Alice entra na sala com decoração espartana do
Dr. Petersen. Pára assim que passa o umbral da porta. Olha ao seu redor e
também para o teto, escaneando o lugar como se fosse a primeira vez que
entrasse ali. No centro do teto, um bojo leitoso, que protege uma lâmpada de
100 watts, é a única fonte de luz daquela sala. No centro do bojo há uma mancha
preta, formada por vários insetos mortos. Alice consegue divisar algumas asas
do que um dia foram bruxas e mariposas. No fundo da sala, o doutor Petersen
observa a menina parada a sua frente. Nem parece aquela figura esquelética e
desgrenhada que entrou na instituição um mês depois do seu episódio com drogas
que ficou famoso no mundo inteiro na forma de um livro, que depois virou desenho
animado e filme rendendo milhões de dólares para um monte de gente que ainda
está solta, ja que, apesar do crime de drogar uma menor, contam um batalhão de
advogados que os mantém longe de onde deviam estar. Ele observa que os cabelos
loiros de Alice estão penteados e aparados e que ela já não treme tanto por
causa da abstinência.
• - Pode sentar, Alice. Não se acanhe.
A menina olha para o psiquiatra. Apesar do seu
vozeirão, ele emana paz e tranquilidade. Seus cabelos loiros brilham com a
reflectindo a luz quem vem do bojo leitoso. Um homem alto, típico descendente
de escandinavos, o doutor Petersen tem sido um porto seguro para Alice desde o
dia em que entrou na instituição em frangalhos, destruída por uma quase
overdose de heroína. Ela dá um, dois, três passos tímidos e senta na cadeira
que fica na frente da mesa do médico.
• - Como está se sentindo hoje, Alice?
• - Bem…agora...depois eu não sei - ela
responde, hesitante.
• - A enfermeira Miriam disse que ontem você
acordou no meio da noite aos berros.
• - Flashback.
• - Mais uma crise? Você quer me contar?
• - A Rainha de Copas queria cortar minha
cabeça. Corria atrás de mim com aquele exército de cartas. E, quando mais eu
corria, menos eu saía do lugar.
• - Suas visões tem sido menos frequentes,
pelo menos.
• - Mas ainda me perseguem. E tem aqueles
momentos em que eu quase perco o controle. A vontade de viajar é muito grande.
Sinto falta de uma picada…muita falta. É um martírio.
Alice começa a chorar compulsivamente. Não se
sabe se de raiva, de desespero ou de vergonha. Melhor saber. O médico olha para
ela pensando que a palavra martírio não deveria fazer parte do vocabulário de
uma menina daquela idade com tanta propriedade.
• - O que você está sentindo agora?
• - Vergonha.
• - De que?
• - A gente não devia fazer de tudo para ficar
famosa, não é doutor? Eu sinto vergonha do que eu me tornei.
• - Mas você está aqui, Alice. Isso é um ato
de heroísmo.
• - Quanto tempo da minha vida eu vou perder
ainda, doutor? Aqui dentro, até me livrar de tudo isso, essa vontade de
explodir?
O doutor queria ter a resposta. Mas quem vai
saber. Cada um que entra ali tem o seu tempo. Ele apenas olha para aquela
menina, que, de súbito, começa a tremer compulsivamente. Passa a falar com
figuras imaginárias na sala. Afirma que o Chapeleiro Maluco está ali agora, com
o gato que ri em seu colo. Ele acaricia o gato que aparece e desaparece,
deixando apenas um sorriso de escárnio sempre presente. Ela pede, aos
gritos, em súplica para que tirem
aquelas assombrações de lá. É uma forte crise de flashback. Os enfermeiros
entram atabalhoadamente e tentam segurá-la. Com o pavor, sua força se desdobra.
Finalmente, dois deles conseguem segurá-la e um terceiro ministra um sedativo
na menina. Ela amolece e cai no sono letárgico quase que imediatamente. Doutor
Petersen olha para eles enquanto a carregam para o seu quarto, desfalecida. Uma
lágrima cai do seu olho direito. Por mais médico e apegado a ciência que fosse,
ele não consegue simplesmente não se afetar. Alice ia passar por muitas
privações até conseguir vencer o período de desintoxicação. O País das
Maravilhas que a tornou conhecida também a deixou naquele estado. E não é esse
o destino de muitas meninas que conseguem a fama ainda tão jovens?
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