mil, segundo a voz alarmista que saía do seu
rádio relógio na cabeceira da cama. Levantou-se a muito custo e, cambaleante, foi
para o seu banho matinal.
Já na cozinha, ligou a tv enquanto tomava seu café a tempo de
assistir relatos com imagens impressionantes de uma nova chacina ocorrida “em
mais uma madrugada violenta da cidade” segundo o âncora do jornal da manhã.
Desta vez, dois homens em uma moto haviam disparado contra um grupo de quatro
rapazes que ocupava a mesa de um bar na periferia da cidade. Morreram, todos.
Dois menores. Desligou a tv, deu o último gole de café, pousou a xícara na pia
da cozinha e se dirigiu para a porta de saída.
Ao abrir, viu, como de costume, o jornal que assinava sobre o
capacho. Na capa, em letras garrafais, uma pesquisa mostrava que menos de 11%
dos deputados compareceram a 100% das sessões no Congresso Nacional. Durante o
trajeto do elevador até a garagem, o texto relativo à manchete dava conta de
que mesmo assim eles receberam como se estivessem comparecido a todas elas.
No carro, foi ligar o rádio e ja encontrar noticia que dava conta de
que o clima o Oriente Médio havia ficado ainda mais tenso com a negativa do Irã
em permitir que as eleições no país fossem acompanhadas por delegados da ONU.
Os Israelenses, por conta disso, passaram a colocar sua aeronáutica em alerta e
a fazer vôos sobre territórios vizinhos, provocando um protesto formal da Síria
e da Arábia Saldita.
Ao chegar no prédio da empresa, pegou o elevador e a televisão,
alojada no canto superior, no interior do veículo, trazia a noticia de que a
crise financeira que assolava os americanos tinha consequências sérias na
América Latina, inclusive no Brasil, que, segundo previsões do mercado, estava
prestes a entrar em uma recessão.
Entrou no escritório em profundo mau humor, tanto que não respondeu
o bom dia de sua secretária. Sentou-se na sua mesa. Quando a secretária entrou,
pronta para passar a sua agenda do dia, sofreu uma reprimenda monstruosa. A
mulher saiu tão diminuída da sala, e aos prantos, que pensava seriamente em
pedir demissão. Passou o dia inteiro a fazer grossuras semelhantes com os
subordinados. Do nada. E então, ao olhar o seu rosto no espelho, deu-se conta
do que estava acontecendo. Tomou uma decisão drástica. Despertaria toda a manhã
por uma rádio só de música. No carro, colocaria o seu MP3 com seus audiobooks.
Cortou a assinatura do jornal e, no café da manhnã, prezaria pelo silência, sem
televisão ligada no jornal da manhã. A princípio, achou que viver alienado
assim poderia lhe ser prejudicial. Mas manteve-se firme em suas decisão. Faria
isso por três meses, como experiência.
-x-
Os três se passaram e as melhoras haviam sido sensíveis. Sentia-se
leve e acordava com muito mais disposição pela manhã. Descobriu coisas novas
como um sabiá que cantava em sua varanda sempre que tomava café e antes tinha o
som do seu canto obliterado pelo som das más notícias que vinham da televisão.
Ao abrir a porta da frente quando ia para o trabalho deparava-se
apenas o seu capacho, onde lia sempre o bem vindo de ponta cabeça, ao invés de
uma manchete macabra do jornal do dia. Passou a ler mais romances no lugar
destes jornais e revistas semanais e notou que o assunto de suas conversas em momentos
de lazer havia mudado de tom. Aliás, graças a esta leitura mais, digamos,
erudita e rica, estava conversando com mais mulheres do que homens, o que
influiu diretamente no seu desempenho sexual.
No trabalho, a sua secretária, aquela que havia sido escorraçada de
sua sala, imprecionava-se com os sorrisos que ele distribuía a todos. Ele até
lembrou o aniversário da filha dela e trouxe um presente para a menina.
Quanto ser prejudicado pelo fato de não estar a par de nada que
acontecia no mundo, percebeu que tudo não passava de falácia. O que era mesmo
importante chegava aos seus ouvidos e, o que ele achou sublime, sem opinião de
nenhuma sumidade do jornalismo especializado em economia, esporte, lazer ou
cultura.
O mundo era outro. Ele era outro, muito melhor e mais saudável, o
que provara oúultimo teste de colesterol a que se submetera. Passou a correr e
nadar na academia. Perdera gordura e ganhara musculatura. Sua postura era de um
vencedor. Parou de andar encurvado, como se tivesse tirado um peso das costas.
E, quando o celular tocou no meio de um jantar com uma das colegas da academia
não o atendeu. Desativou-o e pensou naquele aparelho como o próximo da sua
lista de dispensas.
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